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terça-feira, 30 de setembro de 2014

Perí tou kenou (sobre o vazio)


Creio que uma das descobertas mais interessantes da filosofia foi o vazio.
Os gregos até Demócrito desconsideravam como razoável a idéia de vazio e o infinito.
Aristóteles considerava ambos um absurdo, porque tanto o vazio como o infinito abalam a possibilidade, pensa o Estagirita, de fazer ciência. No primeiro caso, o vazio é uma forma de dizer o não-ser, isso significa que o vazio é nada, embora sendo nada é algo.
Os gregos desconheciam o número zero e por isso não concebiam o vazio.

O segundo caso, a saber, o infinito nos remete a impossibilidade de parar em algum ponto, em termos lógicos, isso impossibilita que se possa conhecer algo, porque não há um princípio do qual se começa e nem um fim que manifeste a natureza do que se procura conhecer.

Por que então, o vazio é tão interessante? Não é só porque nos deu o número zero, porque de brinde ganhamos o átomo (na verdade é o átomo que nos deu o vazio de brinde), ou simplesmente porque o vazio permitiu rever vários conceitos da filosofia da natureza fundamentais para a física moderna.  Penso que o vazio é fascinante justamente porque sendo nada é algo, como disse antes, mas que isso significa?

Acho que os orientais podem nos ajudar a conceber o nada como algo, uma das coisas mais fascinantes na filosofia oriental budista é a ideia de esvaziar a mente. Isto é, parar o pensamento, ou melhor, pensar em nada, já pensou em nada? Pensar em nada é o repouso absoluto do pensamento e quando isso acontece o pensamento desaparece.
Mas ao pensar em nada você estará pensando em algo um paradoxo! Mas esse algo não é em muitos sentidos: locativo, predicativo e existencial. Quero dizer que o nada é algo que não se atribui a nada, não está em lugar nenhum e não exsistere, não se manifesta para o exterior.

Mas o nada tem extensão? Seria o nada o avesso da finitude e do concreto?
Vejo no vazio algo de misterioso no sentido de que a sua natureza é uma forma de “esconder” para revelar, do vazio é que encontramos o espaço o local para o infinito.
No vazio é que há espaço para a criação, toda dimensão poiética emerge do vazio: o mármore intocado, o papel em branco e toda técnica carece do vazio como espaço infinito e criador para que o saber possa desenvolver coisas e dar respostas as nossa indagações.

Na mística cristã a partir da famosa citação paulina de filipenses em que o apóstolo magistralmente escreve que “Cristo esvaziou-se a si mesmo” a kenosis de Jesus também é ato criador. Este desloca com o seu esvaziamento a si mesmo e faz surgir a salvação da humanidade como fruto do ato criador que renova toda criatura por ele salva.
De certo modo, a mística enquanto enfatiza o mistério de Deus é esvaziamento, porque impede e impele o homem a desconstruir o conceito que faz de Deus para mergulhar no vazio da não conceituação, a mística está então relacionada com a teologia negativa que ao invés de afirmar o que Ele é afirma o que Ele não é retirando toda a predicação até que sobra apenas o mistério, o vazio que a nossa inteligência se esforça para encontrar e que capta de forma muitas vezes confusa e opaca.

Por isso,  o vazio é fascinante porque esconde em seu nada o avesso que o pensamento tenta captar, mas só o consegue depois de muita ginástica, precisa se contorcer e se esforçar para ver no invisível a extensão do infinito que o vazio torna visível.


Brener Alexandre 30/09/2014

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Magnificat (tradução) Lc 1, 46-55

Como estamos liturgicamente vivenciando o advento de natal. Nada mais justo que traduzir os textos biblícos mais marcantes desta época de espera.
Dois textos em particular merecem a atenção pela riqueza simbólica e mensagem soteriológica que carregam consigo. O magnificat, o pequeno discurso de Maria logo após o anúncio do Anjo de que ela vai dar a luz o messias e o Benedictus, discurso de Zacarias feito depois do nascimento de João Batista. A minha tradução vai ser um pouco diferente das traduções correntes, devido a minha pouca experiência com a língua grega e também porque eu traduzi e não me isentei de interpretar o texto para tentar pegar melhor o seu significado e sentido mais profundo. então segue a tradução:
"E Maria disse: A minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito se enche de alegria por causa de Deus, o meu salvador.
Porque olhou para a humildade de sua serva. Eis que a partir de agora todos os povos me felicitarão, porque o poderoso fez grandes coisas por mim e santo é o seu nome.
E a sua compaixão passa de geração em geração entre aqueles que o respeitam.
Com a força de seu braço, ele dispersou pensamentos soberbos dos corações dos homens.
Fez descer dos tronos os poderosos e elevou os humildes,
encheu de bens os pobres e despediu os ricos de mãos vazias.
Acolheu Israel teu servo, recordado de sua compaixão,
No tempo em que disse a Abraão nosso pai e aos seus descendentes por toda eternidade."

domingo, 24 de abril de 2011

Pessach

Incrivel como uma festa religiosa pode ficar tão descaracterizada diante do capitalismo, a Páscoa festa de origem judaica, tal como o natal, alimenta o mercado financeiro e sustenta o consumismo, representando justamente o oposto do que deveria representar. A Páscoa judaica é a festa em que se celebra a liberdade do povo judeu que havia sido escravo no Egito, Moisés foi quem libertou o povo se fazendo instrumento de Deus (Deus faz de Moisés seus porta voz)A festa é carregada de simbólos que visa lembrar aos judeus sobre o periodo de dificuldades em que passaram no Egito quando eram escravos, as raizes amargas, os pães ázimos, o cordeiro e o vinho. A páscoa judaica e a páscoa cristã absorvem e apresenta a dor como parte da experiência humana. durante uma semana os judeus se reunem para se lembrar da misericórdia de Deus para com eles e de como eles sofreram no Egito como escravos.
O cristianismo resignifica a páscoa Judaica e também durante uma semana os cristãos se recordam da última páscoa de Jesus, sua entrada triunfal em Jerusálem, aclamado como rei, e messias esperado pelos judeus. Depois entramos na festa própriamente dita, no caso da celebração católica o triduo pascal que se inicia na quinta feira, em que segundo a tradição Jesus institui a eucaristia (ápice da liturgia onde o pão e o vinho se torna corpo e sangue de Jesus)e é encerrado no Sábado santo também conhecido como sábado de aleluia (expressão hebraica que significa alegria)enquanto a Páscoa judaica traduz o desejo de liberdade do homem, a páscoa cristã traduz o desejo antigo do homem de vencer a morte. a ressureição de jesus é embasada na crença judaica da ressureição dos mortos iniciada na revolta de Judas Macabeu, quando mais uma vez os judeus lutavam pela sua liberdade diante de forças estrangeiras e opressoras. a crença na ressureição a vitória dos Macabeus deu origem a uma festa judaica chamada hanuká (a famosa festa das luzes) que acontece próximo ao Natal cristão. Jesus se torna o cordeiro da antiga páscoa, o cordeiro, um animal que permanece impassível diante do seu algoz, não dá um pio, não reage mesmo sabendo que vai morrer. A instituição da eucaristia é a apenas uma metafóra de um gesto ainda maior e escandaloso principalmente para a cultura pagã tão disseminada hoje em dia atráves do hedonismo desenfreado, e da hipocrisia vendida pelo capitalismo e oculta no consumismo vazio e degradante. Jesus sofre e se deixa morrer para transformar um simbólo da dor, da tortura em um simbólo da salvação e embora as religiões semíticas carregem o traço infeliz da culpa, o ato de Jesus é belo, não porque sofrer é bom, mas porque ele sendo Deus (o que como é bem registrado pelo apostólo Paulo é uma loucura para os pagãos gregos e romanos) Se rebaixa a condição humana, e experimenta a nossa condição limitada e sofrida até a morte.
Ideal seria que não houvesse a culpa no cristianismo e nas demais religiões semíticas,mas mesmo assim Jesus revela atráves do seu ato um Deus misericordioso e complacente, embora muitas vezes deturpado por ideologias manipuladoras. A páscoa é uma festa que celebra a vida renovada pelo poder de Deus, Jesus o messias crucificado, profeta da difamada galiléia, superou a morte e com ela venceu um modo de agir que manisfesta o egoismo dos homens, foi capaz de resignificar a vida atráves de um gesto único de doação. A páscoa é um tapa de luvas em quem só pensa que o momento é o que importa, é um tapa de luvas para quem quer tirar proveito de toda e qualquer situação. A páscoa não é a época dos coelhinhos, mas é a época de repensar a conduta ética, nas palavras do filósofo Lévinas, seria um olhar para o rosto. E portanto deixo aqui os meus votos de que a Páscoa seja uma festa verdadeiramente religiosa, que Judeus e Cristãos a celebrem valorizando seu real significado, que ovos de chocolates manifestem o desejo de renascimento e adocem o coração das pessoas sensibilizando e diminuindo a violência, o egoismo e o medo, para que a vida seja plena e que o reino de Deus comece aqui para todos! indiferente do credo religioso, da opção sexual, da etnia Uma feliz Páscoa para Todos!