quarta-feira, 11 de junho de 2014

Pequena Reflexão sobre o namoro como instituição: O celibato e a erótica

Após apresentar o tema do namoro como instituição fazer a desconstrução do amor romântico e apresentar em grandes linhas uma alternativa ao amor romântico que chamo de amor-amizade.
O próximo passo é expor um pouco sobre o celibato como forma oposta ao namoro como instituição traçar algumas características próprias dessa forma de vida na antiguidade pré-cristã (basicamente na cultura greco-romana) e depois dentro do cristianismo.

Ser celibatário significa não ser casado, mais que isso significa ser solteiro no sentido de não ser comprometido com ninguém, em outras palavras, não possuir qualquer relacionamento conjugal.
Hoje em dia a palavra celibato está associada à vida religiosa cristã e vinculada a uma vida casta. No entanto, nem sempre foi assim, o que pretendo aqui é tentar fazer uma genealogia do celibato como uma forma de vida oposta ao do namoro e do casamento na qual o princípio fundante não é estabelecer uma relação duradoura, mas sim uma relação fugaz e na maioria das vezes instrumental com outras pessoas.

A cultura do celibato no mundo pré-cristão greco-romano é o paradigma de uma vida promíscua e voltada para o prazer, sobretudo o prazer sexual em que a forma de amor que prevalece é a erótica, isto é, o amor enquanto desejo (eros) e não enquanto amizade (phília). Em que o interesse é saciar o desejo através da sedução e posse do amado e não de uma relação de equidade.

Negando a equidade, o outro, passa a ser um meio para alcançar ou satisfazer o fim que é o prazer da conquista e a sua consumação nos atos próprios da dimensão erótica (beijo, carícias e o ato sexual em si). As juras de amor não tem como finalidade uma correspondência que visa a construção de uma relação duradoura, mas apenas uma relação que tem por finalidade saciar o desejo imediato que se apresenta na atração que o amado exerce sobre o amante.
No Diário de um sedutor Kierkergaard apresenta como funciona a dimensão erótica para o celibatário laico, nesse caso específico o sedutor se contenta apenas em seduzir e encantar o amante ou a amante e não em correspondê-la (o). Aceita-se saber e sentir-se amado, mas não deseja engajar-se numa relação com aquele (a) que é o seu objeto de amor. O objetivo é puramente estético, o que significa puramente sensualista.

Um celibatário na antiguidade pré-cristã romana geralmente freqüentava prostíbulos e orgias. Nos dias de hoje freqüenta algumas festas e boates, mas o objetivo é o mesmo a prática estética da conquista, apenas pela conquista ou pela satisfação dos prazeres ligados a sexualidade.

O advento do cristianismo reconstruiu o sentido do celibato, não de imediato, mas pouco a pouco o celibato foi associado a uma forma de vida vinculada ao serviço à comunidade cristã, a parte da experiência de união com Deus e, sobretudo, a prática da fraternidade nas primeiras comunidades monásticas. O celibatário cristão abraça a castidade como parte de uma atividade ascética que favorece a sua experiência religiosa.
Claro no contexto cristão a castidade é fundamental para a vida moral e para a vivência correta da sexualidade, não é só uma prática ascética própria do celibato perpétuo, mas é uma propedêutica para a vida matrimonial. A idéia central da castidade é instruir o desejo com a razão controlando-o ao invés de se deixar controlar pelo desejo.

Também no cristianismo é possível falar de uma erótica vinculada à mística na vida religiosa, em que Deus, é o amado e o místico ou homem religioso é o amante. Imagem que aparece no Cântico dos cânticos (embora, como sabemos o Cântico dos cânticos não tem essa finalidade mística, mas são poesias atribuídas a Salomão, no entanto, há algumas menções dos Cânticos dos cânticos nos escritos de São João da Cruz, por exemplo) e que retrata o desejo do homem religioso de se unir a Deus.  Nesse caso, diferente do celibatário laico o interesse não é uma satisfação momentânea ou mesmo uma conquista, mas trata-se de um desejo de plenitude. Veja que há uma inversão no sentido do caminho percorrido pelas duas formas de celibato uma visa a satisfação imediata e fugaz dos prazeres ligados a vida sexual e o outro procura elevar o espírito no mergulho do mistério da transcendência divina.

O celibato, portanto, se mostra como uma forma parcial de se relacionar com o outro (no celibato laico), por um lado, e como uma forma de elevação da condição humana, por outro, e se apresenta como uma forma alternativa com relação ao namoro e ou casamento. O meu enfoque não é tanto o celibato na vida cristã, mas o resgate do conceito secular para mostrar como ele ainda está presente na nossa cultura principalmente pelo incentivo à busca pelo prazer e o culto do eu.

Como falei no primeiro texto em que abordei comecei a abordar  a questão, um dos maiores problemas para o namoro como instituição, isto é, aquilo que malogra a estabilidade da relação é justamente quando uma das partes ou as duas misturam as duas formas de vida, em outras palavras, quando se quer namorar sem abrir mão da vida de solteiro. Não estou dizendo aqui que a pessoa abre mão de seus desejos pessoais: profissionais, sair com os amigos e fazer coisas que normalmente faria se estivesse solteiro, mas que querer ter uma namorada ou namorado, mas querer continuar a ser um conquistador, sedutor de outras parceiras geralmente tende a malograr a estabilidade da relação enquanto tal. Lembrando é claro que aqui eu não estou discutindo os chamados relacionamentos abertos que extrapolam a ideia central do namoro como vida partilhada a dois.

O outro problema que se apresenta é a preferência pela erótica em detrimento de um amor que valoriza o outro como igual, quando se opta pela erótica a relação só é interessante até o momento da conquista, a conservação da relação não é importante, pelo menos não para um relacionamento duradouro, porque na erótica a duração é medida pela atração exercida pelo outro e não pelo reconhecimento do outro como um igual digno de respeito, de cuidado e carinho. Por isso, também a paixão é apresentada como um problema, já que a paixão se alimenta de uma imagem projetada do amado e não daquilo que ele realmente é, não acolhe o amado com suas virtudes e vícios, mas apenas com aquilo que desejo ver nele.

Acredito que apresentei de modo geral a questão do celibato e a erótica. A ideia central do texto era expor a dimensão estética, hedonista e fugaz do celibato laico, não sei se atingi o objetivo, mas fiz um esforço de ao menos esboçar a questão.




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