quarta-feira, 12 de junho de 2013

Pequena Reflexão sobre o namoro como instituição: A escolha de Hypparchia

Hoje dou continuidade a esta pequena reflexão que tem se tornado grande, chegando a sua terceira parte.
Depois de desconstruir o amor romântico fiquei de tentar responder sobre como seria possível uma relação pautada pela comunidade e por uma forma de amor que assimila, portanto, a ideia de cuidado e interesse uma forma talvez mais intensa de amizade movida pelo desejo sim, mas um desejo de construir e partilhar a vida.


Para apresentar uma possível resposta, apresento uma parte do relato que chegou até nós da filósofa cínica Hypparchia. Primeiro apresentarei a tradução do texto de Diógenes Laertios no qual encontramos o relato da escolha de Hypparchia e depois através de uma reflexão mais filológica apresentar através do vocabulário empregado o modo como o namoro como instituição se dá como comunidade de menor porte que começa com duas pessoas em uma adesão de vida comum e se estende através e sobretudo com o casamento e com a geração dos filhos. Vejamos então o relato da escolha da filósofa.


Diógenes Laertios nos conta que: “A irmã de Metrócles, Hypparchia, também foi capturada pelos discursos de Crátes. Ela amava os discursos e o modo de vida de Crátes, e não dava atenção aos seus pretendentes, nem a riqueza, o bom nascimento e nem a beleza deles lhe chamava a atenção. Pois Crátes era tudo para ela. Ela ameaçava seus familiares dizendo que tiraria a própria vida se não fosse dada à Crátes em casamento. Então, Crátes foi chamado pelos pais da moça e fez de tudo, mas por fim não conseguiu convencê-la, então ele se levantou e tirando as suas vestes diante dela disse: ‘ Este é o noivo e os seus bens, portanto, toma a tua decisão, pois não poderá ser a minha companheira a menos que tu partilhe comigo o meu modo de viver. ’ A moça escolheu, e adotando as mesmas roupas passou a andar com ele(..)” DL VI, 7, 96-97.


Antes que se pense que Hypparchia se apaixonou por Crátes como se fosse um amor à primeira vista eu devo dizer que a irmã de Metrócles já o conhecia, primeiro porque Crátes já era relativamente conhecido como filósofo e segundo porque Crátes já havia estado na casa de Hypparchia para ajudar Metrócles quando este pensou em se matar porque teve vergonha de um peido que pode ser visto aqui:Uma anedota cínica: O encontro de Metrócles e Crátes.
Portanto, não se trata de amor à primeira vista, mas há implícito na narrativa através de palavras bem específicas do vocabulário grego que examinaremos agora elementos que mostram um pouco do modo de vida de Crátes, isto é, a vida filosófica, mais especificamente da vida do filósofo cínico como também a relação íntima que há entre persuasão e amor se assim me é possível dizer.

 No início do relato Diógenes Laertios nos diz que Hypparchia foi “capturada” pelos discursos do filósofo cínico, e ele poderia dizer que foi seduzida, que foi encantada, mas não ela foi capturada. O verbo empregado é therao que significa: caçar, capturar, prender uma presa, laçar etc. Levando em conta que a escola cínica é associada aos cães (Por isso, Diógenes de Sínope é também chamado de “o cão” kynikós em grego) não me admira que Hypparchia fosse capturada, veja que o vocabulário do relato está ao menos na teoria e acordo com as bases fundamentais do modo de vida proposto pela escola filosófica apresentada (Na obra “vidas e doutrinas dos filósofos ilustres” obra da qual extraímos esta anedota sobre Hypparchia em cada livro Diógenes Laertios agrupa os principais filósofos das principais escolas do mundo antigo o sexto livro é dedicado aos cínicos e cada capitulo trata da vida de um filósofo. O capitulo sétimo do livro sexto apresenta a biografia de Hypparchia aqui traduzida). Mas isso pode ser explicado quando entendemos que os discursos de Crátes não são apenas palavras, mas um modo coerente que une as palavras com o modo de viver e é por isso que logo em seguida Diógenes Laertios escreve: “Ela amava os discursos e o modo de vida de Crátes”, Eros que é o termo mais usual para designar o amor no mundo grego expressa mais do que afeição o desejo, em outras palavras, não é apenas achar os discursos e o modo de vida de Crátes “bonito”, mas de desejar viver como ele vive. (O mito de Eros imortalizado no diálogo banquete escrito por Platão nos revela em detalhes a natureza de Eros ligada diretamente ao impulso de ser ou ter o que ainda não é, pois, Eros seria uma espécie de divindade intermediaria entre os homens e os deuses, sendo filho da Abundância (Poros) e da miséria (Pênia), é carente de tudo e ao mesmo tempo possui todos os recursos para atingir seus objetivos. No diálogo Platão coloca Eros como verdadeiro filósofo pois embora saiba alguma coisa está sempre carente de saber e por isso sempre deseja saber mais, por outro lado a natureza desejante de Eros implica necessariamente o interesse de se aproximar, de seguir de perto algo ou alguém, o amor é um querer assumir o outro para si.)  Eu traduzo por “modo de vida” a palavra grega bíos, bíos é, com efeito, tudo aquilo que está relacionado às condições do viver, diferente de zao (viver) que é a vida entendida como movimento, ação no sentido mais fundamental, por exemplo: dizemos que algo está vivo porque respira ou porque o coração está batendo. Bíos, por outro lado, carrega um sentido mais profundo, pois se refere às condições de existência, tanto éticas como ecológicas (quando aplicada a biologia, por exemplo). 

Portanto, o amor de Hypparchia não era um tipo de admiração passiva por alguém “brilhante” (Diógenes Laertios relata que Crátes era feio de rosto e que quando se exercitava na palestra fazendo ginástica provocava o riso Cf. DL VI, 5,91), mas uma inclinação para imitar ou seguir aquele modo de existir. E principalmente amar os discursos e o modo de vida significa em certo sentido amar a pessoa toda de Crátes para ser como ele, e ser um com ele. E  é preciso notar ainda que o desejo de ser como Crátes e de estar com ele era tão forte que mesmo Hypparchia sendo uma mulher atraente e ter do ponto de vista social bons pretendentes elas sequer lhes dava atenção ao contrário ela “Não dava atenção aos seus pretendentes, nem a riqueza, nem ao bom nascimento, nem a beleza dos mesmos” Estes três itens citados são importantes para a tradição cultural do grego antigo, digamos que seja ainda hoje. Os antigos gregos acreditavam que um homem feliz de fato era aquele que era rico, bem nascido (de boa família, ou família nobre) e belo (bonito, pinta etc.) No entanto, o cinismo despreza tudo isso, por considerar que todas estas coisas vêm e vão, importa para os cínicos e depois para os estóicos que são devedores do cinismo apenas a virtude, pois a virtude está acima da inveja, da vaidade e, é o que realmente faz do homem um homem.


Quando Hypparchia ameaça se matar e seus pais chamam Crátes para convencê-la a não se casar com ele temos outro dado interessante, porque os discursos que capturaram a jovem não a fez desistir?
Como, pois um filósofo tão eloqüente não foi capaz de dissuadir a jovem? Depois de “pant’epoíei”, de fazer de tudo, usar todos os meios que dispunha para fazê-la desistir, ele por fim percebe que não a persuadiu (peíthon) e tenta um último recurso, faz o seu último lance, vai para o tudo ou nada, ele tira a roupa na frente dela e diz que aquele manto surrado é tudo o que ele tem e que se ela realmente quer ser sua companheira (koinonón) ela vai ter que compartilhar (epitédeumáton) a maneira de viver. Vejam que para o grego ser companheiro é ter em comum, a própria phília (amizade) nos remete a ideia do “ter tudo em comum”.
Portanto, a ressalva feita por Crátes ao ver que não tinha como persuadi-la era essa, se quiser tudo bem, mas você vai ter que ser capaz de viver como eu vivo.
No fim, Hypparchia escolhe por Crátes e adota seu modo de viver usando apenas um vestido e seguindo-o aonde quer que fosse.


A escolha de Hypparchia é a escolha pela comunidade, por um amor que transcende toda a superficialidade que a atração física, a beleza ou o bom nascimento poderiam trazer ao primeiro olhar, ela viu além nos discursos do filósofo, viu certamente um modo de vida que mesmo difícil trazia consigo a semente da felicidade e desejando construir esta felicidade através da prática da virtude que é a causa de ser do cinismo, Hypparchia abraça um modo de vida compartilhado com seu marido.


Hypparchia não conheceu a banda americana Turtles, mas certamente repetiria o adágio: “Imagine me and you, I do (...) so happy together” (Imagine você e eu, Eu imagino tão felizes juntos).
Tendo tratado da escolha de Hypparchia e apresentado o quanto a sua escolha reforça que o namoro ou o casamento deve ser sempre uma comunidade que parte da atitude livre das duas pessoas tratarei na sequência da vida celibatária, isto é, da vida de solteiro distinguindo primeiramente o sentido ordinário e exercitado no mundo antigo e pagão do celibato adotado no cristianismo.

Pelo momento não há mais nada a dizer.

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