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segunda-feira, 24 de agosto de 2020

A alegoria das mesas e as formas de democracia em cada uma delas

 

Se eu tivesse que explicar a alguém o que é democracia tendo de recorrer a uma analogia de fácil entendimento, diria que este regime de origem grega é semelhante a uma mesa na qual todos os que se assentam junto a esta mesa tem os mesmos direitos e os mesmos deveres, uma mesa sem lados, uma mesa redonda.

 

Dito isso, explicaria que numa mesa redonda não há extremidades e todos estão sentados à direita ou à esquerda de alguém. Ninguém teria o direito de reclamar uma importância, porque nesta mesa não há cabeceira e todos são anfitriões uns dos outros.

Diria ainda que a mesa redonda é forma mais madura da democracia e que mesas com lados e extremidades são formas incompletas ou imperfeitas do que chamamos de democracia em nossa analogia.

 

Se a democracia é uma mesa quadrada ou triangular ainda assim estaríamos nos assentando à direita ou à esquerda de alguém. Isso é fácil de se observar levando em conta que as nossas mãos sinalizam o lado em que cada um se assenta. Entretanto, os que se veem de frente se perceberão como extremos opostos entre si.

 

Se a mesa é retangular, em cada lado haverá de se assentar também à direita e à esquerda, a diferença, no entanto, está que cada lado vai ver o companheiro ao lado como um espectro também mais à direita ou à esquerda de si mesmo e quem está no centro será o mais atacado visto por quem está nas extremidades da mesa, além de ver quem se assenta do outro lado da mesa como seu antípoda ideológico.

 

Quando a democracia se assemelha a uma mesa retangular a cabeceira é o pior lugar para se assentar. Afinal, quem se assenta na cabeceira chama para si a responsabilidade do anfritrião, é o sujeito que vai “pagar a conta”. Nesse caso, pagar a conta significa levar a sua posição as últimas consequências. Desse modo, numa mesa retangular as cabeceiras da mesa deveriam sempre ficar vazias, são extremos que malogram a democracia que a mesa representa nesta alegoria.

 

Todavia, só a mesa redonda garante isonomia (igualdade perante a lei) e isegoria (igual direito a palavra), de modo que nas outras formas incompletas da democracia um ou mais membros da mesa podem querer destruir o equilíbrio atacando quem de sua perspectiva ameaça o seu “direito ao poder”. 

 

Desse modo, é preciso reconhecer que no regime democrático tal qual uma mesa com vários lugares sempre estaremos à direita, à esquerda e no centro tendo o outro como referência para nós e sabendo que o outro também se percebe assim em relação à nós enquanto estamos sentados à mesa da democracia.

 

A mesa redonda, portanto, é a democracia plena na qual cada parte da sociedade por meio de seus representantes legais opinião e participam respeitosamente do debate público.

De outro modo, nas democracias instáveis sempre haverá quem queira retirar do interlocutor o seu direito à isonomia e a isegoria, sempre vai lutar pela cabeceira para se colocar nos extremos e pôr-se acima dos lados a sua volta.

 

Brener Alexandre 24/08/2020

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Intransigência ou morte da democracia - A lição do diálogo entre os atenienses e os mélios


No quinto livro da História da Guerra do Peloponeso encontramos o famoso diálogo entre os atenienses e o mélios. Nesse diálogo se discutia a adesão de Melos, uma colônia espartana na guerra do Peloponeso. Os atenienses exigiam que os mélios se aliassem aos áticos contra os lacedemônios. Isso significava que os atenienses queriam que os mélios lutassem contra seus patronos, uma vez que Melos era uma colônia lacedemônia ou espartana, isto é, os mélios eram espartanos que migraram para aquela ilha do mediterrâneo. Tendo isso em vista esse diálogo sempre foi visto como manifestação de poder, tirania e intransigência.

 O uso da palavra como mecanismo de cerceamento da liberdade, neste caso de todo um povo que queria ficar neutro na guerra. A imagem remontada por Tucídides em sua História da Guerra do Peloponeso é a imagem que com tristeza vejo no debate baixo que avança com a força da desinformação e da má vontade que as partes que tomam a frente no diálogo insistem em sustentar com seu autoritarismo velado pela aura de pretensa virtude, sabedoria e lugar privilegiado. Não obstante, tudo isso é aparência e vaidade, na verdade por onde quer que eu vá encontro a soberba e arrogância, a falta de bom senso e a incapacidade para o diálogo aberto em que os interlocutores tentem passar da discordância à concessão e da concessão ao consenso, como aliás deveria ser em todo os debate. Por que isso ocorre? Será que fomos tomados pela cultura da pós verdade? Tentarei responder essa questão em outro lugar. Mas deixo a questão aos meus leitores imitando a prática comum dos humoristas de stand up comedy: “Se você não conhece na sua roda de amigos alguém assim, eu tenho uma má notícia, meu caro, pois você...”

Não pretendo reproduzir todo o diálogo nesse texto porque tornaria a leitura enfadonha, vou apenas pontuar algumas passagens para expor algumas ideias sobre intransigência no debate e o uso da força por meio da palavra.
Tucídides nos conta que tão logo os mélios tiveram a palavra nessa conversa com os emissários atenienses disseram:

“Vemos, com efeito, que viestes para serdes vós mesmos os juízes do que devemos dizer, e o resultado do debate é evidente: se vencermos na discussão por ser justa a nossa causa, e então nos recusarmos a ceder, será a guerra para nós; se nos deixarmos convencer, será a servidão” (TUCÍDIDES, História da Guerra do Peloponeso V, 86).

O trecho acima reflete a falta de possibilidades em aberto no debate minando a escolha real e substituindo-a por opções impostas pelo interlocutor. Os mélios queriam ficar em paz sem guerrear, os atenienses não vislumbravam essa opção. E impuseram aos mélios a guerra ou a escravidão. É muito comum no debate público com pessoas engajadas com proposições de caráter partidário impor ciladas retóricas para fazer violência com seu interlocutor, uma pratica sofística muito comum, por sinal. Atualizando a constatação dos mélios, para o cenário do debate público atual poderíamos identificar a guerra com o assassinato sumário da reputação do interlocutor, e a servidão com a anulação total de sua consciência de liberdade para escolher quais ideias defende, ou mesmo não se posicionar em relação à guerra discursiva.
Outra coisa muito comum no debate violento é a resposta dos atenienses a essa constatação dos mélios que reproduzo abaixo:

“Ora, se fordes levantar suspeitas, por conjecturas, a propósito do que poderá acontecer no futuro, ou se tendes outro propósito além de deliberar sobre a salvação de vossa cidade à luz dos fatos evidentes diante de vossos olhos, pararemos; se , ao contrário, este último é o vosso objetivo, falaremos” (TUCÍDIDES, História da Guerra do Peloponeso V, 87).

Na conjuntura agonística do debate público quem recorre aos artifícios violentos tende a agredir qualquer receio, dúvida ou insegurança do interlocutor frente ao que lhe é proposto. Normalmente ridiculariza e debocha do posicionamento hesitante do interlocutor, por aqui, temos o famoso “isentão”. O moderado certamente será tido como “isentão”, primeiro, porque não é dado aos arrombos de paixão, e tampouco a cegueira que a militância pode oferecer a quem por ela se deixa possuir.

Nesse caso a intransigência se manifesta como incapacidade de escuta, limitando o campo argumentativo do interlocutor que só pode jogar com as peças que o seu adversário fornece. No Eutidemo de Platão, isso é muito claro quando os sofistas perguntam aos interlocutores, mas estes só podem responder segundo as regras que os dois sofistas estabeleceram. Desse modo, o diálogo ganha contornos de um jogo em que duas pessoas estão disputando para vencer, mas apenas uma tem chances reais de vitória.

O intransigente se recusa a aceitar as motivações de seu interlocutor, seu objetivo é debater sem razão, fazer barulho ou uma cortina de fumaça para desviar o objeto debatido.
Transforma o debate em um campo de batalha, chama a si mesmo de “virtuoso” e o outro de “inimigo a ser vencido”, vê-se numa arena onde as palavras são armas com as quais o seu adversário deve ser batido.
O intransigente tem alma de tirano. É autoritário, não aceita objeções e recusa a refutação com base em argumentos sólidos.
Por isso, se o interlocutor rejeita seu argumento ele é agredido, e se o acolhe se torna subserviente. Não há caminho para liberdade de consciência nesse gênero de embate argumentativo. Há, apenas, ataque frontal a dignidade da pessoa na forma de um grotesco ad hominem (sofisma em que o usuário ataca o interlocutor e não suas ideias) ou retirando a emancipação do mesmo. Em ambos os casos, eu retiro a humanidade do interlocutor e o reduzo a coisa ou nada.

Esse tipo de conduta precisa ser combatido no debate público, precisamos aprender a debater ideias, recorrendo ao ferramental lógico em primeiro lugar e os instrumentos da boa retórica como dizia Platão no Fedro.  Do contrário, estaremos sujeitos a sujeição num debate em que a violência se torna o único argumento válido para sustentar o meu ponto de vista.

Brener Alexandre 25/09/2018