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quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Clichê – Refletindo sobre a definição do Pe. Fábio de melo

Segundo o Padre Fábio de Melo:O clichê é um amparo teórico que nos dispensa de pensar por nós mesmos. O que vou tentar fazer aqui é um exercício reflexivo em torno dessa intuição compartilhada por Padre Fábio de Melo em sua conta do twitter.
Mas ao mesmo tempo em que vou me deter nessa excelente definição do vocábulo ‘clichê’ tentarei ir além, porém, sem sair do foco que a definição apresentada por Fábio de Melo expõe com tanta clareza.

De fato, o clichê é aquela atitude mecânica que permite que fiquemos em nossa zona de conforto, é um recurso que a convenção social baliza de forma a evitar conflitos e permitir que a vida em sua completa boçalidade possa transcorrer sem grandes problemas. Enquanto “amparo teórico que nos dispensa de pensar por nós mesmos” o clichê é como que uma espécie de manual que tem por objetivo garantir ao máximo que nunca saiamos de nossa zona de conforto e por isso perguntamos “tudo bem?” e respondemos: “vou bem, obrigado!” sem titubear ainda que não estejamos bem, porque dizer que não estamos bem gera conflito, pede ao outro que ele enquanto, amigo, colega seja responsável e se disponha a ser engajado com o outro. Conflito não é só o atrito que gera o mero desacordo, o próprio desacordo é fruto do descompasso entre dois indivíduos, o conflito é o desconforto gerado pelo compromisso que sou impelido a assumir para com o outro. Em uma sociedade individualista e consumista como a nossa, não há desconforto maior do que ter que se relacionar com certo grau de profundidade com as pessoas.
As pessoas de modo geral esperam que todo mundo use o piloto automático e fique por isso mesmo. Em outras palavras, clichê é o piloto automático da vida que me dá certo conforto, evita embaraços e não exige engajamento com as pessoas.

Bons exemplos que o cinema nos deixou, vou citar dois: O filme “Clic” com Adam Sandler  apresenta o clichê como automatismo social. O Personagem de Sandler  usa o controle remoto para saltar as partes de sua vida que ele considera chata, por exemplo, o jantar com os seus pais e familiares e até mesmo o momento de intimidade com a sua esposa, tudo para poder ter mais tempo para o trabalho. Outro filme, este mais recente, é o “Doador de memórias” esse filme merece uma reflexão a parte pelos vários elementos que nos dão o que pensar, mas fico aqui com uma única cena do filme no primeiro encontro entre Jonas (protagonista da história) e o doador de memórias. O automatismo social mais comum no filme é: “eu aceito as suas desculpas” que o doador imediatamente pede para que Jonas nunca mais repita na sua frente. Tal automatismo reflete essa necessidade de evitar o conflito enquanto desentendimento que gera animosidade ( uma das coisas que mais chama a atenção no filme é que todos tem suas emoções suprimidas quimicamente).

Em uma sociedade que quer evitar ao máximo o conflito, preza ao extremo a liberdade individual e estimula ao máximo o prazer pessoal como é o caso da nossa sociedade vê no clichê uma excelente ferramenta que torna as relações rasas e límpidas o suficiente para que possamos ver o fundo sem que precisemos mergulhar a cabeça e nos molhar.
É aí, creio eu que o clichê se torna essa muleta que nos dispensa de pensar por nós mesmos, já que sua função mais importante é permitir que possamos tocar os nossos negócios sem se preocupar com qualquer coisa. O clichê é uma poltrona confortável que faz tudo, inclusive servir aquele cafezinho quente e cheiroso. É de fato amparo, muleta, recurso, mecanismo de automatismo que faz com que pessoas que tem potência para ser um rio São Francisco grande e imponente ver suas nascentes secar e sua vida passar até que tudo o que foi vivido seja vazio e sem próposito.


O clichê está muito mais presente em nossas vidas do que gostaríamos. Mas melhor seria se desligássemos o piloto automático e ousássemos mergulhar fundo nas pessoas. Descobrir novos mundos e novos céus, o poeta latino brada: “Carpie Diem!” Não pode ser um hedonismo barato, colher o dia é tirar o máximo de proveito que ele tem para nós, isto é, viver a vida com suas alegrias e tristezas, colher o dia é abrir mão do “amparo teórico que nos dispensa de pensar” de que nos fala padre Fábio de Melo e não apenas reproduzir frases desinteressadas que nos conforta como uma poltrona de massagens de um shopping center, mas que nos permita, de fato, viver e conviver com a humanidade que habita cada um de nós.

domingo, 2 de novembro de 2014

A Rosa – Reflexão a partir do Pequeno Princípe

Olhando as flores me lembrei de que o amor recusa a violência e relendo o clássico “O Pequeno Príncipe” me veio outra coisa a mente. É interessante o movimento feito pelo principezinho antes de conhecer e cativar a raposa, pois, o pequeno príncipe passa por um roseiral e fica desapontado ao descobrir que a sua rosa não era única, mas era apenas uma rosa comum. Porém, depois de conhecer e ficar amigo da raposa descobre que a sua rosa não é uma rosa qualquer, uma rosa comum, mas é especial.
O nosso principezinho volta ao roseiral e diz: “Ela (a rosa) sozinha é, porém, mais importante que todas vós, pois foi ela que eu reguei. Foi ela que pus sob a redoma. Foi ela que abriguei com o para-vento. Foi por ela que eu matei as larvas. Foi ela que eu escutei se queixar ou se gabar, ou mesmo calar-se algumas vezes, já que ela é a minha rosa.” Vejam que a descoberta do principezinho o faz perceber que a relação com a sua rosa modifica completamente o seu olhar sobre ela. A relação é de intimidade e profundidade, uma coisa leva a outra.

A raposa explica ao menino: “eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O Essencial é invisível aos olhos. Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa...” Na verdade, não foi tempo perdido, foi tempo dedicado. A rosa quer ser ela mesma e também queremos ser nós mesmos. Queremos ser aceitos como somos com nossos pequenos defeitos e nossas virtudes, carecemos de reconhecimento e de espaço para crescer. Ora somos jardineiros, ora somos a rosa.

No entanto, nos esquecemos que a rosa vai reclamar um dia ou outro, vai estar insatisfeita, mas isso faz parte do mistério relacional.
Se não suportamos pessoas rasas, fúteis e superficiais é porque somos profundos como um abismo, é belo, mas assustador! Somos como o mar aberto, esplêndido, mas angustiante. Ora, os místicos também conhecem bem essa experiência de se lançar nas “águas mais profundas” e de fazer a experiência do desamparo, esse abandonar-se no mistério também é angustiante.

Quem tem a profundidade dos abismos é de uma intensidade angustiante e não se contenta apenas em refrescar os pés, mas quer “lavar o corpo inteiro”.
E se somos estranhos de perto, que seja! A estranheza é fruto da falta de convívio, de tempo dedicado, pois devemos nos interessar pelas pessoas como elas são e não como queremos que elas sejam! É tolice dizer para alguém que é melhor te ter como amigo, ora, a amizade pressupõe que eu também te acompanhe de perto do contrário não é amizade, não seria nem coleguismo.
Assim como a lógica pressupõe que se alguém merece todo amor do mundo e se você diz isso a alguém, então devemos pressupor que você esteja minimamente inclinado a amá-lo do contrário o que você diz é uma mentira ou você é covarde.

O amor, a amizade e todo o resto dependem da coragem enquanto virtude, pois é da coragem que brota a sinceridade para o real engajamento.
MacIntyre argumenta: “Acreditamos que a coragem é uma virtude porque o cuidado e a preocupação com indivíduos, comunidades e causas, tão fundamentais em tantas práticas, requerem a existência de tal virtude. Se alguém diz que cuida de uma pessoa, comunidade ou causa, mas não está disposto a correr riscos por essa pessoa, comunidade ou causa, põe em questão a sinceridade de seu cuidado ou interesse. Coragem, a capacidade de correr riscos, tem seu papel na vida humana devido a essa ligação com o cuidado e o interesse. Não estou dizendo que seja impossível interessar-se e também ser covarde. Estou dizendo, em parte, que a pessoa que se interessa com sinceridade e não tem a capacidade de se arriscar precisa se definir, tanto para si mesma como para as outras, como covarde.” (MacIntyre, Depois da Virtude. P. 323-324)
Traduzindo em miúdos, a coragem se relaciona com a veracidade da nossa intenção. Do quanto estamos dispostos a pagar para que nossas relações sejam verdadeiras e sinceras.
Eu posso escolher quem vai me machucar e quem não vai e se me machucar tenho que buscar a sabedoria para saber se a pessoa o faz por querer, afinal de contas a rosa tem espinhos e se não sei lidar com ela ou se me apresso, eu me espeto!

A verdade é que tem pessoas na quais eu daria o mergulho profundo, “o salto no escuro da piscina” como canta Humberto Gessinger em Piano bar. Algumas pessoas merecem a minha coragem e a minha sinceridade, outras simplesmente optam pela covardia não dita. E você o que quer para si mesmo? O que você tem feito pela rosa que floresceu no seu mundo? Já a notou?
Lembre-se “o caminho só existe quando você passa”...