segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Tragédia

É inútil ter certeza diante de certas coisas. A falta de certeza é um problema maior que o mau infinito do desejo.
A vida é uma peça trágica, um conto triste, uma elegia singela, onde a moral, a morada dos homens, não tem janelas, e os costumes não garantem o bom senso.

Tragédia é a corrida de Dionísios fugindo dos titãs, o bode de sacrifício, preço de uma humanidade decadente, da falta de humanidade, da falta de bom senso, deste grande bacanal, sujo, a imundícia de nossas vergonhas expostas pelo nosso descaramento diante do real! Quiçá Apolo e Atena e o grande Zeus não se irritem diante do animais que nos tornamos.

Sacrificando nossos filhos e servindo-os nos banquetes!
E amamos a embriaguez, por que temos de tê-la sempre. Saciando nossos desejos a nossa animalidade, violentando as ninfas nos rios e ignorando a voz dos arcontes.

Oh! Grande Dionísio cinzas do caos! Oh! grande Dionísios bode expiatório da nossa falsa humanidade, tem piedade dos mortais e daí-nos o vinho nosso de cada dia, daí-nos o vinho dos pequenos prazeres e que a luxuria não se faça só em nossa cama, mas em tudo que consumimos. Que a minha taça esteja cheia do sangue dos inocentes e que a falta de bom senso me entorpeça e me faça gozar da loucura e do prazer animalesco das noites escuras de minha alma.

Oh! senhor das festas que a imundícia minha de cada dia seja como o canto das bacantes tuas servas, que eu me perca em teus corpos nus cheios do prazer e do gozo! que a vida seja apenas mais uma representação, isto mesmo! uma representação! que seja falsa!! que seja mentira!! porque a verdade em sua sinceridade, engana mais que a mentira descarada.

E que o Olimpo não se enfureça com os mortais por isso, pois saber falar não é ter bom senso, saber escrever não é produzir ciência. e ser poeta não é saber amar.

Que o bode morra por nós mais uma vez e renasça nas coxas do grande Zeus! e que não nos esqueçamos de fazer um brinde a podridão de nossas almas vazias de ser e cheias de esvaziamento do pensar. É o que somos vazios e sem forma.
O que somos? Com efeito, somos atores prontos para morrer por um destino que ignoramos...