domingo, 9 de novembro de 2014

Caminho e caminhada

É frustrante ver que se passaram 16 anos e que nada mudou.  Passaram-se 16 anos e quando olho a minha volta vejo que tudo está como outrora.  Que caminho é esse que percorri afinal parece que andei em círculos e que continuo por aí perdido a caminhar essa caminhada sem fim e sem sentido.

São 16 anos desde que transferi para o papel as minhas dores e questionamentos, um menino que já via o mundo com os olhos de um adulto, mas que ainda brincava quando era possível.
Aquela caminhada árdua e sofrida, com luta e dificuldade parece não ter acabado.
Paro e vejo que o caminho some a cada pegada e que fica então na memória a lembrança do que foi percorrido durante 16 longos anos. O caminho some, mas a paisagem triste e desoladora permanece viva, presente e por causa dela me ponho a refletir sobre o caminho e a caminhada, sobre a direção e o sentido.

Talvez eu esteja me auto enganando, talvez tudo isto seja um sonho ruim, um pesadelo.
Talvez um dia eu acorde, como pensava a 16 anos atrás.
Ou talvez não... talvez a vida seja isso mesmo, sem sentido e engalfinhada em mentiras e ilusões, emaranhadas pela triste agonia de existir.

Não sei se estou andando em circulo. Não sei aonde o caminho vai me levar e nem se vale a pena caminhar, acho que já  cheguei num ponto em que caminho como se estivesse no piloto automático me lançando ao léu do destino torcendo para que isso termine logo e que então eu possa tombar heroicamente depois de ter lutado essa luta quixotesca que é a vida.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Impronunciável

O impronunciável é o outro lado do silêncio, lado oculto da lua do indizível, o mistério que o fundo do abismo aponta.
Digo do silêncio que vela a troca de olhares sem palavras, mas o corpo fala de uma forma ou de outra.
Impronunciável é o que o silêncio diz; intervalo entre o que é permitido falar.
Me faltam palavras, me falta coragem, pois tenho medo em abundância de te perder.
Impronunciável é o que só o silêncio pode dizer, porque impronunciável é o que eu não consigo dizer, seja porque não sou capaz de compreender e explicar, seja porque é difícil de falar.
Ah, se eu não fosse tão ferido, se não houvesse traumas e se a alma fosse inteira!
Se o coração não estivesse em pedaços e destituído de sua totalidade e inteireza pudesse expor argumentos que o impulsionam para frente quase sem olhar para trás! Digo quase porque ainda olho para trás receoso de me lançar no desconhecido que se me apresenta... Frustrado todos os dias por sentir que a minha existência não é nada mais que misérias e incertezas subo no palco dessa tragédia na expectativa de logo ver o seu fim, isto é, o meu fim.
Impronunciável é silêncio que me trai e atrai para a angustia vociferante que a existência me impõe, lúcida e ácida que me desintegra cada vez que escuto o som surdo do silêncio que ecoa dos teus lábios.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Coração

Tinha um coração puro me diziam, não havia maldade me falavam...
Tinha um coração nobre elogiavam, não havia injustiça aplaudiram...
Tinha um coração belo se admiravam, brilhava em sua beleza cantavam...
Tinha um coração inteiro reconhecia, mas foi esfacelado não se esquecia...

Coração com suas razões e emoções
Coração com suas vontades e decisões
Coração partido e repartido, compartilhado.
Coração ferido que não pode ser curado.

Era um coração sem razão, sentido...
Era um coração vazio contristado, frustrado.
Era um coração simples, era simplesmente coração
Incompreendido porque não falava a muito a voz da razão.

domingo, 2 de novembro de 2014

A Rosa – Reflexão a partir do Pequeno Princípe

Olhando as flores me lembrei de que o amor recusa a violência e relendo o clássico “O Pequeno Príncipe” me veio outra coisa a mente. É interessante o movimento feito pelo principezinho antes de conhecer e cativar a raposa, pois, o pequeno príncipe passa por um roseiral e fica desapontado ao descobrir que a sua rosa não era única, mas era apenas uma rosa comum. Porém, depois de conhecer e ficar amigo da raposa descobre que a sua rosa não é uma rosa qualquer, uma rosa comum, mas é especial.
O nosso principezinho volta ao roseiral e diz: “Ela (a rosa) sozinha é, porém, mais importante que todas vós, pois foi ela que eu reguei. Foi ela que pus sob a redoma. Foi ela que abriguei com o para-vento. Foi por ela que eu matei as larvas. Foi ela que eu escutei se queixar ou se gabar, ou mesmo calar-se algumas vezes, já que ela é a minha rosa.” Vejam que a descoberta do principezinho o faz perceber que a relação com a sua rosa modifica completamente o seu olhar sobre ela. A relação é de intimidade e profundidade, uma coisa leva a outra.

A raposa explica ao menino: “eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O Essencial é invisível aos olhos. Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa...” Na verdade, não foi tempo perdido, foi tempo dedicado. A rosa quer ser ela mesma e também queremos ser nós mesmos. Queremos ser aceitos como somos com nossos pequenos defeitos e nossas virtudes, carecemos de reconhecimento e de espaço para crescer. Ora somos jardineiros, ora somos a rosa.

No entanto, nos esquecemos que a rosa vai reclamar um dia ou outro, vai estar insatisfeita, mas isso faz parte do mistério relacional.
Se não suportamos pessoas rasas, fúteis e superficiais é porque somos profundos como um abismo, é belo, mas assustador! Somos como o mar aberto, esplêndido, mas angustiante. Ora, os místicos também conhecem bem essa experiência de se lançar nas “águas mais profundas” e de fazer a experiência do desamparo, esse abandonar-se no mistério também é angustiante.

Quem tem a profundidade dos abismos é de uma intensidade angustiante e não se contenta apenas em refrescar os pés, mas quer “lavar o corpo inteiro”.
E se somos estranhos de perto, que seja! A estranheza é fruto da falta de convívio, de tempo dedicado, pois devemos nos interessar pelas pessoas como elas são e não como queremos que elas sejam! É tolice dizer para alguém que é melhor te ter como amigo, ora, a amizade pressupõe que eu também te acompanhe de perto do contrário não é amizade, não seria nem coleguismo.
Assim como a lógica pressupõe que se alguém merece todo amor do mundo e se você diz isso a alguém, então devemos pressupor que você esteja minimamente inclinado a amá-lo do contrário o que você diz é uma mentira ou você é covarde.

O amor, a amizade e todo o resto dependem da coragem enquanto virtude, pois é da coragem que brota a sinceridade para o real engajamento.
MacIntyre argumenta: “Acreditamos que a coragem é uma virtude porque o cuidado e a preocupação com indivíduos, comunidades e causas, tão fundamentais em tantas práticas, requerem a existência de tal virtude. Se alguém diz que cuida de uma pessoa, comunidade ou causa, mas não está disposto a correr riscos por essa pessoa, comunidade ou causa, põe em questão a sinceridade de seu cuidado ou interesse. Coragem, a capacidade de correr riscos, tem seu papel na vida humana devido a essa ligação com o cuidado e o interesse. Não estou dizendo que seja impossível interessar-se e também ser covarde. Estou dizendo, em parte, que a pessoa que se interessa com sinceridade e não tem a capacidade de se arriscar precisa se definir, tanto para si mesma como para as outras, como covarde.” (MacIntyre, Depois da Virtude. P. 323-324)
Traduzindo em miúdos, a coragem se relaciona com a veracidade da nossa intenção. Do quanto estamos dispostos a pagar para que nossas relações sejam verdadeiras e sinceras.
Eu posso escolher quem vai me machucar e quem não vai e se me machucar tenho que buscar a sabedoria para saber se a pessoa o faz por querer, afinal de contas a rosa tem espinhos e se não sei lidar com ela ou se me apresso, eu me espeto!

A verdade é que tem pessoas na quais eu daria o mergulho profundo, “o salto no escuro da piscina” como canta Humberto Gessinger em Piano bar. Algumas pessoas merecem a minha coragem e a minha sinceridade, outras simplesmente optam pela covardia não dita. E você o que quer para si mesmo? O que você tem feito pela rosa que floresceu no seu mundo? Já a notou?
Lembre-se “o caminho só existe quando você passa”...