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terça-feira, 18 de julho de 2017

Correio elegante

Queria ver o teu sorriso para cada verso que escrevi para ti.
Cada verso de bom dia.
Cada palavra de alegria.
De falar contigo,
De ser teu amigo.

Queria ver como cada verso meu te alegrava.
Como cada palavra te tocava.
Colocava neles a minha ternura.
Como um timbre de voz suave.
Carinho gratuito, cordialidade.

Queria ver como os meus versos te acordava,
Para a vida,
Para a beleza,
Para a certeza de sentir-se amada.

Não tive o prazer de ver-te com sono.
De imaginar-te em tamanho abandono.
Entre a preguiça e a tranquilidade.
Ah, que saudade!

Em tantos versos que escrevi por estima
E tudo o que eu queria...
Era que fossemos amigos,
Enamorados,
Cumplices um do outro.
Amantes apaixonados.

E acredito que em cada verso ainda almejo,
Seu sorriso,
Seu abraço,
Seu amor em segredo.

Contado nesse correio elegante.
Nunca enviado,
Ele permanece guardado.
Como os versos que te mandei,
Os versos que escrevi sobre ti.

Brener Alexandre 18/07/2017



sábado, 26 de dezembro de 2015

Rascunhos de Cartas

Ainda tenho os rascunhos daquela carta.
Ainda tenho na memória todas aquelas palavras.
É um rascunho passado a limpo.
Palavras esboçadas esquecidas no limbo.

Ainda tenho o balão de coração.
Que você me deu com as tuas próprias mãos.
Queria que fosse o seu amor doado.
Naquele coração inflado.

A carta continha um segredo.
Ela exprimia um desejo.
O rascunho tem muitos erros.
Palavras escritas cheias de medo.

O balão fica sempre à vista.
Mas ele não cura minhas feridas.
Ele guarda um desejo.
Que eu nunca guardei segredo.

Em dois tempos distintos dois amores.
Duas emoções, duas dores.
Na letra tremida o receio
No balão guardado um anseio.

Ainda tenho o rascunho daquela carta.
Ainda guardo na lembrança suas palavras.
Um rascunho, um ensaio.
Poderia ter sido perfeito, mas foi um fracasso.

Ainda tenho o balão de coração.
Guardado com minha afeição.
Um ícone, um sinal.
Será que esse é o final?

Ainda guardo o rascunho daquela carta.
Tantas vezes modificadas,
Tantas vezes ensaiada.
Ainda guardo o seu coração
Disfarçado de balão.

Ainda rascunho aquela carta.
Com palavras que não te disse.
Abrindo a minha alma para que você visse.
Aonde guardo o seu coração.


Brener Alexandre 25/12/2015

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Prisão de Silêncio

Eu sei que estou condenado a essa prisão de silêncio, me impus esse castigo para garantir tua liberdade. Eu sei também que a única coisa que ainda me é permitido é acessar a minha mente, visitar a minha memória e trazer a sua imagem que transpassa os meus sentidos e alentam a minha dor.
Tu não sabes como sinto a tua falta. Tu não sabes como sinto a falta do riso descontraído, do seu olhar curioso e da sua fala sincera. Tu tinhas me libertado, mas eu queria ser teu cativo para sempre.

E agora nessa prisão sem paredes, nesta cela sem grades estou preso pela saudade e amordaçado pela liberdade. Pela minha e pela tua liberdade.
E no final, o que me resta a falsa sensação de que você vai voltar e me libertar dessa prisão retirar os grilhões invisíveis que me impedem de te abraçar.
Antes o teu perfume vai me despertar da fatiga de dormir deitado no chão e tua voz vai me reconduzir a cidade dos bem-aventurados outra vez.

Entre as boas e as más lembranças o que me restam são apenas sonhos e pesadelos.
E ao acordar me deparo ante o bucólico frio da madrugada com a solidão, fim de quem está preso e condenado na prisão de silêncio.

Brener Alexandre 21/11/2014


quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A Rosa

Vi uma rosa e me lembrei de você.  Acho que as flores me fazem pensar em como proceder com as pessoas, por isso me lembrei de você.
É tão bonito ver a flor cheia de vida plantada no jardim mesmo quando às vezes queremos oferecê-la a alguém. Talvez seja como o amor, que não pode ser arrancado a força, mas deve ser cultivado. Talvez seja como a amizade que do mesmo modo que o amor não reconhece na violência o caminho para a construção relacional.

Por que aquela rosa em particular e as flores de modo geral me fizeram lembrar de ti?
Porque quando penso em ti penso que não posso te arrebatar para mim como se colhe uma flor no campo. Não posso simplesmente te arrancar de ti mesma e nem te separar das tuas raízes. E se penso, ora na flor como o próprio amor/amizade, ora em ti mesmo como a flor desejada é porque provavelmente entendo que o mistério do amor, doloroso na maioria das vezes, e também o mistério da amizade conflitante no mais das vezes requer de nós um olhar diferente. Por mais que eu queira a rosa eu não posso arrancá-la, pois isso significaria matá-la! A rosa arrancada murcha a cada dia, suas pétalas caem pouco a pouco até que a flor bela de outrora não mais exista. Então, percebo que a dor angustiante que sinto é fruto do desejo de ter a rosa sempre comigo, mas se não posso arrancá-la como posso tê-la?

Nunca tinha percebido, refletindo com Sponville, que o amor enquanto alegria acompanhada de uma causa exterior, aquela definição belíssima da ética spinoziana, provocava tanta angustia! Vai ver eu sou muito platônico e só tenho paz quando  a referência do meu amor (não vou empregar a palavra “objeto” de amor, é muito feio)  pode ser possuído, pois parece que tenho fome do outro. E essa angustia é como ficar de barriga vazia precisa ser saciada com o abraço, o carinho o beijo e a troca de olhar. Com a companhia e as juras afetivas.

Então, se a dualidade da rosa (ícone do amor e pessoa amada) não podem ser arrancadas a força, o que me resta é esperar que a rosa sorria e se deixe transplantar para o meu jardim.
As rosas falam através de sua beleza e, é esta beleza que nos move a admirá-las. Seu sorriso se traduz na beleza de suas pétalas e no quanto elas se abrem diante dos nossos olhos que contemplam a sua maravilha que é a natureza espetacular do seu desabrochar.

Mas confesso que não me parece suficiente ter de esperar o sorriso, muitas vezes ele não vêm e o desejo de arrancá-la fica a espreita e fere o meu peito e me enche de dor.
Quem compreende a natureza do amor e da amizade sofre porque a zona de conflito entre o desejo e a alegria , entre a violência e o cuidado é a linha tênue que separa o amor da mera reificação do outro. 

O mistério do amor envolve o desejo que quer ser satisfeito, mas que se alegra em descobrir a beleza e não em matá-la. 

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Entre o miserável e o sábio: confissões filosóficas

"Portanto, se algum desses que invectivam contra a filosofia repetir o seu refrão habitual: ‘Por que, em suas palavras, há mais energia do que em sua vida? Por que você abaixa o tom de voz diante de um superior, e acha que o dinheiro é um meio necessário, abala-se com um prejuízo, chora ao ficar sabendo da morte da esposa ou da morte de um amigo, cuida de sua reputação e se deixa afetar por boatos malévolos? (...) Mais adiante, eu irei ainda mais longe do que suas invectivas e farei a mim mesmo mais recriminações do que você imagina; por ora, eis o que lhe respondo: Eu não sou um sábio e (para que a sua malevolência fique feliz) nunca serei. Exija, pois, de mim, não que seja igual aos melhores, mas apenas melhor que os maus; a mim me basta cortar a cada dia um pouco dos meus vícios e repreender os meus extravios. Eu não fiquei completamente bem de saúde, e nem vou conseguir ficar; estou fabricando para a minha gota antes paliativos do que remédios, feliz se os ataques se tornam menos freqüentes e as dores menos fortes; mas comparado com os seus pés, eu, débil, sou um corredor. Digo isso, não por mim (pois, estou submerso em todos os vícios), mas por aquele que conseguiu alguma coisa. " Sêneca, Sobre a vida feliz XVII,1.3-4.

Enquanto lia a obra: Sobre a vida feliz me deparei com essa passagem que me tocou bastante, por se tratar  de uma confissão pessoal de um homem que experimentou as vicissitudes da vida, o que engloba a boa e a má fortuna. Então, eu quis também engrossar o coro dos que se reconhecem como um homem “submerso em todos os vícios” e “ruim demais para saber acolher as graças de Deus” e lembrar com Diógenes que “aspirar à filosofia também é filosofar”.

Posso dizer não sem indignação contra a mim mesmo, que também eu estou nessa luta, e ciente de que a minha saúde me oprime bem mais do que eu gostaria e, sabendo o quanto é difícil manter com coragem o ânimo diante de tantos combates com o único propósito de me manter vivo, de sobreviver.

A verdade é que até o momento tenho buscado uma infelicidade serena certo de que só assim poderei almejar uma felicidade modesta. Galgando cada passo de uma vez, caindo e tropeçando, cego e surdo, com dores eu vou caminhando resistindo em silêncio, e bradando no meu íntimo contra a minha existência, certo de que se tenho alguma virtude, creio que seja a coragem, mas não porque sei o que se deve temer ou não, como ensina o Sócrates do diálogo Protágoras, mas porque em tal estado insisto em enfrentar a vida quando poderia muito bem entregar os pontos e dar o último suspiro. Tudo o que posso fazer é tentar amenizar a dor e na medida do possível e com bravura me colocar diante dos meus vícios e das minhas misérias, creio que esse é o gesto mais corajoso que um homem pode ter. Penso realmente que este é um ato de coragem legítimo, pois, que reconhecer suas fraquezas, seus medos e saber-se miserável é prova senão de virtude, ao menos, prova de que a ama, assim como se ama a verdade.

Eu que sou débil, e manco, que sou o mais miserável dos homens procuro acompanhar os passos de homens e mulheres melhores que eu, e vou caindo como se não soubesse andar direito atrás desses verdadeiros seres humanos pensando que se ao menos conseguir acompanha-los serei senão feliz, ao menos, menos infeliz. Porque a chance que tenho ao segui-los de me tornar menos patife e mais homem é maior do que se eu simplesmente ignorasse todos os meus vícios e pensasse que sou a encarnação da virtude.

Creio que como o Eros de Platão, eu também, estou entre o pior dos homens e o mais divino deles, o pior porque sou miserável e o divino porque aspiro ao que de melhor o homem pode almejar para si e para os outros. Se, com efeito, eu fraquejo diante da dor não pense que é por covardia, é antes porque a virtude ainda me falta e a sabedoria mais do que tudo. Ciente da minha ignorância procuro ser menos pedra de escândalo para os outros consciente de que ainda o sou para mim mesmo.

Então, quando me ver fraquejar e sucumbir aos meus medos, quando ver que eu estou chorando e bradando contra a existência não me julgue como se julga o sábio e o verdadeiro homem de virtude, porque o que estará diante dos seus olhos é apenas um homem miserável atolado até o pescoço em seus vícios que está tentando a todo custo sair do lamaçal. No mais das vezes enfrento tudo isso sozinho: o silêncio, a noite escura, os medos, o pânico e tento agir com o mínimo de covardia e o máximo de coragem que a pouquíssima virtude que adquiri me permitir.
Por isso, peço desculpas através na forma de uma confissão filosófica sincera, não porque eu mereça desculpas, mas porque a verdade me impele a ser sincero e franco comigo mesmo antes de tudo, pelas vezes que fraquejei e ainda irei fraquejar, pelas vezes que ainda irei tombar diante dos meus inimigos, pelas vezes que ainda irei bradar contra a minha existência, até que lutando as batalhas diárias afim de vencer a guerra da vida eu possa, ao menos, alcançar a infelicidade serena e tranquila e quem sabe poder me dar o luxo de aspirar a felicidade modesta.

E, se não sou capaz de ser amigo da minha solidão, é por fraqueza e não por covardia, se almejo sua companhia é mais por amizade do que por desejo, e se amei mais a pessoa do que a mulher que dá forma a pessoa é porque vi na mulher mais do que pode ser desejado e menos do que é digno de ser frequentado pela afinidade que o simples desejo oferece.

Um dia espero que entenda que aos amigos o maior bem e o aos inimigos um bem maior ainda, é o que o homem mais miserável deve desejar quando consciente de suas misérias e pecados. Vence-se um vício por vez e quando todos os vícios se amontoam contra o homem de bem ele se vê em grande perigo, pois que cercado e impelido pela coragem não pode largar a lança e o escudo, mas deve enfrentá-los ao preço de morrer aniquilado pelo tormento do fracasso diante de um inimigo mais numeroso e que usa da vileza para vencer ao invés da justiça.

Eu também, não sou sábio e se sou filósofo o sou por amar o saber e não por ser sábio.
Sou filósofo porque optei por ser justo ainda que nem sempre consiga sê-lo e, por fim, optei por ser filósofo porque optei por ser humano ainda que não entenda o que isso realmente significa.