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domingo, 4 de novembro de 2018

Liturgia erótica


A arte da sedução é uma liturgia,
Discreta e silenciosa magia,
Que comunica desejos e intenções secretas.

Nessa liturgia cada gesto significa muito.
Os olhos tagarelam em silêncio,
As mãos gritam de desejo.

O ritual é complexo na sua simplicidade.
Entre quadro paredes e sem vaidade.
Requer atenção aos desejos dos outros,
Para que todos se satisfaçam em comum acordo.

Essa liturgia celebra todas as fantasias,
Das mulheres e de homens de mente aberta;
Onde o desafio excita tanto quanto o jogo da conquista.

Excitação é o que move nossa liturgia,
Realizada com o corpo todo voltado para o outro.
Celebrando Eros desata membros com os auspícios de Dionísio.
Eis, o “ofício do povo”.

A liturgia erótica é um caminho de sedução
Envolve paixão e excitação.
Prazer de compartilhar.
Que não divide para conquistar.

Nos olhares que se entrecruzam,
Nos sorrisos que acolhem e convidam
No toque que abre as portas para a intimidade
Na conversa que celebra novas amizades.

Brener Alexandre 04/11/2018

terça-feira, 18 de julho de 2017

Correio elegante

Queria ver o teu sorriso para cada verso que escrevi para ti.
Cada verso de bom dia.
Cada palavra de alegria.
De falar contigo,
De ser teu amigo.

Queria ver como cada verso meu te alegrava.
Como cada palavra te tocava.
Colocava neles a minha ternura.
Como um timbre de voz suave.
Carinho gratuito, cordialidade.

Queria ver como os meus versos te acordava,
Para a vida,
Para a beleza,
Para a certeza de sentir-se amada.

Não tive o prazer de ver-te com sono.
De imaginar-te em tamanho abandono.
Entre a preguiça e a tranquilidade.
Ah, que saudade!

Em tantos versos que escrevi por estima
E tudo o que eu queria...
Era que fossemos amigos,
Enamorados,
Cumplices um do outro.
Amantes apaixonados.

E acredito que em cada verso ainda almejo,
Seu sorriso,
Seu abraço,
Seu amor em segredo.

Contado nesse correio elegante.
Nunca enviado,
Ele permanece guardado.
Como os versos que te mandei,
Os versos que escrevi sobre ti.

Brener Alexandre 18/07/2017



quinta-feira, 13 de abril de 2017

Entrar ou sair do coração de alguém dói: pequena reflexão sobre as relações humanas

O coração é desde a antiguidade o órgão que representa o ser humano por inteiro, suas dimensões racionais e afetivas, suas virtudes e vícios, ou seja, tudo o que ele é como ser humano em sua humanidade sem fragmentar-se é coração. Por isso, falamos ainda hoje do coração como lugar do nosso ser e não a nossa cabeça embora admitamos ser a cabeça o lugar da razão. A antropologia bíblica e a antropologia filosófica do pensamento arcaico (poesia grega principalmente) atestam o coração como centro da humanidade.

Compreendendo o significado do coração como imagem do nosso íntimo, pergunto: por que entrar ou sair do coração de alguém dói? Como é esse doer? A imagem à qual irei recorrer para responder essas duas perguntas é fruto de um sonho que tive. A imagem é uma dinâmica, exercício no qual realizamos uma experiência concreta do que desejamos ensinar. A imagem foi construída do seguinte modo: um grupo de pessoas formando um aglomerado dentro de uma tenda sem iluminação interna. A pessoas entravam e não saiam inicialmente, quem estava do lado de fora não ouvia barulho vindo da tenda, era como se ela tivesse isolamento acústico.

As pessoas eram convidadas a entrar na tenda que já contava com um grande número de pessoas. A primeira sensação: medo, porque não sabemos o que acontece dentro da tenda. A segunda sensação: curiosidade, queremos saber o que há no interior da tenda descobrir o que se passa lá dentro. A terceira sensação: coragem, você se dispõe a enfrentar o medo inicial e resolve entrar na tenda. A quarta sensação: o desejo, o desejo te move e você adentra a misteriosa tenda escura.

Essas quatro sensações iniciais não se manifestam nessa ordem e muito menos podem se manifestar todas de uma vez. Pode ser que você sinta apenas medo, ou coragem, desejo ou curiosidade ou nenhuma delas. Dentro da tenda está escuro, você esbarra nas pessoas pode tropeçar no meio delas enquanto entra na tenda, pode até se machucar com uma cotovelada, tapa, soco, chute e com muitas agressões voluntárias e involuntárias. Isso acontece porque não sabemos com o que ou quem estamos lidando dentro da tenda e nesse percurso é parar dentro da tenda no oculto da escuridão ou caminhar para achar a saída, só há duas possibilidades ficar ou sair. Se sairmos ou ficarmos haverá consequências, ninguém escapa ileso da tenda. Quando se sai, a saída é sempre angustiante, dolorida, saímos marcados no corpo, na alma pela experiência de andar entre tantos na escuridão. Essa é a imagem que a dinâmica propõe, e o que ela ensina?
Entrar na vida de alguém, isto é, entrar no coração de alguém é entrar nessa tenda, a gente não sabe o que vai encontrar, e nem sabemos se vamos ser capazes de permanecer.

As quatro sensações experimentadas antes de entrar são as sensações que podemos sentir dentre tantas possíveis quando conhecemos alguém. É natural que tenhamos medo, curiosidade, coragem e desejo em relação às pessoas que conhecemos. O medo por não saber o que esperar, ou como as pessoas irão reagir. A curiosidade de saber como é conviver com aquela pessoa ou de entrar no universo da vida dela. A coragem e o desejo de se arriscar e investir na relação. Em suma, são os primeiros passos em qualquer relação humana.
A tenda é escura porque assim como o coração de qualquer pessoa nós somos incapazes de saber quantas pessoas ali habitam, quantas tem um lugar especial na vida do outro quantas pessoas estão disputando o mesmo espaço no coração de alguém. Por isso ao entrar e caminhar no coração de alguém ficamos sujeitos a todo tipo de “agressão” algumas voluntarias fruto da disputa pelo lugar, outras involuntárias fruto do nosso querer que nos põe em conflito com o que não compreendemos ou aceitamos na vida do outro, o ciúme, a inveja, a insegurança são alguns dos elementos que podem nos machucar nesse processo.

Desse modo, só há duas possibilidades. Sair ou ficar, em ambos os casos haverá conflito, haverá disputa por espaço, mas quando sair haverá a frustração e as marcas da experiência gerada pela tensão no interior do coração do outro.

O coração é lugar da intimidade, e sempre haverá disputas quando queremos fazer parte da vida de alguém. Entrar ou sair do coração de alguém dói, portanto, porque implica saber caminhar em território desconhecido no escuro confiando no convite para permanecer com. Se não somos capazes de fazer essa experiência de confiança somos expulsos do coração por nós mesmos, que provocamos a nossa expulsão. Essa dor é a frustração, mas também é a dor do medo e da insegurança que são constantes em nossas vidas principalmente quando não confiamos em nós mesmos e refletimos essa desconfiança nos outros.


Brener Alexandre 13/04/2017

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Fio de cabelo

O fio de cabelo presente anunciava tua ausência recente.
Memória da presença perene.
Recorda-me da sua iminente partida.

Fio de cabelo solitário ali esquecido
Na cadeira deixado.
Um encontro a pouco consumado.

Fio de cabelo,
Fio de novelo,
Puxa da memória o desejo.
Puxa do labirinto o segredo.

Fio de cabelo,
Fio de desejo,
Lâmina da memória,
Me corta enquanto narra sua história.

Fio de cabelo,
Fio do destino,
Esticado devagarinho.
Um pedacinho do teu ser esquecido de mansinho.

Fio de cabelo delator da tua presença ausente.
Da tua partida recente.
Do desejo te ter por perto um pouco mais.
De encontrar na tua companhia um pouco de paz.


Brener Alexandre 20/04/2015

sábado, 14 de novembro de 2015

Ponte de Palavras

Para atravessar o rio de silêncio ergo uma ponte de palavras.
Com cordas de pensamento e suporte de sentimentos.
Entre verbos e adjetivos e um sujeito indeterminado.
Entre o pensamento e a voz que materializa as ideias.

Palavras desajeitadas se seguram a qualquer custo.
Se a ponte se romper irrompe o ruidoso silêncio.
Rio sem riso vazio que angustia.
Palavras que morrem afogadas em agonia.

Palavras vacilantes dizem e nada dizem
Se a ponte balança muito é por medo do silêncio que me agride.
Águas que passam rápido num curto espaço de tempo.
Palavras amedrontadas por causa do agitar dos ventos.

Ponte de palavras instrumento limitado.
Rompe com o silêncio e configura o significado.
Ponte de palavras pinguela dos necessitados.
Por cima do silêncio liga sujeitos e predicados.

Palavras que se ligam como os elos de uma corrente.
Se tornam caminho para as vozes recorrentes.
Tudo flui e a palavra é massacrada pelo movimento.
Ponte frágil de palavras sobre o rio de silêncio.

Como Crátilo a ponte de palavras aponta o sentido.
Anuncia aquilo que com o silêncio é desdito.
Um dedo fala muito ao indicar a direção.
Como a ponte de palavras que possui duas mãos.
Duas direções necessárias para se fazer entendido.
A palavra é desnecessária se não houver algum sentido.

A ponte de palavras estabelece a relação.
Que o abismo de silêncio engole com a solidão.
A ponte é simples necessária e urgente.
Periga por cima do rio que separa as gentes.

Uma ponte feita para ligar os espíritos
Almas isoladas e corações contritos.
Que o silêncio aparta como rio intransponível.
Engolindo amores e amigos.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Só sorrio para ti.

Só sorrio para ti, um sorriso em segredo.
Espontâneo e sincero sorrio sempre que lhe vejo.
Pessoalmente, ou na mente, em fotografias e arremedos.

Só sorrio para ti, entre tantos rostos conhecidos.
Natural e franco é a oferta do meu sorriso.
Quantas vezes lhe vejo, quantas vezes sorrio.
Um sorriso sincero, terno e alegre como um riso.

Só sorrio para ti, pois é só a ti que os meus olhos veem.
O meu coração só reconhece a ti e mais ninguém.
Cada vez que a tua imagem aparece para mim.
Meu coração se alegra sorrindo para ti.
Um sorriso é um cartão de boas vindas.
Um convite aberto para você fazer parte da minha vida.

Só sorrio para ti, e meus olhos procuram por ti.
Nos vazios e nas ausências, na memória e nas essências.
O sorriso meio alegre e meio triste é verdade.
Alegre porque te ama e triste porque tem saudade.




quinta-feira, 26 de março de 2015

Fala do Coração

Deixa o meu coração te falar
Deixa o meu coração te dizer
Deixar o meu coração sussurrar que ele ama você.

Meu coração fala por meio de versos e de prosa
Fala por meio do abraço e do beijo que aquece a alma.
Meu coração fala, diz muitas coisas em segredo
Meu coração sussurra o amor que guarda por medo.

Deixa o meu coração te falar
Escuta a fala do coração
Suas razões não se explicam com lógica
Suas razões se explicam com emoções.

Deixa o meu coração te falar
Deixa o meu coração te querer
Ele se preocupa contigo e não quer te ver sofrer

A fala do coração é alimento para alma
Palavras de destino incerto como as ondas sonoras
Deixa o meu coração sussurrar o amor que tem por você
Deixe-se se tocar com o que o meu coração vai dizer.
O meu coração está sussurrando nesse momento
Ele está te admirando
Fazendo versos sobre sua nobreza
Fazendo prosa da tua grandeza.

Deixa o meu coração falar
Escute a sua voz sem temor
O amor em segredo que vela por ti
Com respeito e pudor.

Deixa o meu coração te cuidar
Não tenha medo do meu coração
Amizade que te quer bem
Amor que não é só sedução.
Conquista definitiva
É o que fala o meu coração
Quando todas as coisas bonitas
Quando perscruta o seu coração.


domingo, 2 de novembro de 2014

A Rosa – Reflexão a partir do Pequeno Princípe

Olhando as flores me lembrei de que o amor recusa a violência e relendo o clássico “O Pequeno Príncipe” me veio outra coisa a mente. É interessante o movimento feito pelo principezinho antes de conhecer e cativar a raposa, pois, o pequeno príncipe passa por um roseiral e fica desapontado ao descobrir que a sua rosa não era única, mas era apenas uma rosa comum. Porém, depois de conhecer e ficar amigo da raposa descobre que a sua rosa não é uma rosa qualquer, uma rosa comum, mas é especial.
O nosso principezinho volta ao roseiral e diz: “Ela (a rosa) sozinha é, porém, mais importante que todas vós, pois foi ela que eu reguei. Foi ela que pus sob a redoma. Foi ela que abriguei com o para-vento. Foi por ela que eu matei as larvas. Foi ela que eu escutei se queixar ou se gabar, ou mesmo calar-se algumas vezes, já que ela é a minha rosa.” Vejam que a descoberta do principezinho o faz perceber que a relação com a sua rosa modifica completamente o seu olhar sobre ela. A relação é de intimidade e profundidade, uma coisa leva a outra.

A raposa explica ao menino: “eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O Essencial é invisível aos olhos. Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa...” Na verdade, não foi tempo perdido, foi tempo dedicado. A rosa quer ser ela mesma e também queremos ser nós mesmos. Queremos ser aceitos como somos com nossos pequenos defeitos e nossas virtudes, carecemos de reconhecimento e de espaço para crescer. Ora somos jardineiros, ora somos a rosa.

No entanto, nos esquecemos que a rosa vai reclamar um dia ou outro, vai estar insatisfeita, mas isso faz parte do mistério relacional.
Se não suportamos pessoas rasas, fúteis e superficiais é porque somos profundos como um abismo, é belo, mas assustador! Somos como o mar aberto, esplêndido, mas angustiante. Ora, os místicos também conhecem bem essa experiência de se lançar nas “águas mais profundas” e de fazer a experiência do desamparo, esse abandonar-se no mistério também é angustiante.

Quem tem a profundidade dos abismos é de uma intensidade angustiante e não se contenta apenas em refrescar os pés, mas quer “lavar o corpo inteiro”.
E se somos estranhos de perto, que seja! A estranheza é fruto da falta de convívio, de tempo dedicado, pois devemos nos interessar pelas pessoas como elas são e não como queremos que elas sejam! É tolice dizer para alguém que é melhor te ter como amigo, ora, a amizade pressupõe que eu também te acompanhe de perto do contrário não é amizade, não seria nem coleguismo.
Assim como a lógica pressupõe que se alguém merece todo amor do mundo e se você diz isso a alguém, então devemos pressupor que você esteja minimamente inclinado a amá-lo do contrário o que você diz é uma mentira ou você é covarde.

O amor, a amizade e todo o resto dependem da coragem enquanto virtude, pois é da coragem que brota a sinceridade para o real engajamento.
MacIntyre argumenta: “Acreditamos que a coragem é uma virtude porque o cuidado e a preocupação com indivíduos, comunidades e causas, tão fundamentais em tantas práticas, requerem a existência de tal virtude. Se alguém diz que cuida de uma pessoa, comunidade ou causa, mas não está disposto a correr riscos por essa pessoa, comunidade ou causa, põe em questão a sinceridade de seu cuidado ou interesse. Coragem, a capacidade de correr riscos, tem seu papel na vida humana devido a essa ligação com o cuidado e o interesse. Não estou dizendo que seja impossível interessar-se e também ser covarde. Estou dizendo, em parte, que a pessoa que se interessa com sinceridade e não tem a capacidade de se arriscar precisa se definir, tanto para si mesma como para as outras, como covarde.” (MacIntyre, Depois da Virtude. P. 323-324)
Traduzindo em miúdos, a coragem se relaciona com a veracidade da nossa intenção. Do quanto estamos dispostos a pagar para que nossas relações sejam verdadeiras e sinceras.
Eu posso escolher quem vai me machucar e quem não vai e se me machucar tenho que buscar a sabedoria para saber se a pessoa o faz por querer, afinal de contas a rosa tem espinhos e se não sei lidar com ela ou se me apresso, eu me espeto!

A verdade é que tem pessoas na quais eu daria o mergulho profundo, “o salto no escuro da piscina” como canta Humberto Gessinger em Piano bar. Algumas pessoas merecem a minha coragem e a minha sinceridade, outras simplesmente optam pela covardia não dita. E você o que quer para si mesmo? O que você tem feito pela rosa que floresceu no seu mundo? Já a notou?
Lembre-se “o caminho só existe quando você passa”...
  

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A Rosa

Vi uma rosa e me lembrei de você.  Acho que as flores me fazem pensar em como proceder com as pessoas, por isso me lembrei de você.
É tão bonito ver a flor cheia de vida plantada no jardim mesmo quando às vezes queremos oferecê-la a alguém. Talvez seja como o amor, que não pode ser arrancado a força, mas deve ser cultivado. Talvez seja como a amizade que do mesmo modo que o amor não reconhece na violência o caminho para a construção relacional.

Por que aquela rosa em particular e as flores de modo geral me fizeram lembrar de ti?
Porque quando penso em ti penso que não posso te arrebatar para mim como se colhe uma flor no campo. Não posso simplesmente te arrancar de ti mesma e nem te separar das tuas raízes. E se penso, ora na flor como o próprio amor/amizade, ora em ti mesmo como a flor desejada é porque provavelmente entendo que o mistério do amor, doloroso na maioria das vezes, e também o mistério da amizade conflitante no mais das vezes requer de nós um olhar diferente. Por mais que eu queira a rosa eu não posso arrancá-la, pois isso significaria matá-la! A rosa arrancada murcha a cada dia, suas pétalas caem pouco a pouco até que a flor bela de outrora não mais exista. Então, percebo que a dor angustiante que sinto é fruto do desejo de ter a rosa sempre comigo, mas se não posso arrancá-la como posso tê-la?

Nunca tinha percebido, refletindo com Sponville, que o amor enquanto alegria acompanhada de uma causa exterior, aquela definição belíssima da ética spinoziana, provocava tanta angustia! Vai ver eu sou muito platônico e só tenho paz quando  a referência do meu amor (não vou empregar a palavra “objeto” de amor, é muito feio)  pode ser possuído, pois parece que tenho fome do outro. E essa angustia é como ficar de barriga vazia precisa ser saciada com o abraço, o carinho o beijo e a troca de olhar. Com a companhia e as juras afetivas.

Então, se a dualidade da rosa (ícone do amor e pessoa amada) não podem ser arrancadas a força, o que me resta é esperar que a rosa sorria e se deixe transplantar para o meu jardim.
As rosas falam através de sua beleza e, é esta beleza que nos move a admirá-las. Seu sorriso se traduz na beleza de suas pétalas e no quanto elas se abrem diante dos nossos olhos que contemplam a sua maravilha que é a natureza espetacular do seu desabrochar.

Mas confesso que não me parece suficiente ter de esperar o sorriso, muitas vezes ele não vêm e o desejo de arrancá-la fica a espreita e fere o meu peito e me enche de dor.
Quem compreende a natureza do amor e da amizade sofre porque a zona de conflito entre o desejo e a alegria , entre a violência e o cuidado é a linha tênue que separa o amor da mera reificação do outro. 

O mistério do amor envolve o desejo que quer ser satisfeito, mas que se alegra em descobrir a beleza e não em matá-la. 

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Ventania

Ventania último sopro do inverno em meu ser.
Ventania um suspiro de amor por você.
Ventania sopra como uma brisa e resfria a alma.
Ventania que balança tudo a minha volta e me acalma.

Esse sopro gelado que tem o frescor dos lábios.
Dá adeus ao inverno passando veloz
Carregando como um abraço forte e atroz.
Ventania e chuva para lavar o coração.
Joga tudo irremediavelmente no chão.
Ventania é a vontade que tenho de te ver.
Como ficamos ao olhar o céu nublado torcendo para o sol aparecer.

Ventania é força do meu amor por você.
Te envolve e não te carrega,
Te refresca, mas não te sufoca.
Te faz sentir-se viva sem te revelar a face da morte.
Te beija molhado em forma de chuva e orvalho.
Ventania anuncia que o frio da solidão está de partida
E nos lembra que depois da tristeza dos dias cinzas
Vem o sol com a sua luz e calor para trazer a alegria
Como você me alegra e aquece com o seu amor.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Amor- Amizade IV

Por um amor que partilha a alegria
Que com-partilha presença
Que se manifesta mesmo na ausência.

Se está triste quero te alegrar
Se o fardo é pesado anseio em te ajudar
Se é dia de festa contigo quero me comprazer
Alegria dividida é alegria multiplicada
Tristeza compartilhada é tristeza subtraída.

Um desejo de afinidade
Um anseio de intimidade
Penetrar teu universo
Ser chuva de estrelas na sua vida.

Dois iguais que se amam
Dois iguais que se respeitam
Metades que se completam
São iguais, mas são diferentes
São iguais na proporção
Diferentes na composição.

Esse amor que se alegra com um sorriso
E se contenta com um abraço
Os beijos são cortesias
Que enriquecem o teu regaço.

Esse amor que é partilha
De coisas grandes e pequenas.
Esse amor é gentileza
É cumplicidade e devoção.
Amizade com desejo
Encanto e sedução.
Não há malícia nesse amor
Há apenas lealdade
Se não esse amor

Não se chamaria amor-amizade.

terça-feira, 29 de julho de 2014

A flor no jardim de inverno

Olhei a flor resistente ao frio
Altiva e singela como o teu sorriso
Olhei para o jardim de inverno
Jardim de segredos imaculados e internos.

A flor é como você forte e destemida
Seu caule tem firmeza e a fineza de uma menina.
Suas pétalas são suaves como o toque de suas mãos.
É um broto que floresce dentro do meu coração.

O jardim é cultivado em segredo no inverno.
É como o meu coração que guarda com emoção todos os meus afetos.
O jardim fica escondido, mas é visível a quem a minha morada adentra.
Pois o frio maltrata o que o amor alimenta.
O jardim de inverno não é colorido.
Mas conserva com vida o que morre com o frio.

No jardim de inverno havia uma flor especial
Que brotou no frio intenso e floresceu a luz do sol.
O inverno que às plantas matam, essa flor ele não matou,
Pois cultivada com carinho e foi adubada com amor.
O jardim ficou mais bonito depois que a flor se abriu
Como o sol da primavera o meu jardim a flor coloriu.

Uma flor especial encheu o meu jardim de alegria.
Contagiando com a sua beleza um jardim que parecia sem vida.
Por isso sempre que olho para essa pequena florzinha me lembro de você.
Pois, o seu sorriso, o mais belo, encheu de vida o meu ser.
Como a florzinha que alegrou o meu coração ao florescer.


quarta-feira, 23 de julho de 2014

Doce Amazona

Doce amazona é floresta inteira
É flor que brota na encosta da cachoeira.
Doce amazona é valente e guerreira,
Tem olhos de onça e voz de sereia.

Doce amazona é ternura e sensibilidade.
É mulher que ama e amiga de verdade.
Doce amazona é flor no meu jardim,
Tem o aroma mais agradável como o perfume de jasmin.

Uma mulher, uma menina talvez.
Corajosa de verdade e amorosa pra valer.
Tem brilho da lua nos olhos,
E senso de justiça
Seu coração é honesto
E com a verdade se sensibiliza.

Sorria para mim mulher guerreira,
 A ti me entrego derrotado
Como os marinheiros que ouviram o canto da sereia.
Vencido quero teu abraço
Teu regaço minha amiga.
A voz que brota dos teus lábios
É bálsamo para a vida.

O que expresso nesses versos é carinho de verdade.
É mais que desejo, é amor-amizade.
Para além da erótica, contato sensual.
Mais que simples empatia.
É cuidado sem igual.
Pois, amigos e amantes cuidam uns dos outros de verdade.
como quem planta um jardim
quer ver brotar a felicidade.

Doce amazona me cativastes com teu brilho.
Foi a virtude que de ti emana que me fizeste teu amigo.
Doce amazona te escrevi sem medo.
Para adentrar teu coração fortaleza dos afetos.

Nesses versos eu exalto
Sua virtude e sua beleza.
A admiração que por ti possuo
Meu amor com nobreza.
Acolha estes versos com ternura minha amiga.
Palavras que te abraçam,
Carinho que te acolhe,
Receba o meu afeto,
Na flor em forma de versos,
Que te oferto
O beijo de palavras,
O olhar que se descreve,

Acolha minha amiga esta modesta poesia.

terça-feira, 15 de julho de 2014

A maldição de Tântalo

Que sede insaciável!
Que fome destruidora!
Que vazio que me consome
Como essa saudade arrebatadora.

Condenado a te querer sem que o desejo possa concretizar
Minha alma está sedenta da tua amizade exemplar.
Esse desejo não é fugaz e queima o meu coração.
Com fome do seu amor é o que reclama o meu coração.

Nunca alcanço tuas carícias, estou sempre longe do teu olhar.
Como as árvores do Hades que não posso tocar.
Minha sede de você é algo indescritível
Minha fome é saudade
Que terrível castigo!

Essa é a maldição de Tântalo
Ter fome e sede para sempre.
Por ter servido aos Olimpianos
Seus filhos num banquete.

Tenho sede da sua voz
E fome do seu abraço
Tenho sede da luz dos seus olhos
Tenho fome do teu regaço.

Tenho sede da beleza que emana da sua pessoa.
Tenho fome dos teus lábios encostados na minha boca.
Estou sedento da tua companhia
Faminto do teu ser.
Sede e fome é saudade

Saudade de você.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Janela Trancada

Todos os dias passava pela tua janela entreaberta. E mesmo não te vendo via a abertura da janela, que como a minha alma estava aberta esperando ser perscrutada por você.
Passava e olhava espreitando devagar para não ser descoberto, segredo de Eros que não queria ser revelado a Psiquê.

Um dia, a janela estava trancada, não apenas os vidros como acontece nos dias de chuva, mas totalmente trancada, já não podia ver o teu íntimo.
Eros já não podia mais ver Psiquê, contaram-lhe que ele era um monstro e ela quase o matou.
Tua janela trancada é um interdito que não suporto. Esse fechamento da alma que me estrangula. Que corta as minhas asas e me impede de voar.

O inverno chegou e o frio com ele e a tua janela está fechada, lacrada, interditada para os meus olhos. Minha alegria não era ver você, mas saber que você estava ali, essa presença no vazio, porque via no vazio a sua presença, pelo vão da janela.

Agora não verei mais e o meu coração sangrou, porque antes tinha sua presença no vazio, era uma presença velada, mas ainda assim uma presença, agora tudo que tenho é uma ausência completa! Ausência plena e nefasta, se antes quando passava pela tua janela não ouvia o canto dos pássaros, agora o silêncio não fala, não é mais aquele silêncio tagarela de outrora, o silêncio emudeceu como a madrugada fria dos invernos mais rigorosos. O silêncio agora é um abismo que se fecha e me engole.

Você viu o meu rastro no teu jardim, pensou que fosse um monstro e trancou a janela para mim. Já passou pela tua cabeça que a luz que vinha do teu quarto era a única luz que eu via todas as noites quando espreitava tua janela?

Parece que revivemos o conto de Eros e Psiquê, mas nesse conto Psiquê não ama Eros, apenas Eros, o amor, amou com força e vigor uma mortal que nunca se tocou que um deus a amou.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

O amor não fragmentado em Sponville – pequeno comentário à “Amor a solidão”.


“Para gostar das estrelas, por acaso você precisa saber quantas são? E para amar um homem, conhecer tudo? Ele está aí, diante de você, perfeitamente verdadeiro, inclusive em suas mentiras, perfeitamente real, inclusive em seus sonhos... Se você não conhecesse nada dele não poderia amá-lo, claro; mas como seria louco querer conhecê-lo em todos os seus detalhes (em todos os seus infelizes e inesgotáveis detalhes!) antes de amá-lo por inteiro! O real não é um quebra-cabeça. “Espere um pouquinho, querido, mais uma peça, mais outra, mais outra ainda, sinto que já já vou te amar plenamente...” Não. Ele está aí, à sua frente: você o vê, você olha para ele, e já é um quinhão inesgotável de verdades...” (Comte-Sponville, André. Amor a solidão. p. 104. Entrevista com Judith Brouste).

Muitas passagens de “Amor a solidão” merecem comentário,  passagens que falam sobre a filosofia, sobre o desespero, sobre Deus e o nada, e outras passagens sobre o amor, mas essa em particular me chamou a atenção. E por que? Talvez porque enquanto eu lia o opúsculo sponvilliano, eu tenha percebido o quanto ele me influenciou, junto é claro com outros pensadores. Vejam, meu primeiro contato com Sponville foi em 2003 com o livro “A felicidade desesperadamente” (que na verdade é uma palestra e não um tratado) e desde então meu modo de ver a vida mudou, é certo que não de todo, mas mudou.

Mas eu só percebi a mudança quando, finalmente conheci o estoicismo e o cinismo, foi com o estoicismo e o cinismo é que me aproximei mais da sabedoria, principalmente pelas semelhanças com o cristianismo. É verdade que Platão e Aristóteles tiveram e ainda tem grande influencia sobre o meu modo de pensar, mas com essa dose de austeridade, ou antes, de simplicidade a ser buscada para a vida feliz.

Com efeito, me encontrei o suficiente nessa passagem de “Amor a solidão” para me recordar da lição estóica de que nada pertence ao sábio, senão a virtude, explico o que se passa.  Ao ler esse trecho me lembrei de que nem mesmo o amor que não é posse, mas é convivência livre e interessada tão somente na convivência e em nada mais, me pertence. Logo, todo amor que espero receber deve ser pautado pelo desejo de estar junto com, como lembra Vinícius de Morais no Soneto de fidelidade: “Rir o meu riso ou derramar o meu pranto, ao seu pesar ou contentamento”. Essa passagem evoca o malogro causado pelo medo de se envolver, de mergulhar no mistério do amor, porque conhecer como lembra o filósofo francês “todos os infelizes e inesgotáveis detalhes” de alguém é impossível, e nisso consiste o mistério, ou seja, o amor é um mergulho que fazemos no mistério do outro, mistério que só é acessível se o outro se permite penetrar pelo desejo da partilha do “quinhão da vida”.

Portanto, quem posterga o amor não sabe conviver, nem consigo mesmo e nem com os outros, uma coisa é, claro, não haver espaço no projeto de alguém para a partilha da vida, seja porque o trabalho e os estudos impossibilitem o nascituro de uma relação, ou por outro lado, há aqueles que se escondem em projetos, que criam obstáculos, mundos paralelos e com isso malogram a dádiva do convívio, perde a oportunidade do aprendizado com o diferente e do exercício da humilde, simples vivência do cotidiano.

Amar alguém é amar a pessoa toda e não apenas aquilo que salta aos nossos olhos, e por isso o amor é desejo de mergulhar no mistério do outro, e é por isso também que o amor não é fragmentado, quem ama uma parte ou uma ideia que faz de alguém não a ama de fato.

Não é como procurar as peças de um quebra-cabeça para montar uma imagem do outro que você seria capaz de amar, porque no fundo sempre haverá algo do outro a ser conhecido, ele sempre vai te revelar algo de novo, ou de antigo, mas de outro modo.

E nisso Sponville tem toda razão, quem que  ao apreciar a beleza das estrelas se preocupa em conhecer todas? Primeiro que é impossível mesmo com todo aparato tecnológico conhecer de fato todas as estrelas, o universo é imenso e o homem em sua pequenez é imenso também, esse microuniverso que é o homem é demasiado complexo para que possamos conhecer todos os detalhes do seu ser e, no entanto, o real esta aí diante de você com todas as dimensões que possui: mentiras, verdades, sonhos e aspirações.
Foi aí que me dei conta do quanto Sponville me influenciou, pois quando falo de amor-amizade falo justamente dessa inclinação para a partilha da vida, para o mergulho nesse mistério que é o outro que se revela para nós em inteireza e não é fragmentado, ainda que a pessoa mude seu comportamento ou algo novo seja descoberto a pessoa nunca deixa de ser o que ela é, mesmo que muitas vezes nem ela mesma saiba sobre aquela virtude ou defeito que possui.

E qual é o melhor lugar para se redescobrir do que o mergulho em si, mergulhando no mistério do outro? Como não saber quais são os seus limites na tensão que há na relação com o outro, com a pessoa que você escolhe partilhar a vida, fazer projetos e conviver. O outro é como um espelho que nos liga ao mundo. Desde que o que nós somos não seja massacrado pela relação, quando deixamos de viver a nossa existência, nossa vida pela vida do outro, porque o amor é sempre partilha de, é partilha de solidão, é partilha de boa vontade, é partilha de intimidade e de desejo. Quem faz do outro um quebra-cabeça foge de si mesmo, porque projeta no outro suas frustrações e seu medo, é um procrastinador da própria felicidade, tem medo de amar e medo de viver o amor por ter medo de se ferir.

No entanto, a beleza do amor está justamente no risco de se ferir, no risco de vivê-lo. Jesus correu esse risco e Hypparchia ( para quem quiser conhecer a história de Hypparchia só vir aqui: A escolha de Hyppachia) também e foi assim que encontraram a felicidade, descobriram ao seu modo a sabedoria de vida ou o saber viver. O ágape, a caridade, é aquela que nos impele ao serviço, é justamente a face benevolente do amor.  A phília, a amicitia, é esse desejo que reconhece o outro como um como nós, como alguém com quem vale a pena conviver e dividir cada novidade, cada alegria e cada tristeza; as flores dos jardins, os sorrisos recebidos e as lágrimas colhidas. 

Nesse sentido não importa se o outro te ama como você ou se você vai ser correspondido, porque a correspondência vem justamente do desejo da partilha e tudo o mais é acrescentado pelo desejo da vida comum. Em outras palavras, a reciprocidade é a marca que dá valor ao amor, e então, quem ama sintomaticamente  quer estar junto, quer construir junto, quer partilhar as mínimas coisas e as coisas grandiosas da vida e é aí que surge a cumplicidade e o medo desaparece, não é que vamos confiar cegamente, mas na medida em que há o desejo de unidade comum a confiança mútua fortalece a relação e o medo permanece, mas em menor grau, pois se sabe de algum modo que a mão do outro está sempre próxima para te ajudar a levantar quando você cair.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Meu segundo amor

Ao meu segundo amor o meu sorriso
Ao meu segundo amor um quinhão da minha vida
As minhas lágrimas de tristeza e de alegria.

Ao meu segundo amor um brinde
Ao meu segundo amor saudade
De um coração sofrido que ama de verdade.

Ao meu segundo amor sinceridade
Ao meu segundo amor lealdade
Como um cão fiel sem morosidade.

Ao meu segundo amor amizade
Ao meu segundo amor liberdade
Por que o amor pelo primeiro amor é ágape
E ao segundo amor será sempre amor-amizade.


quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Felicidade que desejo para ti

Não te preocupe com os mortos
Os mortos não desejam outra coisa que a felicidade para os que ainda vivem.
Não te preocupe com a minha dor
Sua felicidade não pode ser violada pelas misérias de um homem pobre de espírito.
Não te preocupe comigo
Ocupação inútil é esta, tentar fazer o impossível para quem já está condenado.

A felicidade que desejo para ti não depende de mim
A felicidade que desejo para ti não depende do meu amor
Desejo te felicidade seja comigo ou com outrem
Desejo te felicidade mais que desejo que me ame.

O amor só se expressa plenamente quando é livre
E a felicidade só é possível se a alma está tranquila
Nunca desejei que fosses minha; mais do que tu pudesses desejar outra pessoa, ainda que isto me causasse dor.
Porque “o amor é como um belo pássaro pousado em um dedo a qualquer momento ele pode levantar vôo”...
Por isso a felicidade que desejo para ti não precisa me incluir
Porque o necessário para felicidade é o amor, mais do que quem é amado.

Desejo te felicidade
Desejo te amor
Desejo te alegria
Desejo te o que de melhor um ser humano pode desejar a outro.
A felicidade que desejo para ti não é passageira
A felicidade que desejo para ti vai ter momentos de tristeza
A felicidade que desejo para ti é verdadeira felicidade
É plenitude de vida, aspirações a realizar e bênçãos para receber.
O que te desejo é sorrisos e lágrimas de satisfação
Abraços ternos
Beijos carinhosos
Que nunca se sinta só
Que nunca se sinta como se não fosse amada
Que nunca se sinta desprotegida

A felicidade que desejo para ti não pode ser expressa em palavras
Não é algo que a inteligência seja capaz de traduzir
Ou que o coração não possa sentir.
A felicidade que desejo para ti não tem nome
Não é simples prazer

É apenas felicidade.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Pequena Reflexão sobre o namoro como instituição: A escolha de Hypparchia

Hoje dou continuidade a esta pequena reflexão que tem se tornado grande, chegando a sua terceira parte.
Depois de desconstruir o amor romântico fiquei de tentar responder sobre como seria possível uma relação pautada pela comunidade e por uma forma de amor que assimila, portanto, a ideia de cuidado e interesse uma forma talvez mais intensa de amizade movida pelo desejo sim, mas um desejo de construir e partilhar a vida.


Para apresentar uma possível resposta, apresento uma parte do relato que chegou até nós da filósofa cínica Hypparchia. Primeiro apresentarei a tradução do texto de Diógenes Laertios no qual encontramos o relato da escolha de Hypparchia e depois através de uma reflexão mais filológica apresentar através do vocabulário empregado o modo como o namoro como instituição se dá como comunidade de menor porte que começa com duas pessoas em uma adesão de vida comum e se estende através e sobretudo com o casamento e com a geração dos filhos. Vejamos então o relato da escolha da filósofa.


Diógenes Laertios nos conta que: “A irmã de Metrócles, Hypparchia, também foi capturada pelos discursos de Crátes. Ela amava os discursos e o modo de vida de Crátes, e não dava atenção aos seus pretendentes, nem a riqueza, o bom nascimento e nem a beleza deles lhe chamava a atenção. Pois Crátes era tudo para ela. Ela ameaçava seus familiares dizendo que tiraria a própria vida se não fosse dada à Crátes em casamento. Então, Crátes foi chamado pelos pais da moça e fez de tudo, mas por fim não conseguiu convencê-la, então ele se levantou e tirando as suas vestes diante dela disse: ‘ Este é o noivo e os seus bens, portanto, toma a tua decisão, pois não poderá ser a minha companheira a menos que tu partilhe comigo o meu modo de viver. ’ A moça escolheu, e adotando as mesmas roupas passou a andar com ele(..)” DL VI, 7, 96-97.


Antes que se pense que Hypparchia se apaixonou por Crátes como se fosse um amor à primeira vista eu devo dizer que a irmã de Metrócles já o conhecia, primeiro porque Crátes já era relativamente conhecido como filósofo e segundo porque Crátes já havia estado na casa de Hypparchia para ajudar Metrócles quando este pensou em se matar porque teve vergonha de um peido que pode ser visto aqui:Uma anedota cínica: O encontro de Metrócles e Crátes.
Portanto, não se trata de amor à primeira vista, mas há implícito na narrativa através de palavras bem específicas do vocabulário grego que examinaremos agora elementos que mostram um pouco do modo de vida de Crátes, isto é, a vida filosófica, mais especificamente da vida do filósofo cínico como também a relação íntima que há entre persuasão e amor se assim me é possível dizer.

 No início do relato Diógenes Laertios nos diz que Hypparchia foi “capturada” pelos discursos do filósofo cínico, e ele poderia dizer que foi seduzida, que foi encantada, mas não ela foi capturada. O verbo empregado é therao que significa: caçar, capturar, prender uma presa, laçar etc. Levando em conta que a escola cínica é associada aos cães (Por isso, Diógenes de Sínope é também chamado de “o cão” kynikós em grego) não me admira que Hypparchia fosse capturada, veja que o vocabulário do relato está ao menos na teoria e acordo com as bases fundamentais do modo de vida proposto pela escola filosófica apresentada (Na obra “vidas e doutrinas dos filósofos ilustres” obra da qual extraímos esta anedota sobre Hypparchia em cada livro Diógenes Laertios agrupa os principais filósofos das principais escolas do mundo antigo o sexto livro é dedicado aos cínicos e cada capitulo trata da vida de um filósofo. O capitulo sétimo do livro sexto apresenta a biografia de Hypparchia aqui traduzida). Mas isso pode ser explicado quando entendemos que os discursos de Crátes não são apenas palavras, mas um modo coerente que une as palavras com o modo de viver e é por isso que logo em seguida Diógenes Laertios escreve: “Ela amava os discursos e o modo de vida de Crátes”, Eros que é o termo mais usual para designar o amor no mundo grego expressa mais do que afeição o desejo, em outras palavras, não é apenas achar os discursos e o modo de vida de Crátes “bonito”, mas de desejar viver como ele vive. (O mito de Eros imortalizado no diálogo banquete escrito por Platão nos revela em detalhes a natureza de Eros ligada diretamente ao impulso de ser ou ter o que ainda não é, pois, Eros seria uma espécie de divindade intermediaria entre os homens e os deuses, sendo filho da Abundância (Poros) e da miséria (Pênia), é carente de tudo e ao mesmo tempo possui todos os recursos para atingir seus objetivos. No diálogo Platão coloca Eros como verdadeiro filósofo pois embora saiba alguma coisa está sempre carente de saber e por isso sempre deseja saber mais, por outro lado a natureza desejante de Eros implica necessariamente o interesse de se aproximar, de seguir de perto algo ou alguém, o amor é um querer assumir o outro para si.)  Eu traduzo por “modo de vida” a palavra grega bíos, bíos é, com efeito, tudo aquilo que está relacionado às condições do viver, diferente de zao (viver) que é a vida entendida como movimento, ação no sentido mais fundamental, por exemplo: dizemos que algo está vivo porque respira ou porque o coração está batendo. Bíos, por outro lado, carrega um sentido mais profundo, pois se refere às condições de existência, tanto éticas como ecológicas (quando aplicada a biologia, por exemplo). 

Portanto, o amor de Hypparchia não era um tipo de admiração passiva por alguém “brilhante” (Diógenes Laertios relata que Crátes era feio de rosto e que quando se exercitava na palestra fazendo ginástica provocava o riso Cf. DL VI, 5,91), mas uma inclinação para imitar ou seguir aquele modo de existir. E principalmente amar os discursos e o modo de vida significa em certo sentido amar a pessoa toda de Crátes para ser como ele, e ser um com ele. E  é preciso notar ainda que o desejo de ser como Crátes e de estar com ele era tão forte que mesmo Hypparchia sendo uma mulher atraente e ter do ponto de vista social bons pretendentes elas sequer lhes dava atenção ao contrário ela “Não dava atenção aos seus pretendentes, nem a riqueza, nem ao bom nascimento, nem a beleza dos mesmos” Estes três itens citados são importantes para a tradição cultural do grego antigo, digamos que seja ainda hoje. Os antigos gregos acreditavam que um homem feliz de fato era aquele que era rico, bem nascido (de boa família, ou família nobre) e belo (bonito, pinta etc.) No entanto, o cinismo despreza tudo isso, por considerar que todas estas coisas vêm e vão, importa para os cínicos e depois para os estóicos que são devedores do cinismo apenas a virtude, pois a virtude está acima da inveja, da vaidade e, é o que realmente faz do homem um homem.


Quando Hypparchia ameaça se matar e seus pais chamam Crátes para convencê-la a não se casar com ele temos outro dado interessante, porque os discursos que capturaram a jovem não a fez desistir?
Como, pois um filósofo tão eloqüente não foi capaz de dissuadir a jovem? Depois de “pant’epoíei”, de fazer de tudo, usar todos os meios que dispunha para fazê-la desistir, ele por fim percebe que não a persuadiu (peíthon) e tenta um último recurso, faz o seu último lance, vai para o tudo ou nada, ele tira a roupa na frente dela e diz que aquele manto surrado é tudo o que ele tem e que se ela realmente quer ser sua companheira (koinonón) ela vai ter que compartilhar (epitédeumáton) a maneira de viver. Vejam que para o grego ser companheiro é ter em comum, a própria phília (amizade) nos remete a ideia do “ter tudo em comum”.
Portanto, a ressalva feita por Crátes ao ver que não tinha como persuadi-la era essa, se quiser tudo bem, mas você vai ter que ser capaz de viver como eu vivo.
No fim, Hypparchia escolhe por Crátes e adota seu modo de viver usando apenas um vestido e seguindo-o aonde quer que fosse.


A escolha de Hypparchia é a escolha pela comunidade, por um amor que transcende toda a superficialidade que a atração física, a beleza ou o bom nascimento poderiam trazer ao primeiro olhar, ela viu além nos discursos do filósofo, viu certamente um modo de vida que mesmo difícil trazia consigo a semente da felicidade e desejando construir esta felicidade através da prática da virtude que é a causa de ser do cinismo, Hypparchia abraça um modo de vida compartilhado com seu marido.


Hypparchia não conheceu a banda americana Turtles, mas certamente repetiria o adágio: “Imagine me and you, I do (...) so happy together” (Imagine você e eu, Eu imagino tão felizes juntos).
Tendo tratado da escolha de Hypparchia e apresentado o quanto a sua escolha reforça que o namoro ou o casamento deve ser sempre uma comunidade que parte da atitude livre das duas pessoas tratarei na sequência da vida celibatária, isto é, da vida de solteiro distinguindo primeiramente o sentido ordinário e exercitado no mundo antigo e pagão do celibato adotado no cristianismo.

Pelo momento não há mais nada a dizer.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Amor- Amizade III


Nunca senti alegria maior do que aquela que sinto quando estou contigo.
Nem me sinto sozinho quando vejo teu sorriso.
É agradável a companhia que ausculta o coração.
Permita- me que eu ausculte o seu também, quero que os nossos corações batam harmoniosamente.

A alegria que o teu ser me proporciona é diferente de qualquer alegria que já senti
A solidão inexiste, pois teu abraço ilumina as trevas e recolhe a minha solidão.
Companhia deleitável, doce e suave, tua pele junto da minha me faz sentir como se uma brisa tocasse meu corpo num dia de sol quente.

Se amar é se alegrar, é se comprazer, se amar é desejar estar junto, quero então,
te amar e o que peço é que me ames para que dois corações amigos possam viver a alegria de redescobrir todos os dias as cores da vida e pintá-las no cinza ou no branco da tela da existência em cores vivas a felicidade.