domingo, 15 de junho de 2014

Jeremias III

Chega outra vez o dia maldito
Chega outra vez esse dia indesejado.
Dia em que eu queria ter sido abortado.

Chega outra vez esse dia-noite
Mais um ano de noite-dia.
No qual parece que gira a minha vida.

Infeliz foi o médico que me trouxe ao mundo.
Infeliz por anunciar ao meu pai. “É um menino!”
Infeliz por não fazer do ventre de minha mãe o meu túmulo.

Por que não me deixaram dormir para sempre?
Por que permitiram que eu abrisse os meus olhos?
Tivessem me deixado morrer e eu jamais teria conhecido a escuridão.
Porque mergulhado nela sem consciência não a poderia ver como agora vejo.

Se eu não existisse tudo seria diferente.
Um homem ou uma mulher estariam no meu lugar
No lugar de uma aberração que não deveria ter nascido.
Se eu não existisse nunca teria te encontrado
Você e eu nunca teríamos nos falado
Eu nunca teria tocado seu rosto daquele jeito
Tu nunca terias me tocado como me tocastes.

Se eu não existisse jamais teria te sido um estorvo.
Não seria problema para ninguém.
Eu não saberia o que é a solidão
Nem derramaria lágrimas de tristeza.

Mas o dia maldito vem!
E com ele a tristeza da solidão.
Não há amor, não há olhar.
Não há reconhecimento
Não há luz no fim do túnel.
Há apenas um nervo exposto
Uma alma dilacerada.
Um espírito quebrantado.

Chegou o dia maldito,
Outra vez o dia indesejado chegou,
Outra vez um ciclo se fecha e outro abrir-se-á.
Eu quero pular fora do circulo do destino.
Mas o coro da tragédia não quer deixar.

Chegou o dia maldito,
Desejei ardentemente que fosse bendito,
Anunciado pelos teus belos lábios
Iluminados pelo teu olhar.
Mas o destino te levou para longe.
Com você ele não me deixou ficar.
Dias nublados e céu escuro.
É assim que são os dias sem fim.
Esmagado pela morte mesmo depois de nascer.
Esse é o dia que eu queria esquecer.
Esquecimento é ser apagado da existência e da memória
Consciência de que para todos seria o mais belo fim para essa história.


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