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segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Os perigos das redes sociais ou a sedução do canto da sereia


 

“Sereias serão tua primeira prova. Elas encantam todos os que porventura passam por elas. Quem inadvertidamente se entregar ao canto delas nunca mais retornará ao lar, nunca mais cairá nos braços da mulher, não verá os pequerruchos nunca mais. Elas enfeitiçam os que passam, acomodadas num prado. Em torno, montes de cadáveres em decomposição, peles presas a ossos. Evita as rochas. Tampa com cera os ouvidos dos teus companheiros para não caírem na armadilha sonora. Se entretanto, quiseres o mel do concerto delas, ordena que te amarrem de pés e mãos ereto no mastro. Que o nó seja duplo. Entrega-te, então, ao prazer de ouvi-las. Se, por acaso, pedires que afrouxem as cordas, ordena-lhes que as apertem ainda mais” (HOMERO, Odisséia XII 40-55).

 

Pensando na passagem acima da Odisséia de Homero, tenho refletido sobre as armadilhas escondidas na internet, principalmente nas redes sociais. O documentário Dilema das redes disponibilizado na Netflix, o livro Os engenheiros do caos de Giuliano Da Empoli já haviam chamado a minha atenção para as armadilhas escondidas nos algoritmos das redes sociais que tal qual o canto da sereia quer nos aprisionar na melodia que seduz o espírito e anestesia a mente.

Os algoritmos trabalham para estimular certos comportamentos nos usuários da rede social fazendo com que, por um lado, encontrem pessoas que se identificam por suas ideias e aspirações, de outro lado, reforcem nelas crenças e posicionamentos sobre o mundo. O objetivo desses algoritmos é estabelecer parâmetros que tornem a rede social atraente para o usuário, tal qual uma arapuca com a sua isca seu objetivo é “aprisionar” o usuário em uma determinada rede social mantendo-o conectado o maior tempo possível. Talvez a metáfora da arapuca não faça jus ao que de fato faz o algoritmo numa rede social. Entretanto, o canto da sereia descrito na Odisséia pode nos ajudar a ver de que modo o algoritmo nos atrai e condiciona na virtualidade das redes sociais.

Basicamente, as redes sociais coletam informações sobre o uso que delas fazemos. Cruza essa informação com as relações virtuais que estabelecemos e o que publicamos. Tendo sido coletadas, essas informações apresentam um perfil para o algoritmo que vai apresentar para aquele usuário o material que ele eventualmente vai desejar consumir. Fundamentalmente, o algoritmo manipula esse material cruzando informações entre usuários, empresas e seus anúncios de modo a produzir a teia que vai segurar os usuários.

Um canto da sereia poderíamos dizer. Com efeito, o algoritmo entoa através das informações que coleta a melodia imortalizada no poema homérico.

Na mitologia segundo Homero, as sereias entoavam uma melodia irresistível que prendia a atenção dos marinheiros que as escutava e estes se afogavam no mar. Para escapar das sereias, Odisseu foi amarrado ao mastro de seu navio e os marinheiros colocaram cera nos ouvidos para não se deixar seduzir pelo canto daqueles entes mitológicos. Odisseu se privou do uso da cera de ouvido para se deleitar com o cântico das sereias, mas disse aos seus companheiros que em hipótese alguma deveria ser solto ainda que implorasse.

Se na mitologia o canto da sereia encerrava a morte e perdição dos homens. Nas redes sociais os algoritmos emulam o canto da sereia na exata medida em que o canto no mito suspende o juízo e recrudesce o pensamento. No mito o cântico é tão belo e atraente que a atenção de quem o escuta se volta por completo para a melodia. O marinheiro esquece que está no mar e sucumbe afogando-se nas águas em êxtase com a voz das sereias. Nas redes sociais o cântico vem na forma de uma opinião, um “like” ou um comentário numa postagem sua ou de outra pessoa. Sua atenção é capturada e sem perceber o usuário fica preso numa prisão sem grades. Pronto o usuário foi capturado pelo canto da sereia.

 

O ser humano é um animal gregário, tem necessidade de se sentir parte de um grupo. Busca relações de afinidades e pode por vezes se posicionar buscando aceitação de um grupo qualquer. As redes sociais fornecem em tempo real as condições para formação de grupos pequenos, médios ou grandes em que pessoas se encontram para falar do que gostam, do que não gostam. Buscam confirmar suas crenças e se diferenciar de outros grupos e comportamentos. Até certo ponto essas atitudes são naturais. As culturas se desenvolvem assim a partir de valores partilhados e o esforço de cooperação e ou competição mútuos. Todavia, quando nos deixamos aprisionar em certo grau de dogmatismo em que pesa o nosso interesse de confirmar a nossa crença corremos o risco de desaprender a conviver com o diferente e de aceitar a divergência como parte de uma experiência da vida social inteiramente saudável.

O viés de confirmação é um fenômeno muito comum nas redes sociais. O usuário procura consumir opiniões e posicionamentos que reflitam a suas crenças. Numa rede social qualquer é comum que um grupo de amigos reflita um conjunto de crenças partilhadas naturalmente como poderia acontecer fora do ambiente virtual. Mas se o algoritmo entende que quanto mais aparecer daquela opinião no ambiente virtual mais tempo o usuário vai permanecer conectado essa ferramenta vai apresentar para o usuário outros perfis, e conteúdos que tenham semelhança com as opiniões de seus amigos virtuais incentivando e confirmando essas crenças. Vez ou outra vai deixar escapar um posicionamento divergente, esses posicionamentos também geram engajamento do usuário.

Notemos que a armadilha consiste em atrair a atenção e suspender o juízo crítico do usuário. O perigo mora justamente nesse traço da vida virtual. Parte da radicalização que encontramos no ambiente virtual vem desse traço das redes. Quando usuários compreendem o funcionamento do algoritmo de uma rede eles podem de alguma forma manipular e em alguma medida controlar a realidade nesse ambiente virtual.

Pessoas que buscam confirmar suas crenças tendem a suspender o juízo, porque desejam exatamente endossar sua visão de mundo e não confrontá-la. Quem entende o algoritmo usa-o a seu favor para atrair essas pessoas que cairão no canto da sereia e fazendo uso da melodia sedutora coloniza a realidade e a fragmenta. O naufrágio das mentes que se afogam no radicalismo das redes, nas tribos e grupos que espelham e ecoam as mesmas ideias.

Atravessar esses mares bravios com sereias encantadoras pede cera nos ouvidos e coragem para aceitar que a realidade sempre se impõe. Pensar criticamente não é pensar assim ou assado. Pensar criticamente é pensar por si mesmo aceitando o mundo não se adequa caprichosamente as minhas expectativas sobre ele.

 

Brener Alexandre 10/09/2021

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

A alegoria das mesas e as formas de democracia em cada uma delas

 

Se eu tivesse que explicar a alguém o que é democracia tendo de recorrer a uma analogia de fácil entendimento, diria que este regime de origem grega é semelhante a uma mesa na qual todos os que se assentam junto a esta mesa tem os mesmos direitos e os mesmos deveres, uma mesa sem lados, uma mesa redonda.

 

Dito isso, explicaria que numa mesa redonda não há extremidades e todos estão sentados à direita ou à esquerda de alguém. Ninguém teria o direito de reclamar uma importância, porque nesta mesa não há cabeceira e todos são anfitriões uns dos outros.

Diria ainda que a mesa redonda é forma mais madura da democracia e que mesas com lados e extremidades são formas incompletas ou imperfeitas do que chamamos de democracia em nossa analogia.

 

Se a democracia é uma mesa quadrada ou triangular ainda assim estaríamos nos assentando à direita ou à esquerda de alguém. Isso é fácil de se observar levando em conta que as nossas mãos sinalizam o lado em que cada um se assenta. Entretanto, os que se veem de frente se perceberão como extremos opostos entre si.

 

Se a mesa é retangular, em cada lado haverá de se assentar também à direita e à esquerda, a diferença, no entanto, está que cada lado vai ver o companheiro ao lado como um espectro também mais à direita ou à esquerda de si mesmo e quem está no centro será o mais atacado visto por quem está nas extremidades da mesa, além de ver quem se assenta do outro lado da mesa como seu antípoda ideológico.

 

Quando a democracia se assemelha a uma mesa retangular a cabeceira é o pior lugar para se assentar. Afinal, quem se assenta na cabeceira chama para si a responsabilidade do anfritrião, é o sujeito que vai “pagar a conta”. Nesse caso, pagar a conta significa levar a sua posição as últimas consequências. Desse modo, numa mesa retangular as cabeceiras da mesa deveriam sempre ficar vazias, são extremos que malogram a democracia que a mesa representa nesta alegoria.

 

Todavia, só a mesa redonda garante isonomia (igualdade perante a lei) e isegoria (igual direito a palavra), de modo que nas outras formas incompletas da democracia um ou mais membros da mesa podem querer destruir o equilíbrio atacando quem de sua perspectiva ameaça o seu “direito ao poder”. 

 

Desse modo, é preciso reconhecer que no regime democrático tal qual uma mesa com vários lugares sempre estaremos à direita, à esquerda e no centro tendo o outro como referência para nós e sabendo que o outro também se percebe assim em relação à nós enquanto estamos sentados à mesa da democracia.

 

A mesa redonda, portanto, é a democracia plena na qual cada parte da sociedade por meio de seus representantes legais opinião e participam respeitosamente do debate público.

De outro modo, nas democracias instáveis sempre haverá quem queira retirar do interlocutor o seu direito à isonomia e a isegoria, sempre vai lutar pela cabeceira para se colocar nos extremos e pôr-se acima dos lados a sua volta.

 

Brener Alexandre 24/08/2020

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Considerações sobre a diferença entre “entender” e “concordar”


Toda comunicação, no ensino e aprendizado, ou no exercício dialógico cotidiano passa por etapas “invisíveis”. Quando estudamos gramática, redação, sintaxe, ou somos interpelados pela interpretação de um texto ainda na infância o que se espera de nós é que sejamos capazes de nos comunicar. Dito de outro modo, a escrita e a oralidade embora prescinda de uma técnica rigorosa para funcionar precisa ser ensinada, se desejamos que essa comunicação seja bem executada.

Os gregos foram pioneiros no estudo da linguagem, os sofistas introduziram estudos sobre sintaxe, uso correto das palavras (orthoépia) e desenvolveram a retórica como exercício prático para uso das palavras no discurso. Sócrates também em diálogo aberto com a sofística vai desenvolver o problema das definições e introduz ainda sem algum rigor e sistematização a questão da conotação e denotação de termos no discurso.

Platão e Aristóteles vão além, continuam o legado socrático, catalogam o trabalho dos sofistas e o aprimoram retomando Parmênides e o problema do ser são os responsáveis por estruturar a lógica como ferramenta do pensar. Fica claro para nós que a comunicação e o discurso são muito importantes para os antigos gregos.

O problema da linguagem é amplamente debatido na filosofia. Os medievais com o problema dos universais e o nominalismo, os modernos em seus estudos sobre os limites do conhecimento humano e a retomada da lógica, o desenvolvimento da semiótica e o renascimento da hermenêutica no inicio do século XX nos mostra como o ser humano necessita de se comunicar e se fazer compreender.
Os filósofos e demais estudiosos da linguagem tem se debruçado sobre o assunto.

Percebemos, no entanto, que muitas pessoas nunca “atinaram” para o problema. As redes sociais têm mostrado e demonstrado que as pessoas estão perdendo a capacidade de dialogar. Em parte essa culpa vem de algumas concepções educacionais e filosóficas que invertem a ordem dos processos mentais no afã de estimular a criticidade que se esconde sob o fantasma da opinião e da intenção subjetiva. Opinião de quem se pensa como capaz de efetivamente julgar indiferente de uma análise fruto de uma deliberação, e sim a partir do critério dos “achismos” ensimesmados que ecoam como vontade de quem se manifesta.

Pensar a linguagem não é tarefa fácil, tanto quanto não é fácil discutir ética, política e metafísica, mas lançar alguma luz sobre o assunto pode nos ajudar a melhorar a comunicação de modo a refletir em nossa postura dialógica. No ambiente virtual esse problema é mais impactante posto que nem sempre podemos ver a linguagem corporal e ficamos ainda mais condicionados a incompreensibilidade de que se comunica conosco.

Desse modo, ao apresentar essas poucas linhas sobre entender e concordar que fique claro que a minha intenção é abrir uma discussão e não encerrar o assunto.
Com efeito, estou explorando, a grosso modo, um tema filosófico caríssimo a muitos colegas filósofos e linguistas e meu interesse é apenas partilhar um pouco do que tenho pensado sobre este problema filosófico.

Quando acentuamos a diferença entre entender e concordar queremos dizer que se trata de dois grandes movimentos realizados no interior de nosso aparelho cognitivo com nítida repercussão na tomada de nossas decisões cotidianas, das mais banais as mais importantes decisões morais que podemos tomar ao longo da vida.

O que significa entender? O que queremos dizer quando afirmamos que entendemos alguma coisa?
Ao afirmarmos que estamos a entender alguma coisa, queremos, com efeito, dizer que o conjunto de informações transferido pelo comunicante é inteligível. Significa dizer que o nosso aparelho cognitivo decodifica os sinais recebidos e os compreende, são claros e possuem sentido de modo que o conteúdo manifestado não é obscuro. Entender, portanto, é ter clareza sobre um conteúdo informado em uma mensagem comunicada (comunicação de qualquer natureza escrita, falada, codificada, etc.). O entendimento passa pelo trabalho mental de tradução dos sinais recebidos, são analisados e decodificados para formar uma mensagem coerente e inteligível. Quando uma ou mais dessas etapas falha a mensagem fica incompleta e incognoscível para quem a tem em mãos. Uma forma de visualizarmos o que estamos analisando é imaginar situações em que a informação de uma mensagem está incompleta. 

Por exemplo, um mapa incompleto é incapaz de informar uma localização. Um texto fragmentado não informa seu conteúdo com eficiência. Em ambos os casos a inteligência para ter acesso à informação precisa preencher a lacuna que interrompe a cadeia que estabelece a coerência entre os sinais presentes na mensagem, tal qual um quebra-cabeças que estando incompleto não apresenta a imagem inteira, mas apenas a apresenta parcialmente.

Desse modo, a inteligibilidade passa pela tradução dos sinais, sua análise e estruturação, de modo que a mensagem apresente sentido e coerência para quem a recebeu.
Entender algo é identificar ordem, coerência e significado em uma informação que recebemos. Evidentemente, a linguagem humana não é unívoca e, portanto, em suas várias camadas e estruturas de sentido e significado podem como muitas vezes acontece não ser totalmente claro apresentando ambiguidades e limitações discursivas que podem ou não ser propositais.

A importância da gramática, lógica, retórica e sintática se nos revela importante justamente porque nos ajuda a corrigir e a aperfeiçoar nossa capacidade comunicativa.
O grande lema dos filósofos analíticos do inicio do século passado enfatizava o papel da lógica como ferramenta de clarificação de conceitos. Para esses filósofos quanto mais claro é a mensagem, melhor é o argumento, posto que a coerência interna do pensamento é preservada pela clareza da exposição das ideias.

Por outro lado, quanto mais obtusa é a mensagem, pior o argumento, posto que a coerência interna do pensar fica comprometida pela falta de clareza que as conexões entre os conceitos apresentam no raciocínio do comunicante.

Há ainda um elemento importante para o êxito da comunicação, a saber, o reconhecimento do número de significados e sentidos que um sinal possui e os limites que a polissemia dos termos impõe à linguagem. O limite de significados e sentido permite ao vocábulo comunicar uma mensagem porque esse limite faz referência, isto é, sinaliza algo para o interlocutor que recebe a informação. Sem referencial entre o sinal linguístico e o objeto que se quer comunicar a mensagem fica comprometida.
Sendo assim, a clareza, o referencial que liga o sinal ao objeto a ser comunicado o entendimento e a comunicação se tornam muito difíceis se não impossível.

Concordar é outro movimento do intelecto, um movimento de adesão e assentimento ao conteúdo recebido. Parece meio óbvio dizer o que afirmamos acima, mas acontece que tem muita gente concordando sem saber com o quê concorda. A prática de dizer sim ao contrato sem ler muito recorrente quando instalamos um programa no computador ou no celular também é recorrente quando se trata de abraçar esquemas intelectuais, ideologias e mesmo modelos religiosos. Concordar só possível depois de entender. Porque a mensagem clara e a informação nítida me permite avaliar, isto é, criticar o conteúdo para que eu possa assentir ou não ao que se me apresenta.

Evidentemente, nem tudo que lemos e ouvimos exige de nós esse esforço de concordância. Mas quando se exige de nós esse movimento intelectual de assentimento a um determinado conteúdo este só pode ser feito se conhecemos as consequências dessa adesão. Por isso, é importante se informar a respeito de ideias que nos chamam a atenção, teorias que se propõem desvendar os segredos do mundo ou oferecer sentido a vida. Antes do engajamento se faz necessário meditar, perpetrar a contemplação das ideias e conceitos para que possamos assentir ou não. Dizer sim ou não ao que se apresenta como uma resposta a uma questão, um dilema ou um problema.

Que fique claro que concordar é assentir tanto quando cedemos ou construímos consenso com alguém, como quando dizemos isso faz sentido, é verdadeiro etc.
A concordância é uma adesão, isto é, é uma aceitação, sua disposição é afirmativa enquanto performance intelectual diante de uma informação e uma mensagem recebida.

Enquanto entender diz respeito apenas a compreensão do que é informado, ou da clarificação da informação trocada entre o remetente e o destinatário. O concordar é um passo adiante, implica numa escolha assentida na direção da informação trocada.

Entender e concordar são diferentes, entender é fundamental para a boa comunicação, e concordar só faz sentido se se está ciente dos riscos. Não há comunicação possível sem entendimento, mesmo em um monólogo. Não há concordância sem a coerência que me faça perceber que o meu concordar é um compromisso que assumo com ideias e ideais que eu acredito ser compatíveis com o meu estilo de vida e os valores que penso são corretos, verdadeiros e que dão sentido a vida que escolhi viver.

Brener Alexandre 19/04/2020

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

O naufrágio da oportunidade – considerações sobre o pragmatismo na política


Um dos conceitos mais importantes da ética filosófica e da teologia cristã é o conceito de kairós. Esta palavra de origem grega expressa uma ideia de tempo junto com outras palavras tais quais: chronos, hama, aíon(respectivamente: tempo, simultâneo e eterno numa tradução livre). Kairós é traduzido para a língua portuguesa como “momento oportuno”, “oportunidade” quando lido nos textos filosóficos e na teologia se refere ao “momento propício para a salvação”, isto é, exprime o caráter soteriológico, salvifíco que a vinda de Jesus Cristo, sua morte e ressurreição trazem para todo aquele que acolhe a mensagem do Evangelho.

Aristóteles nos ensina que a virtude (excelência na ação) depende também das condições em que a ação se dá para que o resultado seja o melhor possível.  Resultado melhor não é meramente uma vantagem obtida com a ação, mas o cumprimento adequado da finalidade que se espera da ação para que o bem buscado pelo agente frutifique como ação justa e bela.

Desse modo, Aristóteles estabelece que a ponderação para a escolha dos melhores meios com o objetivo de atingir o fim desejado precisa ser filtrada pela prudência (phronésis) que contabiliza as consequências e ajusta o timing da ação para o agir seja, com efeito, virtuoso.
Maquiavel também no Príncipe indica que ter oportunidade para agir, mas não possuir virtude e sorte (virtú e fortuna) pode malograr a ação e destruir verdadeiro objetivo do agente político, neste caso, a manutenção do poder.

Diríamos então, que prudência e canja de galinha não fazem mal a ninguém como diz o provérbio popular. A prudência é a virtude intelectual que ajuda o ser humano na tomada de decisões, é o “pé atrás” que nos põe a “pulga atrás da orelha”. É ela que separa a intenção de apenas buscar um resultado “satisfatório” de um resultado “eficaz e eficiente” como se diz na ética das virtudes.
Em Como Ganhar uma eleição, carta de Quintus Túlio Cicero endereçada ao seu irmão, orador, filósofo, senador da República Romana Marco Túlio Cicero que em 64 a.C. concorreu a eleição para o consulado (seria uma espécie de primeiro ministro fazendo uma analogia bem grosseira da função do cônsul na República, eram eleitos dois Cônsules). Nesta carta Quintus apresenta vários conselhos a seu irmão para ajuda-lo na corrida eleitoral, muito do que lemos neste texto antigo ainda é usado por candidatos nas eleições no mundo inteiro.

Em um dado momento da carta Quintus escreve a seu irmão: “um candidato deve ser prático, adaptando-se a cada pessoa que ele encontra, mudando sua expressão e fala conforme o necessário” (Cicero, Como ganhar uma eleição, 42). Esse conselho em particular reflete todo o teor do texto ciceroniano e a natureza pragmática que ele comporta. O agente político deve se adaptar para alcançar seus objetivos em síntese é isso que Quintus quer dizer ao irmão. Quer vencer a eleição o método é, por exemplo, dizer as pessoas o que elas querem ouvir, ou comunicar a cada um com quem você se encontrar que ela é especial etc. O resultado virá, mas a que custo? Esse utilitarismo tacanho beneficia a quem? (não estou evidentemente discutindo a grandeza de Cicero como político ou como escritor) A oportunidade naufraga no oportunismo e o pragmatismo com seu utilitarismo tacanho demove qualquer possibilidade de florescimento da virtude.

Numa eleição os únicos que se beneficiam do pragmatismo são os candidatos que alcançam o resultado que almejam, não por espírito público no mais das vezes, mas por interesses pouco republicanos em muitos casos (isso não significa que devemos demonizar a política. Maus políticos são resultado na maioria das vezes de nossas escolhas ruins e precisamos assumir nossa responsabilidade), de fato, numa democracia o poder reside no uso da palavra, no discurso. 

Todo agente político e o cidadão que vota é agente político também precisa compreender que a fonte de poder passa da palavra ao voto e do voto a palavra. Por isso, a democracia prima pelo conflito e pelo contraditório, prima pela descentralização do poder dividindo-o em partes, para que ninguém tenha o monopólio do discurso e da força.

Compete a todo agente político evitar o pragmatismo que ignora a prudência em nome do resultado, que contabiliza apenas a utilidade e suprime a excelência. Pensar o kairós, a oportunidade para agir com virtude é tarefa de todo agente político, de todo cidadão que toma parte na comunidade política com seu dinamismo.

Quintus ajudou seu irmão a vencer uma eleição, os marqueteiros têm ajudado muitos candidatos a ganhar outras nos dias de hoje, compete a nós eleitores pensar as entrelinhas dos discursos que ouvimos, agir com prudência, suspender o juízo antes de uma tomada de decisão que pode por tudo a perder.

Brener Alexandre 28/02/2020

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Hooligans: do esporte a política


Anos atrás repetíamos o adágio: “brasileiro devia discutir política como discute futebol”. Se soubéssemos o tamanho da bobagem contida nesta sentença, já haveríamos de nos arrepender de tratar um assunto tão sério com leviandade.
Não só não deveríamos discutir política como se discute futebol, como não deveríamos sequer discutir o futebol como se discute futebol.

A paixão, a afetividade desempenha um papel fundamental no estádio de futebol, inflama o torcedor que canta, vibra positivamente ou não reagindo aos atores em cena. Dentro do estádio, na roda de amigos durante o jogo, ou mesmo num bar. Antes do jogo, ou depois dele o que deve imperar é a razão. Esse precioso elemento que por vezes esquecemos ou simplesmente ignoramos quando falamos de futebol. O torcedor não pode ser só afetividade, não pode ser só coração, precisa da racionalidade para ler os fatos e ser justo com o seu time, o adversário e a arbitragem.

Conhecemos o fenômeno do hooliganismo no esporte marcando a atuação vergonhosa dos torcedores violentos. Violência física, violência verbal. Constranger e intimidar essas são as características do hooligan. No Brasil poderíamos usar a expressão “clubismo” como essa espécie de violência, pois, o clubista vê apenas as cores do seu clube, percebe apenas as necessidades do seu time do coração, pensa apenas nas vantagens que podem beneficiar o seu time. São violentos? Não, o são fisicamente (quero dizer em geral não o são), mas o são ideologicamente, pois são incapazes de diálogo. Não conseguem confrontar ideias e olhar sob perspectivas diferentes. Dito de outro modo, o clubista faz violência a sua maneira quando fecha os olhos para a realidade dos fatos em nome das cores do time do coração.

Infelizmente, importamos esse comportamento para o debate público, suspeito que ele já existia muito antes da polarização na qual estamos inseridos em tempos hodiernos.  E que agora com as mídias sociais e o acirramento do debate público esse comportamento tenha ganhado proporções que devem nos levar a refletir sobre o nosso modo de debater ideias.
As discordâncias fazem parte do regime democrático, não há democracia onde há unanimidade, não há democracia onde não há contraditório. Platão no diálogo Sofista escreve: “O pensamento é um diálogo de si consigo mesmo” (cito de memória). O pensamento é dialógico, precisa ver outras perspectivas, precisa do contraditório para se encaminhar à verdade. Se o raciocínio é um diálogo, quanto mais não o seria o debate de ideias?
No entanto, o que presenciamos no debate público é o que Platão chamou no diálogo Eutidemo de “mistérios sofísticos” onde os argumentos dançam, rodopiam e se entrelaçam para agredir e derrubar o interlocutor. Na peça platônica Eutidemo e seu irmão instrumentalizam o discurso para atingir um único fim: vencer. Não se trata de ter razão, não se trata de expor a verdade, trata-se de ganhar a discussão, no grito, por meio da violência.

Se debatêssemos as razões (motivações) das pessoas e as refutássemos com base em outras motivações legítimas teríamos, então, um debate saudável em torno de ideias e construiríamos uma democracia sólida onde as instituições nos orientariam para o império da lei. Discordaríamos sim, o que é natural em uma democracia sólida, porém, sob o império da lei e da razão aprenderíamos com nossas discordâncias, estabeleceríamos consenso e repudiaríamos os excessos. Se não podemos ser tolerantes com os intolerantes como escreveu Popper, também não podemos tolerar os abusos contra as instituições e a violência generalizada no debate público que assassina reputações, cerceia liberdades individuais e reduz ao silêncio cidadãos que estão cumprindo seus deveres e tem seus direitos respaldados pela constituição.

Não podemos aceitar mais que os hooligans pautem o debate público, é preciso enriquecer o diálogo para enriquecer a democracia incipiente brasileira.
E só podemos fazer isso se mudarmos nossa forma de discutir política, isto é, deixando as paixões de lado, o “clubismo” partidário-ideológico, e como Sócrates na República de Platão em diálogo franco com Polemarco buscando a justiça reveza com seu interlocutor por que um bem tão importante não pode ser ocultado por nenhuma das partes como o filósofo explicou para o sofista Trasímaco.
Em suma, ou mudamos a forma de debater ideias condenando ao ostracismo a violência que segrega quem pensa diferente ou, então, jamais construiremos uma república de fato em nosso país.

Brener Alexandre 20/09/2018

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Amor secular e amor cristão - A linha de passagem entre duas formas de amar

Amor secular e amor cristão – A linha de passagem entre duas formas de amar

Vi perambulando pelas redes sociais a seguinte frase: “Uma geração de jovens com menos de 18 anos com a vida emocional destruída por buscar um amor em pessoas, um amor que só encontramos em Jesus”. Deparei-me com dois problemas ao ler essa frase, uma de ordem ética e outra de ordem teológica. E gostaria de refletir sobre esses dois problemas para que possamos entender o porquê dessa frase não exprimir de modo adequado aquilo que os apóstolos, principalmente São Paulo ensinaram sobre a vida cristã e o amor tal qual é compreendido no cristianismo.

Começarei pelo problema teológico, pois ao resolvê-lo o problema ético se dissolverá quase que automaticamente. A questão teológica que se coloca de forma problemática na frase citada diz respeito ao conceito “amor” usado no texto.  A palavra amor é usada com dois sentidos distintos ao falar dos jovens que tem a vida emocional destruída por buscar “amor em pessoas”, o autor fala do amor cuja perfeição provém de Deus, mas que nas relações humanas se dá sempre de modo imperfeito. Desse modo o amor manifestado entre os jovens é nesse caso um amor romantizado, idealizado e carregado de “erotismo”. Por erotismo não é necessariamente o conjunto de práticas que chamaríamos de “sexuais”, mas um conjunto de práticas que envolvem a atração, física e ou intelectual que gera e desperta o interesse entre os jovens.
Enquanto o amor em sua forma acabada e que só pode ser “encontrado em Jesus” seria algo superior, e portanto, jamais se encontraria nessas relações imperfeitas. A concepção teológica que estamos esboçando nessa análise remete diretamente no plano existencial, pois os jovens estão tentando preencher um vazio de ordem existencial com um amor imperfeito. Por outro lado, esse preenchimento só é possível e encontrado em Jesus. Tal é a situação- problema que se apresenta para nós.

O grande problema teológico que se coloca no que tange o conceito de amor é que a vida cristã é orientada desde o início da Igreja para refletir nas relações interpessoais o amor de Jesus. Isso é ainda mais evidente quando compreendemos a dimensão comunitária da Santíssima Trindade na qual o Pai, o Filho e o Espírito Santo se tornam o modelo comunitário por excelência baseado na relação de amor e equidade de todos para com todos. Desse modo, o amor secular é sempre imperfeito, mas não o é porque meramente não reflete essa relação trinitária perfeita, mas porque o amor secularizado principalmente na sua dimensão erótica é sempre amor interessado, ao passo que o amor na sua forma acabada é sempre desinteressado. Há outro aspecto que não nos pode escapar de vista, o sentido hebraico, vale dizer, dentro da tradição judaica da palavra “amor” é bastante diferente dos usuais grego e latino.

Vamos resgatar esse sentido? Para entendermos o sentido bíblico-teológico do amor na vida cristã. No livro do Deuteronômio encontramos “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças” (Dt 6,5). E em Levítico está escrito “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19,18). Esses dois trechos da lei de Deus são retomados pelo evangelista Lucas e introduzem a parábola do bom samaritano (Cf. Lc 10, 25-37). A parábola ensina o que é ser “próximo” de alguém, e entender essa lição implica compreender o significado do amor pedido pela lei de Deus. Um amor que não é um mero gostar, um simples sentimento, mas é um agir de santidade que se expressa como “fazer bem”, oferecer o melhor que somos e possuímos para o outro. O primeiro Mandamento é uma radicalização do segundo quanto a intensidade, pois só a Deus é reservado um amor e cuidado que tome todo o nosso ser. Ao próximo cabe fazer o bem que fazemos a nós mesmos. Assim, o reconhecimento ético do outro como próximo passa pelo fazer-se próximo do outro.

Desse modo a regra de ouro (Cf. Mt 7,12) exprime o aspecto ético dos mandamentos divinos, uma ética profundamente teológica em que o amor não tem por primazia uma afetividade ingênua, mas um agir movido pela santidade. Santidade exigida pelo próprio Deus: “Sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus sou santo” (Lv 19,2). Santidade que o evangelista Mateus traduziu como perfeição. “Sede, portanto, perfeitos como vosso pai celeste é perfeito” (Mt 5,48) e Lucas traduz por misericordioso: “sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36). Ambos evangelistas traduzem a santidade, pois a perfeição de Deus se exprime como santidade na forma da justiça seja dentro do horizonte legalista que Mateus quer combater ou de Lucas que escreve a Teófilo um amigo seu de origem grega. No caso de Lucas a perfeição de Deus se manifesta principalmente em sua capacidade de se compadecer dos homens, coisa que no horizonte religioso da Grécia pagã era algo inconcebível. Seja em uma concepção filosófica das religiões pagãs, seja na religião tradicional a divindade jamais se importaria com os seres humanos. Para a compreensão filosófica um deus que se importa com mortais não preenche o requisito perfeição, pois sendo uma divindade só poderia se preocupar com coisas eternas e perfeitas como ele mesmo. E para a religião tradicional os deuses são em suma egoístas demais para se importarem com mortais, para eles meros acessórios que satisfazem suas vontades pelo culto ou pelos seus próprios interesses. Em outras palavras, os evangelistas ao compreenderem que a santidade é uma perfeição que se exprime como justiça e misericórdia abrem um novo caminho ético que estava presente na cultura judaica, mas que ainda não havia ganhado o significado universal que o cristianismo por si só pode alcançar.

Portanto, há uma intima relação entre o amor a ser encontrado em Jesus que o texto sugere e a prática desse mesmo amor entre pessoas que aderem ao cristianismo. A própria sacramentalidade do matrimônio depende da prática desse amor, pois o matrimônio é o sacramento que imita a relação unitiva entre Cristo e a Igreja (sem contar a relação de complementaridade expressada em Gn 2,24). A natureza teológica do amor é fundamental para todas as relações cristãs no âmbito pessoal e social e precisa ser cultivada como parte de um exercício que tem Deus como fonte da qual brota a referência do justo e do direito expressos no modo de ser de Deus em sua essência e constituição ontológica e não como meros acidentes ou atributos que complementam o que Deus é.

Traduzindo em miúdos se levássemos essa frase as últimas consequências somente religiosos que se dedicam inteiramente a vida religiosa (consagrados, padres etc) encontrariam esse amor de que a frase fala com tanta leviandade. Afinal, nas relações entre pessoas dificilmente encontraremos esse amor abstrato. No entanto, quando aprendemos a ser “imitadores de Deus como filhos queridos” como pede o apóstolo Paulo aos efésios que insiste “vivei no amor, como Cristo também nos amou e se entregou por nós como oferenda e sacrifício de suave odor” (Ef 5,1-2), então, nos tornamos capazes de experimentar esse amor que é “benfazejo; não é invejoso, não é presunçoso nem se incha de orgulho” (1Cor 13,4).

O grande problema dos jovens com mais ou menos de 18 anos no que se refere ao amor, sejam cristãos ou não cristãos, é que transformam o ato de amar em algo imanente e totalmente voltado para a satisfação de si. Até mesmo as amizades tem se válido desse modus operandi e faz com que os laços se tornem muito finos e efêmeros começam e somem sozinhos. Nas relações interpessoais o cristão é convidado a amar como Cristo ama a Igreja ou o próximo (Cf. Ef 5,25 e Jo 15,12). O amor secular busca obter benefício em todos os sentidos possíveis. Normalmente tem caráter imanentista e recusa ou diminui o papel de um ser transcendente como modelo que orienta a ação e garante sentido.

A frase, entretanto, exprime em um sentido mais fraco (que creio ter sido a intenção de seu autor) uma verdade inegável. Em Jesus encontramos o modelo do amor de Deus que devemos imitar. Nele os jovens, adultos e idosos e crianças encontram a forma basilar e mais perfeita do amor que é justamente o bem querer e o bem fazer que nos faz próximos uns dos outros. É preciso, portanto, fazer a passagem do amor secular para o amor cristão. Os cristãos são chamados desde o batismo a viver essa experiência que nos santifica. A santidade não é um alto grau que nos separa do resto da humanidade e que nos permite julgar e condenar os que não alcançaram esse estado de vida, ao contrário, a santidade é um convite à virtude na qual nunca estamos totalmente conscientes da nossa santidade e a vemos sempre como processo de uma caminhada que precisa ser feita em íntima relação com Deus (na oração e na vida mística) e que deve refletir nas nossas relações interpessoais fazendo valer os mandamentos de Deus como o pedido de um pai que quer ver seus filhos se dando bem uns com os outros. Se possível gostaria de retornar a esse tema, mas por hora ficaremos por aqui.


Brener Alexandre 07/07/2017

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Entrar ou sair do coração de alguém dói: pequena reflexão sobre as relações humanas

O coração é desde a antiguidade o órgão que representa o ser humano por inteiro, suas dimensões racionais e afetivas, suas virtudes e vícios, ou seja, tudo o que ele é como ser humano em sua humanidade sem fragmentar-se é coração. Por isso, falamos ainda hoje do coração como lugar do nosso ser e não a nossa cabeça embora admitamos ser a cabeça o lugar da razão. A antropologia bíblica e a antropologia filosófica do pensamento arcaico (poesia grega principalmente) atestam o coração como centro da humanidade.

Compreendendo o significado do coração como imagem do nosso íntimo, pergunto: por que entrar ou sair do coração de alguém dói? Como é esse doer? A imagem à qual irei recorrer para responder essas duas perguntas é fruto de um sonho que tive. A imagem é uma dinâmica, exercício no qual realizamos uma experiência concreta do que desejamos ensinar. A imagem foi construída do seguinte modo: um grupo de pessoas formando um aglomerado dentro de uma tenda sem iluminação interna. A pessoas entravam e não saiam inicialmente, quem estava do lado de fora não ouvia barulho vindo da tenda, era como se ela tivesse isolamento acústico.

As pessoas eram convidadas a entrar na tenda que já contava com um grande número de pessoas. A primeira sensação: medo, porque não sabemos o que acontece dentro da tenda. A segunda sensação: curiosidade, queremos saber o que há no interior da tenda descobrir o que se passa lá dentro. A terceira sensação: coragem, você se dispõe a enfrentar o medo inicial e resolve entrar na tenda. A quarta sensação: o desejo, o desejo te move e você adentra a misteriosa tenda escura.

Essas quatro sensações iniciais não se manifestam nessa ordem e muito menos podem se manifestar todas de uma vez. Pode ser que você sinta apenas medo, ou coragem, desejo ou curiosidade ou nenhuma delas. Dentro da tenda está escuro, você esbarra nas pessoas pode tropeçar no meio delas enquanto entra na tenda, pode até se machucar com uma cotovelada, tapa, soco, chute e com muitas agressões voluntárias e involuntárias. Isso acontece porque não sabemos com o que ou quem estamos lidando dentro da tenda e nesse percurso é parar dentro da tenda no oculto da escuridão ou caminhar para achar a saída, só há duas possibilidades ficar ou sair. Se sairmos ou ficarmos haverá consequências, ninguém escapa ileso da tenda. Quando se sai, a saída é sempre angustiante, dolorida, saímos marcados no corpo, na alma pela experiência de andar entre tantos na escuridão. Essa é a imagem que a dinâmica propõe, e o que ela ensina?
Entrar na vida de alguém, isto é, entrar no coração de alguém é entrar nessa tenda, a gente não sabe o que vai encontrar, e nem sabemos se vamos ser capazes de permanecer.

As quatro sensações experimentadas antes de entrar são as sensações que podemos sentir dentre tantas possíveis quando conhecemos alguém. É natural que tenhamos medo, curiosidade, coragem e desejo em relação às pessoas que conhecemos. O medo por não saber o que esperar, ou como as pessoas irão reagir. A curiosidade de saber como é conviver com aquela pessoa ou de entrar no universo da vida dela. A coragem e o desejo de se arriscar e investir na relação. Em suma, são os primeiros passos em qualquer relação humana.
A tenda é escura porque assim como o coração de qualquer pessoa nós somos incapazes de saber quantas pessoas ali habitam, quantas tem um lugar especial na vida do outro quantas pessoas estão disputando o mesmo espaço no coração de alguém. Por isso ao entrar e caminhar no coração de alguém ficamos sujeitos a todo tipo de “agressão” algumas voluntarias fruto da disputa pelo lugar, outras involuntárias fruto do nosso querer que nos põe em conflito com o que não compreendemos ou aceitamos na vida do outro, o ciúme, a inveja, a insegurança são alguns dos elementos que podem nos machucar nesse processo.

Desse modo, só há duas possibilidades. Sair ou ficar, em ambos os casos haverá conflito, haverá disputa por espaço, mas quando sair haverá a frustração e as marcas da experiência gerada pela tensão no interior do coração do outro.

O coração é lugar da intimidade, e sempre haverá disputas quando queremos fazer parte da vida de alguém. Entrar ou sair do coração de alguém dói, portanto, porque implica saber caminhar em território desconhecido no escuro confiando no convite para permanecer com. Se não somos capazes de fazer essa experiência de confiança somos expulsos do coração por nós mesmos, que provocamos a nossa expulsão. Essa dor é a frustração, mas também é a dor do medo e da insegurança que são constantes em nossas vidas principalmente quando não confiamos em nós mesmos e refletimos essa desconfiança nos outros.


Brener Alexandre 13/04/2017

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Retrocesso

Dou um passo atrás e outro e outro
Refaço meus passos devagar procuro minhas pegadas no chão.
Dou um passo atrás, perfazendo o processo ao contrário.
Convirjo, me arrependo, reflito e me abstenho.

Todo retrocesso é conversão
Toda conversão é reconstrução
Das escolhas que fazemos,
Do modo de vida que queremos,
Da caminhada percorrida,
Olhando os malogros da vida.

Dou um passo atrás do outro palmilhando no sentido contrário,
Percebo algo errado em mim, no caminho, na caminhada.
Vejo equívoco ao percorrer essa estrada.
Refaço os meus passos devagar quase parando...
Reflito, e me volto para mim mesmo, para o mundo que está girando.

Todo retrocesso é conversão,
Marcha para trás, reflexão.
Todo retrocesso é reconstrução,
Revisão dos caminhos errados,
Das escolhas apressadas,
Da sinalização confusa.

Dou um passo atrás e refaço a caminhada de trás pra frente,
Volto atrás, virada de reconstrução.
Dou meia volta correção do percurso.
Retrocesso não é atraso é marcha repensada
Retrocesso não é perda de tempo, coragem necessária,
Que revê a caminhada,
Que delibera com cautela,
Fonte de prudência,
Que extirpa nossas misérias.


Brener Alexandre 30/06/16

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Cartas a Lucílio: carta 5: como deve comportar-se o verdadeiro filósofo

Então, pessoal! Estou trazendo hoje uma tradução de uma das cartas do filósofo estoico Sêneca ao seu amigo Lucílio. Infelizmente não fiz uma tradução direto do latim e, portanto, é possível que haja problemas com o texto traduzido. prometo que depois  pego o texto original para corrigir possíveis erros.

A tradução italiana que usei para fazer a minha tradução é da edição Tutti gli scritti organizada por Giovanni Reale a numeração em colchetes segue a numeração que está na edição italiana.

Essa carta é importante particularmente aos que como eu se interessam pela filosofia como modo de vida. Nessa carta Sêneca exorta seu amigo a dedicar-se a vida filosófica e lhe dá os passos para que o faça do melhor modo possível. 
Essa carta é na minha opinião um verdadeiro remédio para alma filosófica, nela descobrimos que ser filósofo está acima de aparentar-se com o filósofo, mas de viver como  filósofo no meio das pessoas sendo-lhes uma referência que chama para a virtude, a justiça e o decoro. 

Esta carta traz consigo informações preciosas sobre a psicagogia estoica (a condução da alma por meio de exercícios espirituais) um verdadeiro tratado de espiritualidade filosófica e um convite à filosofia mostrando que o filósofo pode e deve viver com os demais sendo diferente sem ser extravagante. 

Espero que apreciem a leitura desse clássico da filosofia antiga romana.

Brener Alexandre.

Cartas a Lucílio
Carta 5: Como deve comportar-se o verdadeiro filósofo
[1] Que tu te aplicas com empenho, deixando de lado todo o resto, unicamente para melhorar te todo o dia, eu o aprovo e me satisfaço, e não somente te exorto a perseverar, mas lhe imploro. Te advirto, pois, de não fazer nada de extravagante no que diz respeito ao teu estilo de vida, como aqueles que não desejam progredir, mas fazer-se notar; [2] evite vestir-se com desleixo,  deixar os cabelos longos e a barba se aparo, evite declarar ódio aos talheres e de dormir sobre a terra nua; evite todo procedimento que vise somente chamar atenção. O nome da “Filosofia” já é bastante impopular, mesmo quando praticada com discrição: o que será, pois, se começarmos a nos esquivarmos dos hábitos comuns dos homens? Em nosso íntimo sejamos em tudo diferentes, mas o nosso aspecto exterior esteja de acordo com o das pessoas.
[3] A toga não seja brilhante, mas também não seja imunda, não tentamos possuir talheres cinzelados em ouro maciço, mas sequer consideramos sinal de frugalidade não haver em absoluto ouro ou prata. Comporta-te de modo a levar uma vida melhor que das massas, caso contrário acabamos por pôr em fuga e mantemos afastados de nós aqueles que também querem melhorar, e não querendo imitar nada do que fazemos, temendo imitar tudo.
[4] A Filosofia promete bom senso, humanidade e sociabilidade; mas, se nos diferenciarmos muito dos outros na maneira de viver, como poderemos dar-lhes prova? Lembra-te que com o comportamento queremos suscitar admiração e não provocar o riso e o desprezo. Certamente o nosso propósito é viver segundo a natureza: mas é contra a natureza atormentar o próprio corpo, abominar os mais elementares cuidados de higiene, procurar um aspecto horrendo e alimentar-se com alimentos pobres, nojentos e repugnantes.
[5] Como é agradável desejar coisas mais refinadas e por isso é louco para fugir das coisas comuns e de pouco apreço. A Filosofia exige simplicidade, não sofrimento; a simplicidade, por outro lado, pode ser acompanhada de um certo decoro. Me parece justo este critério de medida: a vida combina na justa proporção os costumes do sábio e aqueles da gente comum. Para que todos admirem o nosso modo de viver, e também possam compreender lo.
[6] “E agora? Se comportamo-nos como os outros? Não haverá diferença entre nós e eles?” Haverá muita: quem nos observar atentamente compreenderá que somos diferentes das massas; quem adentrar a nossa casa nos admirará mais do que o nosso mobiliário. Como é nobre aquele que sabe servir-se de pratos de terracota como se fossem de prata, também não é menos certo que se pode servir-se de pratos de prata como se fossem de terracota; é próprio de uma alma débil o não saber suportar a riqueza.
[7] Mas quero compartilhar contigo também o pequeno ganho desta jornada; ler em nosso Hecatão que parar de ter desejos é um bom remédio contra o medo. “Cessarás”, diz ele, “ de ter medo, se cessares de esperar”. Tu me dirás: “como é possível que coisas tão diferentes estejam juntas?” Entretanto é assim meu Lucílio: parece está em contraste, e, ao invés disso, são intimamente conectados. Assim como a cadeia une tanto o prisioneiro quanto seu carcereiro, assim também estas coisas que são tão diferentes procedem de pari passo: o temor tem dentro de si a esperança.
[8] E não me admiro que as coisas se passem assim: ambos estes sentimentos são próprios de um espírito hesitante e ansioso que espera o futuro. A causa primeira de ambos é que não se adaptamo-nos ao presente, mas antecipamo-nos com o pensamento aquilo que ainda está longe; desse modo a capacidade de fazer previsões, que é um bem supremo da condição humana, se transforma em um mal.
[9] Os animais fogem dos perigos que vêem, e uma vez que escapa sentem-se seguros: nós nos deixamos atormentar pelo futuro e pelo passado. Muito dos nossos bens não são prejudiciais; revisitar o passado com o pensamento e estender a mão para o futuro que o antecipa renova o tormento da incerteza; nenhum homem é infeliz somente por causa dos males presentes.

Fique bem!

sábado, 25 de julho de 2015

A Lição de Heródoto: A tirania como constituição da injustiça

No quinto livro de suas Histórias, Heródoto, relata a tentativa de restituir a tirania na cidade de Atenas, e deste modo, suprimir a isonomia recém implantada com a derrocada do filho de Pisístrato, Hípias. Os espartanos querendo suprimir a força que a isonomia deu aos atenienses reúne seus aliados e lhes propõe restituir a tirania conferindo poder novamente a Hípias, porém, Sócles de Corinto nos apresenta o que realmente é a tirania como forma de governo, isto é, como constituição. Para este coríntio a tirania é um mal que deve ser evitado de modo que um governo entre os iguais (isokratia) possa prevalecer como melhor regime político. Vejamos o discurso de Sócles e, então, compreender o que é a tirania e em que medida ela é a constituição da injustiça.

“Sócles de Corinto disse o seguinte: Em verdade, o céu vai ficar por baixo da terra e a terra vai parar por cima do céu, os homens vão morar no mar e os peixes morarão onde antes havia homens, pois vós, lacedemônios, destruindo a isocracia, estais em preparativos para restabelecer nas cidades a tirania, de todas as instituições existentes entre os homens a mais injusta e sanguinária. Se achais realmente um bem para as cidades a submissão a tiranos, começai por instalar um deles entre vós mesmos, antes de tentar instalá-los entre outros povos; agora, porém quereis introduzir tiranos erradamente entre vossos aliados, sem tê-los conhecido por experiência própria, enquanto exerceis a vigilância mais estrita para evitar a sua instalação em Esparta; se tivésseis experiência deles, como nós, poderíeis trazer-nos opiniões mais sábias que as presentes sobre o assunto.” (HERÓDOTO, História V,92).

A afirmação de Sócles começa por constatar que os espartanos desejavam para os outros algo que não desejavam para si próprios, isto é, a limitação do poder político traduzido como liberdade e exercício pleno da cidadania, no entanto, essa liberdade e cidadania não é uma liberalidade, pois a isocracia pressupõe uma constituição que equalize a desigualdade sem que constituição seja destruída. A legislação isocrática reconhece na instituição de deveres e direitos uma igualdade que fortalece as relações do cidadão com a sua comunidade política. Aquilo que os gregos chamavam de democracia, e os latinos de república é uma constituição isocrática por excelência na medida em que a legislação se colocava como mecanismo regulador do poder político, ou na medida em que a lei dá ordenamento e, portanto, regulamenta a forma de fazer política impedindo que indivíduos ou grupos políticos usassem do poder para constranger e reprimir os demais cidadãos. Com efeito, os espartanos desejavam não para si, mas para os seus inimigos a tirania, pois esta cerceava a liberdade dos cidadãos por meio de coerção violenta e desse modo impedia o crescimento e desenvolvimento daquela comunidade política subjugada pelo tirano. Por outro lado, a fala de Sócles revela que a tirania se fosse boa seria desejada pelos espartanos como regime político ideal, mas na verdade os espartanos eram extremamente rigorosos para minar qualquer possibilidade de se levantar um tirano entre eles. Isso nos mostra que a tirania só é benéfica para quem usufrui do poder que ela concede, em outras palavras, a tirania faz jus ao ditado popular: “pimenta nos olhos dos outros é colírio”. A tirania é nesse sentido um regime totalitário, em que poder é exercido com violência por um ou mais cidadãos deformando a constituição vigente retirando direitos e imprimindo deveres que ferem o princípio isocrático  outrora presente na constituição. Sócles continua seu discurso falando de Cípselos e seu filho, ambos tiranos que governaram Corinto com mãos de ferro vejamos um pouco mais de seu discurso aos espartanos.

“Depois de Cípselos ter-se tornado tirano transformou-se no seguinte tipo de homem: ele baniu muitos coríntios, despojou muitos de seus bens e tirou a vida de um número ainda maior. Após reinar durante trinta anos e levar uma existência entremeada até o fim de dias felizes, Cípselos foi sucedido por seu filho Períandros. Inicialmente, Períandros foi mais brando que seu pai, mas após travar relações através de mensageiros com Trasíbulos, tirano de Mileto, passou a ser ainda mais cruel que Cípselos. Ele (Períandros) tinha mandado um arauto a Trasíbulos, com a missão de saber do mesmo a maneira mais segura de pôr em ordem todos os assuntos da cidade e melhor governá-la. Trasíbulos levou o arauto de Períandros para fora da cidade e entrou em sua companhia num campo cultivado; percorrendo um trigal, ele  interrogava repetidamente o arauto a respeito de sua vinda de Corinto, e ao mesmo tempo cortava todas as espigas que aos seus olhos pareciam ultrapassar as outras em altura;uma vez cortadas essas espigas, Trasíbulos jogava-as no chão, até que, agindo dessa maneira, havia destruído as espigas mais belas e mais carregadas de grãos entre todas as existentes na seara. Percorrido o campo, e sem dar uma palavra sequer de conselho, Trasíbulos mandou o arauto embora. Quando este regressou a Corinto Períandros procurou ansiosamente saber qual tinha sido o conselho tão esperado. O arauto apenas respondeu que Trasíbulo não lhe havia dado conselho algum; ele manifestou estranheza pelo fato de Períandros tê-lo mandado procurar um homem como aquele, desequilibrado e destruidor de suas próprias coisas, e em seguida relatou o que vira Trasíbulos fazer. Períandros compreendeu o sentido desse procedimento, e percebeu que o conselho de Trasíbulos era mandar matar os cidadãos que sobressaíssem entre os outros; e desde então ele mostrou toda espécie de malignidade em relação aos coríntios. Tudo que Cípselos havia deixado inacabado em matéria de assassínio e banimento Períandros terminou. (...) Isso é a tirania, lacedemônios, e assim ela age. (...) Conjuramo-vos, em nome dos deuses dos helenos, a não instituir tiranos nas cidades. Não desistireis de vossos desígnios e ireis insistir, contra a justiça, em trazer Hípias de volta? Ficai sabendo, então, que ao menos os coríntios não concordam convosco.” (HERÓDOTO, Histórias V,92).

Nesse longo relato de Sócles de Corinto podemos ver a natureza da tirania e porque a sua instituição fere a justiça e a isocracia. O tirano exerce o seu poder como império, isto é com força excessiva, com violência. Para assegurar o seu poder ele retira o poder dos demais, não tolera aqueles que se sobressaem e que, portanto, podem se destacar dos demais. Desse modo, cria dispositivos para suprimir os direitos e impondo o dever de obedecer sob coação, por meio de pilhagem na forma ou não de impostos abusivos e desapropriação de bens. A igualdade é sempre colocada para outros de modo que o tirano esteja sempre acima dos demais e acima da constituição que deve sempre lhe beneficiar. O tirano é, em suma, desequilibrado pela sede de poder e por não ter a lei como régua e como limite para o exercício do poder.

Toda forma de ditadura é tirania, porque vê a constituição como um simples acessório e não como a carta magna que regula a vida da comunidade política. Usa-a para atingir o poder, mas limita ou modifica a mesma constituição para se perpetuar no poder. Além, de desejar controlar todas as forças institucionais do Estado para si e, assim ter o controle sobre tudo e sobre todos, dizer o que é o certo e o que errado eliminando toda possibilidade de diálogo, abrindo brecha para a corrupção ao agregar um poder absoluto.

E, se, portanto, a justiça é conferir a cada um o que é seu, a isocracia seria em termos de constituição a forma mais justa e a tirania o seu oposto, pois impede por meio da violência que cada um desenvolva seus talentos naturais, isto é, se sobressair de forma justa amparado pela constituição e a legislação que regula na forma da lei qual é o critério que torna justo ou injusto o crescimento de alguém. A igualdade perante a lei equaliza por meio da lei o que é naturalmente desigual. Conferindo direitos e deveres iguais a todos conscientizando cada cidadão da sua responsabilidade por fazer da sua comunidade política uma comunidade mais justa e menos violenta.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Ben Hur e a experiência do encontro com o Senhor

Esse final de semana tive a oportunidade de assistir a um remake do clássico Ben Hur. Aos que gostam de filmes épicos como é o meu caso é sempre um deleite e não percebi exageros como normalmente acontece nesse gênero de filmografia.  Mas gostaria de partilhar com os meus leitores algo que me chamou muito a atenção no filme. Ben Hur é uma mistura de Conde de Monte Cristo com Crime e Castigo, explico!

Ben Hur ou Judas Ben Hur era um judeu rico de Jerusalém e cresceu com um jovem filho ilegítimo de um senador romano de quem se separa ainda na infância. O jovem retorna a Jerusalém agora como um soldado e tem a missão de escoltar o novo governador da judéia, Pôncio Pilatos. Quem conhece um pouco da história sabe que a ocupação romana não era bem vista em nenhuma das províncias, principalmente porque a pax romana era uma imposição violenta. Em Israel não era muito diferente principalmente pelo conflito de culturas presente no contraste entre o politeísmo romano e o monoteísmo judaico. Naquela época havia vários grupos entre os judeus que viviam e assimilavam a fé de formas diferentes, só depois da destruição do templo em 77d.C. é que o judaísmo de organizou com o grupo sobrevivente, os fariseus.  Dentre esses grupos havia um em especial que causava muitos problemas aos romanos trata-se dos Zelotes que se revoltavam constantemente contra os romanos provocando muitas mortes nos conflitos contra seus conquistadores.

Judas Ben Hur era um comerciante justo e honesto e, quando seu amigo volta para Jerusalém, o jovem Messala, educado a moda romana quer que tudo saia bem porque seu pai o Senador Marcellus Agripa quer por meio de uma manobra política ele assuma o governo da província da Judéia no lugar de Pilatos. E para que tudo dê certo Messala espera de Judas que este lhe conte sobre qualquer invectiva contra os romanos quando da passagem do governador. Ben Hur sabia que havia pessoas que queriam se aproveitar desse evento para promover uma revolta, mas prefere não entrega-los, pois isso seria uma forma de alta traição, mas também não quer se envolver com a revolta por ter boas relações com os romanos e principalmente por ser muito amigo de um romano. Acontece que por conta de uma telha solta Judas é acusado de “dar um sinal para os rebeldes” e é preso junto com toda a sua família e isso inclui a sua noiva e o pai dela. O destino parece selado, Pilatos quer crucifica-lo e matar sua mãe e sua irmã, mas a pena dele é mudada e ele é condenado à escravidão perpétua. Tudo o que Ben Hur deseja é vingança contra seu antigo amigo. Quando Judas está saindo da cidade santa para o seu terrível destino um homem o interpela dizendo: “perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem...” Esse homem era Jesus, o nazareno e este foi o primeiro encontro de Judas com o galileu. 

Depois de uma grande reviravolta Judas é adotado por um romano que lhe dá o seu sobrenome e tudo o que lhe pertence, Judas está disposto a usar todos os recursos para se vingar de Messala e parte novamente para Jerusalém. Ben Hur não sabe que sua noiva e o pai, sua mãe e irmãs estão vivas. No caminho para Jerusalém Judas escuta uma pregação e a ouve por alguns minutos antes de seguir viagem, sua noiva estava lá, mas não o viu, o pregador era Jesus, o profeta da Galileia e o conteúdo de sua pregação é o sermão da Montanha. Judas entra em Jerusalém e readquiri sua casa que estava abandonada sob custódia do governo romano e usando seu nome romano arquiteta sua vingança nesse meio tempo reencontra sua noiva que tenta dissuadi-lo da vingança e exortando-o a perdoar, mas Judas Ben Hur só conhece a lei do “olho por olho” ignorando a lei do perdão. Executa a sua vingança sem saber que suas irmãs estão vivas, e tendo terminado sua vingança vai ao encontro delas, pois estavam doentes, com lepra e só podiam permanecer fora da cidade ou quando muito teriam de gritar “impuro” para afastar as pessoas quando pedia esmola. Quando entra em Jerusalém, um homem condenado à morte de cruz está saindo da cidade ele cai e é duramente açoitado pelos soldados, sua noiva a jovem Esther reconhece o homem caído, mas tomada de tristeza e consternação não diz nada apenas chora e lamenta pelo homem condenado. Judas, por outro lado, ao ver a atitude dos soldados se interpõe contra eles para ajudar o homem, os soldados recuam, Judas estende a mão ao homem caído que lhe diz: “perdoa-lhes porque não sabem o que fazem...” Nesse momento, Judas fica paralisado, mudo e se recorda de ter ouvido anos antes a mesma frase, nesse momento Judas parece se dar conta de estar diante de um verdadeiro profeta de um homem justo. As palavras de Jesus penetram fundo a alma desse homem amargurado pelo desejo de vingança e finalmente liberto do rancor perdoa o amigo que morre.

Libertado, liberta também a outros, Jesus, profeta, justo, santo, ungido é pregado na Cruz e morre, as trevas cobrem a cidade santa, mas a luz não deixa a casa de Ben Hur e sua mãe e sua irmã são curadas da lepra e purificadas pelo perdão.

Assim como Raskolnikov em Crime e Castigo é gradativamente libertado pela doçura e amor de Sônia. Ben Hur é transformado pelo amor de Esther, sua noiva, e pelas palavras de Atene uma prostituta grega que exerce o papel de espiã do senador Marcellus Agripa. Duas mulheres que se portam cada uma a seu modo como “vozes da razão” poderia ser o prelúdio do encontro de duas tradições, Esther seria a personificação da cultura hebraica e Atene a personificação da cultura grega.  E a experiência do encontro com o profeta galileu é o mediador das duas tradições em aparente conflito, mas que caminham lado a lado em busca da justiça e do bom senso. São as palavras de Jesus que acenam para Ben Hur aquilo que as duas tradições por si só não foram capazes de lhe revelar completando o sentido que as duas tradições manifestam cada uma a sua maneira.  A vingança um direito consentido nas duas tradições provoca vazio e diminui a humanidade, e o perdão supera a justiça da retaliação dando novo sentido que extrapola toda forma de marginalidade e de poder que nossa parca humanidade alimenta.


Três encontros e sempre o perdão pelos que não sabem o que fazem. A justiça supera a vingança e a verdade é galgada pelo amor, verdadeira liberdade para o homem.

domingo, 22 de março de 2015

Democracia lugar do lógos do contraditório e dos contrários

Tucídides escreveu no início de sua História da Guerra do Peloponeso que: “quem quer que deseje ter uma idéia clara tanto dos eventos ocorridos quanto daqueles que algum dia voltarão a ocorrer em circunstâncias idênticas ou semelhantes em conseqüência de seu conteúdo humano, julgará a minha história útil e isso bastará. Na verdade ela foi feita para ser um patrimônio sempre útil, e não uma composição a ser ouvida no momento da competição por algum prêmio.” (Tucídides, História da Guerra do Peloponeso I,22).

Tucídides nos ensina que o trabalho memorial da história se preza a nos ajudar a compreender o fenômeno humano, tanto dos que já aconteceram, quanto dos que podem voltar a se manifestar. Nesse sentido a história é um saber dinâmico que sempre se volta para o passado para compreender o presente e evitar um futuro desastroso para todos.
Por isso ao invés de simplesmente recorrer à filosofia enquanto saber perene que nos convida à krísis, vale dizer, nos convida à reflexão crítica da realidade me senti na necessidade de recorrer à história para que aprendendo com ela possa fazer filosofia da história e na história e não apenas história da filosofia.

 Ao invés de procurar os fatos da história recente vou dialogar com um homem muito mais velho que o nosso país para falar do nosso atual momento político. Como foram os gregos que nos legaram um modo peculiar de fazer política e com isso me refiro à democracia, pois, de fato, os mais adequados para nos ensinar o caminho para compreender que toda a forma de despotismo e tirania nos conduz a um estado inferior ou de subserviência que contraria qualquer regime que se pretende democrático são os antigos gregos.

A democracia é o regime político da contradição e do contraditório e só é possível pelo exercício da palavra, do direito à palavra. E, enquanto lugar privilegiado do exercício da fala e do embate pela palavra precisa ser por meio do amparo da lei, com liberdade e verdade para se consolidar como governo do povo e para o povo. Por isso a análise feita por Foucault (quem tiver o interesse de ler mais sobre o assunto temos as traduções da Martins Fontes das obras de Foucault: Hermenêutica do sujeito, Governo de si e governo dos outros e A coragem da verdade) da parresía é de suma importância para a compreensão da democracia como forma de governo em que o poder é exercido pelo uso da palavra. Foucault nos ensina analisando a tragédia Íon que a parresía se manifesta primeiro como isegoria, isto é, como direito igual à palavra perante a lei. Depois a parresía vai significar mais que ter o direito à palavra na àgora (isso é o que significa isegoria literalmente), mas significará dizer o que pensa (nesse sentido a parresía já começa a ser associada a franqueza, sinceridade) e se nos voltarmos para alguns relatos de discussões feitos por Tucídides em sua História da Guerra do Peloponeso perceberemos uma identificação da parresía enquanto o exercício livre da fala e da liberdade de se exprimir como a doxa, vale dizer, com a opinião.

O pensar aqui não é o criterioso pensar filosófico, mas é o pensar no sentido de o que está na cabeça do falante, por isso equivale a opinião, posto que a opinião exprime uma convicção do falante. Quando olhamos para essas duas acepções da parresía percebemos como a fala é mecanismo para a manutenção do poder na democracia antiga (que como todos sabem é participativa e não representativa). Será com a filosofia que a parresía estará associada com o falar a verdade, mais do que ter direito à palavra e exprimir sua opinião, mais do que poder dizer o que pensa o parresíasta agora é aquele que diz a verdade e a diz com franqueza, fala abertamente a todos (no cristianismo a parresía também carrega todos esses traços delineados até aqui. Por exemplo em Jo 11,14 o evangelista escreve: “Tóte oun eipen autois ho Iesous parresía” e ‘Então Jesus lhes disse abertamente’). Quando a parresía se torna sinônimo de ter coragem para dizer a verdade, daí o titulo de um dos cursos de Foucault: “A coragem da verdade” no lembra como esse conceito está imbricado pela política e particularmente pela democracia. Ora, como eu disse anteriormente uma das características da democracia é o contraditório e as contradições que não estão presentes só nas pessoas, mas no próprio regime democrático. E a vida política na antiguidade é permeada pelo exercício da cidadania principalmente quando a assembléia se reunia na àgora (praça do mercado). A parresía, enquanto, franqueza e verdade se opõe diametralmente a retórica e a bajulação, posto que a verdade é  fim em si mesmo, isto é, é uma revelação que embora possa ser útil a todos pode ser extremamente perigosa para quem a diz. A retórica é o instrumento maior para quem pretende domar a assembléia é a ferramenta que se coloca à serviço da persuasão,  a bajulação também é uma forma de buscar conseguir o que se quer de alguém, pois omitindo a verdade eu digo o que o meu interlocutor deseja ouvir em troca de favores ou benefícios persuadindo-o a fazer o que eu desejo. Era assim que funcionava a vida política dos gregos e depois dos romanos no período republicano. Quem sabia falar e conduzir a assembléia tinha nas mãos o poder para decidir e governar.

Apesar de o modelo democrático ter sofrido algumas alterações deixando de ser uma democracia direta para ser uma democracia semi-direta (como é o caso do Brasil), ou seja, há dispositivos legais para que a população possa participar do governo, mas normalmente delegamos a outras pessoas o trabalho de governar o país através do sufrágio, ou voto. Desse modo escolhemos representantes para dois dos três poderes que se fiscalizam mutuamente garantindo que o país funcione e eventualmente e se for necessário a população pode por meio de referendo, plebiscito ou lei de iniciativa popular decidir questões de interesse da população ou mesmo propor leis para serem votadas no congresso nacional. E de fato, muitas questões poderiam ter a atenção do povo (nossa presidente da República, por exemplo, queria que a reforma política fosse consultada por meio de um plebiscito ou referendo, o que foi vetado pelo congresso). No entanto, o exercício da palavra e o embate discursivo ainda se faz presente no nosso meio de vários modos e em vários seguimentos do nosso dia-a-dia político. As redes sociais, as conversas nos grupos de amigos e colegas de escola, trabalho enfim, onde é possível o diálogo e onde é possível exercer a isegoria esse direito à palavra não poupamos esforços quando inclinados ou interpelados a falar de política expressar nossa aprovação ou reprovação pelo que acontece na República. Heródoto nos conta como os atenienses mudaram seu modo de agir quando libertados da tirania de Písistratos, a democracia nos torna senhores de nós mesmos a liberdade para falar é liberdade para agir. Vejamos o que diz Heródoto sobre essa mudança de conduta do atenienses: “Assim cresceu o poder dos atenienses. Não se evidencia num caso isolado, e sim na maioria dos casos, que o direito à palavra (isegoria) é uma instituição excelente (schema spoudaion); governados por tiranos, os atenienses não eram superiores na guerra a qualquer dos povos seus vizinhos, mas libertos dos tiranos eles assumiram de longe o primeiro lugar. Isso prova que, na servidão, eles se conduziam propositalmente como covardes, pensando que serviam a um senhor (despotés); livres, porém, cada um agia com todas as suas forças para cumprir a missão em seu próprio benefício”.  (Heródoto, História V, 78.)

 O historiador está no mostrando a essência da vida do homem grego como cidadão da pólis democrática de como a descoberta da liberdade por meio do exercício do poder pelo povo e não mais por um tirano muda a motivação dos habitantes de Atenas. Esse poder era visto na antiguidade principalmente nos conflitos com outros povos, era na guerra que essa cidadania se mostrava mais importante, pois proteger a cidade com coragem é proteger a sua liberdade e garantir que a cidade preserve sua integridade (vale lembrar que isso é muito bem explorado por Frank Miller no quadrinho 300 que depois foi adaptado para o cinema). Não obstante o filósofo MacIntyre nos lembra como Péricles transforma a cidade de Atenas em uma figura heróica. De fato, MacIntyre explica que as virtudes homéricas são transpostas para a cidade como um todo encarnando o herói homérico dotado de excelência e nobreza. Ora, a democracia é lugar do contraditório, da polêmica a àgora é a arena em que os cidadãos se enfrentam com o intuito exercer o poder conduzindo os assuntos da cidade e como eu já havia dito a própria democracia é contraditória seja por exercer a tirania (quando deseja dominar outra cidade) seja por acolher ou mesmo rejeitar um determinado modo de pensar. Protágoras, Anaxágoras e Sócrates são testemunhas vitais de como a democracia pode às vezes soar como uma tirania que cala e atua em nome de uma forma “única” e hegemônica de pensar e agir.

O cenário político brasileiro tem nos mostrado um pouco dessa contradição própria da democracia onde o embate principalmente nas redes sociais tem ganhado cada vez mais força e muitas vezes de forma instrumental promovendo desconstruções e ataques a essa ou aquela forma de pensar. Com efeito, assistimos desde as manifestações de junho de 2013 uma mudança no modo de viver do brasileiro que até então praticava a idiotia, vale dizer, não participava de modo mais aguerrido da vida política do país. De fato, as manifestações de junho de 2013 foram o estopim e o pavil foi aceso nas redes sociais, sobretudo, que aproxima eleitores e candidatos, partidos e movimentos sociais de todas as espécies promovendo o embate similiar ao que acontecia na àgora. Depois de uma das eleições mais disputadas para presidência da república presenciamos o descontentamento de muitos brasileiros com os problemas gerados pela forma como o governo tem conduzido o país, além dos escândalos de corrupção que infelizmente minam a força do governo e mostra as fragilidades do nosso presidencialismo de coalização (em que o presidente da república consegue por meio de aliança trabalhar com a maioria do congresso nacional).

Talvez uma das maiores contradições do regime democrático seja a intolerância ao direito à palavra, e isso tem acontecido com relativa freqüência nas redes sociais desqualificando este ou aquele grupo ao invés de efetuar uma refutação com base em argumentos válidos eu simplesmente ataco o interlocutor ofendendo-o de todas as formas possíveis, a democracia que é o lugar privilegiado do lógos (aqui vou manter lógos com o seu sentido polissêmico que abrange desde discurso até razão) também é o lugar da violência e da desrazão (alogia). Esse texto quer em certo sentido chamar a atenção tanto dos descontrutores que são violentos com seus interlocutores agredindo-os com a instrumentalização da informação quanto daqueles que apelam para forças exteriores e intervencionistas como a ditadura militar ou qualquer outra força repressora contra aqueles que não concordam com a opinião expressada por um determinado grupo. Assim como um impeachment também se manifesta quando clamado sem natureza política e jurídica como uma forma de violência contra a democracia exercida pelo poder do sufrágio. Não se trata só de dar voz a maioria ou a minoria, mas de dar voz a todos, pois a característica maior da democracia é a isegoria circunscrita pela isonomia e isso significa que devemos escutar e falar com todos na medida em que somos todos iguais perante a Constituição da República e se os gregos tinham uma lei que exilava todo cidadão que ameaçava a constituição da pólis nós também devemos num apelo de racionalidade sim, em busca do bem comum, ostracizar toda ideologia que deturpa e destrói a nossa Constituição. Eric Weil nos lembra que a racionalidade é uma das formas que o ser humano encontrou para escapar da violência e que a racionalidade demarca o limite entre o moral e o imoral. E se, portanto, desejamos viver em uma democracia sólida é preciso que escapemos da barbárie que violenta a nossa constituição por meio da retórica que coloca o discurso à serviço de ideologias quando a verdadeira retórica, aquela que Platão chamava de filosófica no diálogo Fedro  se empenha em disseminar a verdade para que haja justiça  e justiça para todos. Deixar de lado nossos interesses particulares e garantias que deveríamos ganhar porque o nosso país prospera e não porque apoiamos este ou aquele partido político, essa deveria ser a razão do nosso posicionamento político.

Exercer a empatia quando escutamos o outro e nos livrarmos de nossas contradições internas para que possamos ser o espelho para o país em que vivemos.
E se a corrupção está no nosso gene, então, estamos fadados à ruína. É de um determinismo bárbaro contra o povo brasileiro afirmar que está no código genético dos cidadãos da Terra Brasilis, não creio que isso seja verdade, pois conheci e conheço muita gente honesta dentre pobres e ricos das diversas etnias que compõem o povo brasileiro, acredito sim que há um circulo vicioso no meio político que deturpa e destrói a humanidade dos muitos que ocupam o cargos dos três poderes que exercem o poder em nosso país, corrupção fruto de uma inversão de valores que transforma meios em fins em si mesmo e que coloca o poder a serviço de interesses particulares quando deveria ser posto ao serviço da comunidade chamada Brasil.
O momento atual é fruto não apenas da politização por meio das redes sociais, mas frutos das conquistas que o nosso povo alcançou quando não teve medo de mudar e sempre poderemos mudar quando compreendermos que o poder na democracia emana do povo e que elegemos pessoas que dêem o seu melhor por nós, posto que foi para isso que os escolhemos. Por isso jamais se esqueçam ainda que a se use da mentira para a manutenção do poder não podemos nos esquecer jamais que a “a verdade é irrefutável”.