sexta-feira, 20 de junho de 2014

Janela Trancada

Todos os dias passava pela tua janela entreaberta. E mesmo não te vendo via a abertura da janela, que como a minha alma estava aberta esperando ser perscrutada por você.
Passava e olhava espreitando devagar para não ser descoberto, segredo de Eros que não queria ser revelado a Psiquê.

Um dia, a janela estava trancada, não apenas os vidros como acontece nos dias de chuva, mas totalmente trancada, já não podia ver o teu íntimo.
Eros já não podia mais ver Psiquê, contaram-lhe que ele era um monstro e ela quase o matou.
Tua janela trancada é um interdito que não suporto. Esse fechamento da alma que me estrangula. Que corta as minhas asas e me impede de voar.

O inverno chegou e o frio com ele e a tua janela está fechada, lacrada, interditada para os meus olhos. Minha alegria não era ver você, mas saber que você estava ali, essa presença no vazio, porque via no vazio a sua presença, pelo vão da janela.

Agora não verei mais e o meu coração sangrou, porque antes tinha sua presença no vazio, era uma presença velada, mas ainda assim uma presença, agora tudo que tenho é uma ausência completa! Ausência plena e nefasta, se antes quando passava pela tua janela não ouvia o canto dos pássaros, agora o silêncio não fala, não é mais aquele silêncio tagarela de outrora, o silêncio emudeceu como a madrugada fria dos invernos mais rigorosos. O silêncio agora é um abismo que se fecha e me engole.

Você viu o meu rastro no teu jardim, pensou que fosse um monstro e trancou a janela para mim. Já passou pela tua cabeça que a luz que vinha do teu quarto era a única luz que eu via todas as noites quando espreitava tua janela?

Parece que revivemos o conto de Eros e Psiquê, mas nesse conto Psiquê não ama Eros, apenas Eros, o amor, amou com força e vigor uma mortal que nunca se tocou que um deus a amou.

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