quinta-feira, 19 de julho de 2012

Roma: Uma descrição quase fiel da formação de um império

O seriado Roma exibido no canal HBO, de produção européia com o apoio da BBC é uma das melhores leituras feitas do período final da república romana. Recheada de personagens históricas importantes: Júlio César, Pompeu, Marco Antônio, Brutus, Cícero, Catão, Cipião, Otávio César, lépidos e Cleópatra. A trama constitui duas temporadas e duas histórias que se cruzam. A primeira temporada apresenta a disputa pelo poder entre Júlio César e o General Pompeu. A segunda temporada retrata a disputa entre Marco Antônio e Otávio César. A história da república romana é intercalada pela história de amizade entre dois legionários da 13° legião, veteranos da guerra contra a Gália, os soldados Titos Pullos e Lucius Vorenus, ambos se envolvem nas disputas políticas travadas pelos patrícios romanos, o que muda substancialmente suas vidas. Roma é um seriado rico em detalhes, desde o figurino as práticas culturais da sociedade romana. A piedade religiosa, os amores, e o casamento institucionalizado tudo é retratado com riqueza de detalhes históricos. Algumas considerações sobre a cultura Greco-romana Roma como foi dito descreve na medida do possível de modo detalhado o modo de viver dos romanos, Patrícios e plebeus. Sua maneira de se relacionar com a religião, política e família delineava os traços marcantes da constituição da cultura etrusca influenciada pela cultura grega. De todas as coisas retratadas em Roma, o casamento e as relações amorosas merecem grande destaque, pela riqueza de detalhes culturais de um modelo institucional da família que já não existem mais. A sociedade romana, assim como a maioria das sociedades antigas não permitiam que as mulheres tomassem parte das disputas políticas, mesmo entre as famílias nobres (patrícios). Os casamentos era um dos meios de conseguir alianças políticas e manter o poder coeso através dos laços de amizade estabelecidos pela união matrimonial. O casamento, portanto, era uma instituição que não privilegiava o amor, antes levava em conta a honra, a dignidade e as famílias dos noivos. Situação completamente inversa da nossa sociedade que ainda respira os ares do romantismo do século XVIII. Um dos momentos em que o casamento e o amor são tratados até certo ponto como situações contrárias ou inconciliáveis quando Lucius Vorenus discute com a sua esposa o casamento de sua filha mais velha. A sua filha pede que o noivo seja o homem que ela ama, um jovem pastor. Mas Vorenus rejeita o pedido da filha em conjunto com sua esposa, considerando que um casamento construído com o amor é estranho e luxurioso. O amor neste caso é tratado sempre com as nuanças do erotismo e sensualidade. Em outra circunstância quando Otávio César propõe a Marco Antônio um casamento para demonstrar publicamente os laços de amizade entre os dois, não lhe dá a mão de sua mãe que era sua amante e sim a mão de sua irmã Otávia, com o a mesma justificativa de Vorenus de que um casamento não pode ser selado entre amantes, mas deve ser baseado em outros valores dos quais a moderação (temperança), dignidade e honra são os pilares. Além do casamento, a serie retrata a relação entre amantes e o modo como a sociedade romana exprimia sua sexualidade livremente seja nos bórdeis da cidade, seja nas relações amorosas de várias naturezas, inclusive homosexuais. Que assim como na cultura grega estão entrelaçadas na cultura cotidiana. E claro para os amantes de história antiga, não poderia deixar de comentar como é retratado a política romana. Um senado e atuações impecáveis. Uma política baseada no discurso, onde a retórica tem papel importante para decidir os rumos do grande império romano. Marco Túlio Cícero, Catão, Cipião personagens caras a política e a filosofia romana. Os dois últimos tomados como exemplo de sábios para a filosofia Estóica e o primeiro foi decisivo para a derrota de Marco Antônio. A filosofia estóica é amplamente explorada no seriado. Cícero e o próprio Vorenus (que era estóico discípulo de Catão) muitas vezes mostram como o sábio deve ou não se portar. A morte de Cícero é perfeita para demonstrar a impassibilidade do sábio diante da morte. Roma é um seriado curto, infelizmente, mas recheado de informações detalhadas sobre um modelo cultural que ainda é basilar para a nossa sociedade e que abriu caminho para uma outra cultura que se fortaleceu com a queda do grande império no século IV d.c, a cultura cristã.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Solus Ipsum sum

Me dei conta de que estou sozinho, não, sou sozinho.

“Solus ipsum sum” grita minha consciência sôfrega.

Não tenho teu abraço, não ganhei o teu sorriso e nem sinto seu calor.

Sou só abandonado a minha própria solidão. Estranho a mim mesmo.
Estranho para você. Perdido nos meus olhos castanhos, preso a imensidão dos teus olhos também escuros.

Me dei conta do quanto sou frágil, quebradiço cheio de pequenas superstições. Imaginação fértil e fecundada pelo desejo.

Me dei conta do quanto me dou ao mundo essa alteridade maior que me faz pequeno, uma criança chorona.

Me dei conta de que até o meu nome nada mais é que um amontoado de sons que só expressam a minha triste ilusão solitária.
Ilusão solitária é o nome que dou a minha existência quando ela dói em saudade, quando ela dói em ser dor. Quando ela dói em ser solidão.

Brener Alexandre Gonçalves, 18/05/2012

domingo, 15 de abril de 2012

philia

Enquanto eu olhava as estrelas pensava em como seria vê-las ao teu lado.
Um sonho que nunca realizarei.
Entre o meu desejo de estar junto,
Entre o estar junto te desejando há apenas uma diferença que é semelhança para mim.
A de que o meu desejo deságua no vazio que tua falta me faz.

Não importa os meus sentimentos por você
Não importa a tradução do descompasso do meu coração ao te ver.
Meu corpo é um livro aberto, meus olhos tem uma linguagem própria que revela o desvario das minhas paixões.
Minha mente traduz cada fantasia em fome de presença.
Sua companhia é como o sabor do vinho mais saboroso.

Foi olhando as estrelas e pensando em ti que me dei conta que não importa se eu estou ou não contigo...
Sempre vai faltar um pedaço de mim a ser preenchido pela sua presença.

Brener Alexandre 14/04/2012

segunda-feira, 2 de abril de 2012

O mesmo e o diferente e o estranhamento

Este texto é um desabafo. Um desabafo porque a impressão que sempre tive dos outros em relação a quem sou não mudou até então.
Sempre me senti um estranho neste mundo. Como se fosse “um estrangeiro, passageiro de algum trem que não passa por aqui, que não passa de ilusão.”
E sinto que para a maioria das pessoas eu sou de fato um estrangeiro, um estranho. As pessoas parecem se espantar e não no sentido aristotélico que a palavra “Thaumazo” transpõe positivamente indicando a descoberta de algo novo, mas antes talvez, um medo como se eu fosse um sátiro, algo que causa o pânico quando avistado.
Eu penso que é necessário pontuar algumas coisas a meu respeito, algumas coisas que a maioria das pessoas que convivem ou conviveram não sabem, ou se sabem ignoram. Não sei se outras pessoas que vivenciaram ou escolheram um caminho semelhante ao meu passam por isso, o fato é que eu passo e isso me deixa chateado, por que como todo ser humano eu também busco ser feliz. Acho que posso ressaltar ao menos dois pontos da minha pessoa que eu acho que causam esse efeito satírico nas pessoas. O primeiro é o fato de eu ser filósofo ou estudante de filosofia, que acho mais adequado, por que como é muito bem dito nas escolas oriundas do socratismo: “aspirar ao saber também é filosofar”. As pessoas pensam que por eu ter escolhido ser filósofo eu sou uma espécie de ser diferente dos demais seres humanos, como se eu fosse um intelecto puro, algo que só sabe pensar, gente isso não é um filósofo, isso é na melhor ou não das hipóteses o primeiro movente imóvel do Aristóteles! Segundo, sou cristão, católico aí as pessoas acham que eu sou igual imagem de Igreja, com os olhinhos pra cima, auréola e sei lá mais o que... Eu digo não sou santo, erro demais, tenho minha infeliz cota de pecados diários e nem por isso sou menos cristão que aquelas pessoas que aliás, antes de serem santas, eram tão pecadoras quanto... Nem preciso citar o que fazia Santo Agostinho, ou Santo Inácio de Loyola antes da suas respectivas conversões. O processo de conversão é lento não é do dia para a noite.
E não é porque eu optei pela vida filosófica, intelectual, ou porque fiz adesão a uma fé que eu sou estranho ou esquisito.
Poxa faço tanto esforço e não é de hoje para entrar no pequeno grande universo das pessoas que me cercam, tentam ser tolerante muitas vezes com atitude que não compreendo, me esforço na medida em que isso não é violentar o que eu sou, em ser simpático. E o que eu geralmente recebo em troca? Juízos que não tem nada a ver com quem eu sou, com o que eu faço, com o que eu optei por viver.
Não é porque eu não sou um relativista, um niilista ou um hedonista que eu sou estranho, pelo contrário é por eu não ter optado por esses caminhos é que eu devia ser ao menos respeitado, principalmente no que diz respeito aos valores deflagrados pelo cristianismo. Se eu trato com respeito, me respeite, a menos é claro que você não faça questão, não goste de mim, mas aí é só dizer que eu nem chego perto de você, eu por incrível que pareça gosto muito de mim para ficar mendigando dos outros atenção e carinho. Digo por incrível que pareça, porque as pessoas infelizmente seja por falta de inteligência (não no sentido de serem burras, mas no de não ter um certo tipo de sensibilidade), seja por alguma razão que eu desconheça, não percebe que uso na maioria dos casos de sarcasmo e ironia para gozar o mau gosto e hipocrisia que é disseminado pela nossa cultura. Eu sou para quem não sabe um sobrevivente, sobrevivi a uma rubéola e continuo sobrevivendo até hoje. Não sou rico e conseqüentemente não sou bem nascido, mas dou um duro danado para cumprir com os meus objetivos. Eu tenho sentimentos, amo, me enfureço choro, dou risada como qualquer Ser humano. “Não sou Zeus ou Apollo” parafraseando São Paulo, sou Homem e muito Homem com ombros largos que suportam o peso do mundo. As maioria das pessoas desconhecem o que eu passei na infância, na adolescência. Na escola ou mesmo na Igreja. Pois é ser você mesmo custa caro e eu não desisti de mim. Na minha adolecência enquanto os jovens estavam pensando em festinhas e farras eu estava ocupado conhecendo a mim mesmo e eu nunca tinha lido Platão ou ouvido falar do “Gnoti seauton” (Conhece a ti mesmo) frase que estava no templo de Apollo em Delfos. Mas isso não quer dizer que eu na adolescência não tenha me apaixonado ou sofrido por amor a alguma garota, porque eu sofri sim! Eu era tímido, faltava cavar um buraco e me enfiar dentro dele. A gastrite entrou na minha vida como um presente de grego, uma caixa de pandora, sim foi um presente de uma mulher!
Eu tenho enxaqueca desde os 9 anos de idade e uso óculos desde os 21. Já quase morri afogado, já foi mordido por cachorro. Como vocês podem notar apesar dos pesares todo o meu esforço até hoje foi o de tentar ser um ser humano melhor. E claro eu sou um ser humano com qualquer outro, tenho as minhas diferenças como toda pessoa tem suas diferenças, mas também tenho algo que me torna semelhante entre estas diferenças.
Enfim, antes de me acusar procure conhecer a minha história, tente se envolver, não pense que sou inalcançável por que eu fiz opções que diferem das suas. Se eu faço o esforço de não te julgar e de até brincar com as nossas diferenças, por que você não pode fazer o mesmo?
Entenda de uma vez por todas, eu sou tão humano quanto você, aspiro a felicidade como você, fiz as minhas escolhas como você fez as suas, então somos iguais nas nossas diferenças. Abra-se ao meu mundo para que a minha abertura ao seu mundo faça sentido e assim através do respeito mútuo a amizade sincera seja possível, o amor verdadeiro descoberto e a humanidade se realize.

Obrigado,

Brener Alexandre, 02/04/2012