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sábado, 24 de outubro de 2020

A política real na ficção e o seu desencantamento

 

Quando a série da Netflix  House of Cards estava fazendo sucesso no Brasil, eu não quis assisti-la. Estava interessado em outras séries e o fato da maioria dos comentários sobre a série ter sido relacionada a conduta do então deputado e presidente da Câmara Eduardo Cunha e sua postura agressiva contra a então presidente da República Dilma Rousseff, me fez esperar o calor do momento e colocar a série de lado. Isso aconteceu lá pelos idos de 2015.

Estamos em 2020 e número de séries que abordam os bastidores da política aumentaram. A Netflix disponibilizou Borgen e Designed Survivor duas outras séries alucinantes sobre os bastidores do poder.

Quando House of Cards estava fazendo sucesso havia também The Crown que havia me despertado interesse pela minha curiosidade sobre a monarquia inglesa.

O que esses seriados têm de tão interessante? Comecei a assistir House of cards, Borgen e Designed Survivor quase que ao mesmo tempo, enquanto aguardo a nova temporada de The Crown. E percebi que o que torna estas séries interessantes é sua abordagem dos bastidores do poder e de como este background ético-social nem sempre é absorvido pela sociedade civil que vê a sombra, mas não sabe muitas vezes de ondem vem a luz que criou aquela sombra.

Max Weber (1864-1920) descreve o processo de secularização e de ruptura com o sobrenatural sob a forma do misticismo como um processo de desencantamento. O desencantamento do mundo que abole o sobrenatural, o místico e a superstição com a qual a natureza e a religião se associavam no mundo pré-moderno misturando, ciência e religião (visão significativamente presente no mundo antigo e medieval). O desencantamento é o ponto de virada em que a ciência substitui a religião, ainda que não a faça desaparecer da explicação dos fenômenos naturais, um triunfo por suposto da razão (ideal iluminista fruto da revolução científica). O desencantamento estilhaça o sobrenatural e naturaliza o mundo retirando entes fantásticos da explicação da natureza e reduzindo o alcance do sagrado na interpretação do mundo natural.

Tomando esse conceito weberiano emprestado penso que esses seriados se vistos com atenção, guardando as proporções inerentes a ficção e a dramatização que encerram promovem o desencantamento da política.

Quero dizer com isso que quando um seriado como House of Cards, ou Borgen nos mostra os bastidores do poder, suas lutas internas e conflitos estes seriados desenvolvem em nós, ou deveriam desenvolver uma habilidade de compreender que a política não pode ser romantizada, idealizada, ou seja, transformada em uma utopia.

Ao nos revelar a natureza da Realpolitik, da política real esses seriados nos convidam a exercitar nossa razão, nos exorta à reflexão sobre a natureza das relações políticas na democracia representativa, monarquias constitucionais  etc e tenhamos a certeza de que o exercício do poder para ser possível precisa endurecer o agente político para que o pragmatismo e ou as convicções partidárias tenham algum peso sobre as decisões de governo. Não há amigos no meio político, há aliados e adversários. Há situação e oposição. Há interesses que estão em conflito, mas que podem convergir se houver algumas concessões trocadas. A política  é ciência do conflito de interesses e o diálogo e o consenso é apenas uma das formas, talvez a melhor para solução desses conflitos de interesses das quais a política se alimenta.

Esse desencantamento não significa, reitero um endosso a antipolítica, não é um convite a aversão da atividade política. A atividade política é necessária e importante. O desencantamento significa justamente uma ampliação da nossa consciência de que a política é feita de acordos, de negociações, espúrias ou não. De arbitrariedades e de jogos de interesses. As arbitrariedades refletem os jogos de interesses que podem ou não passar por cima da lei, é jogo de forças e de influências.

É preciso então, que o cidadão que só vê a sombra, mas não vê a luz se pergunte: “a quem interessa que está sombra esteja projetada aqui?” E pense: “a verdade nem sempre será perceptível a um primeiro momento, é preciso aguardar até que ela apareça”. E se a verdade não aparecer? Fiquemos então com o que nos parece razoáveis, por que nos bastidores do poder é melhor sempre pender para o razoável e correr das soluções radicais.

 

 

Brener Alexandre 24/10/20

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

A alegoria das mesas e as formas de democracia em cada uma delas

 

Se eu tivesse que explicar a alguém o que é democracia tendo de recorrer a uma analogia de fácil entendimento, diria que este regime de origem grega é semelhante a uma mesa na qual todos os que se assentam junto a esta mesa tem os mesmos direitos e os mesmos deveres, uma mesa sem lados, uma mesa redonda.

 

Dito isso, explicaria que numa mesa redonda não há extremidades e todos estão sentados à direita ou à esquerda de alguém. Ninguém teria o direito de reclamar uma importância, porque nesta mesa não há cabeceira e todos são anfitriões uns dos outros.

Diria ainda que a mesa redonda é forma mais madura da democracia e que mesas com lados e extremidades são formas incompletas ou imperfeitas do que chamamos de democracia em nossa analogia.

 

Se a democracia é uma mesa quadrada ou triangular ainda assim estaríamos nos assentando à direita ou à esquerda de alguém. Isso é fácil de se observar levando em conta que as nossas mãos sinalizam o lado em que cada um se assenta. Entretanto, os que se veem de frente se perceberão como extremos opostos entre si.

 

Se a mesa é retangular, em cada lado haverá de se assentar também à direita e à esquerda, a diferença, no entanto, está que cada lado vai ver o companheiro ao lado como um espectro também mais à direita ou à esquerda de si mesmo e quem está no centro será o mais atacado visto por quem está nas extremidades da mesa, além de ver quem se assenta do outro lado da mesa como seu antípoda ideológico.

 

Quando a democracia se assemelha a uma mesa retangular a cabeceira é o pior lugar para se assentar. Afinal, quem se assenta na cabeceira chama para si a responsabilidade do anfritrião, é o sujeito que vai “pagar a conta”. Nesse caso, pagar a conta significa levar a sua posição as últimas consequências. Desse modo, numa mesa retangular as cabeceiras da mesa deveriam sempre ficar vazias, são extremos que malogram a democracia que a mesa representa nesta alegoria.

 

Todavia, só a mesa redonda garante isonomia (igualdade perante a lei) e isegoria (igual direito a palavra), de modo que nas outras formas incompletas da democracia um ou mais membros da mesa podem querer destruir o equilíbrio atacando quem de sua perspectiva ameaça o seu “direito ao poder”. 

 

Desse modo, é preciso reconhecer que no regime democrático tal qual uma mesa com vários lugares sempre estaremos à direita, à esquerda e no centro tendo o outro como referência para nós e sabendo que o outro também se percebe assim em relação à nós enquanto estamos sentados à mesa da democracia.

 

A mesa redonda, portanto, é a democracia plena na qual cada parte da sociedade por meio de seus representantes legais opinião e participam respeitosamente do debate público.

De outro modo, nas democracias instáveis sempre haverá quem queira retirar do interlocutor o seu direito à isonomia e a isegoria, sempre vai lutar pela cabeceira para se colocar nos extremos e pôr-se acima dos lados a sua volta.

 

Brener Alexandre 24/08/2020

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

O naufrágio da oportunidade – considerações sobre o pragmatismo na política


Um dos conceitos mais importantes da ética filosófica e da teologia cristã é o conceito de kairós. Esta palavra de origem grega expressa uma ideia de tempo junto com outras palavras tais quais: chronos, hama, aíon(respectivamente: tempo, simultâneo e eterno numa tradução livre). Kairós é traduzido para a língua portuguesa como “momento oportuno”, “oportunidade” quando lido nos textos filosóficos e na teologia se refere ao “momento propício para a salvação”, isto é, exprime o caráter soteriológico, salvifíco que a vinda de Jesus Cristo, sua morte e ressurreição trazem para todo aquele que acolhe a mensagem do Evangelho.

Aristóteles nos ensina que a virtude (excelência na ação) depende também das condições em que a ação se dá para que o resultado seja o melhor possível.  Resultado melhor não é meramente uma vantagem obtida com a ação, mas o cumprimento adequado da finalidade que se espera da ação para que o bem buscado pelo agente frutifique como ação justa e bela.

Desse modo, Aristóteles estabelece que a ponderação para a escolha dos melhores meios com o objetivo de atingir o fim desejado precisa ser filtrada pela prudência (phronésis) que contabiliza as consequências e ajusta o timing da ação para o agir seja, com efeito, virtuoso.
Maquiavel também no Príncipe indica que ter oportunidade para agir, mas não possuir virtude e sorte (virtú e fortuna) pode malograr a ação e destruir verdadeiro objetivo do agente político, neste caso, a manutenção do poder.

Diríamos então, que prudência e canja de galinha não fazem mal a ninguém como diz o provérbio popular. A prudência é a virtude intelectual que ajuda o ser humano na tomada de decisões, é o “pé atrás” que nos põe a “pulga atrás da orelha”. É ela que separa a intenção de apenas buscar um resultado “satisfatório” de um resultado “eficaz e eficiente” como se diz na ética das virtudes.
Em Como Ganhar uma eleição, carta de Quintus Túlio Cicero endereçada ao seu irmão, orador, filósofo, senador da República Romana Marco Túlio Cicero que em 64 a.C. concorreu a eleição para o consulado (seria uma espécie de primeiro ministro fazendo uma analogia bem grosseira da função do cônsul na República, eram eleitos dois Cônsules). Nesta carta Quintus apresenta vários conselhos a seu irmão para ajuda-lo na corrida eleitoral, muito do que lemos neste texto antigo ainda é usado por candidatos nas eleições no mundo inteiro.

Em um dado momento da carta Quintus escreve a seu irmão: “um candidato deve ser prático, adaptando-se a cada pessoa que ele encontra, mudando sua expressão e fala conforme o necessário” (Cicero, Como ganhar uma eleição, 42). Esse conselho em particular reflete todo o teor do texto ciceroniano e a natureza pragmática que ele comporta. O agente político deve se adaptar para alcançar seus objetivos em síntese é isso que Quintus quer dizer ao irmão. Quer vencer a eleição o método é, por exemplo, dizer as pessoas o que elas querem ouvir, ou comunicar a cada um com quem você se encontrar que ela é especial etc. O resultado virá, mas a que custo? Esse utilitarismo tacanho beneficia a quem? (não estou evidentemente discutindo a grandeza de Cicero como político ou como escritor) A oportunidade naufraga no oportunismo e o pragmatismo com seu utilitarismo tacanho demove qualquer possibilidade de florescimento da virtude.

Numa eleição os únicos que se beneficiam do pragmatismo são os candidatos que alcançam o resultado que almejam, não por espírito público no mais das vezes, mas por interesses pouco republicanos em muitos casos (isso não significa que devemos demonizar a política. Maus políticos são resultado na maioria das vezes de nossas escolhas ruins e precisamos assumir nossa responsabilidade), de fato, numa democracia o poder reside no uso da palavra, no discurso. 

Todo agente político e o cidadão que vota é agente político também precisa compreender que a fonte de poder passa da palavra ao voto e do voto a palavra. Por isso, a democracia prima pelo conflito e pelo contraditório, prima pela descentralização do poder dividindo-o em partes, para que ninguém tenha o monopólio do discurso e da força.

Compete a todo agente político evitar o pragmatismo que ignora a prudência em nome do resultado, que contabiliza apenas a utilidade e suprime a excelência. Pensar o kairós, a oportunidade para agir com virtude é tarefa de todo agente político, de todo cidadão que toma parte na comunidade política com seu dinamismo.

Quintus ajudou seu irmão a vencer uma eleição, os marqueteiros têm ajudado muitos candidatos a ganhar outras nos dias de hoje, compete a nós eleitores pensar as entrelinhas dos discursos que ouvimos, agir com prudência, suspender o juízo antes de uma tomada de decisão que pode por tudo a perder.

Brener Alexandre 28/02/2020

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Flash reverso – ou a reviravolta dos ressentidos




“Cuidado com os dragões, pois, ao enfrenta-los você pode se tornar como um deles” (provérbio chinês).

Quem gosta de quadrinhos e de super-heróis certamente conhece o personagem “Flash” (Há uma seriado em curso do canal CW) da D.C Comics. Personagem conhecido como “velocista escarlate” tem na sua galeria de vilões um nêmesis, Eobard Thawne, o flash reverso. O flash reverso é o oposto do Flash. Eobard Thawne tinha profunda admiração por Barry Allen (identidade do herói de Central City) e converteu essa admiração em ressentimento convertendo-se em um dos maiores vilões do universo D.C responsável por um dos eventos mais famosos envolvendo não apenas o Flash, mas toda a liga da justiça (falo do flashpoint que altera a linha do tempo ao preservar a vida da mãe de Barry Allen – há uma animação sobre esse episódio.). O leitor deve está curioso e se pergunta: “Por que ele começou falando de um personagem de quadrinhos?” “Aonde você quer chegar com isso, amigo?” A resposta é simples.

Findado o processo eleitoral pude observar com mais atenção o comportamento das duas forças em disputa neste processo eleitoral. E tenho percebido que essa disputa eleitoral tem um pouco da rivalidade Flash – Flash reverso, explico.

Ao que parece boa parte do anti-petismo, não o é porque rejeita o porte autocrático do partido, porque discorda ideologicamente do partido, ou porque reconhece que no limite a administração petista deixou a desejar.

Trata-se antes de um antagonismo que mistura admiração e ressentimento, uma mistura perigosa onde a força da minha contraposição tem origem do que eu gostaria de fazer e não posso, mas na primeira oportunidade de fazer eu farei igual.

Durante as eleições isso ficou nítido no embate entre as forças das respectivas militâncias. Os bolsonaristas aprenderam e assimilaram o modus operandi das militâncias de esquerda e as replicou sistematicamente, o que empobreceu o debate público.
Agora, percebemos que no discurso e em muitas atitudes fica manifesto o interesse de restringir o discurso de oposição ao discurso vitorioso nas eleições.
É verdade que a esquerda vai precisar aprender a conviver com o pensamento divergente nas instituições de ensino particularmente e no debate público em geral. Mas esse processo é lento e gradual e exige das duas forças um respeito primordial as instituições da república, mais, precisa baixar o tom, pois a eleição terminada requer de todos atenção para acompanhar a transição do novo governo.

O bolsonarismo se vendeu como uma alternativa ao petismo, mas não pode ser igual ao petismo que eles combateram com altivez. Precisarão se apresentar à sociedade como defensores do direito de discordar, aprender a expor suas ideias com serenidade e, sobretudo, defender as instituições da república. Promover a livre circulação de ideias, enaltecendo a vida intelectual, a liberdade de cátedra e o direito de discordar.
Do contrário, o bolsonarismo tal qual Thawne, será um flash ao contrário, nesse caso um petismo ao contrário, ou nas palavras de Janaina Paschoal: “um PT com sinal trocado”; com tendências autocráticas e pouco republicanas.

Desse modo, cabe a cada um que menos preocupado em escolher um lado e mais preocupado em defender as liberdades individuais garantidas pelo princípio de cidadania constitucional não se deixar levar pelos gritos histéricos de nenhum dos lados, mas com os pés no chão resistir tal qual Odisseu resistiu ao canto das sereias aos encantos do ativismo míope que tem solapado o debate e criando na cultura política do país um ambiente propenso a truculência daqueles que só se fazem ouvir pela força.

Brener Alexandre 30/10/2018

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Sócrates, o isentão



“Se eu tivesse me envolvido na política, teria sido conduzido à morte há muito tempo e não teria feito nenhum bem a vós ou a mim mesmo” (PLATÃO, Apologia 31e).
O termo “isentão” cunhado para desmerecer eleitores moderados que a priori não assumem um posicionamento político claro e evidente, poderia ser claramente atribuído a Sócrates no episódio celebre por ele mesmo contado através de Platão, na qual ele não parte para o exílio junto com os membros do partido popular quando a tirania dos trinta foi instaurada em Atenas.

O relato da instauração da tirania dos trinta pode ser encontrado na Constituição de Atenas de Aristóteles tal como segue abaixo:
Uma das cláusulas do tratado de paz (da guerra do Peloponeso) estipulava que o Estado fosse por eles governado de acordo com a Constituição dos ancestrais (provavelmente a constituição de Sólon). Em consonância com isso o partido popular empenhou-se em preservar a democracia. Os notáveis, porém, integrantes das associações políticas, bem como exilados que já retornavam à pátria após a celebração da paz, almejavam a oligarquia; quanto aos notáveis não pertencentes às associações políticas, mas que em outros aspectos não se julgavam inferiores a quaisquer outros cidadãos, estavam interessados em restaurar a Constituição dos ancestrais. (...) Quando Lisandro se posicionou a favor do partido oligárquico, o povo sentiu-se pura e simplesmente intimidado e forçado a votar em favor da oligarquia (ARISTÓTELES, Constituição de Atenas, 34).

Tendo o povo aceitado a oligarquia como regime de governo a tirania dos trinta assumiu o controle na cidade e segundo Aristóteles: “Senhores do Estado, ignoraram no seu governo a maioria das resoluções que haviam sido aprovadas com referência à Constituição” (ARISTÓTELES, Constituição de Atenas, 35). A consequência imediata da displicência dos oligarcas no que tange a fazer cumprir a Constituição tal qual acordada pelos atenienses é descrita pelo Estagirita abaixo:
Inicialmente, agiram com moderação no trato dos cidadãos e simularam administrar o Estado de acordo com a Constituição dos ancestrais. (...) De início, portanto, ocupavam-se dessas atividades, na eliminação dos fraudadores e daqueles que se associavam de maneira indesejável ao povo lisonjeando-o e não passavam de indivíduos maldosos e patifes. Diante de tudo isso, a cidade mostrava-se muito satisfeita, no pensamento de agiam alimentando as melhores intenções. Mas tão logo consolidaram um controle ainda mais firme do Estado, não pouparam nenhuma classe de cidadãos, condenando à morte e executando aqueles que se distinguiam seja pela riqueza, seja pelo nascimento, seja pela reputação. Com isso visavam a eliminar todos que eles tinham motivo para temer,(...) (ARISTÓTELES, Constituição de Atenas, 35).

Notamos um exemplo bastante eloquente de como um regime constitucional e estabelecido por consenso e voto se torna gradativamente um regime autoritário e autocrático. Não obstante assumir ou não uma posição diante desse estado de coisas parece inevitável para qualquer um. Sócrates não assumiu um lado, não apoiou a tirania e tampouco se retirou de Atenas com os membros do partido popular. Sócrates não tinha partido, era inteiro. O filósofo procurava a justiça e não a deixava de lado por medo da morte, seja no período em que Atenas era uma democracia sob o governo do partido popular, seja na oligarquia com a tirania dos trinta.

O próprio Sócrates diz: “jamais me curvaria, por medo da morte, a qualquer pessoa que contrariasse o que é justo, preferindo morrer a curvar me” (PLATÃO, Apologia 32a). E o que é justo para Sócrates? O filósofo mesmo explica: “ter a lei e a justiça ao meu lado” e completa “ a aliar-me a vós, quando vos empenhavas num procedimento injusto” (PLATÃO, Apologia 32c). Quando Atenas ainda era uma democracia o filósofo se recusou a votar pelo julgamento coletivo dos generais que falharam na batalha de Arginusa, pois tal procedimento era ilegal subentenda inconstitucional.

Quando Atenas é tomada pela oligarquia os tiranos que se tornaram “senhores do Estado” tentavam implicar em seus crimes vários cidadãos, dentre os quais Sócrates. Em um desses casos os tiranos exigiram de Sócrates e outros cidadãos que buscassem um homem, Leon de Salamina, no exílio para ser executado. Enquanto, muitos cidadãos movidos pelo medo saíram de Atenas para cumprir a ordem dos tiranos Sócrates simplesmente retornou para a sua casa como nos relata Platão: “Aquele governo, por mais poderoso que fosse, não me intimidou no sentido de realizar algo injusto. Entretanto, quando saímos da rotunda, os outros quatro dirigiram-se a Salamina e prenderam Leon. De minha parte, limitei-me a voltar para a minha casa” (PLATÃO, Apologia 32d).

Quando somos persuadidos pela razão que nos inclina para a justiça a força que pode quebrar o corpo, manchar superficialmente a sua reputação, não pode retirar de nós a virtude. Compreender no momento atual que estamos entre a cruz e a espada é sensato. Mas não peça a ninguém que escolha entre um e outro movido pelo medo, ou pelo ódio aos adversários. Ficar a meio caminho para observar o que acontece com atenção não é covardia, é prudência! Buscar a mediania não é tibieza é sensatez! Reconhecer as limitações dos discursos e exigir das partes que sejam melhores do que se mostram é justo e legítimo, mais legítimo inclusive do que fazer do debate público uma arena de MMA.

E se é preciso ficar e resistir porque “ ao longo da minha vida, em qualquer atividade pública em que possa ter me engajado sou o mesmo homem que da vida privada. Jamais compactuei com alguém para uma ação injusta” (PLATÃO, Apologia 33a ). Eu preciso lembrar constantemente que sou míope. De que preciso trocar os óculos com os quais vejo o mundo regularmente. Então, preciso constantemente avaliar minhas escolhas, me limpar de minhas contradições, reduzi-las ao máximo e ser dentro do que a minha limitada e defeituosa condição humana permite que eu seja.

Por isso, inspirado mais uma vez na história antiga, na filosofia antiga busco para a razão um remédio que permita que eu veja e faça a outros que vejam também se querem enxergar a realidade que não se curvem a tiranos. Que não abracem a tirania de nenhum tipo. Porque seus seguidores mordazes ganharam terreno e se alimentaram do que tínhamos de sonhos, se alimentaram como dementadores da nossa tristeza, e incentivaram como sith a escuridão que escondemos de nós mesmos.

Não desmereçamos os “isentões” são eles, como eu, que irão decidir essas eleições. Inclinando se ou não a um dos extremos, ou permanecendo no centro indicando que nenhum dos dois extremos agradam à república e o verdadeiro Estado democrático de direito.
Brener Alexandre 23/10/2018

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Intransigência ou morte da democracia - A lição do diálogo entre os atenienses e os mélios


No quinto livro da História da Guerra do Peloponeso encontramos o famoso diálogo entre os atenienses e o mélios. Nesse diálogo se discutia a adesão de Melos, uma colônia espartana na guerra do Peloponeso. Os atenienses exigiam que os mélios se aliassem aos áticos contra os lacedemônios. Isso significava que os atenienses queriam que os mélios lutassem contra seus patronos, uma vez que Melos era uma colônia lacedemônia ou espartana, isto é, os mélios eram espartanos que migraram para aquela ilha do mediterrâneo. Tendo isso em vista esse diálogo sempre foi visto como manifestação de poder, tirania e intransigência.

 O uso da palavra como mecanismo de cerceamento da liberdade, neste caso de todo um povo que queria ficar neutro na guerra. A imagem remontada por Tucídides em sua História da Guerra do Peloponeso é a imagem que com tristeza vejo no debate baixo que avança com a força da desinformação e da má vontade que as partes que tomam a frente no diálogo insistem em sustentar com seu autoritarismo velado pela aura de pretensa virtude, sabedoria e lugar privilegiado. Não obstante, tudo isso é aparência e vaidade, na verdade por onde quer que eu vá encontro a soberba e arrogância, a falta de bom senso e a incapacidade para o diálogo aberto em que os interlocutores tentem passar da discordância à concessão e da concessão ao consenso, como aliás deveria ser em todo os debate. Por que isso ocorre? Será que fomos tomados pela cultura da pós verdade? Tentarei responder essa questão em outro lugar. Mas deixo a questão aos meus leitores imitando a prática comum dos humoristas de stand up comedy: “Se você não conhece na sua roda de amigos alguém assim, eu tenho uma má notícia, meu caro, pois você...”

Não pretendo reproduzir todo o diálogo nesse texto porque tornaria a leitura enfadonha, vou apenas pontuar algumas passagens para expor algumas ideias sobre intransigência no debate e o uso da força por meio da palavra.
Tucídides nos conta que tão logo os mélios tiveram a palavra nessa conversa com os emissários atenienses disseram:

“Vemos, com efeito, que viestes para serdes vós mesmos os juízes do que devemos dizer, e o resultado do debate é evidente: se vencermos na discussão por ser justa a nossa causa, e então nos recusarmos a ceder, será a guerra para nós; se nos deixarmos convencer, será a servidão” (TUCÍDIDES, História da Guerra do Peloponeso V, 86).

O trecho acima reflete a falta de possibilidades em aberto no debate minando a escolha real e substituindo-a por opções impostas pelo interlocutor. Os mélios queriam ficar em paz sem guerrear, os atenienses não vislumbravam essa opção. E impuseram aos mélios a guerra ou a escravidão. É muito comum no debate público com pessoas engajadas com proposições de caráter partidário impor ciladas retóricas para fazer violência com seu interlocutor, uma pratica sofística muito comum, por sinal. Atualizando a constatação dos mélios, para o cenário do debate público atual poderíamos identificar a guerra com o assassinato sumário da reputação do interlocutor, e a servidão com a anulação total de sua consciência de liberdade para escolher quais ideias defende, ou mesmo não se posicionar em relação à guerra discursiva.
Outra coisa muito comum no debate violento é a resposta dos atenienses a essa constatação dos mélios que reproduzo abaixo:

“Ora, se fordes levantar suspeitas, por conjecturas, a propósito do que poderá acontecer no futuro, ou se tendes outro propósito além de deliberar sobre a salvação de vossa cidade à luz dos fatos evidentes diante de vossos olhos, pararemos; se , ao contrário, este último é o vosso objetivo, falaremos” (TUCÍDIDES, História da Guerra do Peloponeso V, 87).

Na conjuntura agonística do debate público quem recorre aos artifícios violentos tende a agredir qualquer receio, dúvida ou insegurança do interlocutor frente ao que lhe é proposto. Normalmente ridiculariza e debocha do posicionamento hesitante do interlocutor, por aqui, temos o famoso “isentão”. O moderado certamente será tido como “isentão”, primeiro, porque não é dado aos arrombos de paixão, e tampouco a cegueira que a militância pode oferecer a quem por ela se deixa possuir.

Nesse caso a intransigência se manifesta como incapacidade de escuta, limitando o campo argumentativo do interlocutor que só pode jogar com as peças que o seu adversário fornece. No Eutidemo de Platão, isso é muito claro quando os sofistas perguntam aos interlocutores, mas estes só podem responder segundo as regras que os dois sofistas estabeleceram. Desse modo, o diálogo ganha contornos de um jogo em que duas pessoas estão disputando para vencer, mas apenas uma tem chances reais de vitória.

O intransigente se recusa a aceitar as motivações de seu interlocutor, seu objetivo é debater sem razão, fazer barulho ou uma cortina de fumaça para desviar o objeto debatido.
Transforma o debate em um campo de batalha, chama a si mesmo de “virtuoso” e o outro de “inimigo a ser vencido”, vê-se numa arena onde as palavras são armas com as quais o seu adversário deve ser batido.
O intransigente tem alma de tirano. É autoritário, não aceita objeções e recusa a refutação com base em argumentos sólidos.
Por isso, se o interlocutor rejeita seu argumento ele é agredido, e se o acolhe se torna subserviente. Não há caminho para liberdade de consciência nesse gênero de embate argumentativo. Há, apenas, ataque frontal a dignidade da pessoa na forma de um grotesco ad hominem (sofisma em que o usuário ataca o interlocutor e não suas ideias) ou retirando a emancipação do mesmo. Em ambos os casos, eu retiro a humanidade do interlocutor e o reduzo a coisa ou nada.

Esse tipo de conduta precisa ser combatido no debate público, precisamos aprender a debater ideias, recorrendo ao ferramental lógico em primeiro lugar e os instrumentos da boa retórica como dizia Platão no Fedro.  Do contrário, estaremos sujeitos a sujeição num debate em que a violência se torna o único argumento válido para sustentar o meu ponto de vista.

Brener Alexandre 25/09/2018

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Hooligans: do esporte a política


Anos atrás repetíamos o adágio: “brasileiro devia discutir política como discute futebol”. Se soubéssemos o tamanho da bobagem contida nesta sentença, já haveríamos de nos arrepender de tratar um assunto tão sério com leviandade.
Não só não deveríamos discutir política como se discute futebol, como não deveríamos sequer discutir o futebol como se discute futebol.

A paixão, a afetividade desempenha um papel fundamental no estádio de futebol, inflama o torcedor que canta, vibra positivamente ou não reagindo aos atores em cena. Dentro do estádio, na roda de amigos durante o jogo, ou mesmo num bar. Antes do jogo, ou depois dele o que deve imperar é a razão. Esse precioso elemento que por vezes esquecemos ou simplesmente ignoramos quando falamos de futebol. O torcedor não pode ser só afetividade, não pode ser só coração, precisa da racionalidade para ler os fatos e ser justo com o seu time, o adversário e a arbitragem.

Conhecemos o fenômeno do hooliganismo no esporte marcando a atuação vergonhosa dos torcedores violentos. Violência física, violência verbal. Constranger e intimidar essas são as características do hooligan. No Brasil poderíamos usar a expressão “clubismo” como essa espécie de violência, pois, o clubista vê apenas as cores do seu clube, percebe apenas as necessidades do seu time do coração, pensa apenas nas vantagens que podem beneficiar o seu time. São violentos? Não, o são fisicamente (quero dizer em geral não o são), mas o são ideologicamente, pois são incapazes de diálogo. Não conseguem confrontar ideias e olhar sob perspectivas diferentes. Dito de outro modo, o clubista faz violência a sua maneira quando fecha os olhos para a realidade dos fatos em nome das cores do time do coração.

Infelizmente, importamos esse comportamento para o debate público, suspeito que ele já existia muito antes da polarização na qual estamos inseridos em tempos hodiernos.  E que agora com as mídias sociais e o acirramento do debate público esse comportamento tenha ganhado proporções que devem nos levar a refletir sobre o nosso modo de debater ideias.
As discordâncias fazem parte do regime democrático, não há democracia onde há unanimidade, não há democracia onde não há contraditório. Platão no diálogo Sofista escreve: “O pensamento é um diálogo de si consigo mesmo” (cito de memória). O pensamento é dialógico, precisa ver outras perspectivas, precisa do contraditório para se encaminhar à verdade. Se o raciocínio é um diálogo, quanto mais não o seria o debate de ideias?
No entanto, o que presenciamos no debate público é o que Platão chamou no diálogo Eutidemo de “mistérios sofísticos” onde os argumentos dançam, rodopiam e se entrelaçam para agredir e derrubar o interlocutor. Na peça platônica Eutidemo e seu irmão instrumentalizam o discurso para atingir um único fim: vencer. Não se trata de ter razão, não se trata de expor a verdade, trata-se de ganhar a discussão, no grito, por meio da violência.

Se debatêssemos as razões (motivações) das pessoas e as refutássemos com base em outras motivações legítimas teríamos, então, um debate saudável em torno de ideias e construiríamos uma democracia sólida onde as instituições nos orientariam para o império da lei. Discordaríamos sim, o que é natural em uma democracia sólida, porém, sob o império da lei e da razão aprenderíamos com nossas discordâncias, estabeleceríamos consenso e repudiaríamos os excessos. Se não podemos ser tolerantes com os intolerantes como escreveu Popper, também não podemos tolerar os abusos contra as instituições e a violência generalizada no debate público que assassina reputações, cerceia liberdades individuais e reduz ao silêncio cidadãos que estão cumprindo seus deveres e tem seus direitos respaldados pela constituição.

Não podemos aceitar mais que os hooligans pautem o debate público, é preciso enriquecer o diálogo para enriquecer a democracia incipiente brasileira.
E só podemos fazer isso se mudarmos nossa forma de discutir política, isto é, deixando as paixões de lado, o “clubismo” partidário-ideológico, e como Sócrates na República de Platão em diálogo franco com Polemarco buscando a justiça reveza com seu interlocutor por que um bem tão importante não pode ser ocultado por nenhuma das partes como o filósofo explicou para o sofista Trasímaco.
Em suma, ou mudamos a forma de debater ideias condenando ao ostracismo a violência que segrega quem pensa diferente ou, então, jamais construiremos uma república de fato em nosso país.

Brener Alexandre 20/09/2018

sábado, 14 de novembro de 2015

3° Lei de Newton

Escreveu Sir Isaac Newton na grande obra Principia Mathematica “A toda ação há sempre uma reação igual ou, as ações mútuas de dois corpos um sobre o outro são sempre iguais e dirigidas a partes opostas” (Newton, 2008,p.54).

Todos conhecem a 3° lei de Newton, a lei da ação e reação. Ela diz que se eu der um soco em uma parede a dor que vou sentir é proporcional a força com que a minha mão a atingiu. A dor parece maior, é verdade, mas é proporcional.
 Acontece é que a minha mão é feita de um material menos resistente que a parede e, portanto, passível de sentir mais os efeitos da força reativa do que a parede sentiria em termos destrutivos a força ativa do golpe desferido. (como contra exemplo a parede sente o dano ao ser golpeada por uma marreta e se deixa destruir, quando a marreta não parece ter sofrido absolutamente nada).

Mas, por que falar da 3° lei de Newton? Em que ela nos ajuda a pensar os problemas éticos e sociais que tem envolvido a humanidade recentemente?
Porque, penso, a lei de Newton mais poderosa que a lei de Murphy não diz apenas sobre força de ação e reação e o impacto que isso tem sobre os corpos, mas diz também sobre a força de ação e reação das nossas escolhas morais e do impacto que provoca sobre a nossa sociedade.

Explico: A polarização recente na política e seus contrastes visíveis principalmente nas redes sociais é um fenômeno que pode ser explicado pela 3° lei de Newton.  Quero dizer que pode ser compreendido, e não que é capaz de avaliar quem está certo ou errado na história. O EI (Estado Islâmico) e seus ataques também podem, penso ser explicado por essa maravilha da física moderna.
Se há uma força de mudança haverá na mesma proporção uma reação conservadora (pode ser conservadora em sentido positivo, ou reacionária na contramão do pensamento revolucionário e, portanto, em sentido negativo), se há uma força violenta haverá uma resposta a altura. É isso o que tenho pensado recentemente observando os fatos.

Pessoas ao fazer escolhas morais, ao se engajarem em projetos sociais, ao escolher esta ou aquela ideologia produzem os efeitos da 3° lei de Newton. Porém esses efeitos não são imediatos, pode ser que a resposta venha no mesmo instante, pode ser que a resposta venha ao longo de meses ou anos, mas ela vem.
E vem na forma do ressentimento, da covardia, do medo, do irracionalismo e de inúmeras formas de violência. A palavra que agride, que projeta, que recusa até a violência física e a negação dos direitos básicos do outro.

Suprimir a alteridade até silenciá-lo. E tal como a mão que dói ou a parede que é feita em pedaços pela marreta também aquele que resistir ao choque de forças antagônicas permanecerá de pé. Mas deveria ser assim?

Se como disse o filósofo Eric Weil escapamos à violência e ao medo ao sermos racionais, pergunto-me quando, então, seremos racionais? É verdade quem nem todos estão abertos ao diálogo, que nem todos almejam à paz, mas e então? Eis o paradoxo do humanismo, como lidar com a alteridade que não reconhece o outro? Como permitir o reconhecimento ético? Duas alteridades que se afirmam e se respeitam, duas alteridades, posto que um é sempre outro para o outro. O reconhecimento é um dos grandes desafios da ética contemporânea e da filosofia política contemporânea. A violência é a resposta que subjaz à falta de diálogo, não apenas a violência física, mas a violência verbal à discriminação de todo o tipo também são violências nossas de cada dia.

A 3° lei de Newton se torna cada vez mais perceptível para mim, ela explica a natureza dos corpos e das gentes será que haverá algum meio de escapar de tal lei? Ou de minimizar os efeitos dessa lei?


Edição da Principia Mathematica usada:


NEWTON, Isaac. Principia: Princípios Matemáticos de Filosofia Natural Livro I. trad: Trieste Ricci, Leornado Gregory Brunet, Sônia Terezinha Gehring, Maria Helena Curcio Célia. São Paulo: Edusp, 2008 2° edição.

sábado, 15 de agosto de 2015

Diógenes e a Lanterna ou procuro um político honesto

Há uma anedota famosa transmitida por Diógenes Laértio na sua Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres acerca de Diógenes, o cão ele nos conta que: “durante o dia, Diógenes, caminhava (periéei) segurando uma lanterna dizendo: ‘procuro um homem’! (anthropon zetô)” (Diógenes Laértios,Vidas e Doutrinas. VI,II,41).
Essa anedota chama a atenção pelo excentrismo do filósofo cínico, mas a sua performance nos diz mais do que queremos saber. Na linha acima desse relato Laértio no informa que: “Diógenes dizia que os demagogos são empregados das massas (ókhlou diakónous)” (Idem. VI,II,41). Imaginem Diógenes, ele toma a sua lanterna em plena luz do dia e perambula pelas ruas da cidade gritando: “procuro um homem de verdade” digo perambula, porque é exatamente isso que o verbo pérao  indica, quer dizer, Diógenes andava de um lado para o outro com sua lanterna em punho.  Procurava um homem de verdade, ánthropos, o gênero humano por excelência e não o homem e a mulher, o macho e a fêmea, mas a humanidade escondida por detrás do macho e da fêmea, do homem e da mulher. Mas hoje quero repetir o gesto do filósofo cínico e pegar a minha lanterna, porém, não vou procurar por um homem de verdade, mas por um político honesto.

Procuro um político honesto, porque só me deparo com demagogos. Me sinto como Diógenes que sempre que lhe perguntavam se havia muita gente em um lugar respondia: “sim, muita gente (ókhlos polýs), porém, poucos homens (olígoi d’ hoi ánthropoi)” (Cf. Idem. VI,II,60). Chama a atenção pelo contraste entre ókhlos e ánthropos, entre multidão, massa, turba de um lado e homens do outro. Para o nosso filósofo cínico a práxis política se resume a demagogia, e creio que seu diagnóstico se dá principalmente pela força dos discursos que ouvira na assembleia ateniense. A política resumida à demagogia, isto é, a condução do povo, dessa multidão que corre como um rio impetuoso. Por isso também Diógenes louvava quem queria participar da política (assumindo um cargo), mas não assumia. Diógenes, é certo, seria considerado um anarquista e o anarquismo pela sua radicalidade pode ser difícil de ser compreendido e assimilado, mas ao menos nos põe a pensar, e a querer perambular com uma lanterna na mão a procurar um político honesto, um homem de verdade.

Procuro um político honesto, mas só me deparo com demagogos. Procuro um parresiásta, mas ele se esconde da política. A política como profissão exige de quem a professa que seja capaz de vender a mentira como verdade. O político profissional é um adulador que diz o que a turba quer ouvir, por isso “o demagogo é um empregado das massas”, porque se põem aos seus serviços adulando-o. A adulação passa do dizer o que a multidão quer ouvir a fazer o que ela deseja, mesmo que isso seja prejudicial.

Inquerido, certa vez, sobre que fera teria a mordida pior, Diógenes respondeu que das feras selvagens o sicofanta (os sicofantas viviam da extorsão e do estelionato) e das feras domésticas o adulador (kólacs) (Cf. Ibidem. VI,II,51).
Ser seduzido pelo adulador, seja no âmbito privado, isto é, pelos amigos e familiares que querem receber seus favores, seja no âmbito público, ou seja, pelo demagogo é receber uma mordida terrível.

Vou segurar a minha lanterna, sob o brilho da luz do sol em busca de um político honesto, em busca também da minha honestidade, e gostaria de ter a felicidade de encontrar ao menos uma das duas coisas.

sábado, 25 de julho de 2015

A Lição de Heródoto: A tirania como constituição da injustiça

No quinto livro de suas Histórias, Heródoto, relata a tentativa de restituir a tirania na cidade de Atenas, e deste modo, suprimir a isonomia recém implantada com a derrocada do filho de Pisístrato, Hípias. Os espartanos querendo suprimir a força que a isonomia deu aos atenienses reúne seus aliados e lhes propõe restituir a tirania conferindo poder novamente a Hípias, porém, Sócles de Corinto nos apresenta o que realmente é a tirania como forma de governo, isto é, como constituição. Para este coríntio a tirania é um mal que deve ser evitado de modo que um governo entre os iguais (isokratia) possa prevalecer como melhor regime político. Vejamos o discurso de Sócles e, então, compreender o que é a tirania e em que medida ela é a constituição da injustiça.

“Sócles de Corinto disse o seguinte: Em verdade, o céu vai ficar por baixo da terra e a terra vai parar por cima do céu, os homens vão morar no mar e os peixes morarão onde antes havia homens, pois vós, lacedemônios, destruindo a isocracia, estais em preparativos para restabelecer nas cidades a tirania, de todas as instituições existentes entre os homens a mais injusta e sanguinária. Se achais realmente um bem para as cidades a submissão a tiranos, começai por instalar um deles entre vós mesmos, antes de tentar instalá-los entre outros povos; agora, porém quereis introduzir tiranos erradamente entre vossos aliados, sem tê-los conhecido por experiência própria, enquanto exerceis a vigilância mais estrita para evitar a sua instalação em Esparta; se tivésseis experiência deles, como nós, poderíeis trazer-nos opiniões mais sábias que as presentes sobre o assunto.” (HERÓDOTO, História V,92).

A afirmação de Sócles começa por constatar que os espartanos desejavam para os outros algo que não desejavam para si próprios, isto é, a limitação do poder político traduzido como liberdade e exercício pleno da cidadania, no entanto, essa liberdade e cidadania não é uma liberalidade, pois a isocracia pressupõe uma constituição que equalize a desigualdade sem que constituição seja destruída. A legislação isocrática reconhece na instituição de deveres e direitos uma igualdade que fortalece as relações do cidadão com a sua comunidade política. Aquilo que os gregos chamavam de democracia, e os latinos de república é uma constituição isocrática por excelência na medida em que a legislação se colocava como mecanismo regulador do poder político, ou na medida em que a lei dá ordenamento e, portanto, regulamenta a forma de fazer política impedindo que indivíduos ou grupos políticos usassem do poder para constranger e reprimir os demais cidadãos. Com efeito, os espartanos desejavam não para si, mas para os seus inimigos a tirania, pois esta cerceava a liberdade dos cidadãos por meio de coerção violenta e desse modo impedia o crescimento e desenvolvimento daquela comunidade política subjugada pelo tirano. Por outro lado, a fala de Sócles revela que a tirania se fosse boa seria desejada pelos espartanos como regime político ideal, mas na verdade os espartanos eram extremamente rigorosos para minar qualquer possibilidade de se levantar um tirano entre eles. Isso nos mostra que a tirania só é benéfica para quem usufrui do poder que ela concede, em outras palavras, a tirania faz jus ao ditado popular: “pimenta nos olhos dos outros é colírio”. A tirania é nesse sentido um regime totalitário, em que poder é exercido com violência por um ou mais cidadãos deformando a constituição vigente retirando direitos e imprimindo deveres que ferem o princípio isocrático  outrora presente na constituição. Sócles continua seu discurso falando de Cípselos e seu filho, ambos tiranos que governaram Corinto com mãos de ferro vejamos um pouco mais de seu discurso aos espartanos.

“Depois de Cípselos ter-se tornado tirano transformou-se no seguinte tipo de homem: ele baniu muitos coríntios, despojou muitos de seus bens e tirou a vida de um número ainda maior. Após reinar durante trinta anos e levar uma existência entremeada até o fim de dias felizes, Cípselos foi sucedido por seu filho Períandros. Inicialmente, Períandros foi mais brando que seu pai, mas após travar relações através de mensageiros com Trasíbulos, tirano de Mileto, passou a ser ainda mais cruel que Cípselos. Ele (Períandros) tinha mandado um arauto a Trasíbulos, com a missão de saber do mesmo a maneira mais segura de pôr em ordem todos os assuntos da cidade e melhor governá-la. Trasíbulos levou o arauto de Períandros para fora da cidade e entrou em sua companhia num campo cultivado; percorrendo um trigal, ele  interrogava repetidamente o arauto a respeito de sua vinda de Corinto, e ao mesmo tempo cortava todas as espigas que aos seus olhos pareciam ultrapassar as outras em altura;uma vez cortadas essas espigas, Trasíbulos jogava-as no chão, até que, agindo dessa maneira, havia destruído as espigas mais belas e mais carregadas de grãos entre todas as existentes na seara. Percorrido o campo, e sem dar uma palavra sequer de conselho, Trasíbulos mandou o arauto embora. Quando este regressou a Corinto Períandros procurou ansiosamente saber qual tinha sido o conselho tão esperado. O arauto apenas respondeu que Trasíbulo não lhe havia dado conselho algum; ele manifestou estranheza pelo fato de Períandros tê-lo mandado procurar um homem como aquele, desequilibrado e destruidor de suas próprias coisas, e em seguida relatou o que vira Trasíbulos fazer. Períandros compreendeu o sentido desse procedimento, e percebeu que o conselho de Trasíbulos era mandar matar os cidadãos que sobressaíssem entre os outros; e desde então ele mostrou toda espécie de malignidade em relação aos coríntios. Tudo que Cípselos havia deixado inacabado em matéria de assassínio e banimento Períandros terminou. (...) Isso é a tirania, lacedemônios, e assim ela age. (...) Conjuramo-vos, em nome dos deuses dos helenos, a não instituir tiranos nas cidades. Não desistireis de vossos desígnios e ireis insistir, contra a justiça, em trazer Hípias de volta? Ficai sabendo, então, que ao menos os coríntios não concordam convosco.” (HERÓDOTO, Histórias V,92).

Nesse longo relato de Sócles de Corinto podemos ver a natureza da tirania e porque a sua instituição fere a justiça e a isocracia. O tirano exerce o seu poder como império, isto é com força excessiva, com violência. Para assegurar o seu poder ele retira o poder dos demais, não tolera aqueles que se sobressaem e que, portanto, podem se destacar dos demais. Desse modo, cria dispositivos para suprimir os direitos e impondo o dever de obedecer sob coação, por meio de pilhagem na forma ou não de impostos abusivos e desapropriação de bens. A igualdade é sempre colocada para outros de modo que o tirano esteja sempre acima dos demais e acima da constituição que deve sempre lhe beneficiar. O tirano é, em suma, desequilibrado pela sede de poder e por não ter a lei como régua e como limite para o exercício do poder.

Toda forma de ditadura é tirania, porque vê a constituição como um simples acessório e não como a carta magna que regula a vida da comunidade política. Usa-a para atingir o poder, mas limita ou modifica a mesma constituição para se perpetuar no poder. Além, de desejar controlar todas as forças institucionais do Estado para si e, assim ter o controle sobre tudo e sobre todos, dizer o que é o certo e o que errado eliminando toda possibilidade de diálogo, abrindo brecha para a corrupção ao agregar um poder absoluto.

E, se, portanto, a justiça é conferir a cada um o que é seu, a isocracia seria em termos de constituição a forma mais justa e a tirania o seu oposto, pois impede por meio da violência que cada um desenvolva seus talentos naturais, isto é, se sobressair de forma justa amparado pela constituição e a legislação que regula na forma da lei qual é o critério que torna justo ou injusto o crescimento de alguém. A igualdade perante a lei equaliza por meio da lei o que é naturalmente desigual. Conferindo direitos e deveres iguais a todos conscientizando cada cidadão da sua responsabilidade por fazer da sua comunidade política uma comunidade mais justa e menos violenta.

domingo, 22 de março de 2015

Democracia lugar do lógos do contraditório e dos contrários

Tucídides escreveu no início de sua História da Guerra do Peloponeso que: “quem quer que deseje ter uma idéia clara tanto dos eventos ocorridos quanto daqueles que algum dia voltarão a ocorrer em circunstâncias idênticas ou semelhantes em conseqüência de seu conteúdo humano, julgará a minha história útil e isso bastará. Na verdade ela foi feita para ser um patrimônio sempre útil, e não uma composição a ser ouvida no momento da competição por algum prêmio.” (Tucídides, História da Guerra do Peloponeso I,22).

Tucídides nos ensina que o trabalho memorial da história se preza a nos ajudar a compreender o fenômeno humano, tanto dos que já aconteceram, quanto dos que podem voltar a se manifestar. Nesse sentido a história é um saber dinâmico que sempre se volta para o passado para compreender o presente e evitar um futuro desastroso para todos.
Por isso ao invés de simplesmente recorrer à filosofia enquanto saber perene que nos convida à krísis, vale dizer, nos convida à reflexão crítica da realidade me senti na necessidade de recorrer à história para que aprendendo com ela possa fazer filosofia da história e na história e não apenas história da filosofia.

 Ao invés de procurar os fatos da história recente vou dialogar com um homem muito mais velho que o nosso país para falar do nosso atual momento político. Como foram os gregos que nos legaram um modo peculiar de fazer política e com isso me refiro à democracia, pois, de fato, os mais adequados para nos ensinar o caminho para compreender que toda a forma de despotismo e tirania nos conduz a um estado inferior ou de subserviência que contraria qualquer regime que se pretende democrático são os antigos gregos.

A democracia é o regime político da contradição e do contraditório e só é possível pelo exercício da palavra, do direito à palavra. E, enquanto lugar privilegiado do exercício da fala e do embate pela palavra precisa ser por meio do amparo da lei, com liberdade e verdade para se consolidar como governo do povo e para o povo. Por isso a análise feita por Foucault (quem tiver o interesse de ler mais sobre o assunto temos as traduções da Martins Fontes das obras de Foucault: Hermenêutica do sujeito, Governo de si e governo dos outros e A coragem da verdade) da parresía é de suma importância para a compreensão da democracia como forma de governo em que o poder é exercido pelo uso da palavra. Foucault nos ensina analisando a tragédia Íon que a parresía se manifesta primeiro como isegoria, isto é, como direito igual à palavra perante a lei. Depois a parresía vai significar mais que ter o direito à palavra na àgora (isso é o que significa isegoria literalmente), mas significará dizer o que pensa (nesse sentido a parresía já começa a ser associada a franqueza, sinceridade) e se nos voltarmos para alguns relatos de discussões feitos por Tucídides em sua História da Guerra do Peloponeso perceberemos uma identificação da parresía enquanto o exercício livre da fala e da liberdade de se exprimir como a doxa, vale dizer, com a opinião.

O pensar aqui não é o criterioso pensar filosófico, mas é o pensar no sentido de o que está na cabeça do falante, por isso equivale a opinião, posto que a opinião exprime uma convicção do falante. Quando olhamos para essas duas acepções da parresía percebemos como a fala é mecanismo para a manutenção do poder na democracia antiga (que como todos sabem é participativa e não representativa). Será com a filosofia que a parresía estará associada com o falar a verdade, mais do que ter direito à palavra e exprimir sua opinião, mais do que poder dizer o que pensa o parresíasta agora é aquele que diz a verdade e a diz com franqueza, fala abertamente a todos (no cristianismo a parresía também carrega todos esses traços delineados até aqui. Por exemplo em Jo 11,14 o evangelista escreve: “Tóte oun eipen autois ho Iesous parresía” e ‘Então Jesus lhes disse abertamente’). Quando a parresía se torna sinônimo de ter coragem para dizer a verdade, daí o titulo de um dos cursos de Foucault: “A coragem da verdade” no lembra como esse conceito está imbricado pela política e particularmente pela democracia. Ora, como eu disse anteriormente uma das características da democracia é o contraditório e as contradições que não estão presentes só nas pessoas, mas no próprio regime democrático. E a vida política na antiguidade é permeada pelo exercício da cidadania principalmente quando a assembléia se reunia na àgora (praça do mercado). A parresía, enquanto, franqueza e verdade se opõe diametralmente a retórica e a bajulação, posto que a verdade é  fim em si mesmo, isto é, é uma revelação que embora possa ser útil a todos pode ser extremamente perigosa para quem a diz. A retórica é o instrumento maior para quem pretende domar a assembléia é a ferramenta que se coloca à serviço da persuasão,  a bajulação também é uma forma de buscar conseguir o que se quer de alguém, pois omitindo a verdade eu digo o que o meu interlocutor deseja ouvir em troca de favores ou benefícios persuadindo-o a fazer o que eu desejo. Era assim que funcionava a vida política dos gregos e depois dos romanos no período republicano. Quem sabia falar e conduzir a assembléia tinha nas mãos o poder para decidir e governar.

Apesar de o modelo democrático ter sofrido algumas alterações deixando de ser uma democracia direta para ser uma democracia semi-direta (como é o caso do Brasil), ou seja, há dispositivos legais para que a população possa participar do governo, mas normalmente delegamos a outras pessoas o trabalho de governar o país através do sufrágio, ou voto. Desse modo escolhemos representantes para dois dos três poderes que se fiscalizam mutuamente garantindo que o país funcione e eventualmente e se for necessário a população pode por meio de referendo, plebiscito ou lei de iniciativa popular decidir questões de interesse da população ou mesmo propor leis para serem votadas no congresso nacional. E de fato, muitas questões poderiam ter a atenção do povo (nossa presidente da República, por exemplo, queria que a reforma política fosse consultada por meio de um plebiscito ou referendo, o que foi vetado pelo congresso). No entanto, o exercício da palavra e o embate discursivo ainda se faz presente no nosso meio de vários modos e em vários seguimentos do nosso dia-a-dia político. As redes sociais, as conversas nos grupos de amigos e colegas de escola, trabalho enfim, onde é possível o diálogo e onde é possível exercer a isegoria esse direito à palavra não poupamos esforços quando inclinados ou interpelados a falar de política expressar nossa aprovação ou reprovação pelo que acontece na República. Heródoto nos conta como os atenienses mudaram seu modo de agir quando libertados da tirania de Písistratos, a democracia nos torna senhores de nós mesmos a liberdade para falar é liberdade para agir. Vejamos o que diz Heródoto sobre essa mudança de conduta do atenienses: “Assim cresceu o poder dos atenienses. Não se evidencia num caso isolado, e sim na maioria dos casos, que o direito à palavra (isegoria) é uma instituição excelente (schema spoudaion); governados por tiranos, os atenienses não eram superiores na guerra a qualquer dos povos seus vizinhos, mas libertos dos tiranos eles assumiram de longe o primeiro lugar. Isso prova que, na servidão, eles se conduziam propositalmente como covardes, pensando que serviam a um senhor (despotés); livres, porém, cada um agia com todas as suas forças para cumprir a missão em seu próprio benefício”.  (Heródoto, História V, 78.)

 O historiador está no mostrando a essência da vida do homem grego como cidadão da pólis democrática de como a descoberta da liberdade por meio do exercício do poder pelo povo e não mais por um tirano muda a motivação dos habitantes de Atenas. Esse poder era visto na antiguidade principalmente nos conflitos com outros povos, era na guerra que essa cidadania se mostrava mais importante, pois proteger a cidade com coragem é proteger a sua liberdade e garantir que a cidade preserve sua integridade (vale lembrar que isso é muito bem explorado por Frank Miller no quadrinho 300 que depois foi adaptado para o cinema). Não obstante o filósofo MacIntyre nos lembra como Péricles transforma a cidade de Atenas em uma figura heróica. De fato, MacIntyre explica que as virtudes homéricas são transpostas para a cidade como um todo encarnando o herói homérico dotado de excelência e nobreza. Ora, a democracia é lugar do contraditório, da polêmica a àgora é a arena em que os cidadãos se enfrentam com o intuito exercer o poder conduzindo os assuntos da cidade e como eu já havia dito a própria democracia é contraditória seja por exercer a tirania (quando deseja dominar outra cidade) seja por acolher ou mesmo rejeitar um determinado modo de pensar. Protágoras, Anaxágoras e Sócrates são testemunhas vitais de como a democracia pode às vezes soar como uma tirania que cala e atua em nome de uma forma “única” e hegemônica de pensar e agir.

O cenário político brasileiro tem nos mostrado um pouco dessa contradição própria da democracia onde o embate principalmente nas redes sociais tem ganhado cada vez mais força e muitas vezes de forma instrumental promovendo desconstruções e ataques a essa ou aquela forma de pensar. Com efeito, assistimos desde as manifestações de junho de 2013 uma mudança no modo de viver do brasileiro que até então praticava a idiotia, vale dizer, não participava de modo mais aguerrido da vida política do país. De fato, as manifestações de junho de 2013 foram o estopim e o pavil foi aceso nas redes sociais, sobretudo, que aproxima eleitores e candidatos, partidos e movimentos sociais de todas as espécies promovendo o embate similiar ao que acontecia na àgora. Depois de uma das eleições mais disputadas para presidência da república presenciamos o descontentamento de muitos brasileiros com os problemas gerados pela forma como o governo tem conduzido o país, além dos escândalos de corrupção que infelizmente minam a força do governo e mostra as fragilidades do nosso presidencialismo de coalização (em que o presidente da república consegue por meio de aliança trabalhar com a maioria do congresso nacional).

Talvez uma das maiores contradições do regime democrático seja a intolerância ao direito à palavra, e isso tem acontecido com relativa freqüência nas redes sociais desqualificando este ou aquele grupo ao invés de efetuar uma refutação com base em argumentos válidos eu simplesmente ataco o interlocutor ofendendo-o de todas as formas possíveis, a democracia que é o lugar privilegiado do lógos (aqui vou manter lógos com o seu sentido polissêmico que abrange desde discurso até razão) também é o lugar da violência e da desrazão (alogia). Esse texto quer em certo sentido chamar a atenção tanto dos descontrutores que são violentos com seus interlocutores agredindo-os com a instrumentalização da informação quanto daqueles que apelam para forças exteriores e intervencionistas como a ditadura militar ou qualquer outra força repressora contra aqueles que não concordam com a opinião expressada por um determinado grupo. Assim como um impeachment também se manifesta quando clamado sem natureza política e jurídica como uma forma de violência contra a democracia exercida pelo poder do sufrágio. Não se trata só de dar voz a maioria ou a minoria, mas de dar voz a todos, pois a característica maior da democracia é a isegoria circunscrita pela isonomia e isso significa que devemos escutar e falar com todos na medida em que somos todos iguais perante a Constituição da República e se os gregos tinham uma lei que exilava todo cidadão que ameaçava a constituição da pólis nós também devemos num apelo de racionalidade sim, em busca do bem comum, ostracizar toda ideologia que deturpa e destrói a nossa Constituição. Eric Weil nos lembra que a racionalidade é uma das formas que o ser humano encontrou para escapar da violência e que a racionalidade demarca o limite entre o moral e o imoral. E se, portanto, desejamos viver em uma democracia sólida é preciso que escapemos da barbárie que violenta a nossa constituição por meio da retórica que coloca o discurso à serviço de ideologias quando a verdadeira retórica, aquela que Platão chamava de filosófica no diálogo Fedro  se empenha em disseminar a verdade para que haja justiça  e justiça para todos. Deixar de lado nossos interesses particulares e garantias que deveríamos ganhar porque o nosso país prospera e não porque apoiamos este ou aquele partido político, essa deveria ser a razão do nosso posicionamento político.

Exercer a empatia quando escutamos o outro e nos livrarmos de nossas contradições internas para que possamos ser o espelho para o país em que vivemos.
E se a corrupção está no nosso gene, então, estamos fadados à ruína. É de um determinismo bárbaro contra o povo brasileiro afirmar que está no código genético dos cidadãos da Terra Brasilis, não creio que isso seja verdade, pois conheci e conheço muita gente honesta dentre pobres e ricos das diversas etnias que compõem o povo brasileiro, acredito sim que há um circulo vicioso no meio político que deturpa e destrói a humanidade dos muitos que ocupam o cargos dos três poderes que exercem o poder em nosso país, corrupção fruto de uma inversão de valores que transforma meios em fins em si mesmo e que coloca o poder a serviço de interesses particulares quando deveria ser posto ao serviço da comunidade chamada Brasil.
O momento atual é fruto não apenas da politização por meio das redes sociais, mas frutos das conquistas que o nosso povo alcançou quando não teve medo de mudar e sempre poderemos mudar quando compreendermos que o poder na democracia emana do povo e que elegemos pessoas que dêem o seu melhor por nós, posto que foi para isso que os escolhemos. Por isso jamais se esqueçam ainda que a se use da mentira para a manutenção do poder não podemos nos esquecer jamais que a “a verdade é irrefutável”.


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Voto de Minerva


“Atena - Eis minha função, decidir por último. Depositarei este voto a favor de Orestes.” (Ésquilo, Eumênides 735)

A expressão voto de Minerva é bastante conhecida no meio popular. O voto de Minerva como é sabido é o voto dado com o intuito de decidir uma questão que não tem um consenso, que está empatado.  Mas eis que estamos às voltas com um segundo turno de eleições presidenciáveis e a questão não está empatada quanto ao número de votos, mas sim na minha modesta opinião na qualidade de ambos os candidatos.

Para um apartidário como eu é muito difícil votar por um partido confesso que não sei fazer esse tipo de coisa, aos que fazem o meu respeito, porque sei que se o fazem tem suas razões. No entanto, a questão é será que avaliamos nossas razões quando votamos? Será que eliminamos em nós a fumaça da confusão que permeia o nosso raciocínio infectado pelo pathos do imediato? Voltemos ao voto de Minerva, o que o mito que nos legou essa expressão nos expõe? Orestes é da família dos átridas, filho de Agâmenon.  O jovem é o assassino da mãe para vingar o pai e, perseguido pelas Fúrias, estas representam o antigo modelo de justiça anterior ao surgimento da Pólis e querem o sangue de Orestes para compensar o sangue de sua mãe, porque este matou uma consanguínea. Orestes pede asilo como suplicante no Templo de Apollo e este o acolhe e junto com Atena (Minerva).

Então, a deusa patrona da Ática instaura o tribunal no areópago próximo a colina de Ares em Atenas onde se realizará o julgamento do jovem átrida é então que chegamos ao ponto que nos interessa, pois a contagem dos votos aponta um empate técnico entre os que o julgam culpado e os que o absolveram da acusação de homicídio.  Então, a deusa que está presidindo o julgamento chama para si a responsabilidade e dá o seu voto como assinala a epígrafe acima. O voto dela decidiu o julgamento em favor de Orestes e qual é o motivo que a leva a inocentar o jovem? Atena diz: “Não há mãe nenhuma que me gerou. Em tudo, fora núpcias, apoio o macho com todo ardor, e sou muito do pai.” (Ésquilo, Eumênides 735). O que a leva a inocentar o jovem átrida é que ela faria o mesmo que o rapaz, isto é, faria de tudo pelo pai, pois que ela desconhece qualquer relação materna. 
Creio que a resposta da deusa tem muito a nos ensinar sobre os motivos que nos levam a tomar uma decisão seja sobre o que for. Ela opta por Orestes porque não tem mãe e nós optaremos por este ou aquele candidato nessas eleições por quais motivos?
Não me venham com números estimativas e históricos passados, pois a verdade é que quando os vejo e ouço chego “ a me esquecer de quem eu sou” . Todas as vezes que vejo militantes de A ou B falando em nome de seus partidos e de seus candidatos é como se eu escutasse Críton na prisão tentando convencer Sócrates a fugir.

“Toma a tua decisão já, embora a altura não seja para deliberar, mas para ter deliberado.” (Platão, Críton 46a) diz Críton ao seu amigo e eu escuto e vejo pelas redes sociais “ vote nesse candidato que é a favor disso e contra aquilo” ou “Vote no candidato fulano que defende o interesse de X e não de Y”. Mas é preciso dar a resposta que Sócrates deu ao seu amigo: “Meu caro Críton, o teu zelo é muito louvável, se for acompanhado de reta razão. Caso contrário, será tanto mais inconveniente quando maior for. Teremos, pois, de examinar se o que me propões deve ser feito ou não, visto que eu fui sempre, e não apenas agora, de molde a não me deixar convencer por outro argumento que não seja aquele que a minha razão considere o melhor.” (Platão, Críton 46b)
Por que devemos dar aos Crítons da vida que nos interpelam essa resposta? Simples, porque não podemos tomar nenhuma decisão mergulhados no medo que a primeira impressão dos fatos nos impõe.  É preciso buscar razões no mais íntimo de nós sem descurar das opiniões que nos acercam. Não se trata de tomar apenas um dos lados como Atena faz na peça de Ésquilo é preciso avaliar se as opiniões e se os discursos que se nos apresentam são condizentes com a realidade e se de fato quem está disputando o poder nos representa. E se ainda assim você opta por um deles ou por nenhum, está decidindo peremptoriamente por uma razão que te move e te faz crer que a sua decisão é correta.

Embora eu tenha consciência de que não é o meu voto quem vai decidir a eleição, me propus a transformar o meu voto em um voto de Minerva, com efeito, não para que desempate e muito menos para decidir as eleições, pois sei que o meu voto não tem esse poder, o que decide as eleições é a consciência magnânima que Rousseau denominou vontade geral que é mais que a soma das nossas vontades particulares em vista do bem comum.

Me propus a ouvir tudo e todos, a examinar cuidadosamente os fatos como Sócrates se propôs a fazer com seu amigo Críton e, só então decidir, não como Atena, que opta pela absolvição do jovem átrida porque “é muito do pai” mas que a minha decisão seja porque “não vou me deixar convencer por nenhum argumento que não seja aquele que a minha razão considere o melhor.                  

segunda-feira, 31 de março de 2014

comemorar a ditadura?

   Tenho percebido que quando se trata de política, as pessoas em geral fundamentam seus argumentos no medo, e com isso reagem sempre de modo pouco razoável.

    Li esta manhã uma coisa que me chamou bastante a atenção, uma pequena chamada enquanto esperava para fazer um exame laboratorial, dizendo que em vários lugares as pessoas estão “descomemorando” a ditadura militar que começou em 1964 num 31 de Março como o de hoje, ou seja, a exatos 50 anos.

    Parei para refletir e pensei comigo mesmo, que ao descomemorar as pessoas querem esquecer esse capitulo negro da nossa história. Afinal, de contas comemorar só significa fazer festa para algo ou alguém no sentido mais coloquial do termo, o sentido exato da palavra comemorar é: “trazer a memória junto”, “recordar junto”ou “lembrar junto”. Em outras palavras, comemorar é um ato de não apagar da memória, E não necessariamente fazer festa, geralmente empregamos a palavra comemorar quando acontece algo bom, mas se comemora o que não é bom também, como por exemplo o aniversário de morte de um ente querido, a comemoração não é com festa, mas é com o trazer a memória a imagem daquela pessoa que nos deixou o vazio da saudade.

     Imaginem se os romanos se esquecessem da tirania de Sula? E os atenienses a tirania dos 30?
Não é e não pode ser um olhar para história galgada no partidarismo político, não é a esquerda, ou a direita, mas é a nossa cidadania, somos cidadãos de uma república, de um espaço democrático, no qual reconhecer as mazelas que carregamos a 500 anos de história a fora do qual esses 50 é uma parte recente. Devemos dizer não a toda forma de totalitarismo, pois o totalitarismo é a expressão imperiosa da tirania e da demagogia. Quem argumenta fundamentado no medo, como se um leviatã fosse nos devorar a qualquer momento. Talvez haja mesmo um leviatã, criado por nós mesmos, alimentado pelo nosso medo e que nos faz reagir irracionalmente pedindo ditaduras, afinal de contas ditadura do proletariado, também é uma ditadura, ditadura militar também é ditadura, são formas de poder abusivas em que o direito à cidadania é restringido ao mínimo.

     Como cidadãos devemos nos esforçar para combater essas posturas antidemocráticas, pelo menos na medida em que estamos vivendo em uma república.
Aí reside a importância da História, enquanto ciência humana e enquanto processo da nossa condição de existência, a História é o lugar privilegiado da comemoração, desse ato de trazer à memória os fatos do passado. Tucídides se exprimiu assim sobre a sua História da guerra do Peloponeso

“Quem quer que deseje ter uma ideia clara tanto dos eventos ocorridos quanto daqueles que algum dia voltarão a ocorrer em circunstâncias idênticas ou semelhantes em consequência de seu conteúdo humano, julgará a minha história útil e isto me bastará. Na verdade, ela foi feita para ser um patrimônio sempre útil, e não uma composição a ser ouvida no momento da competição por algum prêmio.” (TUCÍDIDES, História da Guerra do Peloponeso. I,22).

     Portanto, como também disse Platão: “recordar é saber” (citando de memória).
Combatamos o medo com sabedoria e virtude, que o medo não sirva para fundar a nossa reação, mas que ele seja a fonte da nossa busca por conhecimento para que nunca mais o medo seja a base do poder político em nosso país.


Brener Alexandre 31/03/2014