sábado, 27 de dezembro de 2014

Poema de chamamento da rosa solitária

Acordei com saudade de ti, ó amada minha! Acordei com saudade do teu cheiro, ó rosa perfumada!
Teu cabelo tem o perfume das férias de verão da minha infância, lembrança doce e feliz.
Teus olhos são duas lanternas que me guiam na escuridão das noites quentes de dezembro.
Da tua boca sai a mais bela melodia que silencia todo o universo para te ouvir.

E, no entanto, o que ganho de ti é silêncio, e te tenho apenas na memória retida como uma fotografia.
Lembrança sinestésica da tua companhia anestesia para as dores da minha alma, longe de ti.
Ah, se eu pudesse abraçar-te! Ah, e eu pudesse sentir o teu perfume mais uma vez!
Rosa solitária, flor do deserto, vem habitar o meu jardim e iluminar com tua beleza mais radiante que o sol a mina vida, pintá-la com as cores do teu sorriso e trazer encanto com a tua voz doce aos meus ouvidos.

Tenho saudade de ti, das tuas mãos suaves tocando as minhas.
Tenho saudades de ti, de poder olhar teus olhos, admirar o teu belo rosto.
Rosa encantadora longe do teu perfume não sei para onde ir e nem o que fazer.
Tua presença para a minha saudade é como a água para sede
Vem para saciá-la sem medo.
Porque a saudade tal como a sede, mata quando não é saciada.
E não quero ver o meu coração secar sem se alimentar do néctar doce do teu ser.




domingo, 21 de dezembro de 2014

Castelo da solidão

Teu distanciamento é muro alto que não sei transpor
Olha-me como que do alto da torre mais alta
Teu sorriso escapa como a ponte que se ergue sobre o fosso.
És castelo, fortaleza intransponível.

Examino-te, quero penetrar o teu ser.
Examino-te, teus olhos profundos como a névoa da floresta.
Examino-te, vejo a solidão nos teus pequenos gestos.
És impenetrável e impermeável, meus olhos não podem te banhar como a luz do sol banha as flores ao amanhecer.

À distância descubro a beleza do teu sorriso
E empreendo uma cruzada para conquistar o teu coração.
Não sou cavaleiro, nem príncipe
Mas quero tomar o castelo da solidão.
Convertê-lo em castelo da alegria,
Fazer dele castelo da felicidade.

Mas esses muros altos intransponíveis me impedem de adentrá-lo.
Nem um exército de sorrisos.
E nem mesmo um batalhão de rosas podem passar.
Nem mesmo um poeta que há algum tempo tenha aprendido a amar.

Tão difícil adentrar o castelo
É para aquele que não é príncipe
Como é difícil dissipar as trevas
Para aquele não é sol.
Abra a porta do teu ser
Baixe a ponte que pode nos unir
Colha a luz dos meus olhos fixados em ti
Pois, quero ver o teu sorriso florescer
Transformemos o castelo da solidão
Um abraço seu e estarei protegido também.

Teu distanciamento é como um castelo
Rodeado de adversidades
Não tenho medo
Mas não quero ser invasor
Abaixe a ponte e me convide para jantar contigo
E o castelo da solidão cairá e se tornará palácio da união completa.




quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Clichê – Refletindo sobre a definição do Pe. Fábio de melo

Segundo o Padre Fábio de Melo:O clichê é um amparo teórico que nos dispensa de pensar por nós mesmos. O que vou tentar fazer aqui é um exercício reflexivo em torno dessa intuição compartilhada por Padre Fábio de Melo em sua conta do twitter.
Mas ao mesmo tempo em que vou me deter nessa excelente definição do vocábulo ‘clichê’ tentarei ir além, porém, sem sair do foco que a definição apresentada por Fábio de Melo expõe com tanta clareza.

De fato, o clichê é aquela atitude mecânica que permite que fiquemos em nossa zona de conforto, é um recurso que a convenção social baliza de forma a evitar conflitos e permitir que a vida em sua completa boçalidade possa transcorrer sem grandes problemas. Enquanto “amparo teórico que nos dispensa de pensar por nós mesmos” o clichê é como que uma espécie de manual que tem por objetivo garantir ao máximo que nunca saiamos de nossa zona de conforto e por isso perguntamos “tudo bem?” e respondemos: “vou bem, obrigado!” sem titubear ainda que não estejamos bem, porque dizer que não estamos bem gera conflito, pede ao outro que ele enquanto, amigo, colega seja responsável e se disponha a ser engajado com o outro. Conflito não é só o atrito que gera o mero desacordo, o próprio desacordo é fruto do descompasso entre dois indivíduos, o conflito é o desconforto gerado pelo compromisso que sou impelido a assumir para com o outro. Em uma sociedade individualista e consumista como a nossa, não há desconforto maior do que ter que se relacionar com certo grau de profundidade com as pessoas.
As pessoas de modo geral esperam que todo mundo use o piloto automático e fique por isso mesmo. Em outras palavras, clichê é o piloto automático da vida que me dá certo conforto, evita embaraços e não exige engajamento com as pessoas.

Bons exemplos que o cinema nos deixou, vou citar dois: O filme “Clic” com Adam Sandler  apresenta o clichê como automatismo social. O Personagem de Sandler  usa o controle remoto para saltar as partes de sua vida que ele considera chata, por exemplo, o jantar com os seus pais e familiares e até mesmo o momento de intimidade com a sua esposa, tudo para poder ter mais tempo para o trabalho. Outro filme, este mais recente, é o “Doador de memórias” esse filme merece uma reflexão a parte pelos vários elementos que nos dão o que pensar, mas fico aqui com uma única cena do filme no primeiro encontro entre Jonas (protagonista da história) e o doador de memórias. O automatismo social mais comum no filme é: “eu aceito as suas desculpas” que o doador imediatamente pede para que Jonas nunca mais repita na sua frente. Tal automatismo reflete essa necessidade de evitar o conflito enquanto desentendimento que gera animosidade ( uma das coisas que mais chama a atenção no filme é que todos tem suas emoções suprimidas quimicamente).

Em uma sociedade que quer evitar ao máximo o conflito, preza ao extremo a liberdade individual e estimula ao máximo o prazer pessoal como é o caso da nossa sociedade vê no clichê uma excelente ferramenta que torna as relações rasas e límpidas o suficiente para que possamos ver o fundo sem que precisemos mergulhar a cabeça e nos molhar.
É aí, creio eu que o clichê se torna essa muleta que nos dispensa de pensar por nós mesmos, já que sua função mais importante é permitir que possamos tocar os nossos negócios sem se preocupar com qualquer coisa. O clichê é uma poltrona confortável que faz tudo, inclusive servir aquele cafezinho quente e cheiroso. É de fato amparo, muleta, recurso, mecanismo de automatismo que faz com que pessoas que tem potência para ser um rio São Francisco grande e imponente ver suas nascentes secar e sua vida passar até que tudo o que foi vivido seja vazio e sem próposito.


O clichê está muito mais presente em nossas vidas do que gostaríamos. Mas melhor seria se desligássemos o piloto automático e ousássemos mergulhar fundo nas pessoas. Descobrir novos mundos e novos céus, o poeta latino brada: “Carpie Diem!” Não pode ser um hedonismo barato, colher o dia é tirar o máximo de proveito que ele tem para nós, isto é, viver a vida com suas alegrias e tristezas, colher o dia é abrir mão do “amparo teórico que nos dispensa de pensar” de que nos fala padre Fábio de Melo e não apenas reproduzir frases desinteressadas que nos conforta como uma poltrona de massagens de um shopping center, mas que nos permita, de fato, viver e conviver com a humanidade que habita cada um de nós.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Covardia

Me falta a coragem de te procurar
Pois tenho em excesso o medo de te perder
Se não te procuro como é que te tenho?
Doce ilusão é ter o que já está perdido.

Me falta a coragem de te olhar
Pois tenho vergonha de reconhecer
Se não reconheço, seria possível te amar?
Outra ilusão, desejar no íntimo os deuses vazios, ídolos.

Me falta a coragem de te amar
Sou um procrastinador
Enquanto espero a pessoa certa e a hora certa você fez acontecer com outro e me deixou sozinho outra vez.

Me falta coragem
Essa sina covarde
De achar o amor lindo, mas o dos outros
De achar a amizade importante, mas a distância

Me falta coragem

Por excesso de covardia eu parei de viver.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Narciso

Ah, esses olhos espelho da alma!
Ah, esses olhos tão profundos como o mar aberto!
Olhos tão profundos que me afogo só de encontrar os meus olhos nos seus.
Como Narciso encantado consigo mesmo admirando sua imagem refletida no rio.

Ah, esses olhos, acha que tinham a profundidade de um abismo,
Mas eis que me surpreendo ao ver que este olhos me dão pé.
Esses olhos me afogam em decepção posto que só vê a si mesmo.

Ah, Narciso! Narciso! Seduzido pela tua própria beleza te enganas
 E te afogas em uma poça de arrogância e tu a chamas de rio.
Ah, Narciso! Narciso! Gritas por céu denso e mares profundos
Mas te afogas no copo d’água que te servem para matar a tua sede.

Ah, esses olhos espelho da alma superfície plana que engana.
Reflete o que eu penso que sou, reflete o profundo sem profundidade.
Ah, esses olhos tão profundos, mas, tão profundos que se fossem um rio
Passaria a pé enxuto. Esses olhos espelhos de uma arrogância modesta.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Tempestade de cores

Ontem vi trovoadas multicoloridas
E pessoas dançando como se esperassem uma chuva de euforia
Ontem vi um céu artificial fechado e sem igual.

Os raios eram luzes e reluziam como relâmpagos
O trovão era como uma música que reverberava em todo o ambiente.
E o frenesi das pessoas que viam sons e escutavam cores.

Era uma tempestade harmônica de cores, sons e movimentos.
Era uma tempestade de olhares e ritmos ditados pelo balanço do corpo.
Era uma tempestade de cores, chuva de luzes que caia sobre as nossas cabeças.

Ontem vi nuvens artificiais, ontem vi relâmpagos coloridos.
E pessoas paradas no tempo pelo prazer de colhê-lo.
Ontem vi uma tempestade de cores, era muito bonita
Mas era de mentira
Como as luzes de natal que embelezam a cidade,
Mas escondem a frieza dos nossos corações.
Uma tempestade de cores que acendia uma falsa alegria
E escondia várias solidões.





quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Lágrimas de Chuva

Chovia naquela tarde, tanto quanto escorria lágrimas pelo meu rosto.
Chovia dentro de mim, tanto quanto caia pingos de chuva sobre o bairro onde moro.
Eram lágrimas de chuva era chuva de tristeza.
Eram lágrimas da alma era o alívio para o calor.

Eu ouvia os pingos caindo aquele ruído seco ao bater no telhado de barro.
Ninguém ouvia os meus soluços afogado pelas lágrimas que não paravam.
Era uma tarde solitária como as outras.
Era uma tarde silenciosa de outono.

Chovia como nunca na minha alma
A tristeza e a desilusão inundavam o meu espírito.
A tempestade de emoções que me consumia
E um céu obscuro sobre a minha cabeça.

Naquele dia a chuva era de lágrimas
Naquele dia o céu captou a minha tristeza.
Ele chorou comigo, ou eu chorei com ele.
Não sei... Só sei que não havia o seu abraço lá
E a estiagem só veio quando dissipei a última nuvem de dor do meu peito.


Brener Alexandre 10/12/2014

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Entre a Loucura e a Lucidez – Reflexão sobre a In – sanidade do Coringa em “A piada mortal” de Alan Moore.

Já pararam para pensar em qual é o limite entre a loucura e a lucidez? O que determina a nossa sanidade e a nossa normalidade? A piada mortal uma das histórias do Batman mais famosas e que está entre as mais lidas do universo das HQs. Escrita por Alan Moore em 1988 o foco da história é um plano do Coringa de tentar tirar a decência de Gordon fazendo o inominável, ele atira em Bárbara Gordon, sua filha, a violenta, fotografa para então, expor ao comissário de Gotham City.

O Cavaleiro das trevas consegue salvar James Gordon e encurralar o Coringa e tem uma das conversas mais incríveis do mundo dos quadrinhos.
Nessa conversa uma simples piada diz tudo o que precisaríamos saber sobre a loucura e a lucidez uma linha tênue, um pequeno feixe que estabelece a fronteira que separa os “normais” dos “anormais”. Batman sugere ao Coringa que poderia reabilitá-lo ao que o Coringa se lembra de uma piada e a conta em resposta a proposta do homem-morcego vejamos o teor da resposta do Coringa ao cavaleiro das trevas:

“Tinha dois caras num hospício e uma noite, eles decidiram que não queriam mais viver lá e resolveram fugir! Aí foram até a cobertura do hospício e viram, ao lado, o telhado de um outro prédio apontando para a lua apontando para a liberdade. Então, um dos sujeitos saltou sem problemas pro outro telhado, mas seu amigo se acovardou ele tinha medo de cair, sabe? Aí, o primeiro cara teve uma idéia. Ele disse: ‘Ei! Estou com a minha lanterna aqui. Vou acendê-la sobre o vão dos prédios e você atravessa pelo facho de luz!’ Mas o outro sacudiu a cabeça e disse: ‘O que? Você acha que sou louco?!’ E se você apagar a luz quando eu estiver no meio do caminho?’”

A piada contada pelo Coringa retrata imediatamente a relação doentia de Batman/Bruce Wayne com Coringa. Se analisarmos o Batman seria tão louco quanto o palhaço mais assustador de Gotham (E isso sem contar nos outros vilões igualmente doentes como o Charada e ou a Hera venenosa) A loucura de Bruce Wayne é ser Batman é assumir uma identidade ou um alter ego que escapole das normas sociais vigentes em todos os sentidos. 

E assim poderíamos dizer do Coringa cuja origem é uma incógnita se torna a personificação da loucura. No entanto, é curioso como nessa conversa temos como que uma inversão de sentido já que o salto de lucidez parte do Coringa e não do Batman. Esse salto de lucidez é manifesto na piada, já que o que o coringa quer dizer é que o Batman seria o louco que oferece ao colega igualmente insano uma saída.

Mas se pensarmos essa piada dentro do roteiro magistral de Alan Moore veremos que o esforço do Coringa em tentar corromper James Gordon, é na verdade como que uma tentativa de mostrar a linha estreita entre a loucura e a lucidez. Para o Coringa não há limites, a sanidade e a insanidade são a mesma coisa, estamos todos no mesmo hospício e não questionamos a nossa loucura, essa loucura chamada sociedade. 

Talvez ainda que não quiséssemos viver mais no hospício a nossa loucura não acabaria, no fundo é isso que o Coringa me parece querer dizer, que a loucura é o outro lado da mesma moeda, ou como diz o Coringa encarnado por Heath Leadge: “o que não me mata me deixa mais estranho”.
E se pensarmos em como Camus no “O Homem revoltado” pinta a nossa constante busca por sentido ao se deparar com o absurdo da existência, podemos nos sentir como o Dândi revoltado de Humberto Gessinger, um estrangeiro, um passante que em seu trânsito pelo mundo está à procura de um sentido para essa loucura chamada vida.

Não sei dizer se o Coringa está certo, às vezes me lembro de Foucault e a sua História da Loucura, e mesmo do velho Freud que não me deixa esquecer que entre a lucidez e a loucura há a neurose em maior ou menor grau, mas ela está lá à espreita nos assistindo, heróis trágicos que somos esperando a morte fim dessa grande encenação que é a vida.


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Equidistantes

Éramos iguais, porém separados como dois pontos da extremidade de uma reta. Éramos semelhantes, mas de gênero e número diferentes como se fôssemos de espécies diferentes.
Cada palavra tua me toca e me beija como a brisa das quatro horas da tarde, quando tu falas vejo teus olhos me contemplando e a tua mão segurando a minha com ternura. O tempo para por um instante, ele também quer te ouvir.

Éramos iguais de um ponto de vista diferente de uma visão a partir de lugar nenhum. Somos equidistantes e de algum modo a química e a física nos impele um ao outro como uma cadeia atômica em movimento.

Distantes pelo espaço, mas próximos em espírito e se encontros existem é na alma que se dão os verdadeiros encontros. Nunca te olhei no fundo dos olhos para saber que você é verdadeira em tudo até nas mentiras e até nos pequenos jogos e brincadeiras.
Nunca te olhei nos olhos porque nunca estive ao teu lado, não somos como retas paralelas, somos extremos de uma linha contínua que não tem começo e nem fim, pois somos fim-começo um para com o outro.

Nosso ponto de partida é o nada! O nada pensar, o nada fazer é um ócio que culmina na vontade de ser destino de ser enviado para algum lugar entre o vazio e o infinito. Somos equidistantes antípodas secretas que só quem vê de fora percebe porque quem está vendo não vê a simetria dos corações, mas crê que tudo é assimétrico, que tudo é desmedido.

Uma distância interposta sim, por nós mesmos e pelo destino uma equidistância alcançável apenas pela força da vontade pelo querer-desejo de um encontro possível na alma e para alma.

Somos equidistantes, iguais, porém antípodas. Somos antípodas, iguais, porém diferentes, mas uma diferença que se identifica e se reconhece um no outro.

domingo, 30 de novembro de 2014

Escombros

O que eu vejo são os escombros beijo do sofrimento
O que eu vejo são os destroços abraço da tristeza
O que eu vejo são ruínas e o silêncio que me atormenta.

Ficou pedra sobre pedra, não ficou resquícios de civilização em mim.
Fui desumanizado pela guerra foi assim que vi o meu mundo ruir.
Escombros de memórias e destroços de pensamentos.
Um buraco no peito e um coração partido.

A brisa da noite me beija sempre silenciosa
E a lua nova me observa escondida no céu.
Só as estrelas se fazem companheiras, mas a distância elas também tem medo da guerra.

O que vejo são cadáveres, corpos mutilados, corpos queimados.
O que eu vejo são sentimentos em pedaços e a razão esfacelada e cega.
O que eu vejo é a violência que me faço todas as vezes que vou à guerra.

Escombros são fragmentos de um mundo destruído.
São as lágrimas vertidas noites a fio.
Pedaços do que restou da minha alma.
Um mosaico criado pelo caos.


quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Maratona

Foi em 490 a.C. que um certo “Fidípides, cidadão ateniense e além disso corredor de longas distâncias e aficionado dessa espécie de atletismo” (Heródoto, História VI, 105) correu a mando de seu general 42 km depois de um dia inteiro de batalha até a sua cidade natal para anunciar “Alegrai-vos atenienses, vencemos” e depois tombou diante de seus concidadãos tomado pelo cansaço.
Imaginem comigo esse jovem soldado exausto cônscio de sua missão de contar e avisar aos seus concidadãos correndo sem parar e sem titubear para cumprir seu objetivo. Imaginem esse jovem já tão próximo de Atenas dizendo para si mesmo – “ só mais um pouco” e “aguente firme estou quase chegando” como que exortando a si mesmo para cumprir a missão incumbida.
E imagine como o grito “nenikekamen!”(vencemos) soou como um brado e ao mesmo tempo um último suspiro, posto que cumprida a missão o jovem corredor, Fidípides de Atenas tombou, morto vítima do esforço sobre humano à que fora submetido.
Muitos anos depois a história parece se repetir nos gramados de Minas gerais E como Fidípides correu depois de uma vitória importante conquistando aquela vitória memorável para os gregos hoje nossos jogadores também depois de uma vitória que lhes rendeu o tetra campeonato precisaram correr mais uma vez à pedido de seu comandante. Não, não é comunicar a vitória de Maratona, mas vencer mais uma batalha ainda que exaustos, correr mais uma vez ainda que o coração possa não aguentar e vencer.
Essa noite cada jogador é Fidípides correndo contra o desgaste físico de uma maratona de jogos fruto de um calendário que desafia a humanidade de nossos atletas. Cada jogador é convocado a correr contra o tempo e contra a exaustão, provavelmente dirão a si mesmos – “Falta pouco” e “ vamos resistir” ou “não vamos nos entregar agora”.
Depois do jogo dessa noite sabemos que um dos dois será o campeão da copa do Brasil digno de uma Guerra contra os Persas, ou quiçá, uma guerra do Peloponeso.
Sabemos que os dois lados podem cair exaustos, mas espero que seja o Cruzeiro esporte clube que ao tombar exausto, tombe coroado por mais uma tríplice coroa e leve para a sua sala de troféus mais uma Copa do Brasil.
Boa sorte a todos que fazem do Cruzeiro ser o melhor time do Brasil, jogadores, comissão técnica etc.
Falta pouco, não vamos esmorecer! Cantaremos e estaremos com vocês até o final na vitória ou na derrota.
#FechadoComOCruzeiro
#EuMaisOnze
#CantaqueSaiGol


Brener Alexandre 26/11/2014

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Prisão de Silêncio

Eu sei que estou condenado a essa prisão de silêncio, me impus esse castigo para garantir tua liberdade. Eu sei também que a única coisa que ainda me é permitido é acessar a minha mente, visitar a minha memória e trazer a sua imagem que transpassa os meus sentidos e alentam a minha dor.
Tu não sabes como sinto a tua falta. Tu não sabes como sinto a falta do riso descontraído, do seu olhar curioso e da sua fala sincera. Tu tinhas me libertado, mas eu queria ser teu cativo para sempre.

E agora nessa prisão sem paredes, nesta cela sem grades estou preso pela saudade e amordaçado pela liberdade. Pela minha e pela tua liberdade.
E no final, o que me resta a falsa sensação de que você vai voltar e me libertar dessa prisão retirar os grilhões invisíveis que me impedem de te abraçar.
Antes o teu perfume vai me despertar da fatiga de dormir deitado no chão e tua voz vai me reconduzir a cidade dos bem-aventurados outra vez.

Entre as boas e as más lembranças o que me restam são apenas sonhos e pesadelos.
E ao acordar me deparo ante o bucólico frio da madrugada com a solidão, fim de quem está preso e condenado na prisão de silêncio.

Brener Alexandre 21/11/2014


Tarde de Novembro

Foi numa tarde de novembro que me assentei naquele banco no pátio da escola, já não me lembro em que dia da semana apenas me lembro que foi numa aula de educação física. Era uma tarde como essa quente e ensolarada como se espera do zênite da primavera. Devia ser por volta das quatro da tarde. A tarde caia para dar lugar pouco a pouco à noite. Uma tarde melancólica e um aluno melancólico juntos a iniciar uma história nova.

Um jovem, uma criança que era muito bela, mas não se via como tal, pois crescera ouvindo o contrário de todos. Estava mais para patinho feio que para sapo que vira príncipe. Mas certamente não era cônscio do que era de fato. Naquela época tinha poucos amigos e crê que ainda hoje têm poucos, talvez porque a amizade sendo como um diamante seja difícil de encontrar e tal como o ouro se encontrado com facilidade perde o seu valor. No entanto, era só principalmente durante todo o horário em que passava na escola, tinha lá seus colegas-amigos, mas se sentia muito sozinho, não se identificava com a aquela gente e ao que parece àquelas pessoas também não se identificavam com ele e, portanto, não havia reconhecimento e não havia amizade real.

Foi naquela tarde silenciosa perto do ocaso do sol que aquela criança imatura, sozinha e triste se assentou num banco tomou um caderno de sua mochila e uma caneta e se pôs a escrever. Abriu-se ali uma porta para a sua interioridade, a criança, é claro, não sabia a dimensão do que fazia naquele momento, não possuía sabedoria para tal e muito menos tinha uma aproximação íntima com a filosofia; é bem verdade que já havia lido contos fantásticos da Grécia e lia as histórias da bíblia com bastante devoção e tudo o que encontrava sobre a cultura oriental: budismo e confucionismo era motivo para sorrir.

O papel aceitou a tinta da caneta e com ela as idéias que o jovem transmitia ao papel contava para si mesmo como no diálogo consigo como se sentia diante do mundo, descobria pouco a pouco que era livre e que apesar das arraias da necessidade e do destino ele podia dizer não se fosse corajoso, e lutar se tivesse força de vontade para fazer prevalecer em si as escolhas que havia feito acreditando que o caminho a ser percorrido, embora difícil fosse era o melhor a ser feito, um caminho feito de pequenas pegadas palmilhadas devagar como o sol daquele dia ordinário de novembro.

Hoje aquela criança ainda esta por aí, trilhou a sua interioridade naquele tempo e agora cede espaço ao homem adulto que na medida do possível tenta evitar o colapso do seu mundo e não o evitando ao menos possa reconstruí-lo se possível for.
Foi numa tarde de novembro como essa que estou escrevendo esse relato que uma criança e um adulto se encontraram, eram a mesma pessoas em épocas diferentes e a criança descobriu que não estava mais sozinha e o adulto descobriu que no fundo bem lá no fundo o que importa nisso tudo é ver que o caminho palmilhado se desfaz e que as vezes olhar para trás só serve para nos atrasar ou como punição pelo receio do que há no horizonte que nos espera transformarmos em estátuas de sal, imóveis ante o futuro misterioso que nos aguarda.


Brener Alexandre 21/11/2014

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

16 anos de "O lobo solitário"



Como havia dito semana passada, hoje dia 20 de Novembro "Kozure Okami Zeus project" (Projeto O lobo solitário Z) completa 16 anos. E eu não poderia deixar a data passar em branco, porque a criação dessa história é a criação de uma vida. O contexto e as razões que me levaram a começar a escrever essa história numa tarde de novembro em 1998 nos idos dos meus 14 anos como uma jornada pessoal em busca do que eu tinha de mais valioso e enfrentando todas as adversidades além de lutar contra os meus demônios internos é sem dúvida alguma um marco na vida de qualquer um.
Uma colega de escola da época da redação desse texto, uma das poucas pessoas que leram o caderno compilado e todo feito a mão (manuscrito, com desenhos feitos, arte-finalizados e coloridos por mim mesmo). me disse "Muito obrigado por conhecer a história do Lobo solitário e assim um pouco da sua história." Apesar desse projeto não ter sido escrito para publicação e para leitores que não fossem eu mesmo. É um texto que quem leu me pede para transformá-lo em livro. O que se vier a ser feito algum dia exigirá muitas modificações e adaptações. Por hora, agradeço aqueles que conheceram esse lado da minha vida e o acolheram, são poucos, mas são pessoas a quem sou muito grato.
Como disse, O lobo solitário é um registro, um diário em que as memórias contadas relatam a luta de um jovem contra si mesmo que precisa se unir a si e enfrentar a si para dar sentido e coerência ao seu mundo interior a partir de uma resposta livre. A história por mim escrita naquela época tem poucos traços diretos herdados da filosofia, porque naquela época eu tinha pouquíssimo contato com a ciência mãe, no entanto, a mitologia e as culturas pagãs pré cristãs e o próprio cristianismo são bastante operantes e dão consistência a minha modesta ficção particular.
O texto é muito simples e ao mesmo tempo muito sofisticado, afinal foi escrito por um garoto entre os 14 e 17 anos com muitas deficiências, mas que tinha um intuito se não nobre ao menos virtuoso.
Acima a última ilustração do caderno compilado. Se fosse um quadro se chamaria: " Final da batalha"
Da esquerda para direita: Mitsurugi Ryu, Lobo Solitário (Fúria), Ódio e Trovão.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Eros e psykhé II

Te observo com ternura e te amo em segredo.
Escondido na penumbra transportado pelo desejo.
Te observo e tenho medo que um dia me descubras
Que me tome por monstro por causa dessa loucura.

Te observo e admiro a cada instante que te encontro.
Escondido eu velo em segredo pelo teu sono.
Encantado pelo perfume sou conduzido para ti.
 Quando te vejo sou tomado de uma alegria sem fim.

Te observo, ó belíssima! Com ternura e emoção.
E te amo em segredo por medo da solidão.
O desejo do teu abraço me corroí atroz!
Tenho fome da tua boca e do som da tua voz.

Se eu pudesse acender a luz e me revelar
Ainda sim terias medo, terias medo de me amar.
Pois divino eu não sou, mas me vê como se fosse.
E o medo de fracassar daria realidade ao rumores.

Portanto, belíssima te amarei escondido.
Cuidarei de ti com zelo e carinho.
Não me machuque amada minha
Não me fere com teu punhal.
Mas acolhe o meu amor sem medo de como será o final.


Brener Alexandre 13/11/2014

Sorriso

Um sorriso é um riso silencioso é um riso performático.
A graça que o riso externaliza o sorriso guarda para si.
O sorriso de um lado manifesta a alegria e do outro a simpatia.
O sorriso é um convite é o buraquinho da fechadura.
Quem consegue abrir o sorriso do outro, abre a porta do seu coração.
O sorriso substitui as palavras quando elas não dão conta de exprimir tudo.
O sorriso comunica a beleza;
Comunica a amizade;
Comunica o amor.

O sorriso comunica a graça e alivia a dor.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Jornada - Poema comemorativo dos 16 anos de O Lobo Solitário Zeus


Poema escrito em comemoração pelos 16 anos (criado em 20/11/1998) da criação de Lobo Solitário (Kozure Okami Zeus) até o dia 20/11/2014 os poemas originais da época e novos serão publicados para trazer a memória a criação deste pequeno épico que começou a ser escrito quando eu tinha 15 anos.

Jornada

Comecei uma jornada em busca do desconhecido.
Comecei uma caminhada à procura do infinito.
A jornada era longa se perdia no horizonte,
Não tinha bagagem e nem companhia não havia mordomias.

Uma jornada solitária de alma maltratada.
Jornada difícil caminhada longa.
Durante a jornada vi muitas coisas vivi outras mil.
Atravessei o deserto do medo e a garganta do desespero.
Enfrentei o ódio e os meus piores medos;
Minhas fraquezas refletidas no espelho do cânion sinistro.
Fui paralisado pela Vingança terrível.

Durante a jornada conheci gente magnífica;
E me despedi com tristeza do amor da minha vida.
Conheci guerreiros honrados, gente leal e sincera.
Vi morrer nos meus braços a esperança generosa.

Atrás da virtude objetivo da minha jornada
Achei um diamante minha alma lapidada.
A jornada não tem fim o caminho é sempre percorrido.
Me chamam Lobo Solitário e sigo em frente sozinho.

Brener Alexandre 11/11/2014



domingo, 9 de novembro de 2014

Fragância

Seu perfume são como as setas que indicam o caminho para o mistério. Seu perfume revela a bela flor que te tornastes ao desabrochar em segredo. Um perfume forte e suave.

Tão forte que me arrebata a força, me carrega no teu encalço, me conduz a ti arrastando me pelo jardim a fora. Suave como o toque das tuas mãos sobre a minha, suave como seu olhar gentil e puro. Teu perfume é armadilha e me captura e me domestica.

 Seu perfume é o próprio mistério. E quando me vejo dentro do mistério fico angustiado porque não tenho no que me segurar.
Pois, já não há toque suave das suas mãos e nem olhar doce e puro, não há mais força que arrebata, há apenas mistério, suspense que suspende tudo e me deixa carregado no vazio dos segredos que a doce fragrância que exala de ti ao me entorpecer com os feitiços do amor me conduzem a uma angustiante luta contra Eros.

Seu perfume é um caminho que percorro sem medo apesar da angustia. Um caminho que provavelmente não vai me levar a lugar algum, no entanto toda caminhada em busca de uma flor rara que desabrocha em segredo vale a pena, já que quem a busca não pretende arrancá-la, mas deseja apenas sentir sempre que possível o aroma suave que exala de suas pétalas nos dias quentes de primavera.

Caminho e caminhada

É frustrante ver que se passaram 16 anos e que nada mudou.  Passaram-se 16 anos e quando olho a minha volta vejo que tudo está como outrora.  Que caminho é esse que percorri afinal parece que andei em círculos e que continuo por aí perdido a caminhar essa caminhada sem fim e sem sentido.

São 16 anos desde que transferi para o papel as minhas dores e questionamentos, um menino que já via o mundo com os olhos de um adulto, mas que ainda brincava quando era possível.
Aquela caminhada árdua e sofrida, com luta e dificuldade parece não ter acabado.
Paro e vejo que o caminho some a cada pegada e que fica então na memória a lembrança do que foi percorrido durante 16 longos anos. O caminho some, mas a paisagem triste e desoladora permanece viva, presente e por causa dela me ponho a refletir sobre o caminho e a caminhada, sobre a direção e o sentido.

Talvez eu esteja me auto enganando, talvez tudo isto seja um sonho ruim, um pesadelo.
Talvez um dia eu acorde, como pensava a 16 anos atrás.
Ou talvez não... talvez a vida seja isso mesmo, sem sentido e engalfinhada em mentiras e ilusões, emaranhadas pela triste agonia de existir.

Não sei se estou andando em circulo. Não sei aonde o caminho vai me levar e nem se vale a pena caminhar, acho que já  cheguei num ponto em que caminho como se estivesse no piloto automático me lançando ao léu do destino torcendo para que isso termine logo e que então eu possa tombar heroicamente depois de ter lutado essa luta quixotesca que é a vida.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Impronunciável

O impronunciável é o outro lado do silêncio, lado oculto da lua do indizível, o mistério que o fundo do abismo aponta.
Digo do silêncio que vela a troca de olhares sem palavras, mas o corpo fala de uma forma ou de outra.
Impronunciável é o que o silêncio diz; intervalo entre o que é permitido falar.
Me faltam palavras, me falta coragem, pois tenho medo em abundância de te perder.
Impronunciável é o que só o silêncio pode dizer, porque impronunciável é o que eu não consigo dizer, seja porque não sou capaz de compreender e explicar, seja porque é difícil de falar.
Ah, se eu não fosse tão ferido, se não houvesse traumas e se a alma fosse inteira!
Se o coração não estivesse em pedaços e destituído de sua totalidade e inteireza pudesse expor argumentos que o impulsionam para frente quase sem olhar para trás! Digo quase porque ainda olho para trás receoso de me lançar no desconhecido que se me apresenta... Frustrado todos os dias por sentir que a minha existência não é nada mais que misérias e incertezas subo no palco dessa tragédia na expectativa de logo ver o seu fim, isto é, o meu fim.
Impronunciável é silêncio que me trai e atrai para a angustia vociferante que a existência me impõe, lúcida e ácida que me desintegra cada vez que escuto o som surdo do silêncio que ecoa dos teus lábios.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Coração

Tinha um coração puro me diziam, não havia maldade me falavam...
Tinha um coração nobre elogiavam, não havia injustiça aplaudiram...
Tinha um coração belo se admiravam, brilhava em sua beleza cantavam...
Tinha um coração inteiro reconhecia, mas foi esfacelado não se esquecia...

Coração com suas razões e emoções
Coração com suas vontades e decisões
Coração partido e repartido, compartilhado.
Coração ferido que não pode ser curado.

Era um coração sem razão, sentido...
Era um coração vazio contristado, frustrado.
Era um coração simples, era simplesmente coração
Incompreendido porque não falava a muito a voz da razão.

domingo, 2 de novembro de 2014

A Rosa – Reflexão a partir do Pequeno Princípe

Olhando as flores me lembrei de que o amor recusa a violência e relendo o clássico “O Pequeno Príncipe” me veio outra coisa a mente. É interessante o movimento feito pelo principezinho antes de conhecer e cativar a raposa, pois, o pequeno príncipe passa por um roseiral e fica desapontado ao descobrir que a sua rosa não era única, mas era apenas uma rosa comum. Porém, depois de conhecer e ficar amigo da raposa descobre que a sua rosa não é uma rosa qualquer, uma rosa comum, mas é especial.
O nosso principezinho volta ao roseiral e diz: “Ela (a rosa) sozinha é, porém, mais importante que todas vós, pois foi ela que eu reguei. Foi ela que pus sob a redoma. Foi ela que abriguei com o para-vento. Foi por ela que eu matei as larvas. Foi ela que eu escutei se queixar ou se gabar, ou mesmo calar-se algumas vezes, já que ela é a minha rosa.” Vejam que a descoberta do principezinho o faz perceber que a relação com a sua rosa modifica completamente o seu olhar sobre ela. A relação é de intimidade e profundidade, uma coisa leva a outra.

A raposa explica ao menino: “eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O Essencial é invisível aos olhos. Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa...” Na verdade, não foi tempo perdido, foi tempo dedicado. A rosa quer ser ela mesma e também queremos ser nós mesmos. Queremos ser aceitos como somos com nossos pequenos defeitos e nossas virtudes, carecemos de reconhecimento e de espaço para crescer. Ora somos jardineiros, ora somos a rosa.

No entanto, nos esquecemos que a rosa vai reclamar um dia ou outro, vai estar insatisfeita, mas isso faz parte do mistério relacional.
Se não suportamos pessoas rasas, fúteis e superficiais é porque somos profundos como um abismo, é belo, mas assustador! Somos como o mar aberto, esplêndido, mas angustiante. Ora, os místicos também conhecem bem essa experiência de se lançar nas “águas mais profundas” e de fazer a experiência do desamparo, esse abandonar-se no mistério também é angustiante.

Quem tem a profundidade dos abismos é de uma intensidade angustiante e não se contenta apenas em refrescar os pés, mas quer “lavar o corpo inteiro”.
E se somos estranhos de perto, que seja! A estranheza é fruto da falta de convívio, de tempo dedicado, pois devemos nos interessar pelas pessoas como elas são e não como queremos que elas sejam! É tolice dizer para alguém que é melhor te ter como amigo, ora, a amizade pressupõe que eu também te acompanhe de perto do contrário não é amizade, não seria nem coleguismo.
Assim como a lógica pressupõe que se alguém merece todo amor do mundo e se você diz isso a alguém, então devemos pressupor que você esteja minimamente inclinado a amá-lo do contrário o que você diz é uma mentira ou você é covarde.

O amor, a amizade e todo o resto dependem da coragem enquanto virtude, pois é da coragem que brota a sinceridade para o real engajamento.
MacIntyre argumenta: “Acreditamos que a coragem é uma virtude porque o cuidado e a preocupação com indivíduos, comunidades e causas, tão fundamentais em tantas práticas, requerem a existência de tal virtude. Se alguém diz que cuida de uma pessoa, comunidade ou causa, mas não está disposto a correr riscos por essa pessoa, comunidade ou causa, põe em questão a sinceridade de seu cuidado ou interesse. Coragem, a capacidade de correr riscos, tem seu papel na vida humana devido a essa ligação com o cuidado e o interesse. Não estou dizendo que seja impossível interessar-se e também ser covarde. Estou dizendo, em parte, que a pessoa que se interessa com sinceridade e não tem a capacidade de se arriscar precisa se definir, tanto para si mesma como para as outras, como covarde.” (MacIntyre, Depois da Virtude. P. 323-324)
Traduzindo em miúdos, a coragem se relaciona com a veracidade da nossa intenção. Do quanto estamos dispostos a pagar para que nossas relações sejam verdadeiras e sinceras.
Eu posso escolher quem vai me machucar e quem não vai e se me machucar tenho que buscar a sabedoria para saber se a pessoa o faz por querer, afinal de contas a rosa tem espinhos e se não sei lidar com ela ou se me apresso, eu me espeto!

A verdade é que tem pessoas na quais eu daria o mergulho profundo, “o salto no escuro da piscina” como canta Humberto Gessinger em Piano bar. Algumas pessoas merecem a minha coragem e a minha sinceridade, outras simplesmente optam pela covardia não dita. E você o que quer para si mesmo? O que você tem feito pela rosa que floresceu no seu mundo? Já a notou?
Lembre-se “o caminho só existe quando você passa”...
  

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A Rosa

Vi uma rosa e me lembrei de você.  Acho que as flores me fazem pensar em como proceder com as pessoas, por isso me lembrei de você.
É tão bonito ver a flor cheia de vida plantada no jardim mesmo quando às vezes queremos oferecê-la a alguém. Talvez seja como o amor, que não pode ser arrancado a força, mas deve ser cultivado. Talvez seja como a amizade que do mesmo modo que o amor não reconhece na violência o caminho para a construção relacional.

Por que aquela rosa em particular e as flores de modo geral me fizeram lembrar de ti?
Porque quando penso em ti penso que não posso te arrebatar para mim como se colhe uma flor no campo. Não posso simplesmente te arrancar de ti mesma e nem te separar das tuas raízes. E se penso, ora na flor como o próprio amor/amizade, ora em ti mesmo como a flor desejada é porque provavelmente entendo que o mistério do amor, doloroso na maioria das vezes, e também o mistério da amizade conflitante no mais das vezes requer de nós um olhar diferente. Por mais que eu queira a rosa eu não posso arrancá-la, pois isso significaria matá-la! A rosa arrancada murcha a cada dia, suas pétalas caem pouco a pouco até que a flor bela de outrora não mais exista. Então, percebo que a dor angustiante que sinto é fruto do desejo de ter a rosa sempre comigo, mas se não posso arrancá-la como posso tê-la?

Nunca tinha percebido, refletindo com Sponville, que o amor enquanto alegria acompanhada de uma causa exterior, aquela definição belíssima da ética spinoziana, provocava tanta angustia! Vai ver eu sou muito platônico e só tenho paz quando  a referência do meu amor (não vou empregar a palavra “objeto” de amor, é muito feio)  pode ser possuído, pois parece que tenho fome do outro. E essa angustia é como ficar de barriga vazia precisa ser saciada com o abraço, o carinho o beijo e a troca de olhar. Com a companhia e as juras afetivas.

Então, se a dualidade da rosa (ícone do amor e pessoa amada) não podem ser arrancadas a força, o que me resta é esperar que a rosa sorria e se deixe transplantar para o meu jardim.
As rosas falam através de sua beleza e, é esta beleza que nos move a admirá-las. Seu sorriso se traduz na beleza de suas pétalas e no quanto elas se abrem diante dos nossos olhos que contemplam a sua maravilha que é a natureza espetacular do seu desabrochar.

Mas confesso que não me parece suficiente ter de esperar o sorriso, muitas vezes ele não vêm e o desejo de arrancá-la fica a espreita e fere o meu peito e me enche de dor.
Quem compreende a natureza do amor e da amizade sofre porque a zona de conflito entre o desejo e a alegria , entre a violência e o cuidado é a linha tênue que separa o amor da mera reificação do outro. 

O mistério do amor envolve o desejo que quer ser satisfeito, mas que se alegra em descobrir a beleza e não em matá-la. 

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Despedida

Foi um dia longo que parecia não ter fim acompanhado do silêncio e da dúvida e do medo.
Aquele dia foi longo foi um dia sem igual incomparável em tudo principalmente no medo que tinha do seu silêncio.
Veio à noite, a escuridão iluminada pela palavra. Escuridão iluminada que me cegava.
Aquele dia eu me despedi de você. É verdade que você não estava morta que apenas seguíamos caminhos diferentes paralelos talvez.
Mas chorei como se você tivesse morrido em meus braços, chorei como um luto amargo.
Aquela despedida me atravessou como uma lança, senti como se fosse eu quem morria para ti.
Enterrado como um indigente como um anônimo largado por aí.

Aquela noite foi difícil passei-a sozinho acordado afogado em lágrimas acorrentado pela solidão.
Uma noite escura uma noite diferente... Uma noite de eclipse de luz de escuridão iluminada pela tristeza da minha alma.

Nunca imaginei que sofreria tanto ao me despedir! Nunca imaginei que choraria tanto por ter que partir.
Porque nunca estive tão convicto do que sentia e nunca estive tão convicto do que queria construir.
Minha partida foi também a sua, e como o brilho da Lua vai embora ocultado pela sombra da Terra você se foi naquela noite de outono.
Para você creio que tenha sido contrário a sua partida foi também a minha partida e para você deve ter sido como o nascer de belíssimo dia de verão, céu azul sem nuvens e um sol forte e quente.
Naquele dia realmente choveu e a tempestade caiu em minha alma também, meu mundo que já estava em colapso foi arruinado completamente destruído.
Jurei depois daquele dia que não ia cair, que não ia me deixar vencer, mas é uma luta difícil e desigual e sempre saio vencido.
Jurei que reconstruiria o meu mundo, mas não sei se consigo sozinho sem você.
Aquela despedida me matou e agora sou um morto vivo me arrastando por aí tentando me iludir no meio de uma escuridão que me cega com a sua luz.
A verdade é que aquela despedida me quebrou de um modo que não pode ser consertado, assim como um mundo depois do colapso.
Me despedi, chorei e parti e só me resta agora escuridão e um céu sem estrelas para contemplar.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Beleza Reunida

Em você reúne a beleza manifesta:
No aroma do perfume das rosas;
Na sutileza da suavidade da tua pele;
Na ternura abrasadora do teu abraço;
Na candura casta do brilho dos teus olhos;
No teu sorriso que reconhece o amor velado pelo respeito;
Na despedida discreta e amiga;
Na sinceridade recitada pelo poeta;
Na criatividade do filósofo e do esteta;
Em você a beleza se concentra:
Como luz que me guia na escuridão;
Como a canção que me ergue da depressão;
Como o giro suave da abóboda celeste;
Como a flor que desabrocha no deserto das incertezas;
Como a mão amiga estendida na tristeza;
Sua beleza vem de dentro.
Sua beleza é divina.
Sua beleza é você mesma que eu contemplo todos os dias.



segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O herói que não sei ser

Eu não sou um herói, não eu não sou... não sei ser herói. Não tenho coragem quando preciso, não força quando é requisitada, sou impotência diante do mundo sou fraqueza diante dos meus medos.
Minhas mãos tremem, meu coração vacila. Ah, se eu tivesse ousadia! E te dissesse a verdade! Será que você a acolheria? Ainda acho que sou um covarde e me pergunto se você também não é uma covarde.
Não somos heróis, não somos tão bons quanto gostaríamos de ser e nem tão ruins que deveríamos nos odiar. Somos apenas débeis de alguma forma.
Às vezes penso nos heróis em todos os que conheço aquilo que os move é a superação. Todos têm fraquezas, todos têm limites e estão sempre procurando cruzar a linha entre a mediocridade e a soberba.

É, então, que a vida passa diante dos meus olhos como um filme e vejo tudo que vivi e almejo a coragem para seguir em frente.
“Viver sem arrependimentos” não sei viver sem arrependimentos, não ainda e nem sei se saberei um dia... Porque eu preciso me arrepender e querer refazer o caminho, preciso me levantar quando cair...
Não sei ser herói. Sei ser lágrimas quando o limite me aperta, sei ter medo quando o pânico me assombra, sei ser humano quando a dor me castiga.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Voto de Minerva


“Atena - Eis minha função, decidir por último. Depositarei este voto a favor de Orestes.” (Ésquilo, Eumênides 735)

A expressão voto de Minerva é bastante conhecida no meio popular. O voto de Minerva como é sabido é o voto dado com o intuito de decidir uma questão que não tem um consenso, que está empatado.  Mas eis que estamos às voltas com um segundo turno de eleições presidenciáveis e a questão não está empatada quanto ao número de votos, mas sim na minha modesta opinião na qualidade de ambos os candidatos.

Para um apartidário como eu é muito difícil votar por um partido confesso que não sei fazer esse tipo de coisa, aos que fazem o meu respeito, porque sei que se o fazem tem suas razões. No entanto, a questão é será que avaliamos nossas razões quando votamos? Será que eliminamos em nós a fumaça da confusão que permeia o nosso raciocínio infectado pelo pathos do imediato? Voltemos ao voto de Minerva, o que o mito que nos legou essa expressão nos expõe? Orestes é da família dos átridas, filho de Agâmenon.  O jovem é o assassino da mãe para vingar o pai e, perseguido pelas Fúrias, estas representam o antigo modelo de justiça anterior ao surgimento da Pólis e querem o sangue de Orestes para compensar o sangue de sua mãe, porque este matou uma consanguínea. Orestes pede asilo como suplicante no Templo de Apollo e este o acolhe e junto com Atena (Minerva).

Então, a deusa patrona da Ática instaura o tribunal no areópago próximo a colina de Ares em Atenas onde se realizará o julgamento do jovem átrida é então que chegamos ao ponto que nos interessa, pois a contagem dos votos aponta um empate técnico entre os que o julgam culpado e os que o absolveram da acusação de homicídio.  Então, a deusa que está presidindo o julgamento chama para si a responsabilidade e dá o seu voto como assinala a epígrafe acima. O voto dela decidiu o julgamento em favor de Orestes e qual é o motivo que a leva a inocentar o jovem? Atena diz: “Não há mãe nenhuma que me gerou. Em tudo, fora núpcias, apoio o macho com todo ardor, e sou muito do pai.” (Ésquilo, Eumênides 735). O que a leva a inocentar o jovem átrida é que ela faria o mesmo que o rapaz, isto é, faria de tudo pelo pai, pois que ela desconhece qualquer relação materna. 
Creio que a resposta da deusa tem muito a nos ensinar sobre os motivos que nos levam a tomar uma decisão seja sobre o que for. Ela opta por Orestes porque não tem mãe e nós optaremos por este ou aquele candidato nessas eleições por quais motivos?
Não me venham com números estimativas e históricos passados, pois a verdade é que quando os vejo e ouço chego “ a me esquecer de quem eu sou” . Todas as vezes que vejo militantes de A ou B falando em nome de seus partidos e de seus candidatos é como se eu escutasse Críton na prisão tentando convencer Sócrates a fugir.

“Toma a tua decisão já, embora a altura não seja para deliberar, mas para ter deliberado.” (Platão, Críton 46a) diz Críton ao seu amigo e eu escuto e vejo pelas redes sociais “ vote nesse candidato que é a favor disso e contra aquilo” ou “Vote no candidato fulano que defende o interesse de X e não de Y”. Mas é preciso dar a resposta que Sócrates deu ao seu amigo: “Meu caro Críton, o teu zelo é muito louvável, se for acompanhado de reta razão. Caso contrário, será tanto mais inconveniente quando maior for. Teremos, pois, de examinar se o que me propões deve ser feito ou não, visto que eu fui sempre, e não apenas agora, de molde a não me deixar convencer por outro argumento que não seja aquele que a minha razão considere o melhor.” (Platão, Críton 46b)
Por que devemos dar aos Crítons da vida que nos interpelam essa resposta? Simples, porque não podemos tomar nenhuma decisão mergulhados no medo que a primeira impressão dos fatos nos impõe.  É preciso buscar razões no mais íntimo de nós sem descurar das opiniões que nos acercam. Não se trata de tomar apenas um dos lados como Atena faz na peça de Ésquilo é preciso avaliar se as opiniões e se os discursos que se nos apresentam são condizentes com a realidade e se de fato quem está disputando o poder nos representa. E se ainda assim você opta por um deles ou por nenhum, está decidindo peremptoriamente por uma razão que te move e te faz crer que a sua decisão é correta.

Embora eu tenha consciência de que não é o meu voto quem vai decidir a eleição, me propus a transformar o meu voto em um voto de Minerva, com efeito, não para que desempate e muito menos para decidir as eleições, pois sei que o meu voto não tem esse poder, o que decide as eleições é a consciência magnânima que Rousseau denominou vontade geral que é mais que a soma das nossas vontades particulares em vista do bem comum.

Me propus a ouvir tudo e todos, a examinar cuidadosamente os fatos como Sócrates se propôs a fazer com seu amigo Críton e, só então decidir, não como Atena, que opta pela absolvição do jovem átrida porque “é muito do pai” mas que a minha decisão seja porque “não vou me deixar convencer por nenhum argumento que não seja aquele que a minha razão considere o melhor.                  

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Capítulo das lembranças: Autossuficência

Certa vez uma pessoa me disse: “eu sei que você preza pela sua autossuficiência”. Traduzindo em miúdos ela estava me dizendo: “eu sei que você não gosta de depender de ninguém. Eu sei que você aprendeu a fazer tudo sozinho, a se virar.”
Lembrei-me desse momento essa semana depois de algumas coisas que aconteceram. Vivo dizendo para mim mesmo e para os amigos mais íntimos que a minha vida é cercada de ironias, parece está sempre a zombar de mim.
Essa lembrança, penso, é apenas mais uma forma da vida jogar na minha cara o quanto ela é perversa e por vezes injusta.

Sempre busquei a tal autossuficiência, talvez a perfeição mais doentia que um homem consciente de que é um ser de relação possa almejar. É um paradoxo que nós seres humanos sejamos perfeitos em nossa imperfeição, completos em nossa incompletude e que justamente o que nos faz ser autossuficientes é ser dependentes uns dos outros. Não, não trato a dependência aqui de uma forma tão vulgar, não é uma dependência que suga e muito menos uma relação utilitarista e ou pragmática na qual o outro só vale enquanto me serve para algo.
Não, quando falo da dependência que nós seres humanos temos em relação uns com os outros eu me refiro a algo similar ao quebra-cabeça. De fato, o quebra-cabeça só é verdadeiramente completo quando todas as peças estão conectadas soltas elas não formam uma imagem, não formam um conjunto, não formam nada.
De tal forma é o ser humano sozinho é homem e capaz de muitas coisas, mas as condições que lhe são próprias dentre elas a finitude o faz incompleto e não forma a imagem do todo que a humanidade pode representar.

Eu enfrento esse dilema quando penso a autossuficiência como um desejo meu, esse movimento sofrível que me faz permanecer desconectado do resto das pessoas. Não quero depender delas, em nada, em nenhum aspecto da minha vida. No entanto, me vejo sempre carente de algo, porque sou incompleto como os andróginos de Aristófanes.
Por isso, é que vejo algo de fascinante e ao mesmo tempo perturbador nesse paradoxo da humanidade, fascinante porque, se por um lado,  somos perfeitos em nossa imperfeição então aquilo que deveria ser considerado um defeito na verdade é uma virtude e, de outro lado, todo aquele que busca a autossuficiência compreendendo-a como isolamento está na verdade destruindo a sua humanidade. Não tenho a intenção aqui de pintar uma humanidade bonita, justa e admirável, mas imagino que o que se pode pensar aqui não é uma finalidade para o ser humano é antes uma constatação do nosso limite (finis).

Naquela época eu achava que estava correto em ser ou almejar a tal autossuficiencia, hoje vejo que eu era tão arrogante que me censuraria se tivesse a oportunidade.
Ainda busco a autossuficiência, mas seguindo um caminho mais modesto, um caminho no qual outros possam trilhar comigo, em que eu possa ter a certeza de que sempre claudicante eu posso tropeçar, mas que a minha liberdade está associada a mão estendida daqueles que vão comigo mirando o horizonte.

sábado, 4 de outubro de 2014

Intuição (Reflexões Eleáticas)

Intuição é uma forma de olhar. É uma forma de perceber que apreende as sutilezas e que toca com suavidade a realidade.
Ver não é só enxergar, pois muitos enxergam e poucos vêem. Muitos olham, mas poucos percebem o que olham. A intuição é o modo de olhar que nos faz ver além do que os olhos captam, é a nossa capacidade de decifrar o real captar o sentido e compreender.

A intuição é, com efeito, os olhos da mente que penetram com acuidade e exatidão a mística do ser e o desvela para a inteligência.
Quem não se permitir intuir é cego, tem a pior das cegueiras, posto que é incapaz de ver a realidade preso ao que os sentidos físicos lhe revelam vê apenas o que aparece, apenas neblina e vultos silhuetas dançantes, sombras vazias.
Sem a intuição o saber se perde é como andar por uma cidade desconhecida sem um mapa nunca sabemos se estamos no caminho certo ou se estamos perdidos, somos forçados a confiar apenas no que vemos e no que nos e dito sem jamais tentar examinar o que se nos manifesta.
A intuição exige o exame, é uma ferramenta importante para a inteligência porque instrui os sentidos e corrige a imediatez de suas conclusões.

É a intuição que percorre o caminho de Parmênides, é ela que como Eros quer ser mais do que é e subir até o céu das idéias. Esses olhos invisíveis, que fazem com que a realidade seja descortinada a cada insight, momento único em que a mente se coloca atenta enquanto busca a verdade.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Imperium

Você cruzou o rubicão e disse que vinha como amigo
Mas calmamente impõe a homens livres o poder excessivo.
Cidadão augusto que feri a isonomia
Seu ato desmedido destrói a isegoria.

Se apropria de teu título e abusa de sua força
Tiraniza a assembleia em nome de tua glória.
Funda para ti uma mentira vil
Se fazes filho dos deuses e legitima teu ardil.

Ameaça teus inimigos em nome da tua sede de poder
Quer todos sob seus pés com medo de morrer
E assim destrói o governo de nossas leis
Se coloca no lugar delas e a força nos quer fazer te obedecer.

Você cruzou o rubicão, marchou de mansinho
Tinha partido como amigo, nunca imaginei que voltaria inimigo.
Entrou na grande cidade
Passou pelos portões de Roma
Tirano que destrói a República
Imitador do tirano Sula
Que demoli a áurea república.
a
Na assembleia se dirigia se fazendo de interessado
No bem de todos, mas só pensava no seu lado.
Suas monções só favoreciam a ti só aumentavam o seu poder
Seu desejo era soberano
Sua vontade era lei
Tudo o que você queria era mais poder.

Você cruzou o rubicão
Cruzou o limite que nos separa do humano e do divino
Adeus república
Assembleia dos iguais
Cede espaço ao império
Violento
Opressor
Que a lei para ele não existe só quando para ele é favor.
Você cruzou o rubicão
E ameaça a liberdade
De cidadãos livres
Livres de verdade!

Você cruzou o limite
Destruiu as nossas leis
Transformando em súditos cidadãos-reis
Pois abaixo da lei estávamos
Era nosso escudo e amparo
Por causa dos excessos de um homem
Rumamos ao fracasso...

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Perí tou kenou (sobre o vazio)


Creio que uma das descobertas mais interessantes da filosofia foi o vazio.
Os gregos até Demócrito desconsideravam como razoável a idéia de vazio e o infinito.
Aristóteles considerava ambos um absurdo, porque tanto o vazio como o infinito abalam a possibilidade, pensa o Estagirita, de fazer ciência. No primeiro caso, o vazio é uma forma de dizer o não-ser, isso significa que o vazio é nada, embora sendo nada é algo.
Os gregos desconheciam o número zero e por isso não concebiam o vazio.

O segundo caso, a saber, o infinito nos remete a impossibilidade de parar em algum ponto, em termos lógicos, isso impossibilita que se possa conhecer algo, porque não há um princípio do qual se começa e nem um fim que manifeste a natureza do que se procura conhecer.

Por que então, o vazio é tão interessante? Não é só porque nos deu o número zero, porque de brinde ganhamos o átomo (na verdade é o átomo que nos deu o vazio de brinde), ou simplesmente porque o vazio permitiu rever vários conceitos da filosofia da natureza fundamentais para a física moderna.  Penso que o vazio é fascinante justamente porque sendo nada é algo, como disse antes, mas que isso significa?

Acho que os orientais podem nos ajudar a conceber o nada como algo, uma das coisas mais fascinantes na filosofia oriental budista é a ideia de esvaziar a mente. Isto é, parar o pensamento, ou melhor, pensar em nada, já pensou em nada? Pensar em nada é o repouso absoluto do pensamento e quando isso acontece o pensamento desaparece.
Mas ao pensar em nada você estará pensando em algo um paradoxo! Mas esse algo não é em muitos sentidos: locativo, predicativo e existencial. Quero dizer que o nada é algo que não se atribui a nada, não está em lugar nenhum e não exsistere, não se manifesta para o exterior.

Mas o nada tem extensão? Seria o nada o avesso da finitude e do concreto?
Vejo no vazio algo de misterioso no sentido de que a sua natureza é uma forma de “esconder” para revelar, do vazio é que encontramos o espaço o local para o infinito.
No vazio é que há espaço para a criação, toda dimensão poiética emerge do vazio: o mármore intocado, o papel em branco e toda técnica carece do vazio como espaço infinito e criador para que o saber possa desenvolver coisas e dar respostas as nossa indagações.

Na mística cristã a partir da famosa citação paulina de filipenses em que o apóstolo magistralmente escreve que “Cristo esvaziou-se a si mesmo” a kenosis de Jesus também é ato criador. Este desloca com o seu esvaziamento a si mesmo e faz surgir a salvação da humanidade como fruto do ato criador que renova toda criatura por ele salva.
De certo modo, a mística enquanto enfatiza o mistério de Deus é esvaziamento, porque impede e impele o homem a desconstruir o conceito que faz de Deus para mergulhar no vazio da não conceituação, a mística está então relacionada com a teologia negativa que ao invés de afirmar o que Ele é afirma o que Ele não é retirando toda a predicação até que sobra apenas o mistério, o vazio que a nossa inteligência se esforça para encontrar e que capta de forma muitas vezes confusa e opaca.

Por isso,  o vazio é fascinante porque esconde em seu nada o avesso que o pensamento tenta captar, mas só o consegue depois de muita ginástica, precisa se contorcer e se esforçar para ver no invisível a extensão do infinito que o vazio torna visível.


Brener Alexandre 30/09/2014

Caminho para Lugar nenhum

Percorro um caminho de desencontros
Estradas paralelas que não se cruzam
Vias em que o destino pouco importa
Ruelas vazias e solitárias.

Percorro o caminho para lugar nenhum
Cheio de desencontros e ironias
Cheio de fetiches e mentiras
Estrada que não tem destino-envio.
Passagem para a invisibilidade
Trajeto do esquecimento.

Caminho sem asfalto
Caminho de terra batida
Caminho que não tem início e nem saída.
Caminho solitário via de solidão
Invisível aos seus olhos
Vou para lugar nenhum
Vou para o sem destino
A caminho do esquecimento.

Caminho para lugar nenhum
Via para a ausência
Trajeto da saudade

Desencontros e desencantos com a verdade.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Kenós

Me contaram uma estória deveras curiosa
De um menino que se interessava por coisas misteriosas
Um mistério é um poço cujo fundo não se vê
O menino descobriu no vazio um mistério pra valer.

O vazio atraia a atenção do menino
Que descobriu no vazio mundos infinitos
Possibilidades sem fim, no nada a criação
Força do vir-a-ser um mistério sem solução.

O menino passava horas a fio imaginando como seria o misterioso vazio
Inculcado com o nada descobriu mil caminhos
O vazio não é nada, é apenas vazio.
Mistério grandioso que revela o infinito.

No vazio o menino encontrou satisfação
Pois o infinito é possibilidade para encontrar a solução
O cheio está completo pronto e acabado
O vazio é horizonte é caminho a ser traçado
Se até no mistério pascal o vazio haveremos de elogiar
Pois, o Cristo se esvazia para poder nos salvar.

Esse menino inteligente viu o que só alguns conseguiram ver
A mística do vazio que nos faz crescer
Mergulhado no vazio até a onde a vista alcançar

Os segredos da vida espero encontrar.

domingo, 28 de setembro de 2014

Mundo Interior

O mundo que eu conhecia está destruído.
Eu vejo suas ruínas nos meus desatinos.
O mundo que eu conhecia foi arruinado.
Eu vejo destroços meu mundo é como um barco destroçado.

O meu mundo de fora parece bonito
Parece em ordem quando me vêem sorrindo.
O meu mundo de fora parece organizado
Sem crateras, nem abismos, sem buracos profundos parece ensolarado.

Eu vejo o meu mundo entre escombros e tristeza
Não há luz do sol, brilho da lua e das estrelas.
Eu vejo o meu mundo de um modo que ninguém mais vê.
Para todos está tudo calmo tudo tranqüilo
Mas o mal oculto espreita escondido.

No meu mundo interior havia jardins floridos
Céu estrelado, lua cheia, canto dos pássaros e o sol brilhava como o mais belo sorriso.
No meu mundo interior tudo o que construí ficou arruinado
Estradas destruídas, casas abandonadas, meu mundo interior ficou como uma cidade fantasma.

Não acredite no que você vê não se dê por convencido
Quando sorrio estou chorando
Quando choro estou deprimido.
Esse mundo tão vasto e ao mesmo tempo tão pequeno
A todos está vedado, pois, os olhos mentem sobre o que estão vendo.

Esse mundo separado pela alma fragmentada
Eu vejo sozinho e calado o destino que me aguarda
Talvez um dia eu reconheça e diga num abraço amigo

Chamar a morte de irmã querida como disse São Francisco.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Mulher-flor

Você é para mim como uma flor
De perfume agradável que afasta a dor.
Você é pura beleza
Alma colorida, alegria!
Sutileza e discrição, delicadeza!

Uma mulher de contornos suaves
De olhos misteriosos e voz doce
Mistério que se enuncia no cuidado
Doçura experimentada no teu abraço
Mãos firmes e delicadas
Como as mãos da generosidade.

Uma flor-mulher uma mulher-flor
Perfumada de primavera
Forte e dedicada
Bela e respeitada.
Vista como uma igual a mim.
Amiga que amo em segredo.
Confidente para quem contaria todos os meus desejos.
Abraço que protege
Sorriso que acolhe
Beijo que alimenta

Chama que não se consome.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Espelho

Nele eu me vejo como quero como desejo.
Nele eu me projeto e me enxergo é só o que vejo.
Nele há o reflexo repetição desigual excesso.
Nele me descubro tão belo que me perco.

Nele me arrogo clamo por atenção.
Nele me redescubro cheio de orgulho e paixão.
Nele não há ninguém maior que eu
Nem mais belo, nem mais forte
Há apenas excesso extravagância da minha sorte.
Vaidades e excessos que hão de me levar a morte.

Nele me projeto reflexo das minhas paixões
Nele encontro o prazer que ninguém mais pode me oferecer
Colírio para os meus olhos
Refresco para a minha alma
Posso enfim perguntar sem demora

Espelho espelho meu há alguém mais tolo que eu?

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Entre vãos

São esses intervalos que consomem a minha alma, petrificam o meu espírito e drenam o meu prazer de viver. Nesses intervalos que a ausência se torna presente como a consciência manifesta de que a luz sempre projeta alguma sombra.
Nesses intervalos parece que a minha consciência se torna nítida, áspera, toca com profundidade a sombra projetada pela luz fixa-se nela e volta-se toda para a escuridão diante da claridade. Parece mesmo que vejo na luz a escuridão como se os meus olhos filtrassem no positivo o negativo, naquilo que é o que não é, como se não visse os pontos, mas apenas o intervalo.

Essa é a consciência da ausência, a experiência da privação e o princípio, a causa motriz da angustia, esse desejo frustrado de ver luz onde não há, de ver presença onde não há nada, onde há apenas vazio.
Parece que sou essencialmente intervalo, parece que sou pausa, silêncio, aquele mesmo tagarela que me assombra durante as noites de insônia.
Parece que sou a negatividade que emerge na positividade como o óleo que não se mistura com a água.

Esses intervalos, essas singularidades que parecem ser cheias de necessidades não passam de uma ilusão tão real que engana o mais lúcido.
Mas o que é ser lúcido? Senão está cheio de luz, iluminado, brilhante, reluzente!?
Ora, se a ilusão reside no intervalo e se é só ele que vejo em meio a luz, minha lucidez é trevas, escuridão e cegueira.

São esses intervalos que consomem a minha alma, são eles que me petrificam, tiram o sabor da vida. Nesses intervalos eu me apercebo e percebo que a ausência se torna presente, simulacro do desejo frustrado que chamamos de angustia, ansiedade derradeira que queima como um fogaréu.
Aqui e acolá o intervalo se manifesta como consciência de liberdade, essa consciência que cartesiana paira só ipso factum e vê nas causas incausadas um motriz para o sofrer.

Perdido na singularidade constato que somos mundos intangíveis sabotados pela concupiscência e pelo medo malogrando a nossa felicidade.


terça-feira, 9 de setembro de 2014

Olhos Castos


Ah! Esses olhos castos tão puros e brilhantes!
Ah! Esse sorriso amigo tão belo e radiante!
Essa voz suave como o canto das sereias,
Traduz com rigor toda a sua beleza.

Tua silhueta esculpida à mão cuidadosa
Tua simpatia é remédio para as noites perigosas
Teu carinho cândido, casto, digno e respeitável.
Tua amizade singela, corajosa, verdadeira e agradável.

Sorriso generoso timbre de voz acolhedor
O Abraço que protege com ternura é abrasador.
Te procuro em segredo olho discreto, mas com atenção.
Cada detalhe do teu rosto desperta em mim afeição.

Esses olhos são como o lírio de verdadeira pureza
É assim que lhe vejo virtude perfeita.
Olhos castos flamejantes que brilham como o sol
Transforma em dia a noite escura
O inverno em primavera
Tristeza em alegria
Solidão em companhia
Dualidade em harmonia.





sábado, 6 de setembro de 2014

Silêncio VIII

O silêncio como o vento vem e vai
O silêncio como a noite cai
O silêncio como o vazio emudece
Grita e engole tudo o que acontece.

O silêncio como muro nos separa
O silêncio como a janela é espreita
O silêncio como o nada esvazia
Profundo engole o ser que ali jazia.

O silêncio é voz que não é ouvida.
O silêncio é angustia da partida.
O silêncio é desistência resoluta
Entrega calada, covardia assimilada.

O silêncio é como os olhos falam sem querer
O silêncio é irritante como o medo de perder.
O silêncio é uma pausa...
Nos calamos de medo
Covardia e receio
O silêncio é o buraco...
Engole tudo profundo
É um mundo solitário.



quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Ventania

Ventania último sopro do inverno em meu ser.
Ventania um suspiro de amor por você.
Ventania sopra como uma brisa e resfria a alma.
Ventania que balança tudo a minha volta e me acalma.

Esse sopro gelado que tem o frescor dos lábios.
Dá adeus ao inverno passando veloz
Carregando como um abraço forte e atroz.
Ventania e chuva para lavar o coração.
Joga tudo irremediavelmente no chão.
Ventania é a vontade que tenho de te ver.
Como ficamos ao olhar o céu nublado torcendo para o sol aparecer.

Ventania é força do meu amor por você.
Te envolve e não te carrega,
Te refresca, mas não te sufoca.
Te faz sentir-se viva sem te revelar a face da morte.
Te beija molhado em forma de chuva e orvalho.
Ventania anuncia que o frio da solidão está de partida
E nos lembra que depois da tristeza dos dias cinzas
Vem o sol com a sua luz e calor para trazer a alegria
Como você me alegra e aquece com o seu amor.