Mostrando postagens com marcador felicidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador felicidade. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Cartas a Lucílio: carta 5: como deve comportar-se o verdadeiro filósofo

Então, pessoal! Estou trazendo hoje uma tradução de uma das cartas do filósofo estoico Sêneca ao seu amigo Lucílio. Infelizmente não fiz uma tradução direto do latim e, portanto, é possível que haja problemas com o texto traduzido. prometo que depois  pego o texto original para corrigir possíveis erros.

A tradução italiana que usei para fazer a minha tradução é da edição Tutti gli scritti organizada por Giovanni Reale a numeração em colchetes segue a numeração que está na edição italiana.

Essa carta é importante particularmente aos que como eu se interessam pela filosofia como modo de vida. Nessa carta Sêneca exorta seu amigo a dedicar-se a vida filosófica e lhe dá os passos para que o faça do melhor modo possível. 
Essa carta é na minha opinião um verdadeiro remédio para alma filosófica, nela descobrimos que ser filósofo está acima de aparentar-se com o filósofo, mas de viver como  filósofo no meio das pessoas sendo-lhes uma referência que chama para a virtude, a justiça e o decoro. 

Esta carta traz consigo informações preciosas sobre a psicagogia estoica (a condução da alma por meio de exercícios espirituais) um verdadeiro tratado de espiritualidade filosófica e um convite à filosofia mostrando que o filósofo pode e deve viver com os demais sendo diferente sem ser extravagante. 

Espero que apreciem a leitura desse clássico da filosofia antiga romana.

Brener Alexandre.

Cartas a Lucílio
Carta 5: Como deve comportar-se o verdadeiro filósofo
[1] Que tu te aplicas com empenho, deixando de lado todo o resto, unicamente para melhorar te todo o dia, eu o aprovo e me satisfaço, e não somente te exorto a perseverar, mas lhe imploro. Te advirto, pois, de não fazer nada de extravagante no que diz respeito ao teu estilo de vida, como aqueles que não desejam progredir, mas fazer-se notar; [2] evite vestir-se com desleixo,  deixar os cabelos longos e a barba se aparo, evite declarar ódio aos talheres e de dormir sobre a terra nua; evite todo procedimento que vise somente chamar atenção. O nome da “Filosofia” já é bastante impopular, mesmo quando praticada com discrição: o que será, pois, se começarmos a nos esquivarmos dos hábitos comuns dos homens? Em nosso íntimo sejamos em tudo diferentes, mas o nosso aspecto exterior esteja de acordo com o das pessoas.
[3] A toga não seja brilhante, mas também não seja imunda, não tentamos possuir talheres cinzelados em ouro maciço, mas sequer consideramos sinal de frugalidade não haver em absoluto ouro ou prata. Comporta-te de modo a levar uma vida melhor que das massas, caso contrário acabamos por pôr em fuga e mantemos afastados de nós aqueles que também querem melhorar, e não querendo imitar nada do que fazemos, temendo imitar tudo.
[4] A Filosofia promete bom senso, humanidade e sociabilidade; mas, se nos diferenciarmos muito dos outros na maneira de viver, como poderemos dar-lhes prova? Lembra-te que com o comportamento queremos suscitar admiração e não provocar o riso e o desprezo. Certamente o nosso propósito é viver segundo a natureza: mas é contra a natureza atormentar o próprio corpo, abominar os mais elementares cuidados de higiene, procurar um aspecto horrendo e alimentar-se com alimentos pobres, nojentos e repugnantes.
[5] Como é agradável desejar coisas mais refinadas e por isso é louco para fugir das coisas comuns e de pouco apreço. A Filosofia exige simplicidade, não sofrimento; a simplicidade, por outro lado, pode ser acompanhada de um certo decoro. Me parece justo este critério de medida: a vida combina na justa proporção os costumes do sábio e aqueles da gente comum. Para que todos admirem o nosso modo de viver, e também possam compreender lo.
[6] “E agora? Se comportamo-nos como os outros? Não haverá diferença entre nós e eles?” Haverá muita: quem nos observar atentamente compreenderá que somos diferentes das massas; quem adentrar a nossa casa nos admirará mais do que o nosso mobiliário. Como é nobre aquele que sabe servir-se de pratos de terracota como se fossem de prata, também não é menos certo que se pode servir-se de pratos de prata como se fossem de terracota; é próprio de uma alma débil o não saber suportar a riqueza.
[7] Mas quero compartilhar contigo também o pequeno ganho desta jornada; ler em nosso Hecatão que parar de ter desejos é um bom remédio contra o medo. “Cessarás”, diz ele, “ de ter medo, se cessares de esperar”. Tu me dirás: “como é possível que coisas tão diferentes estejam juntas?” Entretanto é assim meu Lucílio: parece está em contraste, e, ao invés disso, são intimamente conectados. Assim como a cadeia une tanto o prisioneiro quanto seu carcereiro, assim também estas coisas que são tão diferentes procedem de pari passo: o temor tem dentro de si a esperança.
[8] E não me admiro que as coisas se passem assim: ambos estes sentimentos são próprios de um espírito hesitante e ansioso que espera o futuro. A causa primeira de ambos é que não se adaptamo-nos ao presente, mas antecipamo-nos com o pensamento aquilo que ainda está longe; desse modo a capacidade de fazer previsões, que é um bem supremo da condição humana, se transforma em um mal.
[9] Os animais fogem dos perigos que vêem, e uma vez que escapa sentem-se seguros: nós nos deixamos atormentar pelo futuro e pelo passado. Muito dos nossos bens não são prejudiciais; revisitar o passado com o pensamento e estender a mão para o futuro que o antecipa renova o tormento da incerteza; nenhum homem é infeliz somente por causa dos males presentes.

Fique bem!

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Se eu ficar ou O que nos motiva a viver?

Não sei se a autora do best-seller que foi adaptado ao cinema “If I stay” (Se eu ficar) leu Aristóteles, mas será por Aristóteles que quero começar a nossa reflexão.
O filósofo grego lança a seguinte pergunta na Ética a Nicômacos: “Portanto, nenhum (oudéna) homem (anthrópon) deverá ser considerado feliz (eudaimonistéon) enquanto viver, mas será preciso ver o fim (télos), como afirma Sólon? (EN I, 1100a 10).
Para entendermos o questionamento do filósofo de Estagira é necessário contar o que pensa Sólon o grande jurista e um dos sete lendários sábios da Grécia antiga a respeito da felicidade (eudaimonia) e para isso vou transcrever um relato transmitido pelo pai da história Heródoto de Halicarnasso.

Conta-nos Heródoto que certa vez Sólon hospedado no palácio de Croisos e questionado pelo rei de Sárdis a respeito de quem era o homem mais feliz de seu tempo (o próprio Croisos se julgava o mais feliz dos homens e por isso havia feito a pergunta) a resposta dada por Sólon ao rei de Sardis que motivou a pergunta de Aristóteles é a seguinte: “No curso de uma longa vida podemos ver muitas coisas de que não gostamos, e também sofrer muito. Calculo em setenta anos a duração máxima da vida humana; esses setenta anos correspondem a vinte e cinco mil e duzentos dias, sem contar os meses intercalares. (...) e, podemos dizer perfeitamente que nenhum desses dias é igual ao outro naquilo que nos traz. Então, Croisos, o homem é apenas incerteza. Parece-me que és muito rico e rei de muitos homens, mas não poderei responder à tua pergunta antes de ouvir dizer que tenha terminado bem a tua vida. Em verdade, o homem muito rico não é mais feliz do que aquele que tem apenas o suficiente para o dia de hoje, a não ser que a sorte (tyché) continue a lhe ser fiel até o fim de sua vida; proporcionando-lhe todas as boas coisas.” (Heródoto, História I, 32). Podemos parar por aqui na transcrição do relato herodotiano da conversa entre Sólon e Croisos, pois, tudo o que precisamos para a nossa reflexão está aqui e ademais a continuação do texto resulta em uma resposta bastante fatalista da condição humana e não contempla o horizonte reflexivo à que o filme nos faz pensar.

O drama escrito por Gayle Forman conta a história de uma jovem que sofre um acidente e fica em coma, ela precisa resolver se quer ficar ou se quer partir. O coma da protagonista do drama coloca-a em um estado em que ela não está viva (está viva clinicamente sem morte cerebral ou sem parada cardíaca e ou respiratória), mas também não está morta, coma nesse caso pode ser lido como uma metáfora da suspensão que te coloca entre esses dois caminhos possíveis, as duas extremidades da estrada. O coma nesse caso é perfeito para a pergunta de Aristóteles e incrivelmente perfeito para a resposta de Sólon. Porque o que vai guiar a decisão da jovem Mia é a percepção que ela faz do mundo através do binômio prazer-dor que perpassa os momentos experimentados por ela e as notícias que ela “recebe” enquanto está em coma.
Perguntar sobre o que nos motiva a continuar a viver é perguntar sobre o sentido da vida, os gregos quando faziam a pergunta sobre o sentido da vida de certa forma estavam perguntando sobre o que é a felicidade (eudaimonia) e o que é o bem viver (euzein).

            Hoje em dia quando falamos em felicidade sempre nos remetemos a um aspecto subjetivo da nossa percepção de mundo, felicidade é sinônimo de alegria, bem-estar é sinônimo de alegria, no entanto, para os antigos gregos e para o cristianismo a felicidade não é um mero estado de alegria- euforia, mas é um complexo de alegrias e tristezas, a felicidade para os gregos e para a filosofia antiga e, mesmo para o cristianismo está diretamente relacionada à concepção de homem e de humanidade. Aristóteles e Platão, os estóicos, cínicos e os cristãos entendem a felicidade como o resultado final da realização última da nossa humanidade e não uma coletânea de fragmentos soltos de euforia e de melancolia.

Quando Schopenhauer em seu célebre texto sobre o sofrimento do mundo escreve: (cito de memória) “Se o sentido da vida não está no sofrimento, então, a vida é um grande contra senso, pois, percebemos mais a dor do que o prazer.” Está querendo nos dizer que a sensação de dor perdura enquanto a de prazer se dissolve no instante, posso citar ainda a anedota contada por Diógenes Laertios  a respeito de Aristipo de Cirene célebre discípulo de Sócrates e fundador do hedonismo, conta-se que certa vez, Aristipo levou seus discípulos a um prostíbulo e um dos seus discípulos teria lhe perguntado se ir àquele lugar não era um problema ao que Aristipo lhe respondeu que “ o problema não era ir, mas sair de lá”. Para Aristipo, assim como para Epicuro alguns séculos depois a felicidade coincide com o prazer, essa tese será reapresentada por alguns filósofos modernos e contemporâneos como os utilitaristas, tanto Schopenhauer quanto Aristipo  nos dão de forma radical e cada um ao modo uma explicação que desde o início da filosofia é objeto de investigação e fundamentação da ação (aqui entendida no sentido geral moral) basicamente todas as teorias da ação abordam de alguma forma a influencia que o prazer e a dor possui sobre as escolhas que fazemos e que orientam a nossa vida.
Portanto, é importante ter em mente ao fazermos a pergunta sobre o que nos motiva a viver, é ter em mente o que nos impele a agir e a viver e como essa motivação nos faz viver bem e ou nos torna realmente felizes.

Mia se defronta com inúmeras experiências boas e ruins, e algo irá motivar a sua escolha.
Vejam que não são experiências fragmentadas, memórias soltas e, embora as lembranças aparentam se dar assim, a jovem protagonista, mas cada memória e cada experiência é fruto de uma experiência presente da jovem em estado de coma. As visitas que ela recebe e as notícias que chegam até ela até a experiência final que vai culminar com a sua escolha, será esse conjunto complexo que oferecerá como uma janela a visão do valor da vida e se é melhor ficar vivo ou não.

Ainda cabe cita uma das falas da ficção que mais gosto a conversa entre Kenshin e seu mestre Hiko Seijuuro antes de aprender a técnica suprema do estilo Hiten Mitsurugi ryu, nessa fala Hiko Seijuuro sintetiza o que tentei apresentar sobre a felicidade como relacionada a nossa realização enquanto ser humano. Kenshin também é posto entre a vida e a morte em seu treinamento e é instado a pensar se viver vale ou não a pena.
Hiko Seijuuro diz ao seu pupilo: “Antes de começarmos, tem uma coisa que eu preciso dizer. Essa Era não é tão simples a ponto de você poder colocar tudo em seus ombros, e ser o único sacrificado. E, ao mesmo tempo, a felicidade de uma pessoa não é tão simples também. Se você for se tornar um sacrifício, uma garota que veio de Tokyo apenas para te ver vai encarar um infortúnio, Lembre-se disso. Não importa o quão forte você fique, você é só um ser humano não há necessidade de se tornar Buda (santo) ou um assassino.” Em outras palavras, dizer que a felicidade não é simples significa dizer a felicidade não acontece só quando tudo dá certo para você, você vai brigar com o seu melhor amigo, vai perder um ente querido, vai terminar com a sua ou seu namorado (a), vai conhecer outra pessoa e iniciar um novo relacionamento, vai experimentar coisas novas, como ir a um lugar que você nunca tenha ido, ouvir músicas diferentes, ir a uma Peça de teatro, enfim serão tantas experiências que só o discernimento, e é aí que entra  filosofia (não a filosofia acadêmica de artigos e livros com citações rigorosas), mas a filosofia como uma educação para o julgar/ discernir (esse é o sentido verdadeiro do verbo grego krino que deu origem a palavra crise) e essa filosofia é extremamente necessária para que possamos de algum modo compreender a questão de sentido e descobrir o que nos impele a continuar vivos.

Mia a personagem dotada de sensibilidade encontrou a sua resposta será que você será capaz de encontrar a sua?
A resposta da filosofia ensina que o homem é dotado de duas instâncias, de intelectualidade e afetividade e essas duas instâncias devem se desenvolver juntas, Sólon nos dá uma resposta fatalista, pois, o mundo em que ele vivia não oferecia segurança o suficiente para garantir que um homem rico ou pobre pode ser de fato feliz pela sua condição mais fundamental, creio que ainda hoje o mundo não é tão seguro para nos dá uma resposta tão fácil como queria Croisos rei de Sárdis.

O caminho para encontrar  resposta pode vir não de um estado de suspensão como o coma, mas do reconhecimento da vida como um dom em sua complexidade na qual cada experiência única revela a preciosidade que a nossa finitude nos reserva.
Fica aqui o convite à reflexão, e aí: o que te motiva a viver?



segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Voto de Minerva


“Atena - Eis minha função, decidir por último. Depositarei este voto a favor de Orestes.” (Ésquilo, Eumênides 735)

A expressão voto de Minerva é bastante conhecida no meio popular. O voto de Minerva como é sabido é o voto dado com o intuito de decidir uma questão que não tem um consenso, que está empatado.  Mas eis que estamos às voltas com um segundo turno de eleições presidenciáveis e a questão não está empatada quanto ao número de votos, mas sim na minha modesta opinião na qualidade de ambos os candidatos.

Para um apartidário como eu é muito difícil votar por um partido confesso que não sei fazer esse tipo de coisa, aos que fazem o meu respeito, porque sei que se o fazem tem suas razões. No entanto, a questão é será que avaliamos nossas razões quando votamos? Será que eliminamos em nós a fumaça da confusão que permeia o nosso raciocínio infectado pelo pathos do imediato? Voltemos ao voto de Minerva, o que o mito que nos legou essa expressão nos expõe? Orestes é da família dos átridas, filho de Agâmenon.  O jovem é o assassino da mãe para vingar o pai e, perseguido pelas Fúrias, estas representam o antigo modelo de justiça anterior ao surgimento da Pólis e querem o sangue de Orestes para compensar o sangue de sua mãe, porque este matou uma consanguínea. Orestes pede asilo como suplicante no Templo de Apollo e este o acolhe e junto com Atena (Minerva).

Então, a deusa patrona da Ática instaura o tribunal no areópago próximo a colina de Ares em Atenas onde se realizará o julgamento do jovem átrida é então que chegamos ao ponto que nos interessa, pois a contagem dos votos aponta um empate técnico entre os que o julgam culpado e os que o absolveram da acusação de homicídio.  Então, a deusa que está presidindo o julgamento chama para si a responsabilidade e dá o seu voto como assinala a epígrafe acima. O voto dela decidiu o julgamento em favor de Orestes e qual é o motivo que a leva a inocentar o jovem? Atena diz: “Não há mãe nenhuma que me gerou. Em tudo, fora núpcias, apoio o macho com todo ardor, e sou muito do pai.” (Ésquilo, Eumênides 735). O que a leva a inocentar o jovem átrida é que ela faria o mesmo que o rapaz, isto é, faria de tudo pelo pai, pois que ela desconhece qualquer relação materna. 
Creio que a resposta da deusa tem muito a nos ensinar sobre os motivos que nos levam a tomar uma decisão seja sobre o que for. Ela opta por Orestes porque não tem mãe e nós optaremos por este ou aquele candidato nessas eleições por quais motivos?
Não me venham com números estimativas e históricos passados, pois a verdade é que quando os vejo e ouço chego “ a me esquecer de quem eu sou” . Todas as vezes que vejo militantes de A ou B falando em nome de seus partidos e de seus candidatos é como se eu escutasse Críton na prisão tentando convencer Sócrates a fugir.

“Toma a tua decisão já, embora a altura não seja para deliberar, mas para ter deliberado.” (Platão, Críton 46a) diz Críton ao seu amigo e eu escuto e vejo pelas redes sociais “ vote nesse candidato que é a favor disso e contra aquilo” ou “Vote no candidato fulano que defende o interesse de X e não de Y”. Mas é preciso dar a resposta que Sócrates deu ao seu amigo: “Meu caro Críton, o teu zelo é muito louvável, se for acompanhado de reta razão. Caso contrário, será tanto mais inconveniente quando maior for. Teremos, pois, de examinar se o que me propões deve ser feito ou não, visto que eu fui sempre, e não apenas agora, de molde a não me deixar convencer por outro argumento que não seja aquele que a minha razão considere o melhor.” (Platão, Críton 46b)
Por que devemos dar aos Crítons da vida que nos interpelam essa resposta? Simples, porque não podemos tomar nenhuma decisão mergulhados no medo que a primeira impressão dos fatos nos impõe.  É preciso buscar razões no mais íntimo de nós sem descurar das opiniões que nos acercam. Não se trata de tomar apenas um dos lados como Atena faz na peça de Ésquilo é preciso avaliar se as opiniões e se os discursos que se nos apresentam são condizentes com a realidade e se de fato quem está disputando o poder nos representa. E se ainda assim você opta por um deles ou por nenhum, está decidindo peremptoriamente por uma razão que te move e te faz crer que a sua decisão é correta.

Embora eu tenha consciência de que não é o meu voto quem vai decidir a eleição, me propus a transformar o meu voto em um voto de Minerva, com efeito, não para que desempate e muito menos para decidir as eleições, pois sei que o meu voto não tem esse poder, o que decide as eleições é a consciência magnânima que Rousseau denominou vontade geral que é mais que a soma das nossas vontades particulares em vista do bem comum.

Me propus a ouvir tudo e todos, a examinar cuidadosamente os fatos como Sócrates se propôs a fazer com seu amigo Críton e, só então decidir, não como Atena, que opta pela absolvição do jovem átrida porque “é muito do pai” mas que a minha decisão seja porque “não vou me deixar convencer por nenhum argumento que não seja aquele que a minha razão considere o melhor.                  

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Entre o miserável e o sábio: confissões filosóficas

"Portanto, se algum desses que invectivam contra a filosofia repetir o seu refrão habitual: ‘Por que, em suas palavras, há mais energia do que em sua vida? Por que você abaixa o tom de voz diante de um superior, e acha que o dinheiro é um meio necessário, abala-se com um prejuízo, chora ao ficar sabendo da morte da esposa ou da morte de um amigo, cuida de sua reputação e se deixa afetar por boatos malévolos? (...) Mais adiante, eu irei ainda mais longe do que suas invectivas e farei a mim mesmo mais recriminações do que você imagina; por ora, eis o que lhe respondo: Eu não sou um sábio e (para que a sua malevolência fique feliz) nunca serei. Exija, pois, de mim, não que seja igual aos melhores, mas apenas melhor que os maus; a mim me basta cortar a cada dia um pouco dos meus vícios e repreender os meus extravios. Eu não fiquei completamente bem de saúde, e nem vou conseguir ficar; estou fabricando para a minha gota antes paliativos do que remédios, feliz se os ataques se tornam menos freqüentes e as dores menos fortes; mas comparado com os seus pés, eu, débil, sou um corredor. Digo isso, não por mim (pois, estou submerso em todos os vícios), mas por aquele que conseguiu alguma coisa. " Sêneca, Sobre a vida feliz XVII,1.3-4.

Enquanto lia a obra: Sobre a vida feliz me deparei com essa passagem que me tocou bastante, por se tratar  de uma confissão pessoal de um homem que experimentou as vicissitudes da vida, o que engloba a boa e a má fortuna. Então, eu quis também engrossar o coro dos que se reconhecem como um homem “submerso em todos os vícios” e “ruim demais para saber acolher as graças de Deus” e lembrar com Diógenes que “aspirar à filosofia também é filosofar”.

Posso dizer não sem indignação contra a mim mesmo, que também eu estou nessa luta, e ciente de que a minha saúde me oprime bem mais do que eu gostaria e, sabendo o quanto é difícil manter com coragem o ânimo diante de tantos combates com o único propósito de me manter vivo, de sobreviver.

A verdade é que até o momento tenho buscado uma infelicidade serena certo de que só assim poderei almejar uma felicidade modesta. Galgando cada passo de uma vez, caindo e tropeçando, cego e surdo, com dores eu vou caminhando resistindo em silêncio, e bradando no meu íntimo contra a minha existência, certo de que se tenho alguma virtude, creio que seja a coragem, mas não porque sei o que se deve temer ou não, como ensina o Sócrates do diálogo Protágoras, mas porque em tal estado insisto em enfrentar a vida quando poderia muito bem entregar os pontos e dar o último suspiro. Tudo o que posso fazer é tentar amenizar a dor e na medida do possível e com bravura me colocar diante dos meus vícios e das minhas misérias, creio que esse é o gesto mais corajoso que um homem pode ter. Penso realmente que este é um ato de coragem legítimo, pois, que reconhecer suas fraquezas, seus medos e saber-se miserável é prova senão de virtude, ao menos, prova de que a ama, assim como se ama a verdade.

Eu que sou débil, e manco, que sou o mais miserável dos homens procuro acompanhar os passos de homens e mulheres melhores que eu, e vou caindo como se não soubesse andar direito atrás desses verdadeiros seres humanos pensando que se ao menos conseguir acompanha-los serei senão feliz, ao menos, menos infeliz. Porque a chance que tenho ao segui-los de me tornar menos patife e mais homem é maior do que se eu simplesmente ignorasse todos os meus vícios e pensasse que sou a encarnação da virtude.

Creio que como o Eros de Platão, eu também, estou entre o pior dos homens e o mais divino deles, o pior porque sou miserável e o divino porque aspiro ao que de melhor o homem pode almejar para si e para os outros. Se, com efeito, eu fraquejo diante da dor não pense que é por covardia, é antes porque a virtude ainda me falta e a sabedoria mais do que tudo. Ciente da minha ignorância procuro ser menos pedra de escândalo para os outros consciente de que ainda o sou para mim mesmo.

Então, quando me ver fraquejar e sucumbir aos meus medos, quando ver que eu estou chorando e bradando contra a existência não me julgue como se julga o sábio e o verdadeiro homem de virtude, porque o que estará diante dos seus olhos é apenas um homem miserável atolado até o pescoço em seus vícios que está tentando a todo custo sair do lamaçal. No mais das vezes enfrento tudo isso sozinho: o silêncio, a noite escura, os medos, o pânico e tento agir com o mínimo de covardia e o máximo de coragem que a pouquíssima virtude que adquiri me permitir.
Por isso, peço desculpas através na forma de uma confissão filosófica sincera, não porque eu mereça desculpas, mas porque a verdade me impele a ser sincero e franco comigo mesmo antes de tudo, pelas vezes que fraquejei e ainda irei fraquejar, pelas vezes que ainda irei tombar diante dos meus inimigos, pelas vezes que ainda irei bradar contra a minha existência, até que lutando as batalhas diárias afim de vencer a guerra da vida eu possa, ao menos, alcançar a infelicidade serena e tranquila e quem sabe poder me dar o luxo de aspirar a felicidade modesta.

E, se não sou capaz de ser amigo da minha solidão, é por fraqueza e não por covardia, se almejo sua companhia é mais por amizade do que por desejo, e se amei mais a pessoa do que a mulher que dá forma a pessoa é porque vi na mulher mais do que pode ser desejado e menos do que é digno de ser frequentado pela afinidade que o simples desejo oferece.

Um dia espero que entenda que aos amigos o maior bem e o aos inimigos um bem maior ainda, é o que o homem mais miserável deve desejar quando consciente de suas misérias e pecados. Vence-se um vício por vez e quando todos os vícios se amontoam contra o homem de bem ele se vê em grande perigo, pois que cercado e impelido pela coragem não pode largar a lança e o escudo, mas deve enfrentá-los ao preço de morrer aniquilado pelo tormento do fracasso diante de um inimigo mais numeroso e que usa da vileza para vencer ao invés da justiça.

Eu também, não sou sábio e se sou filósofo o sou por amar o saber e não por ser sábio.
Sou filósofo porque optei por ser justo ainda que nem sempre consiga sê-lo e, por fim, optei por ser filósofo porque optei por ser humano ainda que não entenda o que isso realmente significa.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Pequena Reflexão sobre o namoro como instituição: O celibato e a erótica

Após apresentar o tema do namoro como instituição fazer a desconstrução do amor romântico e apresentar em grandes linhas uma alternativa ao amor romântico que chamo de amor-amizade.
O próximo passo é expor um pouco sobre o celibato como forma oposta ao namoro como instituição traçar algumas características próprias dessa forma de vida na antiguidade pré-cristã (basicamente na cultura greco-romana) e depois dentro do cristianismo.

Ser celibatário significa não ser casado, mais que isso significa ser solteiro no sentido de não ser comprometido com ninguém, em outras palavras, não possuir qualquer relacionamento conjugal.
Hoje em dia a palavra celibato está associada à vida religiosa cristã e vinculada a uma vida casta. No entanto, nem sempre foi assim, o que pretendo aqui é tentar fazer uma genealogia do celibato como uma forma de vida oposta ao do namoro e do casamento na qual o princípio fundante não é estabelecer uma relação duradoura, mas sim uma relação fugaz e na maioria das vezes instrumental com outras pessoas.

A cultura do celibato no mundo pré-cristão greco-romano é o paradigma de uma vida promíscua e voltada para o prazer, sobretudo o prazer sexual em que a forma de amor que prevalece é a erótica, isto é, o amor enquanto desejo (eros) e não enquanto amizade (phília). Em que o interesse é saciar o desejo através da sedução e posse do amado e não de uma relação de equidade.

Negando a equidade, o outro, passa a ser um meio para alcançar ou satisfazer o fim que é o prazer da conquista e a sua consumação nos atos próprios da dimensão erótica (beijo, carícias e o ato sexual em si). As juras de amor não tem como finalidade uma correspondência que visa a construção de uma relação duradoura, mas apenas uma relação que tem por finalidade saciar o desejo imediato que se apresenta na atração que o amado exerce sobre o amante.
No Diário de um sedutor Kierkergaard apresenta como funciona a dimensão erótica para o celibatário laico, nesse caso específico o sedutor se contenta apenas em seduzir e encantar o amante ou a amante e não em correspondê-la (o). Aceita-se saber e sentir-se amado, mas não deseja engajar-se numa relação com aquele (a) que é o seu objeto de amor. O objetivo é puramente estético, o que significa puramente sensualista.

Um celibatário na antiguidade pré-cristã romana geralmente freqüentava prostíbulos e orgias. Nos dias de hoje freqüenta algumas festas e boates, mas o objetivo é o mesmo a prática estética da conquista, apenas pela conquista ou pela satisfação dos prazeres ligados a sexualidade.

O advento do cristianismo reconstruiu o sentido do celibato, não de imediato, mas pouco a pouco o celibato foi associado a uma forma de vida vinculada ao serviço à comunidade cristã, a parte da experiência de união com Deus e, sobretudo, a prática da fraternidade nas primeiras comunidades monásticas. O celibatário cristão abraça a castidade como parte de uma atividade ascética que favorece a sua experiência religiosa.
Claro no contexto cristão a castidade é fundamental para a vida moral e para a vivência correta da sexualidade, não é só uma prática ascética própria do celibato perpétuo, mas é uma propedêutica para a vida matrimonial. A idéia central da castidade é instruir o desejo com a razão controlando-o ao invés de se deixar controlar pelo desejo.

Também no cristianismo é possível falar de uma erótica vinculada à mística na vida religiosa, em que Deus, é o amado e o místico ou homem religioso é o amante. Imagem que aparece no Cântico dos cânticos (embora, como sabemos o Cântico dos cânticos não tem essa finalidade mística, mas são poesias atribuídas a Salomão, no entanto, há algumas menções dos Cânticos dos cânticos nos escritos de São João da Cruz, por exemplo) e que retrata o desejo do homem religioso de se unir a Deus.  Nesse caso, diferente do celibatário laico o interesse não é uma satisfação momentânea ou mesmo uma conquista, mas trata-se de um desejo de plenitude. Veja que há uma inversão no sentido do caminho percorrido pelas duas formas de celibato uma visa a satisfação imediata e fugaz dos prazeres ligados a vida sexual e o outro procura elevar o espírito no mergulho do mistério da transcendência divina.

O celibato, portanto, se mostra como uma forma parcial de se relacionar com o outro (no celibato laico), por um lado, e como uma forma de elevação da condição humana, por outro, e se apresenta como uma forma alternativa com relação ao namoro e ou casamento. O meu enfoque não é tanto o celibato na vida cristã, mas o resgate do conceito secular para mostrar como ele ainda está presente na nossa cultura principalmente pelo incentivo à busca pelo prazer e o culto do eu.

Como falei no primeiro texto em que abordei comecei a abordar  a questão, um dos maiores problemas para o namoro como instituição, isto é, aquilo que malogra a estabilidade da relação é justamente quando uma das partes ou as duas misturam as duas formas de vida, em outras palavras, quando se quer namorar sem abrir mão da vida de solteiro. Não estou dizendo aqui que a pessoa abre mão de seus desejos pessoais: profissionais, sair com os amigos e fazer coisas que normalmente faria se estivesse solteiro, mas que querer ter uma namorada ou namorado, mas querer continuar a ser um conquistador, sedutor de outras parceiras geralmente tende a malograr a estabilidade da relação enquanto tal. Lembrando é claro que aqui eu não estou discutindo os chamados relacionamentos abertos que extrapolam a ideia central do namoro como vida partilhada a dois.

O outro problema que se apresenta é a preferência pela erótica em detrimento de um amor que valoriza o outro como igual, quando se opta pela erótica a relação só é interessante até o momento da conquista, a conservação da relação não é importante, pelo menos não para um relacionamento duradouro, porque na erótica a duração é medida pela atração exercida pelo outro e não pelo reconhecimento do outro como um igual digno de respeito, de cuidado e carinho. Por isso, também a paixão é apresentada como um problema, já que a paixão se alimenta de uma imagem projetada do amado e não daquilo que ele realmente é, não acolhe o amado com suas virtudes e vícios, mas apenas com aquilo que desejo ver nele.

Acredito que apresentei de modo geral a questão do celibato e a erótica. A ideia central do texto era expor a dimensão estética, hedonista e fugaz do celibato laico, não sei se atingi o objetivo, mas fiz um esforço de ao menos esboçar a questão.




terça-feira, 13 de maio de 2014

Cura sui amor sui (Cuidado de si amor de si)



Me retirei no meu silêncio cura para a minha alma
Me retirei na vacuidade espelho para o meu ser.
Cuidado de mim, cuidado de ti.
Cultiva a solidão que é dela que brota o amor.

O homem é como uma planta precisa de ser cultivado
Cultivado no ócio da leitura
Cultivado no silêncio da noite escura.
Cuidado no retiro do espírito.

Quem cuida de si tem amor de si.
Quem cuida de si tem amor pelo outro.
A cura para a infelicidade é o cultivo do silêncio.
A felicidade modesta é a simplicidade da vida.
O amor de si é o amor que desejamos para o outro.

Foi me retirando da vida que nela entrei
Afastado dos outros descobri outro para os outros também serei.
Encontro solitário no silêncio barulhento da minha alma.
Disperso no mistério dos jardins do meu espírito.

A cura para a minha dor veio da amizade que tenho por mim
A felicidade acompanha quem convive consigo sem medo
A saúde me veio no silêncio dos meus olhos.

Brener Alexandre 10/05/2014

domingo, 11 de maio de 2014

Felicidade Modesta


Ontem sonhei com a felicidade modesta
Sonhei que conversávamos sobre nada
Era um dia calmo, uma manhã tranquila.

Ontem sonhei com a felicidade que você me ensinou a ter
Felicidade sonolenta das manhãs de domingo
Alegria das brincadeiras inocentes de dois amantes em júbilo.

Ontem sonhei com a felicidade modesta que desejo proteger
Que espero alcançar com o meu pouco saber
Que almejo proteger junto com você.

Tranquilidade do nascer ao pôr do sol
Simplicidade ao longo dos nossos dias como as fases da lua e o ciclo do céu estrelado.
E se houver tempestade? brincaremos na chuva
E se fizer frio? Brindaremos abraçados dividindo uma garrafa de vinho.

Não preciso de mais nada, se eu puder ter essa felicidade modesta
Nem muito pequena, nem muito grande
Apenas singela.

Digna de ser protegida
Digna de ser desejada
Digna de ser chamada Felicidade.


sábado, 10 de maio de 2014

Amor sui ( amor de si)


"Assim, a solidão não é rejeição do outro, ao contrário: aceitar o outro é aceita-lo como outro (e não como apêndice, um instrumento ou um objeto de si! ) , e é nisso que o amor, em sua verdade, é solidão. Rilke encontrou as palavras necessárias para dizer esse amor de que necessitamos, e de que somos tão raramente capazes: 'duas solidões que se protegem, que se completam, que se limitam e que se inclinam uma diante da outra...' Essa beleza soa verdadeira. O amor não é o contrário da solidão: é a solidão compartilhada, habitada, iluminada -e, às vezes, ensombrecida - pela solidão do outro. O amor é solidão, sempre; não que toda solidão seja amante, longe disso, mas porque todo amor é solitário. Ninguém pode amar em nosso lugar, nem em nós, nem como nós. Esse deserto, em torno de si ou do objeto amado, é o próprio amor." (Comte-Sponville, André. Amor a solidão. p. 30-31).

"Quantos fogem da solidão, ao contrário, e são incapazes de um verdadeiro encontro? Quem não sabe viver consigo, como saberia viver com outrem? Quem não sabe morar com sua própria solidão, como saberia atravessar a dos outros? Narciso tem horror da solidão, e isso é fácil de compreender: a solidão o deixa face a face com o seu nada, em que ele se afoga. O sábio, ao contrário, fez desse nada seu reino, onde ele se perde e se salva: não há ego, não há egoísmo! O que resta? O mundo, o amor: tudo. " ( Comte-Sponville, André. Amor a solidão. p. 33)

Na leitura de Amor a solidão, me deparei com essa definição certamente para muitos estranha do amor como solidão. Ela de certo me fez pensar bastante nas duas extremidades da relação, para fazer uma paráfrase a obra de Martin Buber, “Eu e Tu”. E agora motivado por um desafio de falar de uma cura que seja mais autônoma e que não esteja mirada na figura do outro me sinto inclinado a comentar estas passagens de Amor a solidão partindo primeiro da conclusão de que: “ a solidão não é rejeição do outro” mas é a confirmação de que o outro não integra a minha subjetividade, não faz parte do meu eu.

E depois refletirei sobre o cultivo da solidão como um amor sui, isto é, como um amor de si, pensando principalmente na concepção própria das filosofias helenísticas do final da antiguidade de terapia, ou cura sui, do cuidado de si. E assim creio, apresentarei em prosa o que ainda não consigo apresentar em verso, isto é, o lado positivo da solidão enquanto cuidado de si e amor de si e cura para o enfrentamento dos combates diuturnos da existência.

Já havia tratado a solidão como alteridade absoluta e desconexão com o mundo aqui Pain VI neste texto apresentei a solidão como a experiência radical de alteridade em relação ao outro, que traz consigo um sofrimento terrível. Agora, pretendo fazer o caminho inverso e falar do cultivo da solidão como cura sui, como cuidado de si aquilo que Sêneca entendia como vida retirada como forma de combater as aflições do espírito e que impede o homem de odiar a sua própria espécie (misantropia).  Os estóicos são filantropos por excelência e condenam a misantropia.

Por um lado, a solidão é essa estranheza, imposta pela ausência do outro e desconexão com o mundo, como eu havia exposto no texto Pain VI.  De outro modo, a solidão é também convívio consigo mesmo, esse retirar-se da vida corrida e muitas vezes superficial do dia-a-dia para cultivar a relação consigo mesmo.  A vida cotidiana na maioria das vezes é barulhenta em sua agitação e, tal agitação impede ou mesmo atrapalha a relação que deveríamos desenvolver conosco mesmo.
A vida retirada é justamente o cultivo da solidão para cultivar a relação consigo mesmo, a coisa mais fascinante na solidão cultivada é aprender a ouvir o silêncio que habita em nós.

Claro que nem sempre o silêncio nos elogia, nem sempre nos mostra um mundo de cores, mas se na relação com os outros somos passíveis de passar por estas experiências, porque não passá-las conosco mesmo?
Quem não é capaz de olhar dentro de si sem repulsa não é capaz de suportar o outro. Suportar não é o mesmo que tolerar, suportar é ser capaz de aguentar o outro, é ajudá-lo com suas misérias, porque todos nós possuímos misérias, mas também podemos possuir grandes virtudes e se só atentamos para nossas virtudes sem olhar nossas misérias, estamos fugindo do que somos, se olhamos apenas para as virtudes dos outros e não se permitirmos perceber as suas misérias estamos criando uma realidade fragmentada do outro.
Por isso, Sponville está certo quando diz que o amor é solidão, porque a solidão é o exercício da amizade consigo mesmo, ou melhor, a solidão é o convívio amoroso que podemos ter conosco mesmo, todo o amor, o verdadeiro amor, se funda no convívio despojado das ilusões que eventualmente criamos de nós mesmos e porque não dos outros.

O silêncio é o lugar do encontro consigo mesmo, onde somos desnudados de nossas fantasias e somos postos diante dos nossos medos, das nossas angustias e dos nossos defeitos. É por isso, que muitas pessoas fogem da solidão, se dispersam de si mesmo em uma busca desenfreada por atenção, por prazer e toda e qualquer forma de diversão, a diversão é esse afastamento de nós mesmos que não permite que vejamos quem somos.

Os místicos conhecem bem o cultivo da solidão através da experiência da oração no silêncio da meditação nos recônditos da cela do convento. E graças a essa oportunidade encontram nas suas misérias a força para exercitar o amor pelo outro e cultivar o amor pela vida.

Esse nada que é nudez da alma é o reino do sábio como bem falou Sponville, onde ele se encontra consigo mesmo, já que na correria da vida agitada da cidade os homens se perdem nas vaidades e nas ilusões que nos afastam da verdade e nos inclina a superficialidade das relações forma pior do isolamento, pois não mergulhamos no mistério do outro e nem no mistério de nós mesmos.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Especial


Disseram-me que eu sou especial, nunca entendi o que significa isso.
Acho que só se é especial para alguém, nunca alguém é especial em si, a não ser, é claro se por especial querermos dizer que alguém é único, nesse sentido somos todos especiais.

Acho que ser especial envolve a apreciação de outra pessoa, é como a admiração, no sentido de achar alguém um máximo. Se digo que alguém é especial, ela o é para mim, única, insubstituível, importante, me falta e é digno dos meus mais nobre e belos sentimentos de afeição e desejo. Ser especial para mim significa ser extraordinário aos meus olhos, ou seja, não ser ordinário, não ser comum, vulgar, embora possa ser simples em sua complexidade.

Não acho que sou especial, sou apenas diferente no sentido bom e isso tentando ser otimista em relação a percepção que tenho de mim mesmo. Porque no fundo não me sinto assim, me sinto mesmo é diferente de um modo tal que pareço ser a diferença em si e nunca para si.

Um dia talvez, quem sabe eu seja especial para alguém, um dia quem sabe a diferença se faça perceber em meio ao óbvio da vida cotidiana, por hora sou apenas a diferença oculta disfarçado de mesmice, apenas estranho, esquisito, mais um filho da xenofobia do normal.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

As razões que eu gostaria de conhecer e transmitir

Ah, Pascal! queria eu conhecer as razões do coração, queria eu conhecê-las para as transmitir, mas não as conheço.
Sequer conheço as razões da razão! desconheço o que julgo conhecer e conheço apenas os murmúrios da alma.

Ah, Pascal! quisera eu que as razões do coração tivessem a persuasão necessária, ou ao menos que fossem fortes o suficiente para convencer a fria e tíbia razão, o que há de mais belo do que o coração e suas razões? que há de mais persuasivo e no entanto, dissuade-nos os nosso medos e nossas frustrações.

Ah, Pascal! Se um dia conheci as razões do coração queria as recordar, queria as comunicar, mas tudo o que sei é que o coração fraqueja onde a razão comanda, o coração se acovarda onde o medo impera.
Quero conhecer as razões e que elas me sejam suficientes para ver além das misérias, das minhas e dos outros e com elas descubra a força onde todo julgam que só há fraqueza.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

O amor não fragmentado em Sponville – pequeno comentário à “Amor a solidão”.


“Para gostar das estrelas, por acaso você precisa saber quantas são? E para amar um homem, conhecer tudo? Ele está aí, diante de você, perfeitamente verdadeiro, inclusive em suas mentiras, perfeitamente real, inclusive em seus sonhos... Se você não conhecesse nada dele não poderia amá-lo, claro; mas como seria louco querer conhecê-lo em todos os seus detalhes (em todos os seus infelizes e inesgotáveis detalhes!) antes de amá-lo por inteiro! O real não é um quebra-cabeça. “Espere um pouquinho, querido, mais uma peça, mais outra, mais outra ainda, sinto que já já vou te amar plenamente...” Não. Ele está aí, à sua frente: você o vê, você olha para ele, e já é um quinhão inesgotável de verdades...” (Comte-Sponville, André. Amor a solidão. p. 104. Entrevista com Judith Brouste).

Muitas passagens de “Amor a solidão” merecem comentário,  passagens que falam sobre a filosofia, sobre o desespero, sobre Deus e o nada, e outras passagens sobre o amor, mas essa em particular me chamou a atenção. E por que? Talvez porque enquanto eu lia o opúsculo sponvilliano, eu tenha percebido o quanto ele me influenciou, junto é claro com outros pensadores. Vejam, meu primeiro contato com Sponville foi em 2003 com o livro “A felicidade desesperadamente” (que na verdade é uma palestra e não um tratado) e desde então meu modo de ver a vida mudou, é certo que não de todo, mas mudou.

Mas eu só percebi a mudança quando, finalmente conheci o estoicismo e o cinismo, foi com o estoicismo e o cinismo é que me aproximei mais da sabedoria, principalmente pelas semelhanças com o cristianismo. É verdade que Platão e Aristóteles tiveram e ainda tem grande influencia sobre o meu modo de pensar, mas com essa dose de austeridade, ou antes, de simplicidade a ser buscada para a vida feliz.

Com efeito, me encontrei o suficiente nessa passagem de “Amor a solidão” para me recordar da lição estóica de que nada pertence ao sábio, senão a virtude, explico o que se passa.  Ao ler esse trecho me lembrei de que nem mesmo o amor que não é posse, mas é convivência livre e interessada tão somente na convivência e em nada mais, me pertence. Logo, todo amor que espero receber deve ser pautado pelo desejo de estar junto com, como lembra Vinícius de Morais no Soneto de fidelidade: “Rir o meu riso ou derramar o meu pranto, ao seu pesar ou contentamento”. Essa passagem evoca o malogro causado pelo medo de se envolver, de mergulhar no mistério do amor, porque conhecer como lembra o filósofo francês “todos os infelizes e inesgotáveis detalhes” de alguém é impossível, e nisso consiste o mistério, ou seja, o amor é um mergulho que fazemos no mistério do outro, mistério que só é acessível se o outro se permite penetrar pelo desejo da partilha do “quinhão da vida”.

Portanto, quem posterga o amor não sabe conviver, nem consigo mesmo e nem com os outros, uma coisa é, claro, não haver espaço no projeto de alguém para a partilha da vida, seja porque o trabalho e os estudos impossibilitem o nascituro de uma relação, ou por outro lado, há aqueles que se escondem em projetos, que criam obstáculos, mundos paralelos e com isso malogram a dádiva do convívio, perde a oportunidade do aprendizado com o diferente e do exercício da humilde, simples vivência do cotidiano.

Amar alguém é amar a pessoa toda e não apenas aquilo que salta aos nossos olhos, e por isso o amor é desejo de mergulhar no mistério do outro, e é por isso também que o amor não é fragmentado, quem ama uma parte ou uma ideia que faz de alguém não a ama de fato.

Não é como procurar as peças de um quebra-cabeça para montar uma imagem do outro que você seria capaz de amar, porque no fundo sempre haverá algo do outro a ser conhecido, ele sempre vai te revelar algo de novo, ou de antigo, mas de outro modo.

E nisso Sponville tem toda razão, quem que  ao apreciar a beleza das estrelas se preocupa em conhecer todas? Primeiro que é impossível mesmo com todo aparato tecnológico conhecer de fato todas as estrelas, o universo é imenso e o homem em sua pequenez é imenso também, esse microuniverso que é o homem é demasiado complexo para que possamos conhecer todos os detalhes do seu ser e, no entanto, o real esta aí diante de você com todas as dimensões que possui: mentiras, verdades, sonhos e aspirações.
Foi aí que me dei conta do quanto Sponville me influenciou, pois quando falo de amor-amizade falo justamente dessa inclinação para a partilha da vida, para o mergulho nesse mistério que é o outro que se revela para nós em inteireza e não é fragmentado, ainda que a pessoa mude seu comportamento ou algo novo seja descoberto a pessoa nunca deixa de ser o que ela é, mesmo que muitas vezes nem ela mesma saiba sobre aquela virtude ou defeito que possui.

E qual é o melhor lugar para se redescobrir do que o mergulho em si, mergulhando no mistério do outro? Como não saber quais são os seus limites na tensão que há na relação com o outro, com a pessoa que você escolhe partilhar a vida, fazer projetos e conviver. O outro é como um espelho que nos liga ao mundo. Desde que o que nós somos não seja massacrado pela relação, quando deixamos de viver a nossa existência, nossa vida pela vida do outro, porque o amor é sempre partilha de, é partilha de solidão, é partilha de boa vontade, é partilha de intimidade e de desejo. Quem faz do outro um quebra-cabeça foge de si mesmo, porque projeta no outro suas frustrações e seu medo, é um procrastinador da própria felicidade, tem medo de amar e medo de viver o amor por ter medo de se ferir.

No entanto, a beleza do amor está justamente no risco de se ferir, no risco de vivê-lo. Jesus correu esse risco e Hypparchia ( para quem quiser conhecer a história de Hypparchia só vir aqui: A escolha de Hyppachia) também e foi assim que encontraram a felicidade, descobriram ao seu modo a sabedoria de vida ou o saber viver. O ágape, a caridade, é aquela que nos impele ao serviço, é justamente a face benevolente do amor.  A phília, a amicitia, é esse desejo que reconhece o outro como um como nós, como alguém com quem vale a pena conviver e dividir cada novidade, cada alegria e cada tristeza; as flores dos jardins, os sorrisos recebidos e as lágrimas colhidas. 

Nesse sentido não importa se o outro te ama como você ou se você vai ser correspondido, porque a correspondência vem justamente do desejo da partilha e tudo o mais é acrescentado pelo desejo da vida comum. Em outras palavras, a reciprocidade é a marca que dá valor ao amor, e então, quem ama sintomaticamente  quer estar junto, quer construir junto, quer partilhar as mínimas coisas e as coisas grandiosas da vida e é aí que surge a cumplicidade e o medo desaparece, não é que vamos confiar cegamente, mas na medida em que há o desejo de unidade comum a confiança mútua fortalece a relação e o medo permanece, mas em menor grau, pois se sabe de algum modo que a mão do outro está sempre próxima para te ajudar a levantar quando você cair.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

O remédio de Maimônides



O filósofo e médico judeu Maimônides (Moisés ben Maimôn  1137/1138- 1204) nos deixou um pequeno tratado apresentado como uma introdução à ética dos pais escrito em oito capítulos no qual o rabino Moisés ao se apropriar dos conceitos fundamentais da filosofia aristotélica: o conceito de mediania, de alma e as suas partes reflete sobre os meios de viver afastado do pecado, ponto culminante de toda tradição judaico-cristã.

Além de ser uma contribuição à experiência mística religiosa, penso que contribui também para a mística filosófica como uma forma de cura sui, ou seja, como um remédio ao modo das filosofias helenísticas (estoicismo, epicurismo, cinismo e ceticismo) para a alma.
Não pretendo abordar neste texto em particular a contribuição que este opúsculo faz à mística e experiência religiosa e ou filosófica, tentarei de modo livre falar dos aspectos que tornam o trabalho empreendido pelo filósofo judeu uma contribuição à filosofia como modo de vida e como tratamento para os males da alma.
Posso falar desta contribuição a partir da minha própria experiência, já que apliquei em mim recentemente o exercício proposto por Maimônides no opúsculo aliado ao remédio estóico da vida retirada para o cultivo do ócio filosófico. Porém antes vou explicar o Método utilizado por Maimônides e então ficará claro como o tratamento ou remédio funciona na prática que podemos chamar de exercícios espirituais da filosofia para fazermos jus ao estudo importante empreendido por Pierre Hadot e Michel Foucault.

Seguindo o caminho de Aristóteles, Maimônides entende que as doenças da alma são: “sua condição e de suas partes fazerem sempre coisas ruins e feias e executarem ações desprezíveis” (MAIMÔNIDES, 1992 p.19) em outras palavras a alma doente se afasta da virtude, afastada da virtude a alma doente torna o homem indigno, quero dizer tem a sua dignidade diminuída pelo vício/ pecado.
Dignidade aqui deve ser entendida como tudo aquilo que torna o homem apto a se relacionar com outras pessoas, uma vez que Maimônides seguindo Aristóteles não pode recusar a sociabilidade inerente à condição humana.

O tratamento proposto por Maimônides é a busca do equilíbrio moral através da mediania. A mediania, com efeito, é o meio-termo entre o excesso e a deficiência que na ética aristotélica é caracterizada como vício moral.
Deste modo, Rabino Moisés esclarece: “boas ações são aquelas que se equilibram no meio, entre dois extremos que são ruins; um deles é o excesso e outro, a deficiência. As virtudes são estados (características) da alma e disposições adquiridas no meio, entre duas condições ruins [da alma], uma das quais é excessiva e outra deficiente.” (MAIMÔNIDES, 1992, p.23) Sendo assim, Maimônides entende que uma vez que se conhece as disposições da alma é possível tratar seus males com um exercício que nada mais é que uma reeducação através do hábito: “quando o corpo se desvia do equilíbrio, olhamos para qual lado se inclina ao se desequilibrar e opomos o seu contrário até retornar o equilíbrio. Quando estiver equilibrado, removemos este contrabalanço e voltamos ao que mantém o corpo em equilíbrio. (MAIMÔNIDES, 1992, P.26)
Este é o método terapêutico de Maimônides para curar a alma, primeiro o individuo é levado a agir no outro extremo e depois pouco a pouco diminuir o excesso para que o equilíbrio seja alcançado.
Maimônides nos dá alguns exemplos práticos do qual vou me ater apenas ao da avareza que é um exemplo mais simples de entender, penso.
Segundo o filósofo: “podemos ver um homem cuja alma chegou a um estado em que ele é avarento consigo mesmo. (...) Assim, se quisermos curar esta pessoa doente, não a mandaríamos ser generosa. Isto seria como usar um método equilibrado para tratar alguém com febre excessiva, não o curaríamos de sua doença. De fato, este homem [com a alma avarenta] tem de ser levado a ser extravagante repetidamente até que a condição que o torna avarento seja removida de sua alma e ele quase adquirir uma disposição extravagante. Então faríamos com que ele parasse com as ações extravagantes e o mandaríamos executar ações generosas constantemente. (...) Mas não o faríamos repetir ações de avareza tanto quanto fizemo-lo repetir ações extravagantes. Esta sutileza é a regra da terapia, e é o seu segredo. (Op.cit. p.26)
Em outras palavras, Primeiro você executa ações contrárias à aquela que é a causa da doença da alma, para então pouco a pouco possa atingir o equilíbrio e por fim a virtude.
Maimônides chega a dizer que: “treinamos o homem ruim para ser muito bom, mais do que treinamos o muito bom para ser ruim. Esta é a regra para a cura dos hábitos morais, portanto, há que lembrá-la bem.” (op.cit. p.27)

Maimônides vai notar, tal como Aristóteles (Aristóteles enfatiza que atingir a mediania é algo extremamente difícil e que, portanto sempre tenderíamos ora para o excesso ora para a falta) que por causa da terapia tendemos um pouco para o excesso ou para a deficiência e lembra-nos de algumas práticas próprias dos místicos judeus que para conseguir manter uma constância no exercício da piedade inclinava-se para um extremo por meio de jejuns e abstinências variadas e o afastamento da vida social.
E como bom médico lembra que essas praticas são um tratamento para as disposições de caráter, um modo de exercitar a piedade através da austeridade de modo que a dignidade possa ser preservada.
“Se ele vissem que – devido à corrupção das pessoas da cidade -, seriam corrompidos através do contato e vendo suas ações e que o contato social com eles traria corrupção aos seus próprios hábitos morais, eles se retiravam a lugares ermos onde não havia homens ruins.” (op.cit.p. 27)
Deste modo podemos aproximar o tratamento de Maimônides à vida retirada, cara aos estóicos para o cultivo da filosofia tornando- os aptos à filantropia que é o amor pelo bem comum para a ética da Stóa é não muito diferente da experiência eremítica dos monges e profetas da cultura judaico-cristã.
Mas deixando de lado estas divagações que nos faria se perder na exposição da cura sui de Maimônides.
O filósofo como dizia, adverte que este exercício não precisa ser feito por quem não está doente e cita o exemplo dos ignorantes que vêem os que praticam estes exercícios com o fim de curar a alma, mas não sabem que se trata de um remédio e querem imitá-los mortificando seus corpos como se Deus contenta se com tal coisa. A metáfora empregada pelo rabino Moisés é a imagem do homem que vê o médico tratando uma pessoa mortalmente doente com um remédio e exigisse deste doente jejum para restabelecer a saúde e pensa que tal tratamento o fará ter ainda mais saúde, o que não acontece, pois, com efeito, quem está são e toma um remédio acaba adoecendo.
Percebe-se, portanto, que a busca pelo ponto de equilíbrio é uma atividade de instrução da alma para o bem, no âmbito moral para a prática da virtude, no âmbito antropológico para a realização da nossa humanidade, de modo que este exercício nos torna senão plenamente apto a vida social, ao menos o mais próximo de uma atitude humana.
O fim último de toda prática moral, da ação ética como parte integrante dos exercícios espirituais da filosofia não é muito diferente da experiência mística na vida religiosa.
É por isso que ele nos lembra: “De fato, o objetivo da Torá (lei de Moisés corresponde ao Pentateuco cristão) é que o homem seja natural, seguindo o caminho do meio. Ele deverá aderir ao meio quando come o que for seu para comer, quando bebe o que for seu para beber e quando tiver relações sexuais com que lhe for permitido manter relações sexuais.” (MAIMÔNIDES.Op.cit. p.28)
Veja que a ideia é que o homem seja natural, ou seja, exercite sua humanidade junto aos demais homens, respeitando se e respeitando os outros.
O que eu fiz comigo mesmo foi exatamente por em prática esse tratamento aliado ao remédio estóico, claro que ainda estou no inicio do tratamento, mas posso dizer que funciona, consegui neutralizar boa parte dos sintomas e tratá-los, com tempo quem sabe não irei eliminá-los por completo.

BIBLIOGRAFIA:

MAIMÔNIDES. Introdução à ética dos Pais trad: Alice Frank. São Paulo: Maayanot,1992




sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Pain V



Por que a felicidade tem de estar associada a um bem- estar?
Está é a pergunta que tentarei responder no quinto caminho da dor.
Já disse em outros lugares que a palavra felicidade tem sua origem no latim felicitas derivada de Felix que significa alegria, contentamento.
A filosofia quando indaga a finalidade da existência do homem e busca justificar suas ações indaga sobre a felicidade. É verdade, que o que chamamos de felicidade é para os gregos eudaimonia que em nada tem a ver com esse sentido de felicidade, mas antes tem a ver com um êxito alcançado de modo que a vida ganhe o seu sentido.
Pode-se objetar, é claro, que a pessoa que alcança êxito na vida realizando-a sente prazer. De fato, há um prazer, mas este não é um estado ou condição constante na existência. Pois o êxito é fruto de uma ação que para ser adequada ao fim desejado exige de quem o realizará o esforço, o sacrifício para que o êxito seja finalmente alcançado.
No fundo a felicidade não pode ser uma sensação de gozo eterno em vida, pode o ser depois desta vida, mas não nesta vida e por que?
Porque o mundo é cheio de contingências que precisam ser superadas para que o êxito venha. Pessoas que pensam que a felicidade consiste num tipo de gozo permanente são pessoas que fogem destas contingências. São pessoas incapazes de resolver problemas sozinhas, não podem sentir dor, não podem receber um não, não sabem escutar uma crítica, não se engajam em nada, não se envolvem profundamente com ninguém.
A felicidade se relaciona com o trabalho, com o esforço pessoal e coletivo. Pessoal porque cada um na medida em que quer agir o melhor possível se pautara por buscar escolhas melhores.
Coletivo porque a própria sociedade tem que nos dar as ferramentas necessárias (educação) para sermos capazes de escolher o melhor e incentivar o melhor em nós.
Os pais devem conduzir seus filhos para o respeito e os hábitos sociais tanto quanto o professor os pode reforçar através do conhecimento das ciências humanas e exatas.
É preciso que os pais compreendam que o não, e as derrotas que a vida podem eventualmente impor aos seus filhos não farão deles fracassados, mas eles serão fracassados senão souberem lidar com a derrota, nem com as perdas.
Embora Nietzsche pensasse que a humildade só sustenta uma moral de fracos eu a exalto como moral dos fortes, porque tem que ser muito forte para ser capaz de reconhecer uma crítica que te fará crescer, é mostra de grandeza demonstrar complacência por aqueles que se rebaixam para te ofender e mostra verdadeiro humanismo quem é capaz de resgatar o ser humano da vergonha e da escravidão ( imposta sobretudo ideologicamente).
“Sem sacrifício não há vitória” meus amigos! Se quiseres ser feliz, não tenha medo de enfrentar a vida, a corça de Esopo querendo fugir acabou no covil do seu algoz.
A felicidade não está no prazer, ao menos não nesta vida, a felicidade é a equação bem resolvida da vida que não pesa a dor como mal e o prazer como simples bem, mas entende que há diferentes dores e prazeres que apesar do nome cada um é um ser diferente realizando na complexidade do cosmos sua finalidade, a de avisar que algo não vai bem ou que fizemos algo errado ou de nos enganar para que passando dos limites conheçamos a dor.

sábado, 25 de abril de 2009

Spes et gaudiem

Espero e sorrio...
Sorrio e espero...
Desejo e sonho com um dia sem metrica e uma noite longa e estrelada.
quero chuvas de meteoros, quero nebulosas no meu céu, e o gelo dos anéis de saturno me envolvendo.

quero teu corpo cheirando a sexo selvagem e a tua boca gostosa junto a minha com gosto de morango.
eu sorrio e espero, espero e sorrio, gargalhadas e alegria, porque acredito como criança boba que o dia de amanhã vai ser melhor, eu espero, e desejo, desejo e quero. acordar mais um dia e fingir e brincar e pensar que o amanhã é sonho de noite tranquila eo amanhã é dia que já vem...

segunda-feira, 16 de março de 2009

caminhos a seguir

A dois caminhos a seguir... ou serão três ou quatro?

Há vários, vários caminhos, várias possibilidades a sorte concorrendo contra ti
e o azar brindando o seu fracasso....
o caminho do trabalho, o caminho do prazer, o caminho da amizade ou o da discórdia...
há o caminho do amor, há também o caminho da virtude.
Sim a virtude, tão esquecida como a honra, tão difamada quanto a responsabilidade, tão ridicularizada como a bondade.
Há vários caminhos a seguir, várias portas para adentrar. "Muitas portas largas que conduzem ao caminho da perdição" e muitas portas estreitas que outrora conduziriam a salvação" o que é perdição? oque é salvação? apenas horizontes confusos que nos fazem pensar tolamente e não seriamente sobre a vida, falar sobre o que não entendemos, ou que nos recusamos compreender, uma vez que é melhor fechar os olhos e os ouvidos e se calar diante dos fatos e fingir que a ilusão é mais real que a realidade quer percebemos sempre, e que este doce seja nosso alimento que este caminho seguido nos leve aonde queremos ir ainda que o querer não signifique saber para onde.