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segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Os perigos das redes sociais ou a sedução do canto da sereia


 

“Sereias serão tua primeira prova. Elas encantam todos os que porventura passam por elas. Quem inadvertidamente se entregar ao canto delas nunca mais retornará ao lar, nunca mais cairá nos braços da mulher, não verá os pequerruchos nunca mais. Elas enfeitiçam os que passam, acomodadas num prado. Em torno, montes de cadáveres em decomposição, peles presas a ossos. Evita as rochas. Tampa com cera os ouvidos dos teus companheiros para não caírem na armadilha sonora. Se entretanto, quiseres o mel do concerto delas, ordena que te amarrem de pés e mãos ereto no mastro. Que o nó seja duplo. Entrega-te, então, ao prazer de ouvi-las. Se, por acaso, pedires que afrouxem as cordas, ordena-lhes que as apertem ainda mais” (HOMERO, Odisséia XII 40-55).

 

Pensando na passagem acima da Odisséia de Homero, tenho refletido sobre as armadilhas escondidas na internet, principalmente nas redes sociais. O documentário Dilema das redes disponibilizado na Netflix, o livro Os engenheiros do caos de Giuliano Da Empoli já haviam chamado a minha atenção para as armadilhas escondidas nos algoritmos das redes sociais que tal qual o canto da sereia quer nos aprisionar na melodia que seduz o espírito e anestesia a mente.

Os algoritmos trabalham para estimular certos comportamentos nos usuários da rede social fazendo com que, por um lado, encontrem pessoas que se identificam por suas ideias e aspirações, de outro lado, reforcem nelas crenças e posicionamentos sobre o mundo. O objetivo desses algoritmos é estabelecer parâmetros que tornem a rede social atraente para o usuário, tal qual uma arapuca com a sua isca seu objetivo é “aprisionar” o usuário em uma determinada rede social mantendo-o conectado o maior tempo possível. Talvez a metáfora da arapuca não faça jus ao que de fato faz o algoritmo numa rede social. Entretanto, o canto da sereia descrito na Odisséia pode nos ajudar a ver de que modo o algoritmo nos atrai e condiciona na virtualidade das redes sociais.

Basicamente, as redes sociais coletam informações sobre o uso que delas fazemos. Cruza essa informação com as relações virtuais que estabelecemos e o que publicamos. Tendo sido coletadas, essas informações apresentam um perfil para o algoritmo que vai apresentar para aquele usuário o material que ele eventualmente vai desejar consumir. Fundamentalmente, o algoritmo manipula esse material cruzando informações entre usuários, empresas e seus anúncios de modo a produzir a teia que vai segurar os usuários.

Um canto da sereia poderíamos dizer. Com efeito, o algoritmo entoa através das informações que coleta a melodia imortalizada no poema homérico.

Na mitologia segundo Homero, as sereias entoavam uma melodia irresistível que prendia a atenção dos marinheiros que as escutava e estes se afogavam no mar. Para escapar das sereias, Odisseu foi amarrado ao mastro de seu navio e os marinheiros colocaram cera nos ouvidos para não se deixar seduzir pelo canto daqueles entes mitológicos. Odisseu se privou do uso da cera de ouvido para se deleitar com o cântico das sereias, mas disse aos seus companheiros que em hipótese alguma deveria ser solto ainda que implorasse.

Se na mitologia o canto da sereia encerrava a morte e perdição dos homens. Nas redes sociais os algoritmos emulam o canto da sereia na exata medida em que o canto no mito suspende o juízo e recrudesce o pensamento. No mito o cântico é tão belo e atraente que a atenção de quem o escuta se volta por completo para a melodia. O marinheiro esquece que está no mar e sucumbe afogando-se nas águas em êxtase com a voz das sereias. Nas redes sociais o cântico vem na forma de uma opinião, um “like” ou um comentário numa postagem sua ou de outra pessoa. Sua atenção é capturada e sem perceber o usuário fica preso numa prisão sem grades. Pronto o usuário foi capturado pelo canto da sereia.

 

O ser humano é um animal gregário, tem necessidade de se sentir parte de um grupo. Busca relações de afinidades e pode por vezes se posicionar buscando aceitação de um grupo qualquer. As redes sociais fornecem em tempo real as condições para formação de grupos pequenos, médios ou grandes em que pessoas se encontram para falar do que gostam, do que não gostam. Buscam confirmar suas crenças e se diferenciar de outros grupos e comportamentos. Até certo ponto essas atitudes são naturais. As culturas se desenvolvem assim a partir de valores partilhados e o esforço de cooperação e ou competição mútuos. Todavia, quando nos deixamos aprisionar em certo grau de dogmatismo em que pesa o nosso interesse de confirmar a nossa crença corremos o risco de desaprender a conviver com o diferente e de aceitar a divergência como parte de uma experiência da vida social inteiramente saudável.

O viés de confirmação é um fenômeno muito comum nas redes sociais. O usuário procura consumir opiniões e posicionamentos que reflitam a suas crenças. Numa rede social qualquer é comum que um grupo de amigos reflita um conjunto de crenças partilhadas naturalmente como poderia acontecer fora do ambiente virtual. Mas se o algoritmo entende que quanto mais aparecer daquela opinião no ambiente virtual mais tempo o usuário vai permanecer conectado essa ferramenta vai apresentar para o usuário outros perfis, e conteúdos que tenham semelhança com as opiniões de seus amigos virtuais incentivando e confirmando essas crenças. Vez ou outra vai deixar escapar um posicionamento divergente, esses posicionamentos também geram engajamento do usuário.

Notemos que a armadilha consiste em atrair a atenção e suspender o juízo crítico do usuário. O perigo mora justamente nesse traço da vida virtual. Parte da radicalização que encontramos no ambiente virtual vem desse traço das redes. Quando usuários compreendem o funcionamento do algoritmo de uma rede eles podem de alguma forma manipular e em alguma medida controlar a realidade nesse ambiente virtual.

Pessoas que buscam confirmar suas crenças tendem a suspender o juízo, porque desejam exatamente endossar sua visão de mundo e não confrontá-la. Quem entende o algoritmo usa-o a seu favor para atrair essas pessoas que cairão no canto da sereia e fazendo uso da melodia sedutora coloniza a realidade e a fragmenta. O naufrágio das mentes que se afogam no radicalismo das redes, nas tribos e grupos que espelham e ecoam as mesmas ideias.

Atravessar esses mares bravios com sereias encantadoras pede cera nos ouvidos e coragem para aceitar que a realidade sempre se impõe. Pensar criticamente não é pensar assim ou assado. Pensar criticamente é pensar por si mesmo aceitando o mundo não se adequa caprichosamente as minhas expectativas sobre ele.

 

Brener Alexandre 10/09/2021

sábado, 24 de outubro de 2020

A política real na ficção e o seu desencantamento

 

Quando a série da Netflix  House of Cards estava fazendo sucesso no Brasil, eu não quis assisti-la. Estava interessado em outras séries e o fato da maioria dos comentários sobre a série ter sido relacionada a conduta do então deputado e presidente da Câmara Eduardo Cunha e sua postura agressiva contra a então presidente da República Dilma Rousseff, me fez esperar o calor do momento e colocar a série de lado. Isso aconteceu lá pelos idos de 2015.

Estamos em 2020 e número de séries que abordam os bastidores da política aumentaram. A Netflix disponibilizou Borgen e Designed Survivor duas outras séries alucinantes sobre os bastidores do poder.

Quando House of Cards estava fazendo sucesso havia também The Crown que havia me despertado interesse pela minha curiosidade sobre a monarquia inglesa.

O que esses seriados têm de tão interessante? Comecei a assistir House of cards, Borgen e Designed Survivor quase que ao mesmo tempo, enquanto aguardo a nova temporada de The Crown. E percebi que o que torna estas séries interessantes é sua abordagem dos bastidores do poder e de como este background ético-social nem sempre é absorvido pela sociedade civil que vê a sombra, mas não sabe muitas vezes de ondem vem a luz que criou aquela sombra.

Max Weber (1864-1920) descreve o processo de secularização e de ruptura com o sobrenatural sob a forma do misticismo como um processo de desencantamento. O desencantamento do mundo que abole o sobrenatural, o místico e a superstição com a qual a natureza e a religião se associavam no mundo pré-moderno misturando, ciência e religião (visão significativamente presente no mundo antigo e medieval). O desencantamento é o ponto de virada em que a ciência substitui a religião, ainda que não a faça desaparecer da explicação dos fenômenos naturais, um triunfo por suposto da razão (ideal iluminista fruto da revolução científica). O desencantamento estilhaça o sobrenatural e naturaliza o mundo retirando entes fantásticos da explicação da natureza e reduzindo o alcance do sagrado na interpretação do mundo natural.

Tomando esse conceito weberiano emprestado penso que esses seriados se vistos com atenção, guardando as proporções inerentes a ficção e a dramatização que encerram promovem o desencantamento da política.

Quero dizer com isso que quando um seriado como House of Cards, ou Borgen nos mostra os bastidores do poder, suas lutas internas e conflitos estes seriados desenvolvem em nós, ou deveriam desenvolver uma habilidade de compreender que a política não pode ser romantizada, idealizada, ou seja, transformada em uma utopia.

Ao nos revelar a natureza da Realpolitik, da política real esses seriados nos convidam a exercitar nossa razão, nos exorta à reflexão sobre a natureza das relações políticas na democracia representativa, monarquias constitucionais  etc e tenhamos a certeza de que o exercício do poder para ser possível precisa endurecer o agente político para que o pragmatismo e ou as convicções partidárias tenham algum peso sobre as decisões de governo. Não há amigos no meio político, há aliados e adversários. Há situação e oposição. Há interesses que estão em conflito, mas que podem convergir se houver algumas concessões trocadas. A política  é ciência do conflito de interesses e o diálogo e o consenso é apenas uma das formas, talvez a melhor para solução desses conflitos de interesses das quais a política se alimenta.

Esse desencantamento não significa, reitero um endosso a antipolítica, não é um convite a aversão da atividade política. A atividade política é necessária e importante. O desencantamento significa justamente uma ampliação da nossa consciência de que a política é feita de acordos, de negociações, espúrias ou não. De arbitrariedades e de jogos de interesses. As arbitrariedades refletem os jogos de interesses que podem ou não passar por cima da lei, é jogo de forças e de influências.

É preciso então, que o cidadão que só vê a sombra, mas não vê a luz se pergunte: “a quem interessa que está sombra esteja projetada aqui?” E pense: “a verdade nem sempre será perceptível a um primeiro momento, é preciso aguardar até que ela apareça”. E se a verdade não aparecer? Fiquemos então com o que nos parece razoáveis, por que nos bastidores do poder é melhor sempre pender para o razoável e correr das soluções radicais.

 

 

Brener Alexandre 24/10/20

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

A alegoria das mesas e as formas de democracia em cada uma delas

 

Se eu tivesse que explicar a alguém o que é democracia tendo de recorrer a uma analogia de fácil entendimento, diria que este regime de origem grega é semelhante a uma mesa na qual todos os que se assentam junto a esta mesa tem os mesmos direitos e os mesmos deveres, uma mesa sem lados, uma mesa redonda.

 

Dito isso, explicaria que numa mesa redonda não há extremidades e todos estão sentados à direita ou à esquerda de alguém. Ninguém teria o direito de reclamar uma importância, porque nesta mesa não há cabeceira e todos são anfitriões uns dos outros.

Diria ainda que a mesa redonda é forma mais madura da democracia e que mesas com lados e extremidades são formas incompletas ou imperfeitas do que chamamos de democracia em nossa analogia.

 

Se a democracia é uma mesa quadrada ou triangular ainda assim estaríamos nos assentando à direita ou à esquerda de alguém. Isso é fácil de se observar levando em conta que as nossas mãos sinalizam o lado em que cada um se assenta. Entretanto, os que se veem de frente se perceberão como extremos opostos entre si.

 

Se a mesa é retangular, em cada lado haverá de se assentar também à direita e à esquerda, a diferença, no entanto, está que cada lado vai ver o companheiro ao lado como um espectro também mais à direita ou à esquerda de si mesmo e quem está no centro será o mais atacado visto por quem está nas extremidades da mesa, além de ver quem se assenta do outro lado da mesa como seu antípoda ideológico.

 

Quando a democracia se assemelha a uma mesa retangular a cabeceira é o pior lugar para se assentar. Afinal, quem se assenta na cabeceira chama para si a responsabilidade do anfritrião, é o sujeito que vai “pagar a conta”. Nesse caso, pagar a conta significa levar a sua posição as últimas consequências. Desse modo, numa mesa retangular as cabeceiras da mesa deveriam sempre ficar vazias, são extremos que malogram a democracia que a mesa representa nesta alegoria.

 

Todavia, só a mesa redonda garante isonomia (igualdade perante a lei) e isegoria (igual direito a palavra), de modo que nas outras formas incompletas da democracia um ou mais membros da mesa podem querer destruir o equilíbrio atacando quem de sua perspectiva ameaça o seu “direito ao poder”. 

 

Desse modo, é preciso reconhecer que no regime democrático tal qual uma mesa com vários lugares sempre estaremos à direita, à esquerda e no centro tendo o outro como referência para nós e sabendo que o outro também se percebe assim em relação à nós enquanto estamos sentados à mesa da democracia.

 

A mesa redonda, portanto, é a democracia plena na qual cada parte da sociedade por meio de seus representantes legais opinião e participam respeitosamente do debate público.

De outro modo, nas democracias instáveis sempre haverá quem queira retirar do interlocutor o seu direito à isonomia e a isegoria, sempre vai lutar pela cabeceira para se colocar nos extremos e pôr-se acima dos lados a sua volta.

 

Brener Alexandre 24/08/2020

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Considerações sobre a diferença entre “entender” e “concordar”


Toda comunicação, no ensino e aprendizado, ou no exercício dialógico cotidiano passa por etapas “invisíveis”. Quando estudamos gramática, redação, sintaxe, ou somos interpelados pela interpretação de um texto ainda na infância o que se espera de nós é que sejamos capazes de nos comunicar. Dito de outro modo, a escrita e a oralidade embora prescinda de uma técnica rigorosa para funcionar precisa ser ensinada, se desejamos que essa comunicação seja bem executada.

Os gregos foram pioneiros no estudo da linguagem, os sofistas introduziram estudos sobre sintaxe, uso correto das palavras (orthoépia) e desenvolveram a retórica como exercício prático para uso das palavras no discurso. Sócrates também em diálogo aberto com a sofística vai desenvolver o problema das definições e introduz ainda sem algum rigor e sistematização a questão da conotação e denotação de termos no discurso.

Platão e Aristóteles vão além, continuam o legado socrático, catalogam o trabalho dos sofistas e o aprimoram retomando Parmênides e o problema do ser são os responsáveis por estruturar a lógica como ferramenta do pensar. Fica claro para nós que a comunicação e o discurso são muito importantes para os antigos gregos.

O problema da linguagem é amplamente debatido na filosofia. Os medievais com o problema dos universais e o nominalismo, os modernos em seus estudos sobre os limites do conhecimento humano e a retomada da lógica, o desenvolvimento da semiótica e o renascimento da hermenêutica no inicio do século XX nos mostra como o ser humano necessita de se comunicar e se fazer compreender.
Os filósofos e demais estudiosos da linguagem tem se debruçado sobre o assunto.

Percebemos, no entanto, que muitas pessoas nunca “atinaram” para o problema. As redes sociais têm mostrado e demonstrado que as pessoas estão perdendo a capacidade de dialogar. Em parte essa culpa vem de algumas concepções educacionais e filosóficas que invertem a ordem dos processos mentais no afã de estimular a criticidade que se esconde sob o fantasma da opinião e da intenção subjetiva. Opinião de quem se pensa como capaz de efetivamente julgar indiferente de uma análise fruto de uma deliberação, e sim a partir do critério dos “achismos” ensimesmados que ecoam como vontade de quem se manifesta.

Pensar a linguagem não é tarefa fácil, tanto quanto não é fácil discutir ética, política e metafísica, mas lançar alguma luz sobre o assunto pode nos ajudar a melhorar a comunicação de modo a refletir em nossa postura dialógica. No ambiente virtual esse problema é mais impactante posto que nem sempre podemos ver a linguagem corporal e ficamos ainda mais condicionados a incompreensibilidade de que se comunica conosco.

Desse modo, ao apresentar essas poucas linhas sobre entender e concordar que fique claro que a minha intenção é abrir uma discussão e não encerrar o assunto.
Com efeito, estou explorando, a grosso modo, um tema filosófico caríssimo a muitos colegas filósofos e linguistas e meu interesse é apenas partilhar um pouco do que tenho pensado sobre este problema filosófico.

Quando acentuamos a diferença entre entender e concordar queremos dizer que se trata de dois grandes movimentos realizados no interior de nosso aparelho cognitivo com nítida repercussão na tomada de nossas decisões cotidianas, das mais banais as mais importantes decisões morais que podemos tomar ao longo da vida.

O que significa entender? O que queremos dizer quando afirmamos que entendemos alguma coisa?
Ao afirmarmos que estamos a entender alguma coisa, queremos, com efeito, dizer que o conjunto de informações transferido pelo comunicante é inteligível. Significa dizer que o nosso aparelho cognitivo decodifica os sinais recebidos e os compreende, são claros e possuem sentido de modo que o conteúdo manifestado não é obscuro. Entender, portanto, é ter clareza sobre um conteúdo informado em uma mensagem comunicada (comunicação de qualquer natureza escrita, falada, codificada, etc.). O entendimento passa pelo trabalho mental de tradução dos sinais recebidos, são analisados e decodificados para formar uma mensagem coerente e inteligível. Quando uma ou mais dessas etapas falha a mensagem fica incompleta e incognoscível para quem a tem em mãos. Uma forma de visualizarmos o que estamos analisando é imaginar situações em que a informação de uma mensagem está incompleta. 

Por exemplo, um mapa incompleto é incapaz de informar uma localização. Um texto fragmentado não informa seu conteúdo com eficiência. Em ambos os casos a inteligência para ter acesso à informação precisa preencher a lacuna que interrompe a cadeia que estabelece a coerência entre os sinais presentes na mensagem, tal qual um quebra-cabeças que estando incompleto não apresenta a imagem inteira, mas apenas a apresenta parcialmente.

Desse modo, a inteligibilidade passa pela tradução dos sinais, sua análise e estruturação, de modo que a mensagem apresente sentido e coerência para quem a recebeu.
Entender algo é identificar ordem, coerência e significado em uma informação que recebemos. Evidentemente, a linguagem humana não é unívoca e, portanto, em suas várias camadas e estruturas de sentido e significado podem como muitas vezes acontece não ser totalmente claro apresentando ambiguidades e limitações discursivas que podem ou não ser propositais.

A importância da gramática, lógica, retórica e sintática se nos revela importante justamente porque nos ajuda a corrigir e a aperfeiçoar nossa capacidade comunicativa.
O grande lema dos filósofos analíticos do inicio do século passado enfatizava o papel da lógica como ferramenta de clarificação de conceitos. Para esses filósofos quanto mais claro é a mensagem, melhor é o argumento, posto que a coerência interna do pensamento é preservada pela clareza da exposição das ideias.

Por outro lado, quanto mais obtusa é a mensagem, pior o argumento, posto que a coerência interna do pensar fica comprometida pela falta de clareza que as conexões entre os conceitos apresentam no raciocínio do comunicante.

Há ainda um elemento importante para o êxito da comunicação, a saber, o reconhecimento do número de significados e sentidos que um sinal possui e os limites que a polissemia dos termos impõe à linguagem. O limite de significados e sentido permite ao vocábulo comunicar uma mensagem porque esse limite faz referência, isto é, sinaliza algo para o interlocutor que recebe a informação. Sem referencial entre o sinal linguístico e o objeto que se quer comunicar a mensagem fica comprometida.
Sendo assim, a clareza, o referencial que liga o sinal ao objeto a ser comunicado o entendimento e a comunicação se tornam muito difíceis se não impossível.

Concordar é outro movimento do intelecto, um movimento de adesão e assentimento ao conteúdo recebido. Parece meio óbvio dizer o que afirmamos acima, mas acontece que tem muita gente concordando sem saber com o quê concorda. A prática de dizer sim ao contrato sem ler muito recorrente quando instalamos um programa no computador ou no celular também é recorrente quando se trata de abraçar esquemas intelectuais, ideologias e mesmo modelos religiosos. Concordar só possível depois de entender. Porque a mensagem clara e a informação nítida me permite avaliar, isto é, criticar o conteúdo para que eu possa assentir ou não ao que se me apresenta.

Evidentemente, nem tudo que lemos e ouvimos exige de nós esse esforço de concordância. Mas quando se exige de nós esse movimento intelectual de assentimento a um determinado conteúdo este só pode ser feito se conhecemos as consequências dessa adesão. Por isso, é importante se informar a respeito de ideias que nos chamam a atenção, teorias que se propõem desvendar os segredos do mundo ou oferecer sentido a vida. Antes do engajamento se faz necessário meditar, perpetrar a contemplação das ideias e conceitos para que possamos assentir ou não. Dizer sim ou não ao que se apresenta como uma resposta a uma questão, um dilema ou um problema.

Que fique claro que concordar é assentir tanto quando cedemos ou construímos consenso com alguém, como quando dizemos isso faz sentido, é verdadeiro etc.
A concordância é uma adesão, isto é, é uma aceitação, sua disposição é afirmativa enquanto performance intelectual diante de uma informação e uma mensagem recebida.

Enquanto entender diz respeito apenas a compreensão do que é informado, ou da clarificação da informação trocada entre o remetente e o destinatário. O concordar é um passo adiante, implica numa escolha assentida na direção da informação trocada.

Entender e concordar são diferentes, entender é fundamental para a boa comunicação, e concordar só faz sentido se se está ciente dos riscos. Não há comunicação possível sem entendimento, mesmo em um monólogo. Não há concordância sem a coerência que me faça perceber que o meu concordar é um compromisso que assumo com ideias e ideais que eu acredito ser compatíveis com o meu estilo de vida e os valores que penso são corretos, verdadeiros e que dão sentido a vida que escolhi viver.

Brener Alexandre 19/04/2020

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

O naufrágio da oportunidade – considerações sobre o pragmatismo na política


Um dos conceitos mais importantes da ética filosófica e da teologia cristã é o conceito de kairós. Esta palavra de origem grega expressa uma ideia de tempo junto com outras palavras tais quais: chronos, hama, aíon(respectivamente: tempo, simultâneo e eterno numa tradução livre). Kairós é traduzido para a língua portuguesa como “momento oportuno”, “oportunidade” quando lido nos textos filosóficos e na teologia se refere ao “momento propício para a salvação”, isto é, exprime o caráter soteriológico, salvifíco que a vinda de Jesus Cristo, sua morte e ressurreição trazem para todo aquele que acolhe a mensagem do Evangelho.

Aristóteles nos ensina que a virtude (excelência na ação) depende também das condições em que a ação se dá para que o resultado seja o melhor possível.  Resultado melhor não é meramente uma vantagem obtida com a ação, mas o cumprimento adequado da finalidade que se espera da ação para que o bem buscado pelo agente frutifique como ação justa e bela.

Desse modo, Aristóteles estabelece que a ponderação para a escolha dos melhores meios com o objetivo de atingir o fim desejado precisa ser filtrada pela prudência (phronésis) que contabiliza as consequências e ajusta o timing da ação para o agir seja, com efeito, virtuoso.
Maquiavel também no Príncipe indica que ter oportunidade para agir, mas não possuir virtude e sorte (virtú e fortuna) pode malograr a ação e destruir verdadeiro objetivo do agente político, neste caso, a manutenção do poder.

Diríamos então, que prudência e canja de galinha não fazem mal a ninguém como diz o provérbio popular. A prudência é a virtude intelectual que ajuda o ser humano na tomada de decisões, é o “pé atrás” que nos põe a “pulga atrás da orelha”. É ela que separa a intenção de apenas buscar um resultado “satisfatório” de um resultado “eficaz e eficiente” como se diz na ética das virtudes.
Em Como Ganhar uma eleição, carta de Quintus Túlio Cicero endereçada ao seu irmão, orador, filósofo, senador da República Romana Marco Túlio Cicero que em 64 a.C. concorreu a eleição para o consulado (seria uma espécie de primeiro ministro fazendo uma analogia bem grosseira da função do cônsul na República, eram eleitos dois Cônsules). Nesta carta Quintus apresenta vários conselhos a seu irmão para ajuda-lo na corrida eleitoral, muito do que lemos neste texto antigo ainda é usado por candidatos nas eleições no mundo inteiro.

Em um dado momento da carta Quintus escreve a seu irmão: “um candidato deve ser prático, adaptando-se a cada pessoa que ele encontra, mudando sua expressão e fala conforme o necessário” (Cicero, Como ganhar uma eleição, 42). Esse conselho em particular reflete todo o teor do texto ciceroniano e a natureza pragmática que ele comporta. O agente político deve se adaptar para alcançar seus objetivos em síntese é isso que Quintus quer dizer ao irmão. Quer vencer a eleição o método é, por exemplo, dizer as pessoas o que elas querem ouvir, ou comunicar a cada um com quem você se encontrar que ela é especial etc. O resultado virá, mas a que custo? Esse utilitarismo tacanho beneficia a quem? (não estou evidentemente discutindo a grandeza de Cicero como político ou como escritor) A oportunidade naufraga no oportunismo e o pragmatismo com seu utilitarismo tacanho demove qualquer possibilidade de florescimento da virtude.

Numa eleição os únicos que se beneficiam do pragmatismo são os candidatos que alcançam o resultado que almejam, não por espírito público no mais das vezes, mas por interesses pouco republicanos em muitos casos (isso não significa que devemos demonizar a política. Maus políticos são resultado na maioria das vezes de nossas escolhas ruins e precisamos assumir nossa responsabilidade), de fato, numa democracia o poder reside no uso da palavra, no discurso. 

Todo agente político e o cidadão que vota é agente político também precisa compreender que a fonte de poder passa da palavra ao voto e do voto a palavra. Por isso, a democracia prima pelo conflito e pelo contraditório, prima pela descentralização do poder dividindo-o em partes, para que ninguém tenha o monopólio do discurso e da força.

Compete a todo agente político evitar o pragmatismo que ignora a prudência em nome do resultado, que contabiliza apenas a utilidade e suprime a excelência. Pensar o kairós, a oportunidade para agir com virtude é tarefa de todo agente político, de todo cidadão que toma parte na comunidade política com seu dinamismo.

Quintus ajudou seu irmão a vencer uma eleição, os marqueteiros têm ajudado muitos candidatos a ganhar outras nos dias de hoje, compete a nós eleitores pensar as entrelinhas dos discursos que ouvimos, agir com prudência, suspender o juízo antes de uma tomada de decisão que pode por tudo a perder.

Brener Alexandre 28/02/2020

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Flash reverso – ou a reviravolta dos ressentidos




“Cuidado com os dragões, pois, ao enfrenta-los você pode se tornar como um deles” (provérbio chinês).

Quem gosta de quadrinhos e de super-heróis certamente conhece o personagem “Flash” (Há uma seriado em curso do canal CW) da D.C Comics. Personagem conhecido como “velocista escarlate” tem na sua galeria de vilões um nêmesis, Eobard Thawne, o flash reverso. O flash reverso é o oposto do Flash. Eobard Thawne tinha profunda admiração por Barry Allen (identidade do herói de Central City) e converteu essa admiração em ressentimento convertendo-se em um dos maiores vilões do universo D.C responsável por um dos eventos mais famosos envolvendo não apenas o Flash, mas toda a liga da justiça (falo do flashpoint que altera a linha do tempo ao preservar a vida da mãe de Barry Allen – há uma animação sobre esse episódio.). O leitor deve está curioso e se pergunta: “Por que ele começou falando de um personagem de quadrinhos?” “Aonde você quer chegar com isso, amigo?” A resposta é simples.

Findado o processo eleitoral pude observar com mais atenção o comportamento das duas forças em disputa neste processo eleitoral. E tenho percebido que essa disputa eleitoral tem um pouco da rivalidade Flash – Flash reverso, explico.

Ao que parece boa parte do anti-petismo, não o é porque rejeita o porte autocrático do partido, porque discorda ideologicamente do partido, ou porque reconhece que no limite a administração petista deixou a desejar.

Trata-se antes de um antagonismo que mistura admiração e ressentimento, uma mistura perigosa onde a força da minha contraposição tem origem do que eu gostaria de fazer e não posso, mas na primeira oportunidade de fazer eu farei igual.

Durante as eleições isso ficou nítido no embate entre as forças das respectivas militâncias. Os bolsonaristas aprenderam e assimilaram o modus operandi das militâncias de esquerda e as replicou sistematicamente, o que empobreceu o debate público.
Agora, percebemos que no discurso e em muitas atitudes fica manifesto o interesse de restringir o discurso de oposição ao discurso vitorioso nas eleições.
É verdade que a esquerda vai precisar aprender a conviver com o pensamento divergente nas instituições de ensino particularmente e no debate público em geral. Mas esse processo é lento e gradual e exige das duas forças um respeito primordial as instituições da república, mais, precisa baixar o tom, pois a eleição terminada requer de todos atenção para acompanhar a transição do novo governo.

O bolsonarismo se vendeu como uma alternativa ao petismo, mas não pode ser igual ao petismo que eles combateram com altivez. Precisarão se apresentar à sociedade como defensores do direito de discordar, aprender a expor suas ideias com serenidade e, sobretudo, defender as instituições da república. Promover a livre circulação de ideias, enaltecendo a vida intelectual, a liberdade de cátedra e o direito de discordar.
Do contrário, o bolsonarismo tal qual Thawne, será um flash ao contrário, nesse caso um petismo ao contrário, ou nas palavras de Janaina Paschoal: “um PT com sinal trocado”; com tendências autocráticas e pouco republicanas.

Desse modo, cabe a cada um que menos preocupado em escolher um lado e mais preocupado em defender as liberdades individuais garantidas pelo princípio de cidadania constitucional não se deixar levar pelos gritos histéricos de nenhum dos lados, mas com os pés no chão resistir tal qual Odisseu resistiu ao canto das sereias aos encantos do ativismo míope que tem solapado o debate e criando na cultura política do país um ambiente propenso a truculência daqueles que só se fazem ouvir pela força.

Brener Alexandre 30/10/2018

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Sócrates, o isentão



“Se eu tivesse me envolvido na política, teria sido conduzido à morte há muito tempo e não teria feito nenhum bem a vós ou a mim mesmo” (PLATÃO, Apologia 31e).
O termo “isentão” cunhado para desmerecer eleitores moderados que a priori não assumem um posicionamento político claro e evidente, poderia ser claramente atribuído a Sócrates no episódio celebre por ele mesmo contado através de Platão, na qual ele não parte para o exílio junto com os membros do partido popular quando a tirania dos trinta foi instaurada em Atenas.

O relato da instauração da tirania dos trinta pode ser encontrado na Constituição de Atenas de Aristóteles tal como segue abaixo:
Uma das cláusulas do tratado de paz (da guerra do Peloponeso) estipulava que o Estado fosse por eles governado de acordo com a Constituição dos ancestrais (provavelmente a constituição de Sólon). Em consonância com isso o partido popular empenhou-se em preservar a democracia. Os notáveis, porém, integrantes das associações políticas, bem como exilados que já retornavam à pátria após a celebração da paz, almejavam a oligarquia; quanto aos notáveis não pertencentes às associações políticas, mas que em outros aspectos não se julgavam inferiores a quaisquer outros cidadãos, estavam interessados em restaurar a Constituição dos ancestrais. (...) Quando Lisandro se posicionou a favor do partido oligárquico, o povo sentiu-se pura e simplesmente intimidado e forçado a votar em favor da oligarquia (ARISTÓTELES, Constituição de Atenas, 34).

Tendo o povo aceitado a oligarquia como regime de governo a tirania dos trinta assumiu o controle na cidade e segundo Aristóteles: “Senhores do Estado, ignoraram no seu governo a maioria das resoluções que haviam sido aprovadas com referência à Constituição” (ARISTÓTELES, Constituição de Atenas, 35). A consequência imediata da displicência dos oligarcas no que tange a fazer cumprir a Constituição tal qual acordada pelos atenienses é descrita pelo Estagirita abaixo:
Inicialmente, agiram com moderação no trato dos cidadãos e simularam administrar o Estado de acordo com a Constituição dos ancestrais. (...) De início, portanto, ocupavam-se dessas atividades, na eliminação dos fraudadores e daqueles que se associavam de maneira indesejável ao povo lisonjeando-o e não passavam de indivíduos maldosos e patifes. Diante de tudo isso, a cidade mostrava-se muito satisfeita, no pensamento de agiam alimentando as melhores intenções. Mas tão logo consolidaram um controle ainda mais firme do Estado, não pouparam nenhuma classe de cidadãos, condenando à morte e executando aqueles que se distinguiam seja pela riqueza, seja pelo nascimento, seja pela reputação. Com isso visavam a eliminar todos que eles tinham motivo para temer,(...) (ARISTÓTELES, Constituição de Atenas, 35).

Notamos um exemplo bastante eloquente de como um regime constitucional e estabelecido por consenso e voto se torna gradativamente um regime autoritário e autocrático. Não obstante assumir ou não uma posição diante desse estado de coisas parece inevitável para qualquer um. Sócrates não assumiu um lado, não apoiou a tirania e tampouco se retirou de Atenas com os membros do partido popular. Sócrates não tinha partido, era inteiro. O filósofo procurava a justiça e não a deixava de lado por medo da morte, seja no período em que Atenas era uma democracia sob o governo do partido popular, seja na oligarquia com a tirania dos trinta.

O próprio Sócrates diz: “jamais me curvaria, por medo da morte, a qualquer pessoa que contrariasse o que é justo, preferindo morrer a curvar me” (PLATÃO, Apologia 32a). E o que é justo para Sócrates? O filósofo mesmo explica: “ter a lei e a justiça ao meu lado” e completa “ a aliar-me a vós, quando vos empenhavas num procedimento injusto” (PLATÃO, Apologia 32c). Quando Atenas ainda era uma democracia o filósofo se recusou a votar pelo julgamento coletivo dos generais que falharam na batalha de Arginusa, pois tal procedimento era ilegal subentenda inconstitucional.

Quando Atenas é tomada pela oligarquia os tiranos que se tornaram “senhores do Estado” tentavam implicar em seus crimes vários cidadãos, dentre os quais Sócrates. Em um desses casos os tiranos exigiram de Sócrates e outros cidadãos que buscassem um homem, Leon de Salamina, no exílio para ser executado. Enquanto, muitos cidadãos movidos pelo medo saíram de Atenas para cumprir a ordem dos tiranos Sócrates simplesmente retornou para a sua casa como nos relata Platão: “Aquele governo, por mais poderoso que fosse, não me intimidou no sentido de realizar algo injusto. Entretanto, quando saímos da rotunda, os outros quatro dirigiram-se a Salamina e prenderam Leon. De minha parte, limitei-me a voltar para a minha casa” (PLATÃO, Apologia 32d).

Quando somos persuadidos pela razão que nos inclina para a justiça a força que pode quebrar o corpo, manchar superficialmente a sua reputação, não pode retirar de nós a virtude. Compreender no momento atual que estamos entre a cruz e a espada é sensato. Mas não peça a ninguém que escolha entre um e outro movido pelo medo, ou pelo ódio aos adversários. Ficar a meio caminho para observar o que acontece com atenção não é covardia, é prudência! Buscar a mediania não é tibieza é sensatez! Reconhecer as limitações dos discursos e exigir das partes que sejam melhores do que se mostram é justo e legítimo, mais legítimo inclusive do que fazer do debate público uma arena de MMA.

E se é preciso ficar e resistir porque “ ao longo da minha vida, em qualquer atividade pública em que possa ter me engajado sou o mesmo homem que da vida privada. Jamais compactuei com alguém para uma ação injusta” (PLATÃO, Apologia 33a ). Eu preciso lembrar constantemente que sou míope. De que preciso trocar os óculos com os quais vejo o mundo regularmente. Então, preciso constantemente avaliar minhas escolhas, me limpar de minhas contradições, reduzi-las ao máximo e ser dentro do que a minha limitada e defeituosa condição humana permite que eu seja.

Por isso, inspirado mais uma vez na história antiga, na filosofia antiga busco para a razão um remédio que permita que eu veja e faça a outros que vejam também se querem enxergar a realidade que não se curvem a tiranos. Que não abracem a tirania de nenhum tipo. Porque seus seguidores mordazes ganharam terreno e se alimentaram do que tínhamos de sonhos, se alimentaram como dementadores da nossa tristeza, e incentivaram como sith a escuridão que escondemos de nós mesmos.

Não desmereçamos os “isentões” são eles, como eu, que irão decidir essas eleições. Inclinando se ou não a um dos extremos, ou permanecendo no centro indicando que nenhum dos dois extremos agradam à república e o verdadeiro Estado democrático de direito.
Brener Alexandre 23/10/2018

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Intransigência ou morte da democracia - A lição do diálogo entre os atenienses e os mélios


No quinto livro da História da Guerra do Peloponeso encontramos o famoso diálogo entre os atenienses e o mélios. Nesse diálogo se discutia a adesão de Melos, uma colônia espartana na guerra do Peloponeso. Os atenienses exigiam que os mélios se aliassem aos áticos contra os lacedemônios. Isso significava que os atenienses queriam que os mélios lutassem contra seus patronos, uma vez que Melos era uma colônia lacedemônia ou espartana, isto é, os mélios eram espartanos que migraram para aquela ilha do mediterrâneo. Tendo isso em vista esse diálogo sempre foi visto como manifestação de poder, tirania e intransigência.

 O uso da palavra como mecanismo de cerceamento da liberdade, neste caso de todo um povo que queria ficar neutro na guerra. A imagem remontada por Tucídides em sua História da Guerra do Peloponeso é a imagem que com tristeza vejo no debate baixo que avança com a força da desinformação e da má vontade que as partes que tomam a frente no diálogo insistem em sustentar com seu autoritarismo velado pela aura de pretensa virtude, sabedoria e lugar privilegiado. Não obstante, tudo isso é aparência e vaidade, na verdade por onde quer que eu vá encontro a soberba e arrogância, a falta de bom senso e a incapacidade para o diálogo aberto em que os interlocutores tentem passar da discordância à concessão e da concessão ao consenso, como aliás deveria ser em todo os debate. Por que isso ocorre? Será que fomos tomados pela cultura da pós verdade? Tentarei responder essa questão em outro lugar. Mas deixo a questão aos meus leitores imitando a prática comum dos humoristas de stand up comedy: “Se você não conhece na sua roda de amigos alguém assim, eu tenho uma má notícia, meu caro, pois você...”

Não pretendo reproduzir todo o diálogo nesse texto porque tornaria a leitura enfadonha, vou apenas pontuar algumas passagens para expor algumas ideias sobre intransigência no debate e o uso da força por meio da palavra.
Tucídides nos conta que tão logo os mélios tiveram a palavra nessa conversa com os emissários atenienses disseram:

“Vemos, com efeito, que viestes para serdes vós mesmos os juízes do que devemos dizer, e o resultado do debate é evidente: se vencermos na discussão por ser justa a nossa causa, e então nos recusarmos a ceder, será a guerra para nós; se nos deixarmos convencer, será a servidão” (TUCÍDIDES, História da Guerra do Peloponeso V, 86).

O trecho acima reflete a falta de possibilidades em aberto no debate minando a escolha real e substituindo-a por opções impostas pelo interlocutor. Os mélios queriam ficar em paz sem guerrear, os atenienses não vislumbravam essa opção. E impuseram aos mélios a guerra ou a escravidão. É muito comum no debate público com pessoas engajadas com proposições de caráter partidário impor ciladas retóricas para fazer violência com seu interlocutor, uma pratica sofística muito comum, por sinal. Atualizando a constatação dos mélios, para o cenário do debate público atual poderíamos identificar a guerra com o assassinato sumário da reputação do interlocutor, e a servidão com a anulação total de sua consciência de liberdade para escolher quais ideias defende, ou mesmo não se posicionar em relação à guerra discursiva.
Outra coisa muito comum no debate violento é a resposta dos atenienses a essa constatação dos mélios que reproduzo abaixo:

“Ora, se fordes levantar suspeitas, por conjecturas, a propósito do que poderá acontecer no futuro, ou se tendes outro propósito além de deliberar sobre a salvação de vossa cidade à luz dos fatos evidentes diante de vossos olhos, pararemos; se , ao contrário, este último é o vosso objetivo, falaremos” (TUCÍDIDES, História da Guerra do Peloponeso V, 87).

Na conjuntura agonística do debate público quem recorre aos artifícios violentos tende a agredir qualquer receio, dúvida ou insegurança do interlocutor frente ao que lhe é proposto. Normalmente ridiculariza e debocha do posicionamento hesitante do interlocutor, por aqui, temos o famoso “isentão”. O moderado certamente será tido como “isentão”, primeiro, porque não é dado aos arrombos de paixão, e tampouco a cegueira que a militância pode oferecer a quem por ela se deixa possuir.

Nesse caso a intransigência se manifesta como incapacidade de escuta, limitando o campo argumentativo do interlocutor que só pode jogar com as peças que o seu adversário fornece. No Eutidemo de Platão, isso é muito claro quando os sofistas perguntam aos interlocutores, mas estes só podem responder segundo as regras que os dois sofistas estabeleceram. Desse modo, o diálogo ganha contornos de um jogo em que duas pessoas estão disputando para vencer, mas apenas uma tem chances reais de vitória.

O intransigente se recusa a aceitar as motivações de seu interlocutor, seu objetivo é debater sem razão, fazer barulho ou uma cortina de fumaça para desviar o objeto debatido.
Transforma o debate em um campo de batalha, chama a si mesmo de “virtuoso” e o outro de “inimigo a ser vencido”, vê-se numa arena onde as palavras são armas com as quais o seu adversário deve ser batido.
O intransigente tem alma de tirano. É autoritário, não aceita objeções e recusa a refutação com base em argumentos sólidos.
Por isso, se o interlocutor rejeita seu argumento ele é agredido, e se o acolhe se torna subserviente. Não há caminho para liberdade de consciência nesse gênero de embate argumentativo. Há, apenas, ataque frontal a dignidade da pessoa na forma de um grotesco ad hominem (sofisma em que o usuário ataca o interlocutor e não suas ideias) ou retirando a emancipação do mesmo. Em ambos os casos, eu retiro a humanidade do interlocutor e o reduzo a coisa ou nada.

Esse tipo de conduta precisa ser combatido no debate público, precisamos aprender a debater ideias, recorrendo ao ferramental lógico em primeiro lugar e os instrumentos da boa retórica como dizia Platão no Fedro.  Do contrário, estaremos sujeitos a sujeição num debate em que a violência se torna o único argumento válido para sustentar o meu ponto de vista.

Brener Alexandre 25/09/2018

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Hooligans: do esporte a política


Anos atrás repetíamos o adágio: “brasileiro devia discutir política como discute futebol”. Se soubéssemos o tamanho da bobagem contida nesta sentença, já haveríamos de nos arrepender de tratar um assunto tão sério com leviandade.
Não só não deveríamos discutir política como se discute futebol, como não deveríamos sequer discutir o futebol como se discute futebol.

A paixão, a afetividade desempenha um papel fundamental no estádio de futebol, inflama o torcedor que canta, vibra positivamente ou não reagindo aos atores em cena. Dentro do estádio, na roda de amigos durante o jogo, ou mesmo num bar. Antes do jogo, ou depois dele o que deve imperar é a razão. Esse precioso elemento que por vezes esquecemos ou simplesmente ignoramos quando falamos de futebol. O torcedor não pode ser só afetividade, não pode ser só coração, precisa da racionalidade para ler os fatos e ser justo com o seu time, o adversário e a arbitragem.

Conhecemos o fenômeno do hooliganismo no esporte marcando a atuação vergonhosa dos torcedores violentos. Violência física, violência verbal. Constranger e intimidar essas são as características do hooligan. No Brasil poderíamos usar a expressão “clubismo” como essa espécie de violência, pois, o clubista vê apenas as cores do seu clube, percebe apenas as necessidades do seu time do coração, pensa apenas nas vantagens que podem beneficiar o seu time. São violentos? Não, o são fisicamente (quero dizer em geral não o são), mas o são ideologicamente, pois são incapazes de diálogo. Não conseguem confrontar ideias e olhar sob perspectivas diferentes. Dito de outro modo, o clubista faz violência a sua maneira quando fecha os olhos para a realidade dos fatos em nome das cores do time do coração.

Infelizmente, importamos esse comportamento para o debate público, suspeito que ele já existia muito antes da polarização na qual estamos inseridos em tempos hodiernos.  E que agora com as mídias sociais e o acirramento do debate público esse comportamento tenha ganhado proporções que devem nos levar a refletir sobre o nosso modo de debater ideias.
As discordâncias fazem parte do regime democrático, não há democracia onde há unanimidade, não há democracia onde não há contraditório. Platão no diálogo Sofista escreve: “O pensamento é um diálogo de si consigo mesmo” (cito de memória). O pensamento é dialógico, precisa ver outras perspectivas, precisa do contraditório para se encaminhar à verdade. Se o raciocínio é um diálogo, quanto mais não o seria o debate de ideias?
No entanto, o que presenciamos no debate público é o que Platão chamou no diálogo Eutidemo de “mistérios sofísticos” onde os argumentos dançam, rodopiam e se entrelaçam para agredir e derrubar o interlocutor. Na peça platônica Eutidemo e seu irmão instrumentalizam o discurso para atingir um único fim: vencer. Não se trata de ter razão, não se trata de expor a verdade, trata-se de ganhar a discussão, no grito, por meio da violência.

Se debatêssemos as razões (motivações) das pessoas e as refutássemos com base em outras motivações legítimas teríamos, então, um debate saudável em torno de ideias e construiríamos uma democracia sólida onde as instituições nos orientariam para o império da lei. Discordaríamos sim, o que é natural em uma democracia sólida, porém, sob o império da lei e da razão aprenderíamos com nossas discordâncias, estabeleceríamos consenso e repudiaríamos os excessos. Se não podemos ser tolerantes com os intolerantes como escreveu Popper, também não podemos tolerar os abusos contra as instituições e a violência generalizada no debate público que assassina reputações, cerceia liberdades individuais e reduz ao silêncio cidadãos que estão cumprindo seus deveres e tem seus direitos respaldados pela constituição.

Não podemos aceitar mais que os hooligans pautem o debate público, é preciso enriquecer o diálogo para enriquecer a democracia incipiente brasileira.
E só podemos fazer isso se mudarmos nossa forma de discutir política, isto é, deixando as paixões de lado, o “clubismo” partidário-ideológico, e como Sócrates na República de Platão em diálogo franco com Polemarco buscando a justiça reveza com seu interlocutor por que um bem tão importante não pode ser ocultado por nenhuma das partes como o filósofo explicou para o sofista Trasímaco.
Em suma, ou mudamos a forma de debater ideias condenando ao ostracismo a violência que segrega quem pensa diferente ou, então, jamais construiremos uma república de fato em nosso país.

Brener Alexandre 20/09/2018

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Resolução de Ano Novo

Uma resolução para o ano que vem.
Vontade firme de fazer bem.
Determinação para seguir em frente.
Caminhando entre as escolhas da gente.

Uma resolução para o ano que fica.
Balanço da vida,
Lutada, sofrida.

Uma resolução do ano passado.
Determinação cumprida ou fracasso?
Vontade levada a termo ou deixada a esmo?
Caminhada concluída ou deixada de lado?

Uma resolução para o ano novo.
Amor cotidiano,
Amizade compartilhada.
Esperança renovada.

Uma resolução para o ano novo.
Renovar o ciclo.
Fazer novos amigos.

Uma resolução para o ano vindouro
Vontade de ano novo.
Desejo ardente de vida nova.
Ciclo completo,
Amores descobertos.
Sem delongas,
Sem mistérios.

Brener Alexandre 29/12/2017



sexta-feira, 7 de julho de 2017

Amor secular e amor cristão - A linha de passagem entre duas formas de amar

Amor secular e amor cristão – A linha de passagem entre duas formas de amar

Vi perambulando pelas redes sociais a seguinte frase: “Uma geração de jovens com menos de 18 anos com a vida emocional destruída por buscar um amor em pessoas, um amor que só encontramos em Jesus”. Deparei-me com dois problemas ao ler essa frase, uma de ordem ética e outra de ordem teológica. E gostaria de refletir sobre esses dois problemas para que possamos entender o porquê dessa frase não exprimir de modo adequado aquilo que os apóstolos, principalmente São Paulo ensinaram sobre a vida cristã e o amor tal qual é compreendido no cristianismo.

Começarei pelo problema teológico, pois ao resolvê-lo o problema ético se dissolverá quase que automaticamente. A questão teológica que se coloca de forma problemática na frase citada diz respeito ao conceito “amor” usado no texto.  A palavra amor é usada com dois sentidos distintos ao falar dos jovens que tem a vida emocional destruída por buscar “amor em pessoas”, o autor fala do amor cuja perfeição provém de Deus, mas que nas relações humanas se dá sempre de modo imperfeito. Desse modo o amor manifestado entre os jovens é nesse caso um amor romantizado, idealizado e carregado de “erotismo”. Por erotismo não é necessariamente o conjunto de práticas que chamaríamos de “sexuais”, mas um conjunto de práticas que envolvem a atração, física e ou intelectual que gera e desperta o interesse entre os jovens.
Enquanto o amor em sua forma acabada e que só pode ser “encontrado em Jesus” seria algo superior, e portanto, jamais se encontraria nessas relações imperfeitas. A concepção teológica que estamos esboçando nessa análise remete diretamente no plano existencial, pois os jovens estão tentando preencher um vazio de ordem existencial com um amor imperfeito. Por outro lado, esse preenchimento só é possível e encontrado em Jesus. Tal é a situação- problema que se apresenta para nós.

O grande problema teológico que se coloca no que tange o conceito de amor é que a vida cristã é orientada desde o início da Igreja para refletir nas relações interpessoais o amor de Jesus. Isso é ainda mais evidente quando compreendemos a dimensão comunitária da Santíssima Trindade na qual o Pai, o Filho e o Espírito Santo se tornam o modelo comunitário por excelência baseado na relação de amor e equidade de todos para com todos. Desse modo, o amor secular é sempre imperfeito, mas não o é porque meramente não reflete essa relação trinitária perfeita, mas porque o amor secularizado principalmente na sua dimensão erótica é sempre amor interessado, ao passo que o amor na sua forma acabada é sempre desinteressado. Há outro aspecto que não nos pode escapar de vista, o sentido hebraico, vale dizer, dentro da tradição judaica da palavra “amor” é bastante diferente dos usuais grego e latino.

Vamos resgatar esse sentido? Para entendermos o sentido bíblico-teológico do amor na vida cristã. No livro do Deuteronômio encontramos “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças” (Dt 6,5). E em Levítico está escrito “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19,18). Esses dois trechos da lei de Deus são retomados pelo evangelista Lucas e introduzem a parábola do bom samaritano (Cf. Lc 10, 25-37). A parábola ensina o que é ser “próximo” de alguém, e entender essa lição implica compreender o significado do amor pedido pela lei de Deus. Um amor que não é um mero gostar, um simples sentimento, mas é um agir de santidade que se expressa como “fazer bem”, oferecer o melhor que somos e possuímos para o outro. O primeiro Mandamento é uma radicalização do segundo quanto a intensidade, pois só a Deus é reservado um amor e cuidado que tome todo o nosso ser. Ao próximo cabe fazer o bem que fazemos a nós mesmos. Assim, o reconhecimento ético do outro como próximo passa pelo fazer-se próximo do outro.

Desse modo a regra de ouro (Cf. Mt 7,12) exprime o aspecto ético dos mandamentos divinos, uma ética profundamente teológica em que o amor não tem por primazia uma afetividade ingênua, mas um agir movido pela santidade. Santidade exigida pelo próprio Deus: “Sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus sou santo” (Lv 19,2). Santidade que o evangelista Mateus traduziu como perfeição. “Sede, portanto, perfeitos como vosso pai celeste é perfeito” (Mt 5,48) e Lucas traduz por misericordioso: “sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36). Ambos evangelistas traduzem a santidade, pois a perfeição de Deus se exprime como santidade na forma da justiça seja dentro do horizonte legalista que Mateus quer combater ou de Lucas que escreve a Teófilo um amigo seu de origem grega. No caso de Lucas a perfeição de Deus se manifesta principalmente em sua capacidade de se compadecer dos homens, coisa que no horizonte religioso da Grécia pagã era algo inconcebível. Seja em uma concepção filosófica das religiões pagãs, seja na religião tradicional a divindade jamais se importaria com os seres humanos. Para a compreensão filosófica um deus que se importa com mortais não preenche o requisito perfeição, pois sendo uma divindade só poderia se preocupar com coisas eternas e perfeitas como ele mesmo. E para a religião tradicional os deuses são em suma egoístas demais para se importarem com mortais, para eles meros acessórios que satisfazem suas vontades pelo culto ou pelos seus próprios interesses. Em outras palavras, os evangelistas ao compreenderem que a santidade é uma perfeição que se exprime como justiça e misericórdia abrem um novo caminho ético que estava presente na cultura judaica, mas que ainda não havia ganhado o significado universal que o cristianismo por si só pode alcançar.

Portanto, há uma intima relação entre o amor a ser encontrado em Jesus que o texto sugere e a prática desse mesmo amor entre pessoas que aderem ao cristianismo. A própria sacramentalidade do matrimônio depende da prática desse amor, pois o matrimônio é o sacramento que imita a relação unitiva entre Cristo e a Igreja (sem contar a relação de complementaridade expressada em Gn 2,24). A natureza teológica do amor é fundamental para todas as relações cristãs no âmbito pessoal e social e precisa ser cultivada como parte de um exercício que tem Deus como fonte da qual brota a referência do justo e do direito expressos no modo de ser de Deus em sua essência e constituição ontológica e não como meros acidentes ou atributos que complementam o que Deus é.

Traduzindo em miúdos se levássemos essa frase as últimas consequências somente religiosos que se dedicam inteiramente a vida religiosa (consagrados, padres etc) encontrariam esse amor de que a frase fala com tanta leviandade. Afinal, nas relações entre pessoas dificilmente encontraremos esse amor abstrato. No entanto, quando aprendemos a ser “imitadores de Deus como filhos queridos” como pede o apóstolo Paulo aos efésios que insiste “vivei no amor, como Cristo também nos amou e se entregou por nós como oferenda e sacrifício de suave odor” (Ef 5,1-2), então, nos tornamos capazes de experimentar esse amor que é “benfazejo; não é invejoso, não é presunçoso nem se incha de orgulho” (1Cor 13,4).

O grande problema dos jovens com mais ou menos de 18 anos no que se refere ao amor, sejam cristãos ou não cristãos, é que transformam o ato de amar em algo imanente e totalmente voltado para a satisfação de si. Até mesmo as amizades tem se válido desse modus operandi e faz com que os laços se tornem muito finos e efêmeros começam e somem sozinhos. Nas relações interpessoais o cristão é convidado a amar como Cristo ama a Igreja ou o próximo (Cf. Ef 5,25 e Jo 15,12). O amor secular busca obter benefício em todos os sentidos possíveis. Normalmente tem caráter imanentista e recusa ou diminui o papel de um ser transcendente como modelo que orienta a ação e garante sentido.

A frase, entretanto, exprime em um sentido mais fraco (que creio ter sido a intenção de seu autor) uma verdade inegável. Em Jesus encontramos o modelo do amor de Deus que devemos imitar. Nele os jovens, adultos e idosos e crianças encontram a forma basilar e mais perfeita do amor que é justamente o bem querer e o bem fazer que nos faz próximos uns dos outros. É preciso, portanto, fazer a passagem do amor secular para o amor cristão. Os cristãos são chamados desde o batismo a viver essa experiência que nos santifica. A santidade não é um alto grau que nos separa do resto da humanidade e que nos permite julgar e condenar os que não alcançaram esse estado de vida, ao contrário, a santidade é um convite à virtude na qual nunca estamos totalmente conscientes da nossa santidade e a vemos sempre como processo de uma caminhada que precisa ser feita em íntima relação com Deus (na oração e na vida mística) e que deve refletir nas nossas relações interpessoais fazendo valer os mandamentos de Deus como o pedido de um pai que quer ver seus filhos se dando bem uns com os outros. Se possível gostaria de retornar a esse tema, mas por hora ficaremos por aqui.


Brener Alexandre 07/07/2017

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Entrar ou sair do coração de alguém dói: pequena reflexão sobre as relações humanas

O coração é desde a antiguidade o órgão que representa o ser humano por inteiro, suas dimensões racionais e afetivas, suas virtudes e vícios, ou seja, tudo o que ele é como ser humano em sua humanidade sem fragmentar-se é coração. Por isso, falamos ainda hoje do coração como lugar do nosso ser e não a nossa cabeça embora admitamos ser a cabeça o lugar da razão. A antropologia bíblica e a antropologia filosófica do pensamento arcaico (poesia grega principalmente) atestam o coração como centro da humanidade.

Compreendendo o significado do coração como imagem do nosso íntimo, pergunto: por que entrar ou sair do coração de alguém dói? Como é esse doer? A imagem à qual irei recorrer para responder essas duas perguntas é fruto de um sonho que tive. A imagem é uma dinâmica, exercício no qual realizamos uma experiência concreta do que desejamos ensinar. A imagem foi construída do seguinte modo: um grupo de pessoas formando um aglomerado dentro de uma tenda sem iluminação interna. A pessoas entravam e não saiam inicialmente, quem estava do lado de fora não ouvia barulho vindo da tenda, era como se ela tivesse isolamento acústico.

As pessoas eram convidadas a entrar na tenda que já contava com um grande número de pessoas. A primeira sensação: medo, porque não sabemos o que acontece dentro da tenda. A segunda sensação: curiosidade, queremos saber o que há no interior da tenda descobrir o que se passa lá dentro. A terceira sensação: coragem, você se dispõe a enfrentar o medo inicial e resolve entrar na tenda. A quarta sensação: o desejo, o desejo te move e você adentra a misteriosa tenda escura.

Essas quatro sensações iniciais não se manifestam nessa ordem e muito menos podem se manifestar todas de uma vez. Pode ser que você sinta apenas medo, ou coragem, desejo ou curiosidade ou nenhuma delas. Dentro da tenda está escuro, você esbarra nas pessoas pode tropeçar no meio delas enquanto entra na tenda, pode até se machucar com uma cotovelada, tapa, soco, chute e com muitas agressões voluntárias e involuntárias. Isso acontece porque não sabemos com o que ou quem estamos lidando dentro da tenda e nesse percurso é parar dentro da tenda no oculto da escuridão ou caminhar para achar a saída, só há duas possibilidades ficar ou sair. Se sairmos ou ficarmos haverá consequências, ninguém escapa ileso da tenda. Quando se sai, a saída é sempre angustiante, dolorida, saímos marcados no corpo, na alma pela experiência de andar entre tantos na escuridão. Essa é a imagem que a dinâmica propõe, e o que ela ensina?
Entrar na vida de alguém, isto é, entrar no coração de alguém é entrar nessa tenda, a gente não sabe o que vai encontrar, e nem sabemos se vamos ser capazes de permanecer.

As quatro sensações experimentadas antes de entrar são as sensações que podemos sentir dentre tantas possíveis quando conhecemos alguém. É natural que tenhamos medo, curiosidade, coragem e desejo em relação às pessoas que conhecemos. O medo por não saber o que esperar, ou como as pessoas irão reagir. A curiosidade de saber como é conviver com aquela pessoa ou de entrar no universo da vida dela. A coragem e o desejo de se arriscar e investir na relação. Em suma, são os primeiros passos em qualquer relação humana.
A tenda é escura porque assim como o coração de qualquer pessoa nós somos incapazes de saber quantas pessoas ali habitam, quantas tem um lugar especial na vida do outro quantas pessoas estão disputando o mesmo espaço no coração de alguém. Por isso ao entrar e caminhar no coração de alguém ficamos sujeitos a todo tipo de “agressão” algumas voluntarias fruto da disputa pelo lugar, outras involuntárias fruto do nosso querer que nos põe em conflito com o que não compreendemos ou aceitamos na vida do outro, o ciúme, a inveja, a insegurança são alguns dos elementos que podem nos machucar nesse processo.

Desse modo, só há duas possibilidades. Sair ou ficar, em ambos os casos haverá conflito, haverá disputa por espaço, mas quando sair haverá a frustração e as marcas da experiência gerada pela tensão no interior do coração do outro.

O coração é lugar da intimidade, e sempre haverá disputas quando queremos fazer parte da vida de alguém. Entrar ou sair do coração de alguém dói, portanto, porque implica saber caminhar em território desconhecido no escuro confiando no convite para permanecer com. Se não somos capazes de fazer essa experiência de confiança somos expulsos do coração por nós mesmos, que provocamos a nossa expulsão. Essa dor é a frustração, mas também é a dor do medo e da insegurança que são constantes em nossas vidas principalmente quando não confiamos em nós mesmos e refletimos essa desconfiança nos outros.


Brener Alexandre 13/04/2017

sábado, 14 de novembro de 2015

3° Lei de Newton

Escreveu Sir Isaac Newton na grande obra Principia Mathematica “A toda ação há sempre uma reação igual ou, as ações mútuas de dois corpos um sobre o outro são sempre iguais e dirigidas a partes opostas” (Newton, 2008,p.54).

Todos conhecem a 3° lei de Newton, a lei da ação e reação. Ela diz que se eu der um soco em uma parede a dor que vou sentir é proporcional a força com que a minha mão a atingiu. A dor parece maior, é verdade, mas é proporcional.
 Acontece é que a minha mão é feita de um material menos resistente que a parede e, portanto, passível de sentir mais os efeitos da força reativa do que a parede sentiria em termos destrutivos a força ativa do golpe desferido. (como contra exemplo a parede sente o dano ao ser golpeada por uma marreta e se deixa destruir, quando a marreta não parece ter sofrido absolutamente nada).

Mas, por que falar da 3° lei de Newton? Em que ela nos ajuda a pensar os problemas éticos e sociais que tem envolvido a humanidade recentemente?
Porque, penso, a lei de Newton mais poderosa que a lei de Murphy não diz apenas sobre força de ação e reação e o impacto que isso tem sobre os corpos, mas diz também sobre a força de ação e reação das nossas escolhas morais e do impacto que provoca sobre a nossa sociedade.

Explico: A polarização recente na política e seus contrastes visíveis principalmente nas redes sociais é um fenômeno que pode ser explicado pela 3° lei de Newton.  Quero dizer que pode ser compreendido, e não que é capaz de avaliar quem está certo ou errado na história. O EI (Estado Islâmico) e seus ataques também podem, penso ser explicado por essa maravilha da física moderna.
Se há uma força de mudança haverá na mesma proporção uma reação conservadora (pode ser conservadora em sentido positivo, ou reacionária na contramão do pensamento revolucionário e, portanto, em sentido negativo), se há uma força violenta haverá uma resposta a altura. É isso o que tenho pensado recentemente observando os fatos.

Pessoas ao fazer escolhas morais, ao se engajarem em projetos sociais, ao escolher esta ou aquela ideologia produzem os efeitos da 3° lei de Newton. Porém esses efeitos não são imediatos, pode ser que a resposta venha no mesmo instante, pode ser que a resposta venha ao longo de meses ou anos, mas ela vem.
E vem na forma do ressentimento, da covardia, do medo, do irracionalismo e de inúmeras formas de violência. A palavra que agride, que projeta, que recusa até a violência física e a negação dos direitos básicos do outro.

Suprimir a alteridade até silenciá-lo. E tal como a mão que dói ou a parede que é feita em pedaços pela marreta também aquele que resistir ao choque de forças antagônicas permanecerá de pé. Mas deveria ser assim?

Se como disse o filósofo Eric Weil escapamos à violência e ao medo ao sermos racionais, pergunto-me quando, então, seremos racionais? É verdade quem nem todos estão abertos ao diálogo, que nem todos almejam à paz, mas e então? Eis o paradoxo do humanismo, como lidar com a alteridade que não reconhece o outro? Como permitir o reconhecimento ético? Duas alteridades que se afirmam e se respeitam, duas alteridades, posto que um é sempre outro para o outro. O reconhecimento é um dos grandes desafios da ética contemporânea e da filosofia política contemporânea. A violência é a resposta que subjaz à falta de diálogo, não apenas a violência física, mas a violência verbal à discriminação de todo o tipo também são violências nossas de cada dia.

A 3° lei de Newton se torna cada vez mais perceptível para mim, ela explica a natureza dos corpos e das gentes será que haverá algum meio de escapar de tal lei? Ou de minimizar os efeitos dessa lei?


Edição da Principia Mathematica usada:


NEWTON, Isaac. Principia: Princípios Matemáticos de Filosofia Natural Livro I. trad: Trieste Ricci, Leornado Gregory Brunet, Sônia Terezinha Gehring, Maria Helena Curcio Célia. São Paulo: Edusp, 2008 2° edição.