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sábado, 22 de agosto de 2015

Lado escuro da lua

Só ontem me dei conta de que só viam o lado escuro da lua.
O lado escuro da alma, lado oculto do espírito.
Só ontem me dei conta da escuridão escondida
Da penumbra que existia.

Um lado escuro que nem eu mesmo via, embora soubesse que existia.
Um lado oculto que todos veem, embora escondido, ofuscado, embora em segredo, manifestado.
Só ontem percebi o lado oculto esburacado, ferido e chagado.
Escuro e frio nunca iluminado e sempre escondido é o lado obscuro apercebido.

Só ontem percebi o lado escuro da lua,
O lado escuro do espírito, lado escondido da alma.
Só ontem tomei nota da escuridão que me aturdia
Da penumbra que existia.

Um lado escuro que eu via, porém fingia que não existia.
Um lado oculto que assusta e todos veem, manifestado como um eclipse.
Uma penumbra que ofusca o brilho refletido.
Uma sombra projetada pelo destino.

Só ontem me dei conta do que vi, o lado oculto da lua.
O lado escuro da alma, lado obscuro do espírito.
Só ontem notei a escuridão velada
As feridas provocadas engolidas pelo breu.
A penumbra que cobre o lado oculto,
A escuridão que gela a alma,
Obscuro caminho de dor,
Segredos da alma que sofre,
Lado nunca iluminado,
Sempre escondido da luz,
De costas é açoitado
Pelas dores soturnas da alma,
Pela falta da luz do coração.


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Se eu ficar ou O que nos motiva a viver?

Não sei se a autora do best-seller que foi adaptado ao cinema “If I stay” (Se eu ficar) leu Aristóteles, mas será por Aristóteles que quero começar a nossa reflexão.
O filósofo grego lança a seguinte pergunta na Ética a Nicômacos: “Portanto, nenhum (oudéna) homem (anthrópon) deverá ser considerado feliz (eudaimonistéon) enquanto viver, mas será preciso ver o fim (télos), como afirma Sólon? (EN I, 1100a 10).
Para entendermos o questionamento do filósofo de Estagira é necessário contar o que pensa Sólon o grande jurista e um dos sete lendários sábios da Grécia antiga a respeito da felicidade (eudaimonia) e para isso vou transcrever um relato transmitido pelo pai da história Heródoto de Halicarnasso.

Conta-nos Heródoto que certa vez Sólon hospedado no palácio de Croisos e questionado pelo rei de Sárdis a respeito de quem era o homem mais feliz de seu tempo (o próprio Croisos se julgava o mais feliz dos homens e por isso havia feito a pergunta) a resposta dada por Sólon ao rei de Sardis que motivou a pergunta de Aristóteles é a seguinte: “No curso de uma longa vida podemos ver muitas coisas de que não gostamos, e também sofrer muito. Calculo em setenta anos a duração máxima da vida humana; esses setenta anos correspondem a vinte e cinco mil e duzentos dias, sem contar os meses intercalares. (...) e, podemos dizer perfeitamente que nenhum desses dias é igual ao outro naquilo que nos traz. Então, Croisos, o homem é apenas incerteza. Parece-me que és muito rico e rei de muitos homens, mas não poderei responder à tua pergunta antes de ouvir dizer que tenha terminado bem a tua vida. Em verdade, o homem muito rico não é mais feliz do que aquele que tem apenas o suficiente para o dia de hoje, a não ser que a sorte (tyché) continue a lhe ser fiel até o fim de sua vida; proporcionando-lhe todas as boas coisas.” (Heródoto, História I, 32). Podemos parar por aqui na transcrição do relato herodotiano da conversa entre Sólon e Croisos, pois, tudo o que precisamos para a nossa reflexão está aqui e ademais a continuação do texto resulta em uma resposta bastante fatalista da condição humana e não contempla o horizonte reflexivo à que o filme nos faz pensar.

O drama escrito por Gayle Forman conta a história de uma jovem que sofre um acidente e fica em coma, ela precisa resolver se quer ficar ou se quer partir. O coma da protagonista do drama coloca-a em um estado em que ela não está viva (está viva clinicamente sem morte cerebral ou sem parada cardíaca e ou respiratória), mas também não está morta, coma nesse caso pode ser lido como uma metáfora da suspensão que te coloca entre esses dois caminhos possíveis, as duas extremidades da estrada. O coma nesse caso é perfeito para a pergunta de Aristóteles e incrivelmente perfeito para a resposta de Sólon. Porque o que vai guiar a decisão da jovem Mia é a percepção que ela faz do mundo através do binômio prazer-dor que perpassa os momentos experimentados por ela e as notícias que ela “recebe” enquanto está em coma.
Perguntar sobre o que nos motiva a continuar a viver é perguntar sobre o sentido da vida, os gregos quando faziam a pergunta sobre o sentido da vida de certa forma estavam perguntando sobre o que é a felicidade (eudaimonia) e o que é o bem viver (euzein).

            Hoje em dia quando falamos em felicidade sempre nos remetemos a um aspecto subjetivo da nossa percepção de mundo, felicidade é sinônimo de alegria, bem-estar é sinônimo de alegria, no entanto, para os antigos gregos e para o cristianismo a felicidade não é um mero estado de alegria- euforia, mas é um complexo de alegrias e tristezas, a felicidade para os gregos e para a filosofia antiga e, mesmo para o cristianismo está diretamente relacionada à concepção de homem e de humanidade. Aristóteles e Platão, os estóicos, cínicos e os cristãos entendem a felicidade como o resultado final da realização última da nossa humanidade e não uma coletânea de fragmentos soltos de euforia e de melancolia.

Quando Schopenhauer em seu célebre texto sobre o sofrimento do mundo escreve: (cito de memória) “Se o sentido da vida não está no sofrimento, então, a vida é um grande contra senso, pois, percebemos mais a dor do que o prazer.” Está querendo nos dizer que a sensação de dor perdura enquanto a de prazer se dissolve no instante, posso citar ainda a anedota contada por Diógenes Laertios  a respeito de Aristipo de Cirene célebre discípulo de Sócrates e fundador do hedonismo, conta-se que certa vez, Aristipo levou seus discípulos a um prostíbulo e um dos seus discípulos teria lhe perguntado se ir àquele lugar não era um problema ao que Aristipo lhe respondeu que “ o problema não era ir, mas sair de lá”. Para Aristipo, assim como para Epicuro alguns séculos depois a felicidade coincide com o prazer, essa tese será reapresentada por alguns filósofos modernos e contemporâneos como os utilitaristas, tanto Schopenhauer quanto Aristipo  nos dão de forma radical e cada um ao modo uma explicação que desde o início da filosofia é objeto de investigação e fundamentação da ação (aqui entendida no sentido geral moral) basicamente todas as teorias da ação abordam de alguma forma a influencia que o prazer e a dor possui sobre as escolhas que fazemos e que orientam a nossa vida.
Portanto, é importante ter em mente ao fazermos a pergunta sobre o que nos motiva a viver, é ter em mente o que nos impele a agir e a viver e como essa motivação nos faz viver bem e ou nos torna realmente felizes.

Mia se defronta com inúmeras experiências boas e ruins, e algo irá motivar a sua escolha.
Vejam que não são experiências fragmentadas, memórias soltas e, embora as lembranças aparentam se dar assim, a jovem protagonista, mas cada memória e cada experiência é fruto de uma experiência presente da jovem em estado de coma. As visitas que ela recebe e as notícias que chegam até ela até a experiência final que vai culminar com a sua escolha, será esse conjunto complexo que oferecerá como uma janela a visão do valor da vida e se é melhor ficar vivo ou não.

Ainda cabe cita uma das falas da ficção que mais gosto a conversa entre Kenshin e seu mestre Hiko Seijuuro antes de aprender a técnica suprema do estilo Hiten Mitsurugi ryu, nessa fala Hiko Seijuuro sintetiza o que tentei apresentar sobre a felicidade como relacionada a nossa realização enquanto ser humano. Kenshin também é posto entre a vida e a morte em seu treinamento e é instado a pensar se viver vale ou não a pena.
Hiko Seijuuro diz ao seu pupilo: “Antes de começarmos, tem uma coisa que eu preciso dizer. Essa Era não é tão simples a ponto de você poder colocar tudo em seus ombros, e ser o único sacrificado. E, ao mesmo tempo, a felicidade de uma pessoa não é tão simples também. Se você for se tornar um sacrifício, uma garota que veio de Tokyo apenas para te ver vai encarar um infortúnio, Lembre-se disso. Não importa o quão forte você fique, você é só um ser humano não há necessidade de se tornar Buda (santo) ou um assassino.” Em outras palavras, dizer que a felicidade não é simples significa dizer a felicidade não acontece só quando tudo dá certo para você, você vai brigar com o seu melhor amigo, vai perder um ente querido, vai terminar com a sua ou seu namorado (a), vai conhecer outra pessoa e iniciar um novo relacionamento, vai experimentar coisas novas, como ir a um lugar que você nunca tenha ido, ouvir músicas diferentes, ir a uma Peça de teatro, enfim serão tantas experiências que só o discernimento, e é aí que entra  filosofia (não a filosofia acadêmica de artigos e livros com citações rigorosas), mas a filosofia como uma educação para o julgar/ discernir (esse é o sentido verdadeiro do verbo grego krino que deu origem a palavra crise) e essa filosofia é extremamente necessária para que possamos de algum modo compreender a questão de sentido e descobrir o que nos impele a continuar vivos.

Mia a personagem dotada de sensibilidade encontrou a sua resposta será que você será capaz de encontrar a sua?
A resposta da filosofia ensina que o homem é dotado de duas instâncias, de intelectualidade e afetividade e essas duas instâncias devem se desenvolver juntas, Sólon nos dá uma resposta fatalista, pois, o mundo em que ele vivia não oferecia segurança o suficiente para garantir que um homem rico ou pobre pode ser de fato feliz pela sua condição mais fundamental, creio que ainda hoje o mundo não é tão seguro para nos dá uma resposta tão fácil como queria Croisos rei de Sárdis.

O caminho para encontrar  resposta pode vir não de um estado de suspensão como o coma, mas do reconhecimento da vida como um dom em sua complexidade na qual cada experiência única revela a preciosidade que a nossa finitude nos reserva.
Fica aqui o convite à reflexão, e aí: o que te motiva a viver?



segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Entre a Loucura e a Lucidez – Reflexão sobre a In – sanidade do Coringa em “A piada mortal” de Alan Moore.

Já pararam para pensar em qual é o limite entre a loucura e a lucidez? O que determina a nossa sanidade e a nossa normalidade? A piada mortal uma das histórias do Batman mais famosas e que está entre as mais lidas do universo das HQs. Escrita por Alan Moore em 1988 o foco da história é um plano do Coringa de tentar tirar a decência de Gordon fazendo o inominável, ele atira em Bárbara Gordon, sua filha, a violenta, fotografa para então, expor ao comissário de Gotham City.

O Cavaleiro das trevas consegue salvar James Gordon e encurralar o Coringa e tem uma das conversas mais incríveis do mundo dos quadrinhos.
Nessa conversa uma simples piada diz tudo o que precisaríamos saber sobre a loucura e a lucidez uma linha tênue, um pequeno feixe que estabelece a fronteira que separa os “normais” dos “anormais”. Batman sugere ao Coringa que poderia reabilitá-lo ao que o Coringa se lembra de uma piada e a conta em resposta a proposta do homem-morcego vejamos o teor da resposta do Coringa ao cavaleiro das trevas:

“Tinha dois caras num hospício e uma noite, eles decidiram que não queriam mais viver lá e resolveram fugir! Aí foram até a cobertura do hospício e viram, ao lado, o telhado de um outro prédio apontando para a lua apontando para a liberdade. Então, um dos sujeitos saltou sem problemas pro outro telhado, mas seu amigo se acovardou ele tinha medo de cair, sabe? Aí, o primeiro cara teve uma idéia. Ele disse: ‘Ei! Estou com a minha lanterna aqui. Vou acendê-la sobre o vão dos prédios e você atravessa pelo facho de luz!’ Mas o outro sacudiu a cabeça e disse: ‘O que? Você acha que sou louco?!’ E se você apagar a luz quando eu estiver no meio do caminho?’”

A piada contada pelo Coringa retrata imediatamente a relação doentia de Batman/Bruce Wayne com Coringa. Se analisarmos o Batman seria tão louco quanto o palhaço mais assustador de Gotham (E isso sem contar nos outros vilões igualmente doentes como o Charada e ou a Hera venenosa) A loucura de Bruce Wayne é ser Batman é assumir uma identidade ou um alter ego que escapole das normas sociais vigentes em todos os sentidos. 

E assim poderíamos dizer do Coringa cuja origem é uma incógnita se torna a personificação da loucura. No entanto, é curioso como nessa conversa temos como que uma inversão de sentido já que o salto de lucidez parte do Coringa e não do Batman. Esse salto de lucidez é manifesto na piada, já que o que o coringa quer dizer é que o Batman seria o louco que oferece ao colega igualmente insano uma saída.

Mas se pensarmos essa piada dentro do roteiro magistral de Alan Moore veremos que o esforço do Coringa em tentar corromper James Gordon, é na verdade como que uma tentativa de mostrar a linha estreita entre a loucura e a lucidez. Para o Coringa não há limites, a sanidade e a insanidade são a mesma coisa, estamos todos no mesmo hospício e não questionamos a nossa loucura, essa loucura chamada sociedade. 

Talvez ainda que não quiséssemos viver mais no hospício a nossa loucura não acabaria, no fundo é isso que o Coringa me parece querer dizer, que a loucura é o outro lado da mesma moeda, ou como diz o Coringa encarnado por Heath Leadge: “o que não me mata me deixa mais estranho”.
E se pensarmos em como Camus no “O Homem revoltado” pinta a nossa constante busca por sentido ao se deparar com o absurdo da existência, podemos nos sentir como o Dândi revoltado de Humberto Gessinger, um estrangeiro, um passante que em seu trânsito pelo mundo está à procura de um sentido para essa loucura chamada vida.

Não sei dizer se o Coringa está certo, às vezes me lembro de Foucault e a sua História da Loucura, e mesmo do velho Freud que não me deixa esquecer que entre a lucidez e a loucura há a neurose em maior ou menor grau, mas ela está lá à espreita nos assistindo, heróis trágicos que somos esperando a morte fim dessa grande encenação que é a vida.


sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Capítulo das lembranças: Autossuficência

Certa vez uma pessoa me disse: “eu sei que você preza pela sua autossuficiência”. Traduzindo em miúdos ela estava me dizendo: “eu sei que você não gosta de depender de ninguém. Eu sei que você aprendeu a fazer tudo sozinho, a se virar.”
Lembrei-me desse momento essa semana depois de algumas coisas que aconteceram. Vivo dizendo para mim mesmo e para os amigos mais íntimos que a minha vida é cercada de ironias, parece está sempre a zombar de mim.
Essa lembrança, penso, é apenas mais uma forma da vida jogar na minha cara o quanto ela é perversa e por vezes injusta.

Sempre busquei a tal autossuficiência, talvez a perfeição mais doentia que um homem consciente de que é um ser de relação possa almejar. É um paradoxo que nós seres humanos sejamos perfeitos em nossa imperfeição, completos em nossa incompletude e que justamente o que nos faz ser autossuficientes é ser dependentes uns dos outros. Não, não trato a dependência aqui de uma forma tão vulgar, não é uma dependência que suga e muito menos uma relação utilitarista e ou pragmática na qual o outro só vale enquanto me serve para algo.
Não, quando falo da dependência que nós seres humanos temos em relação uns com os outros eu me refiro a algo similar ao quebra-cabeça. De fato, o quebra-cabeça só é verdadeiramente completo quando todas as peças estão conectadas soltas elas não formam uma imagem, não formam um conjunto, não formam nada.
De tal forma é o ser humano sozinho é homem e capaz de muitas coisas, mas as condições que lhe são próprias dentre elas a finitude o faz incompleto e não forma a imagem do todo que a humanidade pode representar.

Eu enfrento esse dilema quando penso a autossuficiência como um desejo meu, esse movimento sofrível que me faz permanecer desconectado do resto das pessoas. Não quero depender delas, em nada, em nenhum aspecto da minha vida. No entanto, me vejo sempre carente de algo, porque sou incompleto como os andróginos de Aristófanes.
Por isso, é que vejo algo de fascinante e ao mesmo tempo perturbador nesse paradoxo da humanidade, fascinante porque, se por um lado,  somos perfeitos em nossa imperfeição então aquilo que deveria ser considerado um defeito na verdade é uma virtude e, de outro lado, todo aquele que busca a autossuficiência compreendendo-a como isolamento está na verdade destruindo a sua humanidade. Não tenho a intenção aqui de pintar uma humanidade bonita, justa e admirável, mas imagino que o que se pode pensar aqui não é uma finalidade para o ser humano é antes uma constatação do nosso limite (finis).

Naquela época eu achava que estava correto em ser ou almejar a tal autossuficiencia, hoje vejo que eu era tão arrogante que me censuraria se tivesse a oportunidade.
Ainda busco a autossuficiência, mas seguindo um caminho mais modesto, um caminho no qual outros possam trilhar comigo, em que eu possa ter a certeza de que sempre claudicante eu posso tropeçar, mas que a minha liberdade está associada a mão estendida daqueles que vão comigo mirando o horizonte.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Entre vãos

São esses intervalos que consomem a minha alma, petrificam o meu espírito e drenam o meu prazer de viver. Nesses intervalos que a ausência se torna presente como a consciência manifesta de que a luz sempre projeta alguma sombra.
Nesses intervalos parece que a minha consciência se torna nítida, áspera, toca com profundidade a sombra projetada pela luz fixa-se nela e volta-se toda para a escuridão diante da claridade. Parece mesmo que vejo na luz a escuridão como se os meus olhos filtrassem no positivo o negativo, naquilo que é o que não é, como se não visse os pontos, mas apenas o intervalo.

Essa é a consciência da ausência, a experiência da privação e o princípio, a causa motriz da angustia, esse desejo frustrado de ver luz onde não há, de ver presença onde não há nada, onde há apenas vazio.
Parece que sou essencialmente intervalo, parece que sou pausa, silêncio, aquele mesmo tagarela que me assombra durante as noites de insônia.
Parece que sou a negatividade que emerge na positividade como o óleo que não se mistura com a água.

Esses intervalos, essas singularidades que parecem ser cheias de necessidades não passam de uma ilusão tão real que engana o mais lúcido.
Mas o que é ser lúcido? Senão está cheio de luz, iluminado, brilhante, reluzente!?
Ora, se a ilusão reside no intervalo e se é só ele que vejo em meio a luz, minha lucidez é trevas, escuridão e cegueira.

São esses intervalos que consomem a minha alma, são eles que me petrificam, tiram o sabor da vida. Nesses intervalos eu me apercebo e percebo que a ausência se torna presente, simulacro do desejo frustrado que chamamos de angustia, ansiedade derradeira que queima como um fogaréu.
Aqui e acolá o intervalo se manifesta como consciência de liberdade, essa consciência que cartesiana paira só ipso factum e vê nas causas incausadas um motriz para o sofrer.

Perdido na singularidade constato que somos mundos intangíveis sabotados pela concupiscência e pelo medo malogrando a nossa felicidade.


domingo, 25 de maio de 2014

Sísifo Condenado


Como Sísifo condenado nesse ciclo sem fim
A força que move a rocha é usada contra mim.
Como Sísifo condenado, condenado em solidão.
Toda força que utilizo sempre me parece ser em vão.

Esse ciclo que não fecha é a minha maldição.
Triste e absurda sina me tira a respiração.
Se o esforço é vão.
Se a vontade é inútil.
Pobre Sísifo condenado no ciclo do absurdo.

Condenação legítima?
Ilegítima condição.
Castigo sem crime
Herói trágico por vocação.

Sísifo condenado não chore sua sina
Transporta a tua pedra para o alto da colina.
Do alto ela desce novamente, pobre homem.


Massacrado pelo destino.
Desacreditado e sem sentido
O desejo de liberdade malogrado pelo castigo.

Como Sísifo condenado nesse ciclo interminável.
O poeta narra sua sina terrível e abominável.
Como Sísifo condenado ele não reclama do castigo.
Apenas lamenta o seu triste destino.