sábado, 10 de maio de 2014

Amor sui ( amor de si)


"Assim, a solidão não é rejeição do outro, ao contrário: aceitar o outro é aceita-lo como outro (e não como apêndice, um instrumento ou um objeto de si! ) , e é nisso que o amor, em sua verdade, é solidão. Rilke encontrou as palavras necessárias para dizer esse amor de que necessitamos, e de que somos tão raramente capazes: 'duas solidões que se protegem, que se completam, que se limitam e que se inclinam uma diante da outra...' Essa beleza soa verdadeira. O amor não é o contrário da solidão: é a solidão compartilhada, habitada, iluminada -e, às vezes, ensombrecida - pela solidão do outro. O amor é solidão, sempre; não que toda solidão seja amante, longe disso, mas porque todo amor é solitário. Ninguém pode amar em nosso lugar, nem em nós, nem como nós. Esse deserto, em torno de si ou do objeto amado, é o próprio amor." (Comte-Sponville, André. Amor a solidão. p. 30-31).

"Quantos fogem da solidão, ao contrário, e são incapazes de um verdadeiro encontro? Quem não sabe viver consigo, como saberia viver com outrem? Quem não sabe morar com sua própria solidão, como saberia atravessar a dos outros? Narciso tem horror da solidão, e isso é fácil de compreender: a solidão o deixa face a face com o seu nada, em que ele se afoga. O sábio, ao contrário, fez desse nada seu reino, onde ele se perde e se salva: não há ego, não há egoísmo! O que resta? O mundo, o amor: tudo. " ( Comte-Sponville, André. Amor a solidão. p. 33)

Na leitura de Amor a solidão, me deparei com essa definição certamente para muitos estranha do amor como solidão. Ela de certo me fez pensar bastante nas duas extremidades da relação, para fazer uma paráfrase a obra de Martin Buber, “Eu e Tu”. E agora motivado por um desafio de falar de uma cura que seja mais autônoma e que não esteja mirada na figura do outro me sinto inclinado a comentar estas passagens de Amor a solidão partindo primeiro da conclusão de que: “ a solidão não é rejeição do outro” mas é a confirmação de que o outro não integra a minha subjetividade, não faz parte do meu eu.

E depois refletirei sobre o cultivo da solidão como um amor sui, isto é, como um amor de si, pensando principalmente na concepção própria das filosofias helenísticas do final da antiguidade de terapia, ou cura sui, do cuidado de si. E assim creio, apresentarei em prosa o que ainda não consigo apresentar em verso, isto é, o lado positivo da solidão enquanto cuidado de si e amor de si e cura para o enfrentamento dos combates diuturnos da existência.

Já havia tratado a solidão como alteridade absoluta e desconexão com o mundo aqui Pain VI neste texto apresentei a solidão como a experiência radical de alteridade em relação ao outro, que traz consigo um sofrimento terrível. Agora, pretendo fazer o caminho inverso e falar do cultivo da solidão como cura sui, como cuidado de si aquilo que Sêneca entendia como vida retirada como forma de combater as aflições do espírito e que impede o homem de odiar a sua própria espécie (misantropia).  Os estóicos são filantropos por excelência e condenam a misantropia.

Por um lado, a solidão é essa estranheza, imposta pela ausência do outro e desconexão com o mundo, como eu havia exposto no texto Pain VI.  De outro modo, a solidão é também convívio consigo mesmo, esse retirar-se da vida corrida e muitas vezes superficial do dia-a-dia para cultivar a relação consigo mesmo.  A vida cotidiana na maioria das vezes é barulhenta em sua agitação e, tal agitação impede ou mesmo atrapalha a relação que deveríamos desenvolver conosco mesmo.
A vida retirada é justamente o cultivo da solidão para cultivar a relação consigo mesmo, a coisa mais fascinante na solidão cultivada é aprender a ouvir o silêncio que habita em nós.

Claro que nem sempre o silêncio nos elogia, nem sempre nos mostra um mundo de cores, mas se na relação com os outros somos passíveis de passar por estas experiências, porque não passá-las conosco mesmo?
Quem não é capaz de olhar dentro de si sem repulsa não é capaz de suportar o outro. Suportar não é o mesmo que tolerar, suportar é ser capaz de aguentar o outro, é ajudá-lo com suas misérias, porque todos nós possuímos misérias, mas também podemos possuir grandes virtudes e se só atentamos para nossas virtudes sem olhar nossas misérias, estamos fugindo do que somos, se olhamos apenas para as virtudes dos outros e não se permitirmos perceber as suas misérias estamos criando uma realidade fragmentada do outro.
Por isso, Sponville está certo quando diz que o amor é solidão, porque a solidão é o exercício da amizade consigo mesmo, ou melhor, a solidão é o convívio amoroso que podemos ter conosco mesmo, todo o amor, o verdadeiro amor, se funda no convívio despojado das ilusões que eventualmente criamos de nós mesmos e porque não dos outros.

O silêncio é o lugar do encontro consigo mesmo, onde somos desnudados de nossas fantasias e somos postos diante dos nossos medos, das nossas angustias e dos nossos defeitos. É por isso, que muitas pessoas fogem da solidão, se dispersam de si mesmo em uma busca desenfreada por atenção, por prazer e toda e qualquer forma de diversão, a diversão é esse afastamento de nós mesmos que não permite que vejamos quem somos.

Os místicos conhecem bem o cultivo da solidão através da experiência da oração no silêncio da meditação nos recônditos da cela do convento. E graças a essa oportunidade encontram nas suas misérias a força para exercitar o amor pelo outro e cultivar o amor pela vida.

Esse nada que é nudez da alma é o reino do sábio como bem falou Sponville, onde ele se encontra consigo mesmo, já que na correria da vida agitada da cidade os homens se perdem nas vaidades e nas ilusões que nos afastam da verdade e nos inclina a superficialidade das relações forma pior do isolamento, pois não mergulhamos no mistério do outro e nem no mistério de nós mesmos.