Mostrando postagens com marcador ética cristã. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ética cristã. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Amor secular e amor cristão - A linha de passagem entre duas formas de amar

Amor secular e amor cristão – A linha de passagem entre duas formas de amar

Vi perambulando pelas redes sociais a seguinte frase: “Uma geração de jovens com menos de 18 anos com a vida emocional destruída por buscar um amor em pessoas, um amor que só encontramos em Jesus”. Deparei-me com dois problemas ao ler essa frase, uma de ordem ética e outra de ordem teológica. E gostaria de refletir sobre esses dois problemas para que possamos entender o porquê dessa frase não exprimir de modo adequado aquilo que os apóstolos, principalmente São Paulo ensinaram sobre a vida cristã e o amor tal qual é compreendido no cristianismo.

Começarei pelo problema teológico, pois ao resolvê-lo o problema ético se dissolverá quase que automaticamente. A questão teológica que se coloca de forma problemática na frase citada diz respeito ao conceito “amor” usado no texto.  A palavra amor é usada com dois sentidos distintos ao falar dos jovens que tem a vida emocional destruída por buscar “amor em pessoas”, o autor fala do amor cuja perfeição provém de Deus, mas que nas relações humanas se dá sempre de modo imperfeito. Desse modo o amor manifestado entre os jovens é nesse caso um amor romantizado, idealizado e carregado de “erotismo”. Por erotismo não é necessariamente o conjunto de práticas que chamaríamos de “sexuais”, mas um conjunto de práticas que envolvem a atração, física e ou intelectual que gera e desperta o interesse entre os jovens.
Enquanto o amor em sua forma acabada e que só pode ser “encontrado em Jesus” seria algo superior, e portanto, jamais se encontraria nessas relações imperfeitas. A concepção teológica que estamos esboçando nessa análise remete diretamente no plano existencial, pois os jovens estão tentando preencher um vazio de ordem existencial com um amor imperfeito. Por outro lado, esse preenchimento só é possível e encontrado em Jesus. Tal é a situação- problema que se apresenta para nós.

O grande problema teológico que se coloca no que tange o conceito de amor é que a vida cristã é orientada desde o início da Igreja para refletir nas relações interpessoais o amor de Jesus. Isso é ainda mais evidente quando compreendemos a dimensão comunitária da Santíssima Trindade na qual o Pai, o Filho e o Espírito Santo se tornam o modelo comunitário por excelência baseado na relação de amor e equidade de todos para com todos. Desse modo, o amor secular é sempre imperfeito, mas não o é porque meramente não reflete essa relação trinitária perfeita, mas porque o amor secularizado principalmente na sua dimensão erótica é sempre amor interessado, ao passo que o amor na sua forma acabada é sempre desinteressado. Há outro aspecto que não nos pode escapar de vista, o sentido hebraico, vale dizer, dentro da tradição judaica da palavra “amor” é bastante diferente dos usuais grego e latino.

Vamos resgatar esse sentido? Para entendermos o sentido bíblico-teológico do amor na vida cristã. No livro do Deuteronômio encontramos “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças” (Dt 6,5). E em Levítico está escrito “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19,18). Esses dois trechos da lei de Deus são retomados pelo evangelista Lucas e introduzem a parábola do bom samaritano (Cf. Lc 10, 25-37). A parábola ensina o que é ser “próximo” de alguém, e entender essa lição implica compreender o significado do amor pedido pela lei de Deus. Um amor que não é um mero gostar, um simples sentimento, mas é um agir de santidade que se expressa como “fazer bem”, oferecer o melhor que somos e possuímos para o outro. O primeiro Mandamento é uma radicalização do segundo quanto a intensidade, pois só a Deus é reservado um amor e cuidado que tome todo o nosso ser. Ao próximo cabe fazer o bem que fazemos a nós mesmos. Assim, o reconhecimento ético do outro como próximo passa pelo fazer-se próximo do outro.

Desse modo a regra de ouro (Cf. Mt 7,12) exprime o aspecto ético dos mandamentos divinos, uma ética profundamente teológica em que o amor não tem por primazia uma afetividade ingênua, mas um agir movido pela santidade. Santidade exigida pelo próprio Deus: “Sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus sou santo” (Lv 19,2). Santidade que o evangelista Mateus traduziu como perfeição. “Sede, portanto, perfeitos como vosso pai celeste é perfeito” (Mt 5,48) e Lucas traduz por misericordioso: “sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36). Ambos evangelistas traduzem a santidade, pois a perfeição de Deus se exprime como santidade na forma da justiça seja dentro do horizonte legalista que Mateus quer combater ou de Lucas que escreve a Teófilo um amigo seu de origem grega. No caso de Lucas a perfeição de Deus se manifesta principalmente em sua capacidade de se compadecer dos homens, coisa que no horizonte religioso da Grécia pagã era algo inconcebível. Seja em uma concepção filosófica das religiões pagãs, seja na religião tradicional a divindade jamais se importaria com os seres humanos. Para a compreensão filosófica um deus que se importa com mortais não preenche o requisito perfeição, pois sendo uma divindade só poderia se preocupar com coisas eternas e perfeitas como ele mesmo. E para a religião tradicional os deuses são em suma egoístas demais para se importarem com mortais, para eles meros acessórios que satisfazem suas vontades pelo culto ou pelos seus próprios interesses. Em outras palavras, os evangelistas ao compreenderem que a santidade é uma perfeição que se exprime como justiça e misericórdia abrem um novo caminho ético que estava presente na cultura judaica, mas que ainda não havia ganhado o significado universal que o cristianismo por si só pode alcançar.

Portanto, há uma intima relação entre o amor a ser encontrado em Jesus que o texto sugere e a prática desse mesmo amor entre pessoas que aderem ao cristianismo. A própria sacramentalidade do matrimônio depende da prática desse amor, pois o matrimônio é o sacramento que imita a relação unitiva entre Cristo e a Igreja (sem contar a relação de complementaridade expressada em Gn 2,24). A natureza teológica do amor é fundamental para todas as relações cristãs no âmbito pessoal e social e precisa ser cultivada como parte de um exercício que tem Deus como fonte da qual brota a referência do justo e do direito expressos no modo de ser de Deus em sua essência e constituição ontológica e não como meros acidentes ou atributos que complementam o que Deus é.

Traduzindo em miúdos se levássemos essa frase as últimas consequências somente religiosos que se dedicam inteiramente a vida religiosa (consagrados, padres etc) encontrariam esse amor de que a frase fala com tanta leviandade. Afinal, nas relações entre pessoas dificilmente encontraremos esse amor abstrato. No entanto, quando aprendemos a ser “imitadores de Deus como filhos queridos” como pede o apóstolo Paulo aos efésios que insiste “vivei no amor, como Cristo também nos amou e se entregou por nós como oferenda e sacrifício de suave odor” (Ef 5,1-2), então, nos tornamos capazes de experimentar esse amor que é “benfazejo; não é invejoso, não é presunçoso nem se incha de orgulho” (1Cor 13,4).

O grande problema dos jovens com mais ou menos de 18 anos no que se refere ao amor, sejam cristãos ou não cristãos, é que transformam o ato de amar em algo imanente e totalmente voltado para a satisfação de si. Até mesmo as amizades tem se válido desse modus operandi e faz com que os laços se tornem muito finos e efêmeros começam e somem sozinhos. Nas relações interpessoais o cristão é convidado a amar como Cristo ama a Igreja ou o próximo (Cf. Ef 5,25 e Jo 15,12). O amor secular busca obter benefício em todos os sentidos possíveis. Normalmente tem caráter imanentista e recusa ou diminui o papel de um ser transcendente como modelo que orienta a ação e garante sentido.

A frase, entretanto, exprime em um sentido mais fraco (que creio ter sido a intenção de seu autor) uma verdade inegável. Em Jesus encontramos o modelo do amor de Deus que devemos imitar. Nele os jovens, adultos e idosos e crianças encontram a forma basilar e mais perfeita do amor que é justamente o bem querer e o bem fazer que nos faz próximos uns dos outros. É preciso, portanto, fazer a passagem do amor secular para o amor cristão. Os cristãos são chamados desde o batismo a viver essa experiência que nos santifica. A santidade não é um alto grau que nos separa do resto da humanidade e que nos permite julgar e condenar os que não alcançaram esse estado de vida, ao contrário, a santidade é um convite à virtude na qual nunca estamos totalmente conscientes da nossa santidade e a vemos sempre como processo de uma caminhada que precisa ser feita em íntima relação com Deus (na oração e na vida mística) e que deve refletir nas nossas relações interpessoais fazendo valer os mandamentos de Deus como o pedido de um pai que quer ver seus filhos se dando bem uns com os outros. Se possível gostaria de retornar a esse tema, mas por hora ficaremos por aqui.


Brener Alexandre 07/07/2017

terça-feira, 12 de maio de 2015

Ben Hur e a experiência do encontro com o Senhor

Esse final de semana tive a oportunidade de assistir a um remake do clássico Ben Hur. Aos que gostam de filmes épicos como é o meu caso é sempre um deleite e não percebi exageros como normalmente acontece nesse gênero de filmografia.  Mas gostaria de partilhar com os meus leitores algo que me chamou muito a atenção no filme. Ben Hur é uma mistura de Conde de Monte Cristo com Crime e Castigo, explico!

Ben Hur ou Judas Ben Hur era um judeu rico de Jerusalém e cresceu com um jovem filho ilegítimo de um senador romano de quem se separa ainda na infância. O jovem retorna a Jerusalém agora como um soldado e tem a missão de escoltar o novo governador da judéia, Pôncio Pilatos. Quem conhece um pouco da história sabe que a ocupação romana não era bem vista em nenhuma das províncias, principalmente porque a pax romana era uma imposição violenta. Em Israel não era muito diferente principalmente pelo conflito de culturas presente no contraste entre o politeísmo romano e o monoteísmo judaico. Naquela época havia vários grupos entre os judeus que viviam e assimilavam a fé de formas diferentes, só depois da destruição do templo em 77d.C. é que o judaísmo de organizou com o grupo sobrevivente, os fariseus.  Dentre esses grupos havia um em especial que causava muitos problemas aos romanos trata-se dos Zelotes que se revoltavam constantemente contra os romanos provocando muitas mortes nos conflitos contra seus conquistadores.

Judas Ben Hur era um comerciante justo e honesto e, quando seu amigo volta para Jerusalém, o jovem Messala, educado a moda romana quer que tudo saia bem porque seu pai o Senador Marcellus Agripa quer por meio de uma manobra política ele assuma o governo da província da Judéia no lugar de Pilatos. E para que tudo dê certo Messala espera de Judas que este lhe conte sobre qualquer invectiva contra os romanos quando da passagem do governador. Ben Hur sabia que havia pessoas que queriam se aproveitar desse evento para promover uma revolta, mas prefere não entrega-los, pois isso seria uma forma de alta traição, mas também não quer se envolver com a revolta por ter boas relações com os romanos e principalmente por ser muito amigo de um romano. Acontece que por conta de uma telha solta Judas é acusado de “dar um sinal para os rebeldes” e é preso junto com toda a sua família e isso inclui a sua noiva e o pai dela. O destino parece selado, Pilatos quer crucifica-lo e matar sua mãe e sua irmã, mas a pena dele é mudada e ele é condenado à escravidão perpétua. Tudo o que Ben Hur deseja é vingança contra seu antigo amigo. Quando Judas está saindo da cidade santa para o seu terrível destino um homem o interpela dizendo: “perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem...” Esse homem era Jesus, o nazareno e este foi o primeiro encontro de Judas com o galileu. 

Depois de uma grande reviravolta Judas é adotado por um romano que lhe dá o seu sobrenome e tudo o que lhe pertence, Judas está disposto a usar todos os recursos para se vingar de Messala e parte novamente para Jerusalém. Ben Hur não sabe que sua noiva e o pai, sua mãe e irmãs estão vivas. No caminho para Jerusalém Judas escuta uma pregação e a ouve por alguns minutos antes de seguir viagem, sua noiva estava lá, mas não o viu, o pregador era Jesus, o profeta da Galileia e o conteúdo de sua pregação é o sermão da Montanha. Judas entra em Jerusalém e readquiri sua casa que estava abandonada sob custódia do governo romano e usando seu nome romano arquiteta sua vingança nesse meio tempo reencontra sua noiva que tenta dissuadi-lo da vingança e exortando-o a perdoar, mas Judas Ben Hur só conhece a lei do “olho por olho” ignorando a lei do perdão. Executa a sua vingança sem saber que suas irmãs estão vivas, e tendo terminado sua vingança vai ao encontro delas, pois estavam doentes, com lepra e só podiam permanecer fora da cidade ou quando muito teriam de gritar “impuro” para afastar as pessoas quando pedia esmola. Quando entra em Jerusalém, um homem condenado à morte de cruz está saindo da cidade ele cai e é duramente açoitado pelos soldados, sua noiva a jovem Esther reconhece o homem caído, mas tomada de tristeza e consternação não diz nada apenas chora e lamenta pelo homem condenado. Judas, por outro lado, ao ver a atitude dos soldados se interpõe contra eles para ajudar o homem, os soldados recuam, Judas estende a mão ao homem caído que lhe diz: “perdoa-lhes porque não sabem o que fazem...” Nesse momento, Judas fica paralisado, mudo e se recorda de ter ouvido anos antes a mesma frase, nesse momento Judas parece se dar conta de estar diante de um verdadeiro profeta de um homem justo. As palavras de Jesus penetram fundo a alma desse homem amargurado pelo desejo de vingança e finalmente liberto do rancor perdoa o amigo que morre.

Libertado, liberta também a outros, Jesus, profeta, justo, santo, ungido é pregado na Cruz e morre, as trevas cobrem a cidade santa, mas a luz não deixa a casa de Ben Hur e sua mãe e sua irmã são curadas da lepra e purificadas pelo perdão.

Assim como Raskolnikov em Crime e Castigo é gradativamente libertado pela doçura e amor de Sônia. Ben Hur é transformado pelo amor de Esther, sua noiva, e pelas palavras de Atene uma prostituta grega que exerce o papel de espiã do senador Marcellus Agripa. Duas mulheres que se portam cada uma a seu modo como “vozes da razão” poderia ser o prelúdio do encontro de duas tradições, Esther seria a personificação da cultura hebraica e Atene a personificação da cultura grega.  E a experiência do encontro com o profeta galileu é o mediador das duas tradições em aparente conflito, mas que caminham lado a lado em busca da justiça e do bom senso. São as palavras de Jesus que acenam para Ben Hur aquilo que as duas tradições por si só não foram capazes de lhe revelar completando o sentido que as duas tradições manifestam cada uma a sua maneira.  A vingança um direito consentido nas duas tradições provoca vazio e diminui a humanidade, e o perdão supera a justiça da retaliação dando novo sentido que extrapola toda forma de marginalidade e de poder que nossa parca humanidade alimenta.


Três encontros e sempre o perdão pelos que não sabem o que fazem. A justiça supera a vingança e a verdade é galgada pelo amor, verdadeira liberdade para o homem.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Entre o miserável e o sábio: confissões filosóficas

"Portanto, se algum desses que invectivam contra a filosofia repetir o seu refrão habitual: ‘Por que, em suas palavras, há mais energia do que em sua vida? Por que você abaixa o tom de voz diante de um superior, e acha que o dinheiro é um meio necessário, abala-se com um prejuízo, chora ao ficar sabendo da morte da esposa ou da morte de um amigo, cuida de sua reputação e se deixa afetar por boatos malévolos? (...) Mais adiante, eu irei ainda mais longe do que suas invectivas e farei a mim mesmo mais recriminações do que você imagina; por ora, eis o que lhe respondo: Eu não sou um sábio e (para que a sua malevolência fique feliz) nunca serei. Exija, pois, de mim, não que seja igual aos melhores, mas apenas melhor que os maus; a mim me basta cortar a cada dia um pouco dos meus vícios e repreender os meus extravios. Eu não fiquei completamente bem de saúde, e nem vou conseguir ficar; estou fabricando para a minha gota antes paliativos do que remédios, feliz se os ataques se tornam menos freqüentes e as dores menos fortes; mas comparado com os seus pés, eu, débil, sou um corredor. Digo isso, não por mim (pois, estou submerso em todos os vícios), mas por aquele que conseguiu alguma coisa. " Sêneca, Sobre a vida feliz XVII,1.3-4.

Enquanto lia a obra: Sobre a vida feliz me deparei com essa passagem que me tocou bastante, por se tratar  de uma confissão pessoal de um homem que experimentou as vicissitudes da vida, o que engloba a boa e a má fortuna. Então, eu quis também engrossar o coro dos que se reconhecem como um homem “submerso em todos os vícios” e “ruim demais para saber acolher as graças de Deus” e lembrar com Diógenes que “aspirar à filosofia também é filosofar”.

Posso dizer não sem indignação contra a mim mesmo, que também eu estou nessa luta, e ciente de que a minha saúde me oprime bem mais do que eu gostaria e, sabendo o quanto é difícil manter com coragem o ânimo diante de tantos combates com o único propósito de me manter vivo, de sobreviver.

A verdade é que até o momento tenho buscado uma infelicidade serena certo de que só assim poderei almejar uma felicidade modesta. Galgando cada passo de uma vez, caindo e tropeçando, cego e surdo, com dores eu vou caminhando resistindo em silêncio, e bradando no meu íntimo contra a minha existência, certo de que se tenho alguma virtude, creio que seja a coragem, mas não porque sei o que se deve temer ou não, como ensina o Sócrates do diálogo Protágoras, mas porque em tal estado insisto em enfrentar a vida quando poderia muito bem entregar os pontos e dar o último suspiro. Tudo o que posso fazer é tentar amenizar a dor e na medida do possível e com bravura me colocar diante dos meus vícios e das minhas misérias, creio que esse é o gesto mais corajoso que um homem pode ter. Penso realmente que este é um ato de coragem legítimo, pois, que reconhecer suas fraquezas, seus medos e saber-se miserável é prova senão de virtude, ao menos, prova de que a ama, assim como se ama a verdade.

Eu que sou débil, e manco, que sou o mais miserável dos homens procuro acompanhar os passos de homens e mulheres melhores que eu, e vou caindo como se não soubesse andar direito atrás desses verdadeiros seres humanos pensando que se ao menos conseguir acompanha-los serei senão feliz, ao menos, menos infeliz. Porque a chance que tenho ao segui-los de me tornar menos patife e mais homem é maior do que se eu simplesmente ignorasse todos os meus vícios e pensasse que sou a encarnação da virtude.

Creio que como o Eros de Platão, eu também, estou entre o pior dos homens e o mais divino deles, o pior porque sou miserável e o divino porque aspiro ao que de melhor o homem pode almejar para si e para os outros. Se, com efeito, eu fraquejo diante da dor não pense que é por covardia, é antes porque a virtude ainda me falta e a sabedoria mais do que tudo. Ciente da minha ignorância procuro ser menos pedra de escândalo para os outros consciente de que ainda o sou para mim mesmo.

Então, quando me ver fraquejar e sucumbir aos meus medos, quando ver que eu estou chorando e bradando contra a existência não me julgue como se julga o sábio e o verdadeiro homem de virtude, porque o que estará diante dos seus olhos é apenas um homem miserável atolado até o pescoço em seus vícios que está tentando a todo custo sair do lamaçal. No mais das vezes enfrento tudo isso sozinho: o silêncio, a noite escura, os medos, o pânico e tento agir com o mínimo de covardia e o máximo de coragem que a pouquíssima virtude que adquiri me permitir.
Por isso, peço desculpas através na forma de uma confissão filosófica sincera, não porque eu mereça desculpas, mas porque a verdade me impele a ser sincero e franco comigo mesmo antes de tudo, pelas vezes que fraquejei e ainda irei fraquejar, pelas vezes que ainda irei tombar diante dos meus inimigos, pelas vezes que ainda irei bradar contra a minha existência, até que lutando as batalhas diárias afim de vencer a guerra da vida eu possa, ao menos, alcançar a infelicidade serena e tranquila e quem sabe poder me dar o luxo de aspirar a felicidade modesta.

E, se não sou capaz de ser amigo da minha solidão, é por fraqueza e não por covardia, se almejo sua companhia é mais por amizade do que por desejo, e se amei mais a pessoa do que a mulher que dá forma a pessoa é porque vi na mulher mais do que pode ser desejado e menos do que é digno de ser frequentado pela afinidade que o simples desejo oferece.

Um dia espero que entenda que aos amigos o maior bem e o aos inimigos um bem maior ainda, é o que o homem mais miserável deve desejar quando consciente de suas misérias e pecados. Vence-se um vício por vez e quando todos os vícios se amontoam contra o homem de bem ele se vê em grande perigo, pois que cercado e impelido pela coragem não pode largar a lança e o escudo, mas deve enfrentá-los ao preço de morrer aniquilado pelo tormento do fracasso diante de um inimigo mais numeroso e que usa da vileza para vencer ao invés da justiça.

Eu também, não sou sábio e se sou filósofo o sou por amar o saber e não por ser sábio.
Sou filósofo porque optei por ser justo ainda que nem sempre consiga sê-lo e, por fim, optei por ser filósofo porque optei por ser humano ainda que não entenda o que isso realmente significa.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Oséias

Te procurei segundo a justiça
Contigo quis contrair relações
Mas tua indiferença é como ferida
Que fere e sangra o meu coração.

Te dei respeito e dignidade
Minha lealdade nunca iria te faltar
Mas você não foi justa comigo
E quis ver a minha alma despedaçar.

Tu amas a injustiça
Zomba da coragem e da virtude
Desprezas a sabedoria
És egoísta na verdade e não tens atitude.

Oséias, o profeta, com uma adultera se casou.
Foi Deus quem lhe pediu para transformar em metáfora o seu amor.
De respeito e ingratidão do sofrimento e da dor.
É a imagem que a vida do profeta ilustrou.

E com dor é que lamento a cada dia tua decisão
Pautada na covardia, na insegurança e na solidão.
Tratou como qualquer um quem te tratou como merece
Foi indiferente e infiel
Covarde e injusta
Ignorou quem só queria
Com você uma vida justa.


quarta-feira, 11 de junho de 2014

Pequena Reflexão sobre o namoro como instituição: O celibato e a erótica

Após apresentar o tema do namoro como instituição fazer a desconstrução do amor romântico e apresentar em grandes linhas uma alternativa ao amor romântico que chamo de amor-amizade.
O próximo passo é expor um pouco sobre o celibato como forma oposta ao namoro como instituição traçar algumas características próprias dessa forma de vida na antiguidade pré-cristã (basicamente na cultura greco-romana) e depois dentro do cristianismo.

Ser celibatário significa não ser casado, mais que isso significa ser solteiro no sentido de não ser comprometido com ninguém, em outras palavras, não possuir qualquer relacionamento conjugal.
Hoje em dia a palavra celibato está associada à vida religiosa cristã e vinculada a uma vida casta. No entanto, nem sempre foi assim, o que pretendo aqui é tentar fazer uma genealogia do celibato como uma forma de vida oposta ao do namoro e do casamento na qual o princípio fundante não é estabelecer uma relação duradoura, mas sim uma relação fugaz e na maioria das vezes instrumental com outras pessoas.

A cultura do celibato no mundo pré-cristão greco-romano é o paradigma de uma vida promíscua e voltada para o prazer, sobretudo o prazer sexual em que a forma de amor que prevalece é a erótica, isto é, o amor enquanto desejo (eros) e não enquanto amizade (phília). Em que o interesse é saciar o desejo através da sedução e posse do amado e não de uma relação de equidade.

Negando a equidade, o outro, passa a ser um meio para alcançar ou satisfazer o fim que é o prazer da conquista e a sua consumação nos atos próprios da dimensão erótica (beijo, carícias e o ato sexual em si). As juras de amor não tem como finalidade uma correspondência que visa a construção de uma relação duradoura, mas apenas uma relação que tem por finalidade saciar o desejo imediato que se apresenta na atração que o amado exerce sobre o amante.
No Diário de um sedutor Kierkergaard apresenta como funciona a dimensão erótica para o celibatário laico, nesse caso específico o sedutor se contenta apenas em seduzir e encantar o amante ou a amante e não em correspondê-la (o). Aceita-se saber e sentir-se amado, mas não deseja engajar-se numa relação com aquele (a) que é o seu objeto de amor. O objetivo é puramente estético, o que significa puramente sensualista.

Um celibatário na antiguidade pré-cristã romana geralmente freqüentava prostíbulos e orgias. Nos dias de hoje freqüenta algumas festas e boates, mas o objetivo é o mesmo a prática estética da conquista, apenas pela conquista ou pela satisfação dos prazeres ligados a sexualidade.

O advento do cristianismo reconstruiu o sentido do celibato, não de imediato, mas pouco a pouco o celibato foi associado a uma forma de vida vinculada ao serviço à comunidade cristã, a parte da experiência de união com Deus e, sobretudo, a prática da fraternidade nas primeiras comunidades monásticas. O celibatário cristão abraça a castidade como parte de uma atividade ascética que favorece a sua experiência religiosa.
Claro no contexto cristão a castidade é fundamental para a vida moral e para a vivência correta da sexualidade, não é só uma prática ascética própria do celibato perpétuo, mas é uma propedêutica para a vida matrimonial. A idéia central da castidade é instruir o desejo com a razão controlando-o ao invés de se deixar controlar pelo desejo.

Também no cristianismo é possível falar de uma erótica vinculada à mística na vida religiosa, em que Deus, é o amado e o místico ou homem religioso é o amante. Imagem que aparece no Cântico dos cânticos (embora, como sabemos o Cântico dos cânticos não tem essa finalidade mística, mas são poesias atribuídas a Salomão, no entanto, há algumas menções dos Cânticos dos cânticos nos escritos de São João da Cruz, por exemplo) e que retrata o desejo do homem religioso de se unir a Deus.  Nesse caso, diferente do celibatário laico o interesse não é uma satisfação momentânea ou mesmo uma conquista, mas trata-se de um desejo de plenitude. Veja que há uma inversão no sentido do caminho percorrido pelas duas formas de celibato uma visa a satisfação imediata e fugaz dos prazeres ligados a vida sexual e o outro procura elevar o espírito no mergulho do mistério da transcendência divina.

O celibato, portanto, se mostra como uma forma parcial de se relacionar com o outro (no celibato laico), por um lado, e como uma forma de elevação da condição humana, por outro, e se apresenta como uma forma alternativa com relação ao namoro e ou casamento. O meu enfoque não é tanto o celibato na vida cristã, mas o resgate do conceito secular para mostrar como ele ainda está presente na nossa cultura principalmente pelo incentivo à busca pelo prazer e o culto do eu.

Como falei no primeiro texto em que abordei comecei a abordar  a questão, um dos maiores problemas para o namoro como instituição, isto é, aquilo que malogra a estabilidade da relação é justamente quando uma das partes ou as duas misturam as duas formas de vida, em outras palavras, quando se quer namorar sem abrir mão da vida de solteiro. Não estou dizendo aqui que a pessoa abre mão de seus desejos pessoais: profissionais, sair com os amigos e fazer coisas que normalmente faria se estivesse solteiro, mas que querer ter uma namorada ou namorado, mas querer continuar a ser um conquistador, sedutor de outras parceiras geralmente tende a malograr a estabilidade da relação enquanto tal. Lembrando é claro que aqui eu não estou discutindo os chamados relacionamentos abertos que extrapolam a ideia central do namoro como vida partilhada a dois.

O outro problema que se apresenta é a preferência pela erótica em detrimento de um amor que valoriza o outro como igual, quando se opta pela erótica a relação só é interessante até o momento da conquista, a conservação da relação não é importante, pelo menos não para um relacionamento duradouro, porque na erótica a duração é medida pela atração exercida pelo outro e não pelo reconhecimento do outro como um igual digno de respeito, de cuidado e carinho. Por isso, também a paixão é apresentada como um problema, já que a paixão se alimenta de uma imagem projetada do amado e não daquilo que ele realmente é, não acolhe o amado com suas virtudes e vícios, mas apenas com aquilo que desejo ver nele.

Acredito que apresentei de modo geral a questão do celibato e a erótica. A ideia central do texto era expor a dimensão estética, hedonista e fugaz do celibato laico, não sei se atingi o objetivo, mas fiz um esforço de ao menos esboçar a questão.




sábado, 31 de maio de 2014

Figueira Maldita

À beira do caminho havia uma figueira.
De belas folhagens, oferecia sombra fresca.
Suas folhas eram verdes e a árvore bonita.
Mas naquela época figo algum ela produzia.

Não era tempo de figos, mas era tempo da fome.
Procurando por alimento, aproximou se um homem.
O homem não era uma pessoa qualquer.
Era o verbo encarnado, Jesus de Nazaré.

Olhou para a figueira e fruto nela procurou.
Encontrando apenas folhas bradou o Senhor:
“De ti não nasça frutos, de ti ninguém se alimentará.”
Amaldiçoou a figueira e fê-la murchar.

Essa é a história da figueira maldita.
Parada pelo caminho não cheirava e nem fedia.
A figueira ilustra o destino das pessoas,
Que param pelo caminho e se contentam com pouca coisa.

A figueira é a imagem daqueles que tem medo,
De alimentar os seus irmãos no tempo do desespero.
Quando meditarem essa palavra o poeta pede aos cristãos.
Deem fruto à vontade e sem moderação.


domingo, 30 de março de 2014

Esperança

Você sempre diz que é tarde demais, sempre acha que já não dá mais...
Tenha esperança, acredite que sempre haverá uma nova chance, uma nova oportunidade. Lute pelo que você acha que é certo, não deixe quem você ama na escuridão.
Lute contra as trevas que habita o coração solitário, leve a esperança ao que caiu no mar do desespero.
Não é tarde demais, pode ser agora, pode ser às três da manhã, não importa, se o seu coração está aberto para acolher qualquer hora é hora!
Tenha esperança, leve-a consigo, seja você mesma a esperança para quem a perdeu!

Se é tarde, que a esperança seja como a beleza do pôr do sol que sempre nos lembra que ele nascerá de novo mais uma vez!
Se o tempo parece ter findado, vire a ampulheta do destino e recomece de onde parece ter terminado.
Só é tarde para os covardes, o tempo só não basta para quem já morreu.
Com a esperança levamos vida a quem se sente sem esperança  entre os mortos.
Com a benevolência resgatamos os homens de suas misérias.
Enfrentando o destino redescobrimos a esperança.


sábado, 19 de novembro de 2011

reflexão sobre MT 5, 43-48

Este post surgiu depois de uma rápida conversa via twitter com a @keel_gomes citando uma frase sobre o desprezar quem nos "odeia" eu a respondi exatamente com este trecho do evangelho de Matheus. Então resolvi recuperá-lo texto fazendo a minha própria tradução do texto grego e comentá-la tanto do ponto de vista exegético quanto hermenêutico, tarefa que não sei se vou conseguir fazer com êxito. Longe de tentar fazer um proselitismo biblíco meu intento é bem mais humanista do que o de valorizar uma religião específica, me identifico como cristão muito antes de qualquer denominação religiosa: católica, prostestante, ortodoxa e afins. E portanto quero refletir filosoficamente (na medida em que isso é possível) e teologicamente (levando em conta o objeto de análise) sem valorizar o que prega esta ou aquela comunidade religiosa (o que de certo modo mataria o texto analisado). Então passamos a tradução do texto e a seguir o comentário a seu respeito.
"Ouvistes o que foi dito:"Amarás(agapéseis) o teu próximo e odiarás(miséseis) o teu inimigo". Mas eu vos digo: "Amai (agapate) os vossos inimigos e orai em favor daqueles que vos perseguem, afim de que sejam (génesthe) os filhos do vosso pai que está nos céus, porque ele faz levantar o sol sobre os perversos (poneróus) e sobre os bons (agathóus) e faz chover sobre os justos (dikaióus) e os injustos (adikóus).
Se pois amastes (agapésete) os que vos amam (agapontas), que mérito (misthón) teréis? Não é assim que agem os cobradores de impostos? e se comprimentares apenas os vossos irmãos, o que fizestes de excepcional? Não é assim que agem os pagãos? vós deveis ser perfeitos (téleioi) assim como o vosso pai, o celestial é perfeito (téleiós)." (MT 5,43-48).
É importante lembrar que o Evangelho de Matheus é o segundo a ser escrito de acordo com Konings: "O evangelho de Matheus surge depois do ano 70 d.c. É como se fosse uma "nova edição revista, atualizada e aumentada de Marcos." (Konings,Johan. A palavra se fez livro, p.57). E embora o texto tenha sido escrito no dialéto koiné (comum ou vulgar) o vocabulário é rico de significação, moral e religiosa e acima de tudo resgata do ponto de vista teológico a revelação de um Deus que não faz distinção entre os homens, o que isso significa? significa que Deus tem como projeto salvífico alcançar toda humanidade com a sua misericórdia e justiça. Em outra passagem ainda no Evangelho de Matheus e ainda nos discursos que ocorrem depois do sermão da montanha(do qual este trecho faz parte). Jesus afirma: "Não julgueis (nomísete) que eu vim para anular (katalysai) a lei (nómon)ou os profetas. Não vim para os anular (katalysai) mas para completá-los (plerosai)." (MT 5,17)Com isto Jesus revela o verdadeiro papel da lei mosaica que era o de orientar o povo eleito de Deus frente as culturas pagãs. E também revela o intento de Deus ao eleger um povo inteiro como testemunha do seu projeto de salvação o qual pretende estender a toda humanidade. E com isso fica patente o sentido de perfeição que Jesus atribui ao pai e exige dos filhos deste mesmo pai uma vez que gerados (génesthe) pelo seu amor e guardiães do seus mandamentos. primeiro analisarei o verbo "génesthe" e concebê-lo ontologicamente enquanto ser e gerar, pensar que os que são filhos de Deus, o são porque foram gerados pelo amor dele, estão acima do ato criador de Deus e por isso chamados a participar da perfeição de Deus. E agora sim conceber o sentido de perfeição (téliós) palavra grega que indica mais um acabamento de uma ação (dizemos que uma estátua é perfeita quando ela está completamente terminada). Em outras palavras a perfeição exigida aqui é ser de tal modo que a humanidade esteja acima dos nossos pequenos desejos e satisfações pessoais, é uma exigência dificil de ser cumprida é verdade, mas neste caso a perfeição (téleiós) é equiparada a outro termo grego consagrado por meio da filosofia antiga e que será incorporada a cultura cristã nos séculos posteriores, a saber o conceito de areté (excelência) mas que ficou consagrado pela tradução latina de "virtude". E por que é possível equiparar estes dois termos: perfeição e excelência? porque a areté cujo a raiz etimológica é aristós (o melhor ou ótimo) tem a ver com o realizar de modo eficaz uma ação, e de certo modo significa ser perfeito, na medida em que a ação é realizada adequadamente ela é completa e portanto perfeita. E é neste sentido que se exige a perfeição no sentido de sermos humanos ao ponto de nos divinizarmos e sendo divinizados nos humanizamos e nos acolhemos uns aos outros.
Como eu disse é um trabalho díficil de ser executado porque somos constantemente interpelados pela cultura, pelos prazeres e pelo instinto.
É possível falar da agapé enquanto amor no sentido forte de charitas ou caridade tal como o cristianismo incorporou ao longo dos séculos em oposição ao sentido que eros (o amor vinculado ao desejo e sua dimensão erótica) e philía (comumente traduzida por amizade, mas também carrega os traços do desejo carnal). Eu diria que Agapé neste trecho do evangelho carrega sim o sentido consagrado pela igreja do primeiro século, no entanto o amor aqui deve ser encarado de uma forma mais branda ligada a tolerância e acolhimento, Vale lembrar a parabóla do bom samaritano (Lc 10, 25-37) quando Jesus pergunta ao doutor da lei: "Qual destes três parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões?" (Lc 10,36)A resposta do doutor da lei é paradigmática: " Aquele que usou de misericórdia para com ele". (Lc 10,37) o termo misericórdia aqui é "Éleos" literalmente compaixão, misericórdia é em outras palavras conduzir o outro para o seu coração, acolher o outro por inteiro, com suas dores e alegrias. O próximo é qualquer pessoa com a qual agimos com essa misericórdia, não é o fulano da igreja, da escola ou o nosso irmão de sangue, não precisa ser um concidadão de nosso país, estado ou cidade, o próximo é qualquer um, do vizinho ao mendigo. Por isso amar o inimigo embora díficil é equivalente com o amar o teu próximo, agir sem fazer distinção se a pessoa simpatiza ou não com você é um gesto que nos aproxima de Deus, nos tornando filhos deste pai celestial. E por isso Jesus nos interroga: Se você ama só quem te ama, qual é o teu mérito (místhon)? Essa palavra místhon pode ser traduzida por recompensa ( costuma aparecer nas traduções correntes da bíblia) Mas eu optei por traduzir por mérito pensando no paralelo com a noção de dignidade. Jesus continua perguntando: " Se você comprimenta apenas as pessoas que fazem parte do seu circulo social(os irmãos), o que você faz de excepcional? Não é que jesus espera que toda vez que saíamos na rua a gente diga oi para pessoas que a gente nunca viu na vida, (Embora eu mesmo já fui comprimentado diversas vezes por pessoas idosas na rua que eu nunca vi na vida e isso nunca me fez pensar que um bom dia ou boa tarde fizesse mal a alguém) o que Jesus está dizendo é não fazer a diferença é literalmente ser mais do mesmo, é tornar a existência mediocre e inautêntica em favor do medo e do egoismo.
A exortação de Jesus é humanista porque tira o homem da esfera do olhar meramente cultural e regasta o valor universal e supremo da humanidade, coisa que o judaismo formalizado de seu tempo não conseguia fazer e que infelizmente muitos "fiéis" também não conseguem fazer, presos em uma visão limitadora da vivência religiosa e ignorando que a verdadeira experiência de Deus, sobretudo no cristianismo brota da práxis, da ação cotidiana de cada um, nas palavras do filme Todo poderoso: "seja você o milagre"!